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sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (6 de Agosto de 1808)



Lisboa, 6 de Agosto 


Não há coisa mais adequada para ilustrar os portugueses rebeldes sobre os resultados da sua monstruosa associação com os rebeldes espanhóis, que o medo com que estes se houveram em Évora.
Já os tratavam os espanhóis como futuros Vassalos, pois que a bandeira e a divisa de Fernando VII é que tremulava sobre as muralhas daquela cidade; os portugueses não estavam nisso mais que pelo sangue que vertiam a favor de senhores, logo ao princípio arrogantes; e que, depois de terem entrado na contenda, e me breve previsto o seu funesto êxito, fugiram a tempo com o seu Chefe Moretti; e não cuidaram mais que em salvar, à custa de seus supostos aliados, uma parte das suas tropas e algumas das suas peças de artilharia. Esta lição aproveitou à vila de Estremoz, de que tanto se blasonava há alguns dias como Quartel-General dos espanhóis e centro do pretendido governo! Os habitantes de Estremoz conheceram que não tinham outro recurso senão na clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe; e eles a invocaram por meio do Senhor General Loison, Conde do Império.
Portanto, a sua vila fica em sossego, restituída ao dever e à submissão; e a 2 deste mês passaram por ali, como por uma terra amiga, as nossas tropas, encaminhando-se na maior rapidez a outras vitórias.
Em Montemor[-o-Novo], os espanhóis é que, ao retirar-se, deram saque aos próprios habitantes, de quem não tinham recebido ofensa alguma. Em Arraiolos, cujos moradores ficaram sossegados, cometeram eles excessos quase semelhantes; e na própria cidade de Évora se deliberaram a outros muito mais atrozes, pois que espingardeavam eles mesmos os que não obedeciam aos seus caprichos.
No dia depois da batalha, se acharam cem dos ditos espanhóis escondidos em subterrâneos, e foram tratados como o mereciam.
O General Loison, por dar uma prova da consideração do Governo ao Clero, quando este procede bem e segue os princípios de paz do Evangelho, confiou a principal autoridade de Évora ao Senhor Arcebispo [Frei Manuel do Cenáculo], um dos Prelados os mais sábios e os mais distintos do Reino; e igualmente nomeou um Pároco em qualidade de Corregedor.

Para aperfeiçoar cada vez mais as nossas tropas em todo o género de exercícios militares em que tanto sobressaem já, ordenou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que houvesse exercícios de fogo que se executam, [desde] há vários dias a esta parte, no Campo de Ourique, à vista do Senhor General Delaborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno.
O dito espectáculo fez acudir um muito grande número de curiosos; Sua Excelência o General em Chefe o tem também honrado com a sua presença; e pessoalmente anunciou às tropas assim reunidas a nova que acabava de receber da vitória de Évora.

As folhas que aparecem em algumas das cidades rebeldes de Espanha estão cheias de imposturas, que um dos seus correspondentes se viu obrigado a escrever-lhes para convidá-las a que também inserissem nelas algumas verdades, a fim de que a multidão não percebesse tão depressa que se zombava dela; e que a iludiam para sacrificá-la e vendê-la em breve. Portanto, a vão dispondo pouco a pouco para saber que não está longe o instante em que será preciso depor as armas diante das colunas francesas que se avançam, e implorar a clemência do Rei legítimo, José Napoleão, cujo coração, tão cheio de bondade, não ficará fechado ao arrependimento daqueles que o tiverem momentaneamente desconhecido.
Vê-se, por exemplo, segundo as próprias folhas espanholas, que as tropas francesas chegam sucessivamente, e em grande número, ao norte da Espanha, pois que aqueles diários são constrangidos a reconhecer positivamente, em data de 6 de Julho, que a tomada de Santader pelas sobreditas tropas é indubitável; que há naquela cidade e em Torrelavega mais de 8 mil homens, que ameaçam as Astúrias; e que, a 25 daquele mês, deviam achar-se em Oviedo. O Bispo inutilmente se pôs na frente dos rebeldes; mais acostumado a dizer missa do que a dirigir tropas, conduziu as suas por uma parte diametralmente oposta àquela por onde se avançava o exército francês. 
Outro corpo se apoderou de Valladolid; e como achasse naquela cidade uma resistência criminosa, a puniu, como nós punimos Évora, e como parece que o General Dupont, pouco antes, tratara Córdoba, igualmente criminosa.
O Senhor Marechal Moncey, à testa de 12.000 homens de infantaria e duma quantidade proporcionada de cavalaria, se achava, a 2 de Julho, em Cuenca, e marchava sobre Valencia para atacar aquela cidade, e vingar a matança de 240 franceses, que ali se achavam estabelecidos havia muito tempo, e que foram indignamente assassinados por uma multidão furibunda, à voz de um cónego de Santo Isidoro de Madrid, por nome Baltasar Calvo; os próprios cúmplices daquele monstro, espantados dos seus crimes, acabaram por lançá-los ao mar. Na cidadela onde eles se achavam detidos é que um Sacerdote fizera tirar a vida àqueles infelizes!
O General Dupont, a quem as mesmas folhas espanholas, depois de o terem dado por morto, são obrigadas a fazer reviver, segundo elas dizem, se achava ainda a 15 de Julho nas margens do Guadalquivir, para a parte de Andújar; e uma prova de não ter ele padecido revés algum é que nessa época se esperava que houvesse uma importante batalha entre eles e os rebeldes, capitaneados por mrs. Coupigny e Reding.
Os rebeldes de Badajoz vão a achar-se em breve desconcertados, pelo muito que confiavam numa aliança que pretendiam ter feito com a província do Alentejo, representada por alguns facciosos de Évora que tinham prometido morrer por eles, e que talvez haverão estimado mais viver e fugir.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Três cartas do Arcebispo de Évora às autoridades de Serpa, Moura e Portel, com avisos para não resistirem ao exército francês (4 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo Senhor Juiz de Fora de Serpa:

