Mostrar mensagens com a etiqueta Motins. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Motins. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de junho de 2011

A criação da Junta Provisória do Supremo Governo do Porto no meio dos tumultos populares



Do Porto tinham saído as faíscas da revolução, que foram atear o fogo em Bragança e em toda a província Trás-os-Montes; de Bragança reverberaram as labaredas para o Porto. Sepúlveda escreveu ao General Gonçalo Pereira Caldas, que então governava as armas de Entre-Douro e Minho, convidando-o a seguir o seu exemplo, fazendo aclamar o legítimo Soberano; e Caldas, ainda que não foi o autor da revolução, a promovia debaixo de mão, como honrado português; era porém muito difícil levantar-se a província sem a concorrência da sua capital, onde o tímido Luís de Oliveira [Governador das armas do Porto] sustentava o nome francês, bem a pesar dos povos e das poucas tropas que lhe obedeciam. Para sustentar a sua autoridade vacilante, Oliveira viu-se precisado a recorrer às milícias desorganizadas dos Regimentos do Porto, Penafiel e Maia; mas os povos impacientavam-se cada vez mais com o jugo, e só os continha o medo de verem entrar a todo o momento tropas inimigas, segundo as ameaças de Junot, Hermann e Lagarde; o exemplo dos transmontanos acelerou o rompimento.
No dia de Corpo de Deus (16 de Junho), já se manifestaram os indícios. Queria o Governador [Luís de Oliveira] que as milícias que deviam acompanhar a procissão levassem as águias francesas em lugar da bandeira portuguesa; e elas o recusaram tão vigorosamente que, para sossegarem foi necessário mandarem-se ir neste acto somente algumas companhias, sem bandeira, nem portuguesa, nem francesa. O povo andava já em magotes, e apareceu afixada uma proclamação anónima, que se dirigia a estimular a sua fidelidade e patriotismo; e depois se soube que tinha sido posta por um filho do Desembargador José Feliciano da Rocha Gameiro.
Em Guimarães também houveram algumas disposições no dia 17; mas tanto nesta vila como na do Porto, efectuou-se a revolução a 18. Os de Guimarães pretendem a primazia, porque levantaram a voz da aclamação pelas 4 horas da tarde, e no Porto somente pelas 7*. Não sei se houve esta diferença de horas, mas é certo que todos se ilustraram e que a verdadeira primazia consiste na melhor disposição dos espíritos, nos maiores e mais relevantes serviços.
O Corregedor António Manuel Borges e Monsenhor Miranda foram os principais agentes desta grande obra em Guimarães, agregando-se-lhes imediatamente os outros magistrados, o clero e nobreza; o povo estava sempre pronto. 
No Porto brotou a revolução como por si mesma, sendo o resultado da vontade geral do povo, que a autoridade pública mais depressa impedia do que auxiliava, e que tinha de romper na primeira aberta que achasse, independentemente de planos e de chefes. Eu quisera fazer uma descrição exacta e circunstanciada dos memoráveis sucessos do Porto nos dias 18 e 19; mas isso será apenas dado a quem os presenciasse: informações não bastam. Conhecer a índole do coração humano, seguir e analisar o desenvolvimento das suas paixões, é um dos objectos mais úteis em que a filosofia se tem empregado; mas não é menos útil, e tem maiores dificuldades, conhecer a índole dos ajuntamentos populares e seguir a marcha dos seus movimentos, porque interessa em grande ao género humano; e sendo um objecto muito variado, apresenta-se menos vezes à contemplação do observador. Se os filósofos tivessem aprofundado tanto este estudo como a do coração do homem em particular, talvez que não se derramasse tanto sangue como tem corrido nos últimos 20 anos.
Espalhou-se a notícia de que um corpo de tropa francesa marchava para o Porto pela estrada de Coimbra, e estava já muito perto de Oliveira de Azeméis. Eram então muito frequentes por todo o reino os boatos de tropa inimiga, espalhados maliciosamente para conter os povos; e este podia ter o fim particular de divertir os portuenses por aquele lado, enquanto pelo outro marchava de Almeida o General Loison com a sua coluna; contudo ainda não é líquido se Junot teria destinado alguma força para seguir aquela estrada e ir reunir-se no Porto a Loison. Parece que o Juiz de Fora de Oliveira de Azeméis teve ordem para lhe aprontar rações; e é certo que este ministro, por lhe faltarem os meios no seu distrito, recorreu a Luís de Oliveira, que lhe mandou aprontar pão do assento do Porto para municiar aquele corpo, verdadeiro ou fantástico. 
Aprontar o pão para os franceses no meio de uma cidade populosa já em princípios de revolução contra eles era o mesmo que atear o fogo; muito principalmente quando os artilheiros portugueses se queixavam de que se lhes faltava com ele. O povo alterou-se junto ao assento na tarde do dia 18, quando se estavam carregando os carros; e misturando-se no ajuntamento alguns dos artilheiros, um deles levantou a voz, e disse que só para os portugueses não havia pão; ao que um dos franceses que trabalhavam no assento (eram dos que tinham escapado à caçada do dia 6) respondeu com insolência, e o artilheiro respondeu-lhe com uma grande pancada de coronha na cara. Correram mais artilheiros portugueses, correu povo, e no meio deste reboliço os franceses foram presos e conduzidos à guarda da Ribeira, que os recebeu sem saber para que fim, nem com que ordem.
A este tempo já o Capitão de artilharia João Manuel de Mariz se achava com alguma gente do seu partido nos quartéis de Santo Ovídio, onde era o depósito principal de artilharia, movendo as peças, e tinha ali concorrido maior ajuntamento de povo, que estava em suspensão por ignorar o motivo e o fim destes movimentos. Cessou de repente a expectação e a dúvida, ouvindo-se um viva ao Príncipe Regente, que foi respondido com mil vivas deste povo entusiasmado, e vendo-se arvorada uma bandeira portuguesa, conduzida por um armador chamado Joaquim. Abrem-se os arsenais e dão-se armas e cartuchos a quem se apresenta; dispõem-se quatro peças de campanha, que Mariz já tinha prontas a darem fogo, e repartem-se no serviço delas 30 artilheiros, cobrindo a frente e a retaguarda de dois pelotões que restavam, de 10 homens cada um, para prevenirem toda a oposição; e com este aparato respeitável, marcham pelas ruas da cidade em direcção à Ribeira, fazendo retinir incessantemente o nome de Sua Alteza Real e as vozes da aclamação. Os oficiais de linha que se encontram, vão-se reunindo e prestando mutuamente juramentos que excitam fogo e ternura; alguns corpos de milícias, irresolutos ao princípio pela novidade dos acontecimentos, determinaram-se enfim, e não há uma só voz que encontre as vozes da restauração.
Junto ao convento de S. Domingos aparece o famoso Raimundo José Pinheiro, que se tinha conservado oculto numa quinta, distante do Porto meia légua, e aumenta o reboliço com 19 espanhóis que conduzia armados, como ele, de clavinas, com mantas às costas e cobertos de poeira, como quem vinha de uma grande jornada, dando novos vivas e gritando que aí vinha o exército. Com efeito, nos dias seguintes entraram mais uns poucos de espanhóis estropiados, que, como os primeiros, tinham ficado escondidos em Portugal, e indo em retirada para Espanha, voltaram com a notícia dos novos sucessos. Conheceu-se então que o exército espanhol de Raimundo não era mais que um estratagema para mover os povos e dar princípio à revolução.
Era quase sol posto quando a comitiva chegou à Ribeira. Cuidou-se logo em colocar a bandeira e assestar artilharia na ponte, em se guarnecerem as estradas por onde o inimigo podia vir e [em] se mandarem algumas peças para as alturas de Vila Nova [de Gaia]. Esta última operação era difícil, mas venceu-se à custa de muito trabalho. Um frade dominicano, que saíra do seu convento com a espada no punho, hábito levantado e mangas arregaçadas, investe aos tirantes, outros frades, clérigos e mulheres o imitam, e as peças são conduzidas e colocadas, servindo de princípio ao campo de Santo Ovídio, de que Raimundo era o comandante. Foi nesta obra que melhor se manifestou o ardor e patriotismo dos povos; não deixarei esquecido o abade de S. Cristóvão, D. João de Nossa Senhora do Pilar, que para ela aprontou logo nessa noite mais de cem carros, e no dia seguinte mandou uma grande quantidade de pão para municiamento da tropa.
