terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (6 de Setembro de 1808)




Quartel-General de Mafra, 6 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 


Ontem, pelas 10 horas da noite, recebi a carta de Vossa Excelência do 1.º do corrente, em que Vossa Excelência se faz cargo de haver recebido as minhas participações acerca do Armistício estipulado em 22 [de Agosto], e é esta a primeira carta que de Vossa Excelência ou do Governo tenho recebido há 20 dias, quando parece que os negócios mais instam, e que eu mesmo insto por instruções e respostas aos meus repetidos ofícios; vendo-me portanto em circunstâncias de obrar por meu arbítrio, o que poderá convir a quem não se quer comprometer, mas que a mim não me convém. Aqui me chegou a notícia de que se vai formar uma Legião ao serviço ou disposição de Inglaterra; declaro a Vossa Excelência que enquanto não se tratar da organização definitiva do Exército, não convém levantar novos corpos, e muito menos dispor dos indivíduos que se acham debaixo do meu comando, como talvez se intentava.
Vossa Excelência se servirá de dizer-me se lhe parece conveniente que eu mande licenciar os Corpos de Milícias de Moncorvo e Porto, que aqui se achavam servindo, e que não serão necessários para as guarnições das praças e de Lisboa, e do mesmo modo as que estão no Exército de Bacelar, o qual deve entrar comigo em Lisboa, porquanto estas Milícias estão aqui fazendo peso e despesa, e falta nas suas províncias. Consta por aqui que nas províncias do norte se tem procedido a um grande recrutamento, medida que me faz muita novidade, pois que deve ser necessitada por alguma causa urgente, e se eu tivesse sido informado dessa resolução, não teria certamente deixado de aceitar os oficiais e soldados dos antigos Regimentos que aqui se têm vindo reunir, o que tenho recusado até à organização definitiva do Exército. 
Pelo que pertence às ordenanças que requer o Coronel Pizarro, como tenho 140 cavalos reunidos ao Exército inglês, lhe mandarei ordem para que os tire daquele corpo. O General Dalrymple me pede [através do Major Aires Pinto de Sousaneste momento de remeter a inclusa com a maior brevidade, e portanto rogo a Vossa Excelência [para que] queira ordenar que ela seja prontamente entregue à sua direcção. Tenho muita razão de persuadir-me que os ingleses desejam neste momento quanto sempre desejaram, que a maior harmonia se conserve entre nós; depois de ter feito as protestações que me pareceram do meu dever, não procuro outra coisa tanto como promover e fomentar a melhor inteligência, quanto de mim depender. 
Estou certo que Vossa Excelência será da mesma opinião, persuadido sem dúvida de que o nosso mais fatal, mais funesto e mais iminente perigo, e para a causa pública, será se entre nós ou a respeito dos nossos aliados houver dissensões de que se possam aproveitar os nossos cruéis inimigos, cujos fautores e sequazes me cercam talvez, e procuram cercar todas as autoridades, e mesmo a sagrada pessoa de Vossa Excelência, de quem sou de Vossa Excelência, etc.


Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 45-46 (doc. 86)].

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