O meu amor antigo a essa vila insta-me para eu lhe fazer este aviso. Creio que já haverá constado nessa vila a situação funesta desta cidade de Évora. Resistiu ao Exército francês persuadida de ter forças; achou-se enganada, e foi assaltada pelo mesmo Exército, saqueada, e graças a Deus que não ficou de todo consumida.
Se aí se deseja Salvação, podem fazer o que praticou Estremoz: abriu-lhe as portas e foi a vila bem tratada. Vossa Senhoria tome o seu parecer, e desejo que seja o que é conveniente. 
Deus guarde a Vossa Senhoria muitos anos.
Évora, em quatro de Agosto de mil oitocentos e oito.

De Vossa Senhoria muito obrigado servo,
Frei Manuel, Arcebispo de Évora


***


Ilustríssimo Senhor Doutor Juiz de Fora de Moura:

Obriga-me a experiência triste a fazer a Vossa Senhoria este aviso para seu governo. Bem sabe, digo, bem notório é o caso funesto de Évora, porque resistiu ao Exército francês. Évora resistiu; o Exército ficou vencedor, assaltou a cidade, e fez nela um saque muito circunstanciado. Se aí houver alguma resistência lhe sucederá o mesmo. Pelo que Estremoz tomou bom conselho, abriu as portas e recebeu em paz os franceses, e evitou o destino. Eu dirijo a Vossa Senhoria este exemplo saudável de Estremoz, e a catástrofe de Évora. Vossa Senhoria tomará o seu parecer. 
Deus guarde a Vossa Senhoria muitos anos.
Évora, em quatro de Agosto de mil oitocentos e oito.

De Vossa Senhoria servo muito obrigado,
Frei Manuel, Arcebispo de Évora


***


Aos do Governo de Portel.

Habitantes de Portel:

À vossa testa tendes Magistrados reconhecidos pelo nosso Governo legítimo do Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, e organizados debaixo dos auspícios de Sua Excelência o Senhor General Conde do Império Loison. A Junta criada pelo punhal dos espanhóis já não existe; entrou na razão, e na boa ordem. Deponde as vossas armas, trazei-as aos pés dos vossos Magistrados, os quais as entregarão a Sua Excelência o Conde do Império e tudo será perdoado. Os soldados franceses, que vos tratam ainda como inimigos, porque muitos dentre vós estão ainda em armas, virão a ser vossos protectores e vossos amigos. Vós não tendes tempo a perder: deponde as vossas armas; infeliz será o habitante que daqui a duas horas estiver ainda armado. Sua Excelência tem pronunciado sua sentença, e o habitante será morto.

Frei Manuel Arcebispo de Évora
O Coronel Lercado[?] Andersen
O Doutor João Limpo Pimentel
O Cónego Francisco Teles de Mira[?]
O Vigário Geral António José de Oliveira


[Fonte dos três documentos: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 2, doc. 49].

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre os confrontos de Évora (2 de Agosto de 1808)



Lisboa, 2 de Agosto 


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes acaba de receber oficialmente as particularidades seguintes de uma assinalada vitória que as tropas francesas alcançaram em Évora: anunciam elas a sorte que por toda a parte está reservada pelos vencedores da Europa àqueles dos rebeldes e dos seus partidistas que ousarem combatê-los! 

[seguia-se a transcrição da carta de Loison a Junot de 30 de Julho de 1808, intitulada Relação enviada ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército de Portugal]

NOTA: Consta-nos ter Estremoz enviado uma deputação para implorar a clemência dos vencedores 

[Fonte: 2.º Supplemtento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 2 de Agosto de 1808].

sábado, 30 de julho de 2011

Carta do General Loison a Junot, sobre o combate de Évora (30 de Julho de 1808)


Évora, 30 de Julho de 1808. 