Contudo, nem todos se ocuparam nestes objectos. Alguns ajuntamentos de povos corriam as ruas com gritarias, batendo às portas dos conventos e das igrejas, para fazerem tocar os sinos, disparando tiros, tocando caixas e outros instrumentos bélicos; e entrando pelas casas que lhes eram suspeitas, ou onde suponham algum francês. Principiava a manifestar-se o espírito de vertigem, que raras vezes deixa de encontrar-se nos grandes ajuntamentos, e a conhecer-se o perigo de armar indistintamente o povo; mas é assim que de ordinário se fazem as revoluções, e felizmente naquele dia não houve sangue. Saciou-se o povo em fazer prisões, de que algumas foram depois desaprovadas pelo governo.
Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, Tenente-Coronel do Real corpo dos Engenheiros, era um dos que o povo olhava mal, porque tinha estado no serviço francês junto a Quesnel, e depois às ordens de Luís de Oliveira [Governador das Armas do Porto]. Ele se tinha agregado a Mariz, logo desde os primeiros momentos da restauração, fazendo causa comum com este e com os mais aclamadores; o que não foi bastante para que o povo não se conspirasse contra ele, prendendo-o, insultando-o e dispondo-se para o assassinar. Houve quem o livrasse de tão arriscado lance, representando que era um homem muito útil, pelos seus talentos e perícia militar.
Nessa mesma noite [de 18 de Junho] tratou-se já, na casinha da ponte, do estabelecimento de um governo que pudesse sujeitar a um plano regular o que até ali não tinham sido senão movimentos tumultuários; e chegaram mesmo a fazer-se relações dos vogais que nele haviam de entrar; mas enquanto se agitava este importantíssimo objecto, e o Juiz de Fora com os dois vereadores que tinham concorrido ao congresso do dia 6 se achavam juntos no paço do concelho, animando a revolução e procurando meter as coisas na ordem, recebem-se avisos de que os franceses já estavam em Grijó, a 3 léguas do Porto. Propôs-se se seria mais conveniente ir ali mesmo atacá-los, se esperá-los nas alturas de Vila Nova [de Gaia]; e resolveu-se que era melhor ir atacá-los, sendo provável que, fatigados da jornada e apanhados de improviso, poderiam fazer menos resistência. Um troço de gente põe-se a caminho, e franqueando aquelas três léguas com uma velocidade incrível, não achou em Grijó senão alguns passageiros que lhes deram a notícia de que em toda a estrada desde Coimbra, donde tinham vindo, não havia rumor de que se aproximassem inimigos.
Era isto sobre a madrugada do dia 19, e a essa hora voltaram os nossos guerreiros para o campo de Santo Ovídio, tão contentes como se tivessem ganhado uma grande vitória. Os militares aí juraram sobre as espadas defenderem a nossa independência, a religião e o Soberano; e formou-se depois um novo e mais luzido ajuntamento, composto de pessoas de todas as classes, convocadas a toque do sino da Câmara, e por magotes de gente que vagava pelas ruas; os guerreiros saíram daquele campo com duas peças carregadas e prontas a dar fogo; muito povo os seguia, e encaminharam-se ao paço episcopal, onde deviam organizar o novo governo. Pararam à porta, e fazendo anunciar ao Bispo o fim para que iam, este apareceu depois de uma pequena demora, lançou a bênção ao povo, desceu, beijou as bandeiras, e se fez seguir de toda aquela comitiva até à igreja catedral, onde primeiro se implorou o auxílio do Omnipotente, e depois se voltou para o paço a tratar do mais.
Foram examinadas e apuradas as nomeações vagas dos que iam de antemão designados para o Governo, e aprovaram-se alguns, ficando excluídos outros, por parecer grande o número; e por esta forma se estabeleceu a Junta denominada Provisional do Supremo Governo, de que o Bispo ficou sendo cabeça, com o título de Presidente Governador; e membros por parte do corpo eclesiástico o provisor do bispado Manuel Lopes Loureiro e o vigário geral José Dias de Oliveira; do corpo da magistratura o desembargador juiz da Coroa José de Melo Freire e o desembargador dos agravos Luís de Sequeira da Gama Ayala; do corpo militar o Sargento mor António Manuel de Mariz; do corpo dos cidadãos António Mateus Freire de Andrade e António Ribeiro Braga.
Nesta ocasião principiou o descontentamento de Luís Cândido, recebendo como uma afronta o não ser contemplado no governo supremo; e muito mais quando viu que se entregou o das armas a José Cardoso de Meneses Souto-Maior, Coronel agregado ao 1.º regimento do Porto. Luís Cândido o ambicionou, querendo fazer valer os seus talentos e os serviços do dia precedente; mas foi repelida a sua pretensão, com o fundamento de que quando se tratava de se restituírem o governo legítimo às leis, uso e costumes do reino, não se devia principiar por uma violação das mesmas leis: José Cardoso era o oficial da patente maior e mais antiga entre os que se achavam presentes; e era portanto a quem de direito se devolvia o governo interino das armas. Ficou pois Luís Cândido sem comandância alguma autorizada pelo governo, mas com bastante poder para vingar-se desta suposta injúria, porque conservou uma grande influência para com o aclamador Mariz, a quem foi encarregado o comandar a artilharia. Veremos a seu tempo os resultados que daqui saíram.
Ao meio-dia [do dia 19] anunciou-se o estabelecimento do governo por repiques de sinos, e de tarde por um bando majestoso, que correu as ruas da cidade, e por um manifesto, que se publicou por editais e se remeteu em forma circular às autoridades de todas as terras do reino que estavam ao alcance da Junta. Este manifesto é digno de se perpetuar na memória pela sua moderação, desmentindo as arguições mal intencionadas de alguns que têm querido persuadir que a mesma Junta arrogara de tal forma o poder absoluto que queria fazer-se independente do governo estabelecido pelo Soberano na capital do reino; quando pelo contrário ela declarou que exercitaria a Real Autoridade do nosso legítimo Soberano plena e independentemente, enquanto não fosse restituído o governo instituído neste reino por Sua Alteza Real. 
[...]
No mesmo instante em que a Junta provisional do governo supremo foi organizada, começou a dar as suas providências, ampliando e aperfeiçoando as disposições do dia precedente, e dando à revolução uma forma regular. O Presidente escreveu uma carta a Sepúlveda, em que lhe participava estes sucessos e lhe pedia em nome da mesma Junta e de todos os fiéis vassalos do Príncipe Regente, que lhes mandasse os socorros possíveis, principalmente a cavalaria que pudesse dispensar, e um oficial da sua escolha e confidência para dirigir as operações de ataque e defesa. Expediu-se o Visconde Balsemão ao brigue de Sua Majestade Britânica o Eclipse, que ainda cruzava diante da barra, para participar ao seu comandante que o porto ficava aberto aos ingleses; ao que ele respondeu com todas as demonstrações de alegria, oferecendo os socorros que estivessem em seu poder.
Dados estes primeiros passos e os mais que as circunstâncias exigiam, passou o novo governo a lançar as suas vistas sobre um teatro mais extenso, projectando desde logo a restauração do reino inteiro. Chamou junto a si os ministros e oficiais militares de maior distinção, e começou uma carreira tão laboriosa como difícil, a que o Estado deve a salvação.
José Cardoso, da sua parte, apenas instalado no comando das armas, cuidou em preencher as obrigações deste cargo. Mandava ele logo na tarde do dia 19 algumas ordens secretas, a bem da causa geral, aos Juízes de Fora de Oliveira de Azeméis e de Recardães, determinando ao portador que não declarasse a pessoa alguma onde ia, nem por que ordem, o que assim era necessário por estarem ainda aquelas terras na obediência aos franceses; mas não deu as providências para que o seu trânsito não fosse embaraçado pelas guardas que já se achavam estabelecidas na ponte e em todas as saídas da cidade, com determinação positiva de não deixarem passar pessoa alguma sem um bilhete do governo assinado pelo seu Presidente. Sucedeu-lhe consequentemente o que ele devia esperar: o portador foi embaraçado pelas guardas da ponte e guardou tão bem o segredo, que não quis declarar onde ia e quem o mandava, por mais que o inquirissem. Deram-lhe uma busca exacta e lhe acharam as duas cartas para os Juízes de Fora; e estando a pontos de ser descoberta uma outra, que levava mais escondida, pegou nela e despedaçando-a rapidamente com os dentes, atirou com os fragmentos ao rio. Ainda se apanharam alguns; porém não se entendeu por eles o que continha a carta.