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, 
Tenho a honra de dirigir a Vossa Excelência uma relação por segunda via do combate que houve a 28 deste mês, em Montemor-o-Novo, donde parti a 29, pelas três horas da manhã, a fim de encaminhar com todas as minhas tropas para Évora. Sabia eu que o inimigo tinha enviado a esta praça todas as suas forças, e desguarnecido inteiramente a de Estremoz. 
Chegamos à vista das alturas de Évora pelas onze horas e meia da manhã; o inimigo começou por atacar a vanguarda com os seus atiradores e fez um fogo bastantemente aturado de artilharia e de obus. Dei ordem às duas Brigadas para que se unissem estreitamente em massa, e à reserva [para] que tomasse posição, e passei avante com os Senhores Generais Solignac e Margaron, para reconhecer a posição do inimigo e a da praça, e decidir consecutivametente os diferentes ataques. 
Reconheci então que o inimigo ocupava as alturas da direita, coisa de uma boa meia légua da cidade, que ele se prolongava pelo cimo das montanhas, com a esquerda apoiada na cidadela ou castelo velho; e que as suas baterias se achavam assestadas, convém a saber: um obus e três peças de artilharia à direita, dois obuses e duas peças de artilharia no centro, e finalmente mais quatro peças de artilharia a meio declive e diante do seu centro. 
Dei ordem ao Senhor General Solignac de passar à direita com a sua Brigada; de expelir o inimigo das alturas; de rodear a cidade, e de apoiar a sua direita na estrada de Estremoz.
Ao Senhor General Margaron ordenei que destacasse o 58.º Regimento de linha para a sua esquerda; que atacasse as baterias inimigas, procurando desbaratar a infantaria e a cavalaria; que passasse rapidamente ao caminho que conduz a Arraiolos, a fim de unir-se pela sua esquadra com a Brigada do Senhor General Solignac, e por este movimento cortar toda a retirada ao inimigo, enquanto na frente do 86.º Regimento marchasse contra o centro do inimigo, para unir-se depois pela sua direita com o General Solignac, e pela sua esquerda com o seu 58.º Regimento. 
A cavalaria e artilharia receberam ordem de suster este movimento; e de sair consecutivamente pela direita e pela esquerda, para acometer os espanhóis que procurassem ganhar os caminhos de Arraiolos, Estremoz e Beja; a reserva dos Granadeiros marchava no centro das duas Brigadas, para protegê-lo se preciso fosse. 
Estas diferentes manobras se executaram com a maior exacção, apesar do vivíssimo fogo da mosquetaria e artilharia do inimigo; as suas posições lhe foram tomadas, e destroçado o inimigo por todas as partes, deixou o terreno coberto de mortos, e quase toda a sua artilharia em poder da nossa valorosa gente; as tropas mereceram nesta ocasião o título de Soldados Veteranos; cada homem ficou firme no seu posto; e sem embargo de rebentarem os obuses em meio das fileiras, ninguém se moveu do seu lugar. Os Senhores Generais Solignac e Margaron se portaram, como já o tinham feito em campanhas precedentes, com intrepidez, presença de ânimo e grande inteligência. 
Não serei extenso com os elogios que lhes são devidos, pois a Vossa Excelência é que compete dar a conhecer a Sua Majestade que eles adquiriram, nesta ocasião, novos títulos à sua benevolência. 
Estando em nosso poder as posições exteriores, e Évora cercada completamente, restava tomar esta praça à viva força. Os espanhóis porém não querendo dar ouvidos a preposição alguma, espingardeavam os portugueses que queriam, submetendo-se, obstar à perda da sua cidade; e nas torres e alturas tinham arvorado bandeiras negras com a divisa Vencer ou morrer por Deus e por D. Fernando VII
Todas as milícias de Viana, Beja, Montemor-o-Novo e Estremoz, e os Regimentos de Estremoz, Burgos e Badajoz, os Dragões de María Luísa, e alguns soldados de cavalo portugueses ocupavam os flancos da praça e guarneciam os seus baluartes, bastiões e torres. 