Este misterioso sucesso fez presumir traição: o homem foi imediatamente preso e conduzido ao Governador [José Cardoso], que, não querendo revelar o segredo, pensou tirar-se do negócio dizendo ao povo (já era muito o que o rodeava) que lhe deixassem o preso, que responderia por ele. Era ignorar com quem lidava. O povo não esteve pela proposta, e para o sossegar foi necessário que o Governador lhe patenteasse as cartas que escrevia aos Juízes de Fora; como porém não soubesse explicar o mistério da outra que foi rasgada, ficou ainda em pior figura, porque o povo não só teimou em levar o preso contra a sua expressa determinação, mas incorreu ele mesmo Governador nas suspeitas de traidor.
O primeiro passo que deu o povo foi conduzir o preso à cadeia, o segundo foi voltar amotinado à porta do Governador, para também o prender. Em vão saiu seu irmão Gaspar Cardoso para sossegar o tumulto: às suas expressões persuasivas da inocência da vítima que se queria imolar, o povo só respondia que não era nada com ele, que lhe entregasse seu irmão para ser conduzido ao senhor Bispo, a fim de responder por aquela carta que não se entendia. Era quase sol posto, mais de 400 homens armados gritavam cada vez mais contra o Governador, e não haveria remédio senão entregar-lho, pois o tumulto crescia ainda, quando de repente começaram os sinos das igrejas a tocar a rebate, e o povo, ouvindo que o inimigo se avizinhava, correu para se arrostar com ele, e deixou em paz a José Cardoso. Continuou o rebate toda a noite, e o povo, depois de ter corrido inutilmente montes e vales, voltou fatigado, mas contente por não encontrar nem sombras de inimigos. Supôs-se que este rebate foi um estratagema dos irmãos de José Cardoso para o salvarem; e o certo é que produziu o seu efeito, pois José Cardoso teve tempo de ir ao paço e justificar-se perante o Bispo da imputação que se lhe fazia, concordando com ele as declarações do portador das cartas.
Da que este tinha rasgado não sabia ele dar razão alguma, e o mesmo portador declarou que, tendo estado em Lisboa, lha dera um francês para a levar a outro francês residente no Porto, devendo receber deste último a paga; e que não o achando já, por ser do número dos que foram presos por ordem de Belestá, a tinha conservado em seu poder para a entregar, quando voltasse a Lisboa, ao mesmo de quem a recebera; que a tinha rasgado no momento em que lho deram a busca, por temer que o povo o reputasse partidista francês, se lha achasse em seu poder. Não sei se o mistério ficou bem resolvido, mas não me atrevo a criminar José Cardoso, vendo-o purificado perante um governo vigilante, que pesquisava com a maior escrupulosidade todos os indivíduos e todas as acções que admitiam suspeita. Em abono do seu patriotismo tem ele um bom testemunho, e bem recente, no valor com que se arrostou ao inimigo na batalha do Buçaco, merecendo por isso o elogio público do Marechal comandante do exército português.
Foi José Cardoso conservado no governo, mas sempre o Bispo lhe aconselhou que não aparecesse em público enquanto o povo não sossegasse mais a seu respeito. Um Governador que é preciso encerrar-se em casa para não excitar tumultos, não serve em caso algum, e muito menos para governar um povo em fermentação; mui breve o mostraram os sucessos.
Continuava a Junta nas providências de defesa e de organização; o povo, no seu entusiasmo e também na sua efervescência. A 20, depois do meio-dia, os sinos começaram novamente a tocar, e o povo a ajuntar-se com tanta presteza ao som de instrumentos bélicos, que o Porto parecia um campo de batalha. Era a consequência de se ter espalhado uma voz falsa de que o inimigo se achava nos Carvalhos, a 2 léguas da cidade. Procurou-se depois a origem desta voz, e se achou que procedia de ter o Juiz de Fora de Oliveira de Azeméis mandado embargar todo o pão cozido desta vila e aldeias vizinhas para os franceses que esperava, em razão de lhe ter faltado o que tinha pedido a Luís de Oliveira do assento do Porto. 
O certo é que tudo se armou prontamente do modo possível. Os eclesiásticos seculares e regulares, que pouco depois começaram a formar um corpo separado, debaixo do comando do Deão da Sé, Luís Pedro de Andrade Brederode, com o título de Coronel, para fazerem a guarnição da cidade, enquanto as outras tropas marchassem contra o inimigo, já neste dia deram provas manifestas do seu zelo pela justa causa que defendiam. Correram às armas, como os mais cidadãos, distinguindo-se entre eles os religiosos de S. Domingos, que se agregaram aos milicianos da Maia, submetendo-se ao Coronel respectivo. Um dos mesmos religiosos, vendo que o Coronel levava duas bandeiras sem haste, lançou mão de uma delas, e arvorando-a sobre um pau, a foi conduzindo até o campo de Santo Ovídio, para onde marchou a multidão com um grande aparato marcial, esperando ali o inimigo; algumas partidas se adiantaram por diferentes pontos, até à distância de uma légua ou légua e meia da cidade. 
O primeiro golpe de badalo nesta ocasião foi o sinal da desgraça de José Cardoso: saindo de casa, ele se expunha aos insultos populares; não saindo, confirmava contra si as suspeitas de traidor. Ele se conservou recolhido até mais de meia tarde, e saindo a essa hora, por se persuadir que era do seu dever, encontrou-se com um preso, conduzido por uma escolta de ordenanças, o qual implorou o seu patrocínio, por o conhecer, para conseguir a soltura. Examinou o Governador os motivos da prisão, e parecendo-lhe que eram de pouco momento, determinou que o preso fosse solto. A escolta não quis obedecer, e fazendo o Governador acção com a espada para o povo, como quem queria fazer executar a sua ordem por força, ouviu instantaneamente sobre si a voz de traidor, viu-se rodeado e preso. Se o negócio se decidisse pela pluralidade de votos, ele era ali morto sem remédio; porém, o menor número, que era o dos mais moderados, conteve o maior, decidindo que fosse José Cardoso conduzido à presença do Bispo, para ser posto à disposição do governo. 
Entretanto se amontoava mais povo à roda dele; diziam-lhe mil injúrias, apontavam-lhe as armas, e ouvia-se em gritarias morra o traidor. Quando se encontrava algum clérigo, diziam-lhe que absolvesse aquele ladrão, que ia a morrer, e o infeliz tinha mesmo o cuidado de pedir absolvição, porque não dava um passo [em] que não visse a morte diante dos olhos. Com este horrível tumulto chegaram ao paço, e pararam com a vítima à porta denominada de Vendome [sic], enquanto um Capitão se adiantou a informar o Bispo. Bem quis este valer-lhe, mas o povo achava-se tão enfurecido que, para evitar maiores excessos, não houve remédio senão conduzi-lo à cadeia e metê-lo numa enxovia das mais horrorosas. Duvidando ele entrar, o introduziram por força, despedaçando-lhe a barretina, a farda, a banda, e correndo a sua vida novos riscos; ali foi conservado enquanto durou o calor revolucionário. É preciso, eu o direi sempre, conhecer o povo; depois de amotinado, raras vezes cede sem passarem os seus primeiros ímpetos; depois de acostumado a dar a lei, não reconhece mais limites nas suas empresas.
Não se tendo encontrado o inimigo, vários ajuntamentos de povo andaram nessa noite pelas ruas da cidade, repetindo os gritos de Viva Portugal, viva o Príncipe Regente, mas cometendo entretanto alguns excessos e atroando tudo com tiros e alaridos, que além do prejuízo que causavam com o desperdício de cartuxame, ameaçavam a segurança pública. Conheceu o governo a necessidade de coibir tantos desvarios, e conseguida na manhã seguinte a certeza de que não havia franceses que se encaminhassem para o Porto, por meio de exploradores que se haviam mandado a diversos sítios, cuidou seriamente na quietação interna da cidade.
Mandou-se recolher o povo a suas casas, com ordem de não se fazerem mais ajuntamentos, senão quando se tocasse a rebate; e determinou-se que em nenhuma parte se desse este sinal sem primeiro se ter dado na catedral; bem entendido que devia ser acompanhado de uma bandeira na torre, sendo de dia, e de um farol aceso, sendo de noite; porque o toque dos sinos sem este sinal deveria entender-se para acudir a fogo. O Bispo publicou duas proclamações sobre este assunto [a primeira no dia 21 de Junho e a segunda no dia seguinte]; e apareceram mais uma outra proclamação e um edital do Desembargador José Feliciano da Rocha Gameiro, que o governo nomeou Juiz da Inconfidência e Intendente Geral da Polícia; por meio destas e doutras providências análogas, se conseguiu enfim tranquilizar o povo por algum tempo.


[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 163-198].


____________________________________________________________________________________________



* [Nota de Acúrsio das NevesMinerva Lusitana de 12 de Outubro de 1808 [p. 2].



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Introdução ao primeiro número do Diario de Badajoz (17 de Junho de 1808)



O chamado bando de Mostóles, escrito no dia 2 de Maio de 1808, na sequência da repressão do exército francês sobre a população de Madrid, tardou apenas 2 dias para chegar a Badajoz, onde motivou a ocorrência, nesse mesmo dia 4, dum tumulto entre a população e trinta e cinco franceses e nove napolitanos que por ali estavam, talvez a caminho de Lisboa pela "melhor estrada de Portugal" (segundo as palavras do Coronel de Engenheiros Charles Vincent). Tentando serenar os ânimos, o Governador da província, o conde de Torre del Fresno, decidiu pôr a salvo aqueles estrangeiros, provavelmente dentro da prisão, embora logo no dia seguinte os libertasse para remetê-los para Elvas, onde se encontrava o General Kellermann (com cerca de 2.000 franceses). Na carta que escreveu ao dito General francês a este respeito, o referido Governador espanhol tentava suavizar a questão, dizendo que tudo não tinha passado duma "pequena perturbação" causada por rumores contrários à aliança entre a Espanha e a França. Não obstante esta missiva, o mesmo conde de Torre del Fresno difundia no mesmo dia pelas povoações da sua jurisdição uma carta circular, onde, apesar de duvidar da credibilidade do dito bando de Mostóles, passava a ordenar medidas defensivas, convocando um alistamento geral para fazer frente aos franceses, caso tais notícias fossem verdadeiras. Estas medidas acabariam por ser suspensas poucos dias depois, na sequência da chegada duma carta circular que a Junta de Regência, sediada em Madrid, enviara a todas aos Governadores das províncias espanholas, procurando evitar mais confrontos entre espanhóis e franceses. É certo que, tal como ocorreu em Portugal, também na Espanha sucederam volta e meia alguns desacatos pontuais, antes de começarem os levantamentos populares propriamente ditos. Contudo, partir do momento em que se divulgaram as primeiras notícias e boatos sobre o que ocorrera no dia 2 de Maio em Madrid, o convívio entre intrusos e populares tornou-se bastante mais difícil. A sede de vingança passou a ser o escape de todos os agravos sofridos pelo povo, que até aí aceitara passivamente servir as necessidades - e não eram poucas - do exército intruso. Apesar de todas as precauções das autoridades locais, os desacatos passaram então a ser mais frequentes, sobretudo nas zonas escassamente controladas por franceses. Enquanto ponto de frequente passagem de correios, mensageiros ou pequenos destacamentos de franceses a caminho de Portugal, a cidade de Badajoz não foi excepção, como se queixou o General Kellermann ao conde de Torre del Fresno numa carta de 18 de Maio. Não sabemos se o dito Governador espanhol chegou a publicar essa carta, como lhe instava o General francês. O certo é que o comportamento demasiado permissivo do conde de Torre del Fresno viria mesmo a provocar um motim popular, no dia 29 de Maio, que culminou no seu assassinato às mãos dos populares. Para ocupar o vazio do poder foi constituída nos primeiros dias de Junho uma Junta Suprema de Governo da Extremadura, para a qual foi nomeado presidente o General José Galluzo. Uma das primeiras medidas que este órgão de governo tomou, ao exemplo de outras Juntas, foi, para além do alistamento geral, a instauração duma máquina propagandística local, que se saldou logo no dia 17 de Junho de 1808 com um dos seus primeiros frutos, a saber, a publicação do primeiro número do Diario de Badajoz, redigido pelo médico extremenho [=da província da Extremadura] Pedro Pascasio Fernández Sardino, que também participou na redacção doutros periódicos, como o coetâneo Almacén patriótico e a Gazeta de Extremadura, ambos publicados em Badajoz, ou El Robespierre Español, publicado em Cádis, cujo tom bastante crítico viria a provocar a prisão do dito redactor, em 1811. Feita esta apresentação, publicamos abaixo a tradução da introdução do primeiro número do aludido Diario de Badajoz, periódico que, apesar de ter tido a duração de dois anos, é bastante raro, sendo apenas quinze o total de números existentes na colecção da Biblioteca Nacional de Espanha, alguns dos quais (como precisamente o primeiro número) reimprimidos pela Casa da Misericórdia de Cádis.