O Senhor General Solignac recebeu ordem de atacar a praça da banda da cidadela e das portas que conduzem a Elvas, Estremoz e Arraiolos, enquanto o Senhor General Margaron acometesse da banda das que conduzem a Beja e Montemor-o-Novo, como também da banda do Aqueduto. O Senhor General Solignac destroçou tudo quanto estava diante dele; e tendo advertido que os espanhóis procuravam retirar-se pela estrada de Estremoz com alguma infantaria portuguesa, mandou que os atacassem; mais de 300 homens ficaram pois mortos e alguns centenares prisioneiros; ele porém não pôde apoderar-se das únicas 5 peças de artilharia que os Dragões de María Luísa, que escaparam à carnagem, conseguiram salvar. A cavalaria da Brigada não pôde chegar bem a tempo; porém, o 4.º Regimento de Dragões acometeu o inimigo na estrada de Estremoz, e lhe matou coisa de 150 homens. 
O Senhor General Margaron, depois de ter desbaratado quanto estava na sua presença, dirigiu-se precipitadamente, na frente da sua infantaria, para as portas da cidade, que estavam todas muradas; e como não pudesse chegar a abrir-se passo, mandou que se adiantasse a sua artilharia para procurar destruir a obra de alvenaria que tapava as portas, o que foi impossível executar, apesar de jogarem os canhões na distância de 100 passos, por terem os muros mais de 2 pés de grossura. Então passou ele para a esquerda, e depois de ter feito calar em parte o fogo do inimigo, abriu-se ele passo por uma das portas da cidade, mediante algumas pedras que se chegaram a arrancar, e foi um dos primeiros que entrou na praça, enquanto da banda da porta de Estremoz, a infantaria ligeira do senhor General Solignac escalava os muros e entrava ao mesmo tempo. Inflamado o valor dos nossos soldados moços com o exemplo dos chefes, tinham todos um bem ardente desejo de segui-los. Uns trepavam pois as muralhas por meio de escadas; e outros se introduziam pelos canos; e alguns finalmente fincando as suas baionetas nas muralhas, se serviam delas como de escadas. 
Mandei demolir as portas, a fim de poder suster as tropas entradas na cidade, que pelejavam com um inimigo enfurecido, desesperado, e que sem embargo de termos aí uma força numerosa, não abandonava nem sequer os baluartes, e fazia fogo terrível das janelas, telhados e torres das igrejas. 
A carnagem foi grande; e a cidade de Évora foi saqueada. O que pudemos conseguir pelos nossos esforços reunidos, é que ela não fosse incendiada. 
O resultado dos 2 ataques é, da parte do inimigo, coisa de cinco mil mortos e perto de dois mil prisioneiros. Entre estes se compreendem muitos habitantes dos campos, que foram enganados pelos espanhóis, e que amaldiçoavam a sua perfídia. Eu os tornei a enviar para os seus lares. 
Em nosso poder caíram 7 bocas de fogo, duas das quais são obuses, vários caixões, uma imensa quantidade de cartuchos, pólvora em barris, balas, bombas, espingardas e 8 bandeiras. 
Por nossa parte, temos de sentir a perda de 90 dos nossos valorosos homens mortos e coisa de 200 feridos. Entre os primeiros se compreende mr. Spinola, oficial de Engenharia, que dava grandes esperanças. Mr. Comel, oficial do Estado Maior, adicto ao senhor General Solignac; e mr. Fillis, segundo Tenente do 86.º Regimento. No número dos feridos entram mrs. Royer e Herman, oficiais do 86.º, e mr. Descragnolles, Ajudante de Campo do General Solignac. Este moço, que ficou com um braço quebrado, se houve como herói, durante a acção; a seu favor solicito eu a protecção de Vossa Excelência. 
Os Senhores Generais de Brigada louvam infinitamente as tropas que estavam às suas ordens. O 12.º e o 15.º, que formavam o segundo Regimento provisório de infantaria ligeira, a Legião Hanoveriana, o 58.º e 86.º de linha, o 4.º e 5.º de Dragões, e a artilharia, todos estes corpos competiram entre si em glória. O segundo Regimento provisório de gente escolhida se mostrou digno do lugar que ocupa à testa de homens valorosos. 