Os franceses levaram o nosso Rei, invadiram o nosso País, apoderaram-se das nossas Praças, os seus Exércitos atravessam impunemente desde Barcelona a Lisboa, e desde Pamplona a Cádis; e nós estamos aturdidos e sem ordem nem concerto. Não há remédio, seremos escravos de Napoleão! As cadeias que nos hão de aprisionar soam já nos nossos ouvidos; as nossas campinas desoladas vão oferecer-nos um espectáculo horroroso; e dentro de poucos dias os nossos desgraçados irmãos, atados como vis delinquentes, irão preparar noutro extremo da terra novos louros e novos escravos ao monstro da linhagem humana.
Assim discorríamos há poucos dias; os espíritos exaltados previam estes males, a imaginação arrebatada amontoava-os, e nos críamos perdidos porque o remédio não era tão veloz como ela. Mas a mina arrebentou, variou a cena, e uma nova perspectiva apresentou-se aos nossos olhos. O que éramos a 23 de Maio? O que éramos há 20 dias? E que somos já hoje? Um espaço tão curto enobreceu os ânimos, e deu energia a toda a Nação. Os gritos Pátria, Religião e Fernando soaram nas praias do Oriente e do Meio-Dia [=Sul] do Reino, e as montanhas do Poente e do Norte repetiram o eco. Pátria, Religião e Fernando ressoaram também nas planícies do Guadiana; e, atónitos, os traidores fugiram para esconder-se, ou desapareceram, os irresolutos animaram-se e as almas grandes e generosas repetiram entusiasmadas vivas à Pátria, à Religião e a Fernando.
Num instante tudo se ordena de novo. As rendas de um Governo inerte e cobarde passam para mãos patrióticas e activas, e em tão poucos dias renasce a esperança nos corações de todo o bom Espanhol. Por todo o Reino circulam proclamações, fazem-se alistamentos, e a gente corre à porfia a todos os pontos importantes do Reino, para formar Exércitos que defendam a Religião, sustentem a honra da Pátria, e salvem ou vinguem Fernando.
Glória e honra aos Chefes ilustres que o Povo designou para depositar nas suas mãos a vontade geral! Leais patriotas, vós sabeis bem que desde aquele momento vos impusestes a obrigação de cada um ser um herói; porque nada menos se necessita para corresponder à confiança que o Povo, que a Nação inteira fez de vós. Juntas Supremas de Governo, Juntas patrióticas, Juntas de verdadeiros Espanhóis, a vós se dirije a minha voz: em vossas mãos está o bem e o mal; em vossas mãos está a Soberania. Um Povo sem cabeça, ou dirigido por caminhos sinistros, abandonou os seus Chefes; e para ser governado com energia abrigou-se nas vossas luzes e no vosso patriotismo. O Povo não pôde fazer mais; desempenhai o vosso cargo, e a eleição terá sido acertada.
Mas o Povo não o duvida; vê o trabalho e as fatigas que tomais; e compraz-se nos seus Chefes. No primeiro dia deste mês não havia nesta cidade mais que desordem e descontentamento; 16 dias bastaram para criar um Exército que já intimida o inimigo, e que se aumenta com uma rapidez assombrosa. Haveis comunicado avisos, espalhado anúncios e proclamações, e haveis crido oportuno publicar um Diário, por meio do qual se espalhem e generalizem os vossos decretos e as vossas decisões, se fixe a opinião pública, e se avivem em todos os corações os sentimentos patrióticos.
Haveis-me confiado o resumo [das notícias] e todo o meu cuidado será não desmerecer a vossa confiança. Segundo o plano que vos apresentei, e que vos dignastes aprovar, cada dia se publicará um número do tamanho e letra do presente; a menos que por urgência ou por ordem do Governo haja que apresentá-lo duplo como este.
Não duvido que todos os bons espanhóis me ajudarão com as suas forças numa empresa da qual não espero nem tomarei outra recompensa que o servir a minha Pátria, como bom Espanhol, e como bom Extremenho. Os papéis que me dirijam pelo correio virão remetidos Ao redactor do Diario de Badajoz; e se merecerem a aprovação dos prudentes e sábios Censores que a Suprema Junta me nomeou, imprimir-se-ão com o nome do Autor, ou suprimindo-o se assim se manifeste.
O primeiro lugar será ocupado pelas proclamações, bandos, circulares, lista de donativos e demais que o Governo me ordene. O segundo pelas notícias sobre as ocorrências do dia em cada uma das Províncias do Reino. O terceiro pelas produções em prosa e verso que tenham por objecto inflamar a nação e assegurar o respeito ao Governo.
Uma empresa nova nesta cidade não pode começar com toda a perfeição; mas o público compreenderá e dissimulará os defeitos, que a cada dia serão menores. É possível que este papel ofereça pouco interesse nos primeiros dias, devido à sua pouca variedade; mas tendo subscrito muitos dos periódicos das Províncias, e tratando de fazê-lo com os restantes, e ainda com alguns estrangeiros, não poderei por muito tempo carecer de novidades.

[Fonte: Diario de Badajoz del viernes 17 de junio de 1808 (Reimpreso en la Casa de Misericordia de Cádiz. Año de 1808, pp. 1-3)].

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O dia do Corpo de Deus em Lisboa, segundo Acúrsio das Neves


A revolução lavrava no sul como no norte do reino, e os franceses, estreitados cada vez mais pela parte da terra e encurralados pela do mar, eram como os habitantes de um edifício que caía sobre eles aos pedaços, e de que não podiam nem retirar-se nem reparar as ruínas.
[...]
O dia de Corpo de Deus [16 de Junho de 1808], sendo tão alegre para toda a cristandade, foi um dos mais aziagos para os franceses. Nele aconteceram-lhes fatais desgraças em diferentes terras de Portugal e Espanha; e em Lisboa sentiram uma vertigem, na verdade mais terrível do que perigosa, que porém devia ser para eles de funesto agouro.
É bem sabida a grande pompa com que se costumava celebrar em Lisboa a procissão e festividade própria deste dia; posto que já muito decaída do esplendor em que a deixara o magnífico Rei D. João V. Junot temeu desgostar mais o povo, privando-o deste espectáculo tão pio como aparatoso, a que estava habituado; e por isso não só tinha resolvido que se celebrasse como dantes, mas pusera o público em grande expectação, pelos pomposos anúncios, que disse lhe tinha dado [a 28 de Maio e a 4 de Junho].
Chegou o dia, e começou a sair a procissão na forma dos mais anos, somente com a falta de São Jorge e do seu estado. Pretextaram os franceses esta falta dizendo que o Duque de Cadaval tinha levado para o Brasil as ricas peças [diamantes] com que o Santo costumava adornar-se (todas ou a maior parte era próprias do Duque), dizia o público que não o quiseram deixar sair porque era Santo inglês; mas os que feriram melhor o ponto assentaram que era por não quererem contribuir com uma propina que a piedade dos nossos Soberanos sempre lhe mandava dar da sua fazenda à entrada do castelo. Pode ser que também concorresse o quererem evitar que a comitiva, com o pretexto de acompanhar o Santo, devassasse-lhe o mesmo castelo onde então mandavam fazer várias obras que cuidadosamente ocultavam aos olhos do público, como quem se preparava para sustentar ali um assédio. Faltando na procissão S. Jorge e o seu estado, faltava uma das peças mais vistosas; o que era já um grande desgosto para o povo, mas não é daqui que proveio o reboliço.
A procissão já enchia o círculo que devia correr, e era no momento em que estava para se fazer a primeira muda das varas do pálio, ainda dentro da igreja de S. Domingos, quando de repente se arma um barulho numa travessa da Rua Augusta, que num instante se comunica ao imenso povo que cobria aquelas ruas e a grande Praça do Rossio, o agita e abala como uma onda. Ignorava-se o motivo, e todos procuravam fugir pelo caminho que achavam mais próximo. Uma coluna do povo que estava mais perto da igreja penetrou por ela dentro, levando tudo diante de si em linha recta: clérigos, religiosos, ministros, cavaleiros das ordens, tudo foi indistintamente atropelado e calcado debaixo dos pés dos que entravam, e esteve a pontos de haver maior desordem, porque os soldados franceses que formavam as alas e guarneciam o interior da igreja começaram imediatamente a carregar as armas; felizmente, porém, serenou o repelão logo que o terreiro contíguo à igreja ficou vazio. 
Os dragões, granadeiros e todos os invencíveis de Junot não foram os últimos em fugir, desamparando as ruas e as praças que guarneciam; até um parque de artilharia que tinham colocado no Rossio foi abandonado; e viram-se, em lugar de artilheiros, homens, mulheres e rapazes montados sobre as peças e carretas. Entravam pelas casas e pelas lojas que achavam abertas, e nalgumas despedaçaram os vidros e as louças de que estavam providas, com o ímpeto da entrada, e suplicavam num português bárbaro que lhes conservassem as vidas, porque eram cristãos. Aumentou-se o reboliço com uma voz que se levantou do meio do maior tumulto, que os ingleses tinham feito um desembarque. A grande praça e todas as ruas vizinhas, que três ou quatro minutos antes se achavam apinhoadas de povo, ficaram vazias de gente e cobertas de sapatos, chapéus, barretinas e outros trastes semelhantes. Era um campo de batalha, todo juncado de despojos, e em que apenas apareciam alguns estropiados que não puderam arrastar-se, algum sacristão ou frade idoso que tiveram a constância de não desampararem as cruzes que conduziam: destas ficaram muitas estendidas pela terra, e algumas feitas em pedaços.
Que espectáculo para o delegado do grande Imperador e para a sua grande oficialidade, que, com Lagarde, o observaram das varandas do Palácio da Inquisição! O sobressalto e os flatos de algumas damas que eram da companhia, o tornavam ainda mais horroroso, e Junot o sofreu mudo e quedo, enquanto não foi informado dos motivos daquele tumulto. Sabendo poucos momentos depois que não tivera outro princípio que o reboliço causado por uns soldados que seguiam um ladrão, apanhado a furtar um relógio por entre o ajuntamento do povo, quando se achava mais espesso, e que não havia coisa alguma de perigo, procurou consolar as aflitas damas, e saiu a reunir a pequena parte dos dispersos que tinham parado em pequenas distâncias, e fazer concluir a procissão com estes miseráveis fragmentos: Que temeis? Não estou eu convosco? O inimigo está longe. Estas e outras semelhantes expressões eram as de Junot, depois de passado o susto, ou para falar com verdade, as que se lhe atribuíram numa fabulosa e enfeitada relação deste sucesso, que se publicou numa segunda gazeta no dia seguinte. Foi segunda, porque apareceu depois de publicada a folha do costume, e a veio substituir: andaram moços (coisa horrível!) pelas casas dos assinantes a recolher as que já se tinham distribuído, para ficarem suprimidas; mas não foi possível conseguir-se este fim. Muitos as conservaram, e eu conservo uma e outra, como um monumento precioso, que mostra assaz a falta de respeito com que estes impostores tratavam o público e o escândalo com que insultavam grosseiramente a verdade.

[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 254-262].

terça-feira, 17 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Georges Cuvier, Director do Museu de História Natural de Paris (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio*.




Meu digno amigo:


Ia informar-vos da minha chegada a este país quando recebi a carta que me haveis dado o prazer de me escreverdes para Madrid. Os conselhos que me nela me dais sobre as dificuldades que teria nesta última cidade permitir-me-iam conhecer, se não tivesse já milhares de outras provas, toda a previdência do vosso espírito e toda a vossa amizade para comigo. Dado que estou em Lisboa, devo dizer-vos que tinha considerado perfeitamente o meu terreno.  
Já estive aqui com o Excelentíssimo Governador-Geral [Junot], que me recebeu da forma mais gentil. Ainda não sei se vos poderei servir relativamente à relação das massas**; tenho exactamente as mesmas ideias que vós e podeis estar seguro que farei o meu melhor.
Ainda não tive tempo para ver as colecções; assim, não tenho nada para vos dizer sobre este ponto.
Encontrei aqui um dos meus amigos, o General Loison, que desempenha o papel de segunda personalidade do exército; ele está intimamente ligado ao General Comandante em Chefe [Junot]. Quando saí da casa deste último, Loison foi visitar um amigo seu que estava doente, em cuja casa me encontrava. A conversa tornou-se mais íntima, e aproveitei algumas disposições que eu via que eram favoráveis para o nosso caro Correia, a fim de lhe preparar o restabelecimento da sua pensão; pedi-lhe que cresse que tem aqui um correspondente cheio de zelo e devoção, e pedi-lhe a graça de não ser parcimonioso comigo. 
Haveis-me dado um grande prazer ao me anunciardes um trabalho sobre as aves da colecção: tentarei retribuir [com um trabalho sobre os] moluscos o que haveis feito sobre aquela parte da minha administração.
Não foi sem trabalhos, meu caro amigo, que aqui cheguei: o que bem vejo pelos termos da vossa carta, que haveis receado por mim, acabou por me acontecer!
No dia 2 de Maio, foi dado um correctivo à populaça em Madrid. Um alcaide, a três léguas, exagerando esses acontecimentos, espalhou falsas notícias, alarmes e gritos de vingança por todo o reino (parte oeste e sul), através de mensageiros enviados por todas as estradas: num instante, o reino sublevou-se. Eu estava então a meio caminho entre Madrid e Lisboa. Ao receber tais notícias, vi-me rodeado, assim como o meu companheiro Lalande, por uma populaça em efervescência. Pronto para fugir à noite por caminhos desviados, a fim de evitar um grupo que vinha ao nosso encontro para nos desfazer aos bocados, fui preso pelos magistrados de Mérida, os quais tinham destacado cavaleiros que nos alcançaram em San Pedro. O povo esperava-nos às sete horas da tarde, porém foi enganado pelo nosso plano de fugir mais tarde: chegámos perto da uma da madrugada, mas encontrámos ainda bastante povo para provarmos todas as angústias e os combates mais penosos. Apedrejado por duas vezes, foi um milagre que tenha podido escapar [com vida] nessa ocasião. Entrei por fim num asilo que se tornou para mim num porto de salvação: era a prisão dos criminosos de Mérida. Fomos aí misturados com eles. Fomos severamente revistados e despojados. Encontrámos-nos na situação de invejar os miseráveis cujo alojamento partilhávamos, os farrapos sobre os quais repousavam a sua cabeça; os grilhões de um deles foram a minha almofada. 
Para cúmulo da desgraça, esses prisioneiros partilhavam o patriotismo dos homens livres; tínhamos assim inimigos nesse lugar, embora depressa os tenhamos conquistado pela nossa liberalidade. Ainda que seguros no interior [da prisão], estávamos bastante preocupados em relação ao seu exterior. No dia seguinte, um grupo mais numeroso de populares tentou por duas vezes assaltar a prisão, para invadi-la ou para nos extrair dela. Por fim, o objectivo foi tentado através dum incêndio. A guarda repeliu com bastante energia os nossos inimigos, mas um só homem fez mais do que todos, o alguazil mayor [sic(chefe dos oficiais de justiça), homem extremamente forte, o qual nos tinha também maltratado enquanto o pôde fazer dentro [da prisão], mas que ainda que estivesse confiante de ter bem servido a causa dos espanhóis nesse ponto, defendeu-nos corajosamente no exterior. O seu bastão, que golpeava a cada momento, teve mais efeito que as baionetas.
Assim que soube da nossa aventura, o General de Badajoz ordenou que fossemos libertados. Essa ordem chegou no quarto dia [cerca de 8 de Maio]. O que ganhámos com isso foi irmos ocupar a cela das mulheres ou o primeiro andar da prisão, cuja porta era vigiada pelo povo, bem como as estradas por onde poderíamos fugir: foi preciso continuarmos presos mais quatro dias.
Toda esta efervescência derivava duma notícia falsa, e tudo cessou quando se soube melhor o que tinha acontecido. O receio sucede hoje ao furor; a vergonha está em todos os espíritos. Lança-se sobre o alcaide, autor da notícia, a causa de tantas desgraças; ele é acusado pelos seus com um encarniçamento que demonstra o seu arrependimento. Como o que aconteceu não voltará certamente a acontecer, pude contar-vos a nossa aventura.
O pior foi o rombo na minha carteira; foi preciso pagar todos os serviços que me foram prestados, os guardas, os carcereiros, os prisioneiros, as notícias verdadeiras ou falsas que nos vinham trazer, as mulas da carruagem que havíamos alugado a 100 francos por dia, outras mulas que se mantinham prontas para fugir por caminhos desviados, e os nossos víveres a preços 20 vezes superiores ao seu valor habitual. Encontrei-me assim na situação de ter que pedir emprestado a Lalande o seu pouco dinheiro e depois a dois outros companheiros*** que, como iam na nossa viatura, partilharam a nossa detenção.
Aqui [em Lisboa] não passo necessidades. As bolsas de Loison e Margaron abriram-se para mim, e Loison acaba de pôr à minha disposição os bens dum homem que teria uma fortuna de 40 milhões. Ou seja, vou viver em casa dum banqueiro que  dispôs toda a casa ao serviço do seu hóspede.
Contudo, caro amigo, peço-vos que queirais pedir ao Sr. Thouin para continuar a reembolsar as minhas despesas de viagem, que são contabilizadas na base de 308 postos a partir de Paris, dado que cada légua do país conta como um posto no serviço militar. Enviei de Madrid um pedido para [pagamento das despesas] de Paris a Madrid visado pelo Inspector dos Correios e pelo Intendente-Geral sob o ponto de vista da distância; vou enviar um outro para o resto do caminho.
O General Margaron empenhou-se para ter perto dele o vosso enteado, a título de Ajudante de Campo****; ele fez diligências nesse sentido que devem ter sido seguidas pelo nosso amigo o Sr. Lebreton. Se ele estava prestes a partir, que venha até aqui sem receio. A Espanha e Portugal estão na mais profunda paz: um homem sozinho pode atravessar sem riscos agora esses dois países. Ademais, ambos países estão perfeitamente observados. 
Como receio que não haveis recebido os pedidos do General Margaron, vou fazer com ele façum duplicado, que vos remeterei sem demora. 
[Espero que] queirais, meu caro amigo, continuar a dar-me notícias vossas; não podeis ter uma ideia do prazer que elas me deram.
Apresentai os meus respeitos às vossas senhoras e recordai-me também à lembrança dos nossos colegas, tanto do Museu de História Natural [de Paris] como da sociedade do chá*****.
O vosso todo dedicado e eterno amigo,

Geoffroy Saint-Hilaire


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 41-43].

______________________________________________________________

Notas:


* Esta carta foi lida a 15 de Junho de 1808 em sessão do Museu de História Natural de Paris.


** O termo francês masses (em itálico no texto original), que traduzimos literalmente, é demasiado ambíguo (tanto em francês como em português) para podermos determinar com precisão a que se referia Geoffroy Saint-Hilaire.


**Alusão aos dois soldados franceses que tinham passado (aparentemente em Madrid) a acompanhar Geoffroy Saint-Hilaire e o seu assistente Lalande na sua viagem até Portugal. Ver a este respeito a carta de Saint-Hilaire ao seu sogro, datada de 29 de Abril de1808.


**** Tratava-se de Thélème Duvaucel, um dos quatro filhos das primeiras núpcias de Madame Duvacel, a qual enviuvara e casara por segunda vez em 1804 com Georges Cuvier, que naturalmente adoptara os seus filhos. Depois de regressar à França na sequência da Convenção chamada de Sintra, Thélème voltaria a Portugal e aí acabaria por morrer, em 1809, durante a retirada do exército francês do norte do país. Curiosamente, um dos irmãos de Thélème era Alfred Duvaucel, que além de naturalista como o seu padrasto, foi também um reconhecido explorador. [Cf. Mrs. R. Lee, Memoirs of Baron Cuvier, London, Printed for Longman et al., 1833, pp. 29-30; trad. francesa: Mémoires du Baron Georges Cuvier, Paris, H. Fournier Libraire, 1833p. 31].