Os Senhores Generais e Chefes dos Corpos recomendam particularmente a mr. Brondel, segundo Tenente do 2.º Regimento provisório de infantaria ligeira, que foi um dos primeiros que entrou em Évora, e que contribuiu para a tomada de 2 peças de artilharia; o Capitão Mouchei, do mesmo Regimento, o Tenente, o 2.º Tenente e o 1.º Sargento da sua Companhia, os quais tomaram 2 peças de artilharia, e foram igualmente dos primeiros que entraram na praça; e mr. Tessan, Capitão do 2.º Regimento provisório de infantaria ligeira. 
O Senhor General Solignac faz os maiores elogios ao senhor Coronel Stiffier, Comandante da Legião Hanoveriana; ao senhor Major Petit, Comandante do 2.º Regimento de infantaria ligeira; a mr. Théron, Major Comandante do 4.º Regimento de Dragões, e a mr. Oudot, Chefe de Batalhão do 12.º. 
O Senhor General Margaron dá grande louvor aos senhores Teru, Meunon, Defosse, Guignard, Capitães; Grand, Tenente, e Vicent, 2.º Tenente, todos do 86.º Regimento. O Senhor Coronel Lacroix faz também os maiores elogios aos Capitães Pascali, Suzan, Poirier e Guillam, como também ao 2.º Tenente Lavoyem. O Senhor Coronel Lacroix e os Senhores Majores Bertrand e Leclerc, e os Chefes de Batalhão Dugay e Bazin se distinguiram de um modo particular na frente da sua tropa 
Tenho de dar grande louvor ao comportamento e presença de ânimo do Senhor Major St. Clair, Comandante da reserva; aos Senhores Revesi e Palaméde de Ferbin, cada um dos quais comandava um Batalhão de gente escolhida; a mr. Goubet, Capitão de Granadeiros do 15.º Regimento; a mr. Brunet, Capitão de atiradores do 86.º; e ao Sargento Riviére da 1.ª Companhia de Granadeiros do mesmo 86.º, o qual foi passado de parte a parte por uma bala, ao subir o assalto. 
Com grande prazer ajunto os testemunhos da minha satisfação aos dos Senhores Generais Margaron e Solignac a respeito do brilhante modo com que se houveram, nesta batalha, mrs. Simmers, chefe de Esquadrão, adicto ao Príncipe de Neufchatel; Auguste de Forbin, Ajudante de Campo de Vossa Excelência; Destourdelles, Ajudante de Campo do Senhor General Solignac; Duplessis, Ajudante de Campo do Senhor General Margaron; Lafitte, dito; Trintinian e Drouville, Ajudantes de Campo do Senhor General Thiébault; Fontenai e Laffon, oficiais da Legião Portuguesa, empregados junto dos ditos Generais. O senhor General Margaron solicita particularmente que mr. Duplessis seja condecorado com a Legião de Honra, e que mr. Lafitte tenha um posto de acesso. 
Recomendo à protecção de Vossa Excelência mr. Coisel, Chefe de Batalhão, meu primeiro Ajudante de Campo; Laval e Quirod, Ajudantes de Campo de Vossa Excelência; Laguette, oficial de Engenharia; Obusir, Capitão adjunto; Reycend, oficial português; Freitas, Capitão de artilharia português; Hennet, Ajudante de Campo do senhor General Taviel; Teraiz [confirmar se tenho na fotocopia], adicto ao meu Estado Maior; e Buffon, oficial da Legião Portuguesa, Ajudante de Campo de Vossa Excelência. Rogo a Vossa Excelência que se digne de solicitar que estes valorosos oficiais sejam compensados. Mr. Coisel e Freitas tiveram mortos os cavalos em que andavam montados; mr. Hennet teve o seu ferido. 
Não passarei em silêncio o belo comportamento do Ajudante-Comandante Pillet, chefe do meu Estado Maior; e do senhor Coronel de Artilharia de Aboville. Solicitarei que o primeiro seja condecorado com a insígnia de Oficial da Legião de Honra. 
Os Dragões portugueses que servem junto de mim se houveram de um modo perfeito. Um deles ficou ferido; o senhor Capitão Monjardim, por quem são comandados, se faz digno de elogios pelo seu valor: é um excelente Oficial. 
Os Oficiais de saúde e o Director do hospital ambulante, à testa dos quais está mr. Blaise, cirurgião mor, deram provas de zelo, e se fazem dignos de louvor pelo desvelo activo e seguido com que têm tratado os nossos feridos. 
Não me esquecerei também de mr. Therry, adjunto do Comissário de Guerra, o qual se expôs constantemente aos maiores perigos, no desempenho das funções de oficial do Estado Maior. 
Digne-se Vossa Excelência de aceitar a homenagem dos meus sentimentos respeitosos, etc. 