****Denominação duma sociedade, promovida por Georges Cuvier, que se reunia aos Sábados

terça-feira, 10 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (10 de Maio de 1808)


Acabámos de receber uma carta escrita em Toledo a 23 de Abril de 1808, por um oficial reformado a um dos seus antigos camaradas, sobre a situação da Espanha. Nela se faz ver que a explosão que houve no Escorial em Outubro do ano passado, em consequência das recíprocas acusações entre El-Rei e o Príncipe hereditário, estava conexa com o que aconteceu posteriormente em Aranjuez; e que não sendo novos os exemplos de Reis que cedem a sua coroa em meio de vivas, o direito incontestável e sagrado que dá o nascimento à soberania se tira a quem é obrigado a reinar com o título precário duma espécie de eleição tumultuária; pois, ainda qu epossa haver circunstâncias em que se faça necessário um novo reinado para o bem duma nação, mostra o exemplo dum país vizinho que o povo não deve ser juiz em tal caso; e não o podendo também ser a Família Real por ter em certo modo decaído dos seus direitos pelas suas divisões, parece que reservou o Céu para árbitro desta questão um Príncipe que, trazendo e havendo já dado e restituído tantas coroas, exerce na Europa uma influência mui irresistível para que a Espanha possa ter receio de tornar a ver em disputa o que ganha uma vez [que] for por ele determinado, visto que por outra parte lhe serve de garantia o interesse comum que o mesmo Real Árbitro tem com aquela Monarquia, convindo-lhe por isso que ela não seja de modo algum desmembrada e que conserve todas as suas colónias. 

Anunciam as cartas de Madrid que, nos primeiros dias deste mês, houve naquela capital algumas perturbações excitadas, ocultamente, por um pequeno número de intrigantes ambiciosos, que receiam que a mui responsável mediação de Sua Majestade o Imperador e Rei faça com que as circunstâncias actuais tomem uma face que sirva mais para a glória e prosperidade da Espanha que para o bom êxito das suas especulações particulares. Conseguiu-se alucinar uma parte da plebe, a ponto de fazer com que ela assassinasse alguns franceses surpreendidos sem armas. O sangue francês, porém, foi logo vingado com estrondo, assim como o será por toda a parte onde se ousar cometer o menor atentado. Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, Tenente de Sua Majestade em Espanha, usando da força das armas contra os assassinos, varreu algumas ruas a tiros de artilharia e mosquetaria, deixando mortos um certo número de rebeldes; de sorte que ao tempo da partida do último correio ficava de todo restabelecida a quietação e a boa ordem em Madrid. É certo ao que parece que a tropa espanhola se portou bem naquela ocasião, não tomando parte alguma nos excessos duma multidão que não sabe que a conduzem assim ao perigo de sacrificar a sua vida por interesses que lhe são absolutamente estranhos. É de esperar que o resultado daquelas tentativas, tão vãs como criminosas, baste para deixar a gente sediciosa de todos os países sem vontade de insultar exércitos que, depois de terem vencido e subjugado a Europa, não são feitos para ceder o terreno a um pequeno número de facciosos. 

Nunca ficou mais bem provado que a Espanha se veria ameaçada de todos os flagelos da anarquia a mais horrível, se a mão mui poderosa de Sua Majestade o Imperador e Rei não acudisse em socorro daquele povo valeroso e leal. A divisão e a falta de inteligência vão em aumento entre os que estavam incumbidos de governar aquele país, de maneira que não se sabe qual seja o modo de decifrar a justiça e a verdade em meio das acusações de que se carregam uns aos outros. Até se chega a dizer que El-Rei Carlos IV, apenas saído duma espécie de reclusão em que estava desde a sua abdicação, protestou contra a violência que se lhe tinha feito, declarando solenemente que nunca tivera o menor intento de depor a coroa senão para escapar às tramas de que se via cercado pelas intrigas intestinas de Corte, e para salvar a sua vida e a duma parte da sua família, com quem deve ter já chegado a Bayonne. 

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 19, 10 de Maio de 1808].

sábado, 7 de maio de 2011

Edital publicado em Cádis, referente aos motins do 2 de Maio em Madrid e ordenando a boa harmonia (7 de Maio de 1808)



Faço ciente aos habitantes da cidade de Cádis que o sr. D. Gonzalo O’Farril, Secretário de Estado e da Guerra, me comunicou o seguinte em data de 3 de Maio:

Um sucesso provocado por algumas pessoas desobedientes às leis causaram ontem uma desordem nesta Corte [de Madrid], cujo resultado poderia ser triste para todos os habitantes honrados e distintos desta cidade, se a prudência e patriotismo dos cônsules e alcaides dirigidos pela Suprema Junta do Governo não conseguissem sossegar tudo antes da noite. Sua Alteza [o Infante] D. António, por conselho da mesma, ordenou que se juntasse a Audiência Real para consultar e adoptar imediatamente as medidas necessárias para manter inviolavelmente toda a boa harmonia com as tropas francesas, tirando as classes inferiores dos seus erros ou mau entendido zelo, do qual só lhes pode resultar desgraça a eles, envolvendo a parte dos habitantes inocentes na sua total ruína. 

A Junta do Governo exige também que V.Ex.ª faça constar a todos os reverendos bispos, prelados de comunidades, párocos, nobreza e justiças dos distritos, as direcções dadas sobre este importante negócio, para que eles concorram para o mesmo fim com o que depender da sua parte, já com autoridade, já com os conselhos próprios do seu ministério. V.Ex.ª recomendará que em todas as partes por onde passarem as tropas francesas se lhes continuem a fazer o mesmo bom acolhimento que até aqui [foi feito], suprindo-os generosamente de tudo que necessitarem; tomando as justiças a seu cuidado punir qualquer [um] que maltrate algum indivíduo desta dita nação; finalmente, que V.Ex.ª seguirá em tudo o sistema adoptado pela Junta do Governo, fazendo publicar no seu distrito que as intenções do nosso Soberano são conservar a felicidade da nação, integridade do seu território, privilégios de suas províncias, conservação de todas as classes, e respeito inviolável à propriedade. O que eu comunico tudo à vossa nobre e leal cidade, para [que] fiquem todos certos da protecção do nosso digno Soberano e da Junta do Governo; para segurar a felicidade da nação, sossego dos seus amados vassalos, e rejeitar todos os boatos que a malícia e ignorância possam inventar em contrário. 

Cádis, 7 de Maio de 1808. 

Manuel de Lapeña 


[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 287, doc. 09, fls. 01-03].


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Número de mortos, feridos e extraviados a 2 de Maio de 1808, em Madrid


As primeiras contagens das vítimas dos distúrbios de 2 de Maio em Madrid, recolhidas pelas autoridades de cada quartel da capital espanhola, foram levadas ao Conselho de Castela logo a 14 de Maio, dia em que se verificou que tinham sido 104 os espanhóis mortos, havendo a somar 54 feridos e 35 desaparecidos. Como se pode ver no seguinte quadro, muito maior era o número de vítimas francesas. 





Segundo contagens posteriores, estabelecidas a partir de documentos de arquivos militares, camarários, paroquiais e hospitalares de Madrid, estes números ascenderiam, da parte dos espanhóis, a 409 mortos e 171 feridos [Cf. D. Juan Pérez de Guzmán Y Gallo, El dos de mayo de 1808 en Madrid. Relación Histórica Documentada- Vol. II, Madrid, Establecimiento Tipográfico «Sucesores de Rivadeneyra», 1908, pp. 641 e ss. (Apéndice cuarto)].

Ainda assim, bem longe estão estes últimos números daqueles mais de 10.000 mortos anunciados logo em 1808 pela propaganda anti-francesa...

Edital do Conselho de Madrid sobre os incidentes de 2 de Maio de 1808



[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 20, 17 de Maio de 1808].