O Conde do Império, General de Divisão, 
O. Loison 

P.S. Entre os mortos da parte do inimigo se acham vários Oficiais superiores espanhóis e portugueses. Dizem que mr. [Francisco de Paula] Leite entra neste número. O que induz a crê-lo é a grande venera da Ordem de Cristo e esporas douradas que se acharam a um dos cadáveres. Entre os prisioneiros, temos um Tenente Coronel espanhol e alguns Oficiais portugueses sobre quem faço vigiar com todo o cuidado. 
Ocupo-me agora em organizar as autoridades e em dar busca à cidade onde estão escondidos alguns espanhóis e rebeldes. 

[Fonte: 2.º Supplemtento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 2 de Agosto de 1808].

Proclamação do General Loison aos habitantes de Évora (30 de Julho de 1808)


Exército de Portugal 

O Conde do Império, General da Divisão Loison, Comandante do Corpo de Exército em Evora, ordena a todos os habitantes de declarar, durante o dia, os soldados espanhóis e habitantes do campo e estrangeiros de fora da cidade que se achem nas suas casas, como também de virem entregar, durante o dia, ao Palácio do Arcebispo, todas as diferentes armas, como espingardas, pistolas, chuços, espadas, isto sob pena de morte; há de passar uma revista exacta em todas as casas, campos e quintais da cidade, e se depois desta presente ordem, for achado algum dos indivíduos declarados ou algumas das referidas armas será o dono sujeito à mesma pena de morte.
No Quartel General de Évora, em 30 de Julho de 1808

Loison

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fl. 112 (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo)].

domingo, 24 de julho de 2011

O fuzilamento de Manuel José em Lisboa (24 de Julho de 1808)



A 24 de Julho de 1808, Manuel José, um doido conhecido pelas suas extravagâncias, foi fuzilado no Terreiro do Paço. Não era a primeira vez que Lisboa assistia à morte de um civil desde que os franceses a tinham ocupado (recordemos que nos tumultos principiados a 13 de Dezembro de 1807 morreram quatro portugueses), mas no entanto, como assentou José Acúrsio das Neves, "este assassinato praticado no centro da capital do reino causou grande sensação pelas suas circunstâncias", isto é, sem processo nem formalidade alguma, e precisamente um dia depois de Junot ter feito uma aparatosa revista ao enorme corpo do exército francês que estava então em Lisboa, mais numeroso do que o habitual devido à recente chegada de parte da divisão do General Loison.

Segundo um manuscrito anónimo já várias vezes aqui citado, depois dos cinco fuzilamentos anteriores (de Jacinto Correia em Mafra, de nove portugueses nas Caldas da Rainha, de Macário José em Setúbal, e de dois portugueses e dois espanhóis também fuzilados em Setúbal), 

A sexta vítima da decantada justiça dos franceses foi o desgraçado Manuel José, mancebo mentecapto que divertia o povo com as suas momices, e de que não se fazia conceito algum, e cujas acções não tinham consequência, nem mereciam imputação.
Este homem, como louco, ainda no tempo da corte aqui residente, vestia-se celebremente e, ataviado de fitas e laços, com um chicote na mão, corria neste ridículo as ruas de Lisboa; o mesmo que antigamente costumava vestir, o ornou naquele dia em que lançaram mão dele os franceses, que desconfiados de revolução nesta capital imolaram este pobre diabo (como pessoa indiferente a todos e sem consequência) ao terrorismo com que nos queriam conter. E o mais acérrimo instigador desta morte foi o célebre Pitton, oficial da Guarda Real da Polícia; era francês; quanto bastava para ser acusador.
Não cometeu delito algum e foi inocente ao patíbulo, assim como outros muitos o têm sofrido. Conta-se dele esta anedota: que dizendo-lhe os assalariados dos franceses que o acompanhavam na execução que pedisse perdão ao Governo francês do delito cometido e escândalo que à sociedade [dera], respondeu ele: o Governo é quem me deve pedir perdão da injusta morte que me manda dar; teve razão e graça no que disse.
Como aos franceses sempre esquecia dar confessor aos fuzilados, a este quando lho deram foi de caminho, e mandado ao Convento dos Religiosos Calçados de N.ª S.ª do Monte do Carmo buscar o primeiro padre que encontrassem, o que fizeram com tal violência e arrebatamento no que apareceu, que este se julgou ir a justiçar e não para assistir a um padecente; e desde o Convento até ao encontro do padecente se carpiu; e só então se desenganou da sua ilusão, vendo a vítima. Prestou os ofícios do seu ministério, segundo a sandice do infeliz, [o] soçobro dele, e [a] pressa dos franceses em matá-lo, o que teve lugar à uma hora para as duas da tarde, na Praça do Comércio, com assistência de muita tropa francesa e grandes aparatos, tudo disposto à impostura e engano. No mais me remeto à Gazeta que junto [de 27 de Julho de 1808].
[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 342-344. Nota: corrigimos para 24 a data que no texto original aparece como 25 de Julho, com base no texto da citada Gazeta de Lisboana versão de Acúrsio das Neves que abaixo se segue, e ainda num pequeno comentário manuscrito sobre este caso, compilado por Antonio Joaquim Moreira (org.), na sua Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863 (páginas não numeradas)].

Como abaixo se mostra, os pormenores da versão de José Acúrsio das Neves sobre este episódio diferem um pouco dos da anterior, embora ambas as versões concordem no essencial, ou seja, que Manuel José foi executado arbitrariamente, sem quaisquer fundamentos plausíveis que pudessem justificar a sua morte:

Durou a revista [de 23 de Julho] desde as 5 até às 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeu de susto: é o que pretendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror aos povos, para os manter quietos.
Foi sem dúvida com as mesmas vistas que ele mandou cometer no dia 24 o assassinato que vou referir. [...] Havia em Lisboa um homem chamado Manuel José, que tinha sido empregado havia anos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo se reputava por mentecapto, até por extravagâncias do seu vestuário, com que se fazia muito célebre: estas extravagâncias, ou o mataram, ou serviram de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era um domingo) junto à igreja de Santos, vestido com uma jaqueta branca, toda cheia de laços ou bocadinhos de fita encarnada; imediatamente o prenderam e conduziram à casa do General de Laborde, Governador de Lisboa, onde concorreu Lagarde, e se lhe fez um conselho de injustiça, de que resultou ser fuzilado no meio do Terreiro do Paço contra a estátua equestre. As fitinhas passaram por insígnias da revolução, e o mentecapto por emissário dos insurgentes; e com tanta presteza se adquiriram as provas e se lhe fez o processo, que sendo preso pelas 10 horas da manhã, nesse mesmo dia cessou de existir às 3 da tarde. 
Tal foi o aparato, tais os auspícios, com que saiu de Lisboa a expedição que foi cobrir de sangue e de estragos as ruas de Évora.
[Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal - Tomo IV, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 90-91]. 

sábado, 23 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (23 de Julho de 1808)



Lisboa, 23 de Julho


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes deve hoje, Sábado, pelas 5 horas da tarde, passar uma revista geral às tropas que se acham nesta capital.
Esta revista se fará na Praça do Comércio, aonde as sobreditas tropas se acharão postadas, como igualmente nas praças e ruas vizinhas.

As circunstâncias actuais dão motivo para de novo observar até que ponto chegam o fanatismo e o espírito de partido a alucinar os entendimentos os mais perspicazes, em certas épocas que parecem destinadas pela Providência para punir as nações pelas culpas acumuladas dos seus Governos. Portugal gozava de paz e tranquilidade, apesar da fugida dos seus antigos Príncipes.
Apenas se divisavam mudanças efectuadas, tão suave e moderada era a lei de um vencedor amigo do país, e tal era o respeito com que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes considerava até as instituições antigas, só a fim de remover o partido arriscado de toda a revolução. De repente, porém, se lembram alguns assalariados ingleses e alguns clérigos e frades tão inimigos de Deus como dos homens, de excitar o fogo da discórdia e da rebelião em algumas províncias, chamando a estas o saque e o incêndio em castigo dos mais graves excessos; e, à sua voz pérfida, a multidão se subleva contra a vontade da gente de bem e das pessoas ilustradas, por estarem na persuasão de que estas vãs e criminosas agitações só podiam servir para trazer sobre elas todas os desastres. Por que razão essas pessoas, em vez de se deixaram oprimir e arrastar por força a uma tão perigosa cumplicidade, não se reúnem, como se fez em Tomar, para implorar a bondade e a clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, o qual, ainda ao tempo de descarregar o golpe sobre os mais criminosos, só procurará perdoar às vítimas das suas seduções e enganos?
Como é possível que Portugal, a não querer ir meter-se debaixo do jugo espanhol, que os seus antepassados suportaram com tanto horror, se não envergonhe do indigno modo com que algumas partes das suas fronteiras são tratadas por corpos pouco numerosos de contrabandistas espanhóis, que vêm a ditar nessas partes impunemente a lei, arrebatando daí os seus melhores Magistrados e levando-os presos para Espanha? Porventura é desta sorte que Portugal espera mostrar-se digno de ser ainda uma nação, ou uma simples província tributária e sujeita à Espanha?
A Espanha, sempre ciosa de Portugal e cheia de um ardente desejo de reconquistá-lo, viu com inveja os direitos que este país adquiria, pela sua prudência, à bondade de Sua Majestade o Imperador e Rei; e logo fez cair sobre ele os males que a devoravam, para envenenar o presente e comprometer as esperanças de independência, de prosperidade e de glória que o mui poderoso Árbitro da Europa lhe assegurara num futuro próximo! Portugueses, é ainda tempo de vos deterdes na borda do abismo a que vos impelem os espanhóis, vossos eternos inimigos, fingindo fazer convosco causa comum, a fim de subjugar-vos para sempre; é ainda tempo de merecerdes ser felizes, tornando prontamente ao vosso dever, e imitando o exemplo de submissão e de tranquilidade que vos oferece a vossa capital.

A 20 do corrente voltou a Lisboa o Senhor General Loison, Conde do Império, com o corpo numeroso de tropas que consigo levara. A sua chegada fez acudir um grande número de espectadores, entre os quais havia vários que, acalentados com os contos ridículos que a malignidade e a inconsideração obstinadamente divulgaram sobre a suposta prisão do dito General, mal podiam crer que o viam com os seus próprios olhos. O povo de Lisboa foi induzido a ajuizar assim o quão pouca confiança merecem todas aquelas exagerações e fábulas absurdas por onde se procuram agitar os ânimos, a fim de incitar os habitantes a movimentos cujo primeiro e infalível resultado seria a ruína desta capital, que deve a sua quietação às firmes e sábias disposições de Sua Excelência o General em Chefe.

[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 23 de Julho de 1808].

quinta-feira, 14 de julho de 2011

As ordens e contra-ordens de Junot ao General Loison


Voltamos a repetir, agora com dados mais actualizados, que o estado de desorientação de Junot (face às poucas forças que dispunha para sustentar a ocupação efectiva de Portugal) é bem ilustrado pelas movimentações da divisão do General Loison: em meados de Maio de 1808, grande parte desta divisão abandonou a faixa costeira entre Mafra e Peniche, onde estava concentrada, para reforçar a guarnição de Almeida; pouco depois de ali chegar, Junot ordena a Loison para entrar na Espanha a fim de restabelecer as comunicações com o exército francês comandado por Murat (na Espanha); Loison passa a fronteira, mas logo no dia 17 de Junho volta a entrar em Portugal, para executar novas ordens de Junot, agora para se dirigir para o Porto; a 22 de Junho (apenas um dia depois de passar o Douro), depois de vários confrontos com os populares, que lhe tentam obstruir a passagem, Loison supostamente recebe contra-ordens para regressar para Almeida; porém, antes mesmo de chegar a essa praça-forte, recebe novas ordens para se voltar a aproximar de Lisboa, o que começa a executar a 3 de Julho, depois de dar descanso às suas tropas durante apenas um dia; finalmente, no dia 11, estas forças chegam a Santarém, depois de se terem enfrentado com alguns populares da aldeia de Souro Pires (a 29 de Junho), da cidade da Guarda (a 4 de Julho) e da aldeia da Alpedrinha (a 5 de Julho).



Ver mapa maior

Percurso das forças do General Loison, de Mesão Frio a Santarém, 
entre 22 de Junho e 11 de Julho de 1808
(de acordo com o boletim n.º 4 do exército francês).




Como se não bastassem já todas estas movimentações, referia a Gazeta de Lisboa de 14 de Julho que Loison, ao chegar a Santarém, "aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira"! 
De facto, Loison pouco tempo permaneceu em Santarém, pois no dia 15 já se encontrava em Alcobaça, ponto de reunião das forças de mais de 10.000 homens comandados pelos Generais Kellermann, Thomières, Brenier, Solignac, entre outros, que tinham o objectivo de aterrorizar a população da faixa litoral entre Lisboa e Leiria e submeter e reprimir qualquer tipo de revolta. Depois de alguns confrontos e saques combinados, Loison volta a partir para Lisboa, onde chegou no dia 20No entanto, apenas cinco dias se deteve na capital, pois logo recebeu novas ordens, desta vez para entrar no Alentejo, como mais adiante veremos...



Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (14 de Julho de 1808)



Lisboa, 14 de Julho


Não há fábula absurda que não se tenha espalhado, de 15 dias a esta parte, a respeito do General Loison, que uns muitas vezes davam por morto, e outros, ao menos, por aprisionado. O ter ele porém voltado felizmente, com um corpo considerável, desconcerta a malevolência e traz ao Exército um numeroso e útil reforço.
O Boletim do Exército contém as particularidades da sua marcha, que foi uma espécie de vitória contínua por entre milhares de dificuldades que ele teve de vencer.
Veio até Santarém; e aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira.

As notícias que diariamente se recebem do General Margaron continuam a ser muito boas. As suas últimas cartas eram de Tomar, onde tudo ficava restituído à boa ordem e à submissão, depois de um instante de desatino expiado pela expressão do mais vivo arrependimento. O dito General só cessou de bater os rebeldes por se haverem dispersado diante dele, sem que os tornassem a achar reunidos, desde que foram desbaratados em Leiria.

Tudo o que se tem espalhado, nestes últimos dias, a respeito de um suposto desembarque de ingleses ou de emigrados portugueses, da banda da Nazaré e nas costas vizinhas de Alcobaça, é falso e forjado. Naquela parte da praia sim apareceram uns cem meninos perdidos, destinados a lançar ali algumas armas e munições, a fim de aumentar a desordem e alimentar a revolta: tal é o eterno modo de proceder dos ingleses, que só subsistem pelas perturbações do continente, multiplicando neste as vítimas, para se salvarem a si mesmos. Prometem incessantemente socorros a todos aqueles que querem ajudar os seus projectos e os seus furores; mas não lhes mandam, em troca de algumas espingardas e de um pouco de ouro corruptor, senão a ruína e a morte! Como é possível, depois de tantos exemplos famosos da ilusão das suas promessas e do desastre da sua aliança, que eles possam ainda achar gente insensata que se deixe por eles extraviar e conduzir ao degoladouro? Como é possível que aqueles dos portugueses que eles procuram seduzir e arrancar à doce fruição da paz e do sossego, deixem de ver que serão por eles abandonados e traídos, assim como o serão sucessivamente todas as nações que caíram no absurdo de consentir em vender-lhes o seu sangue e a sua tranquilidade?
Enquanto ao mais, seria para desejar que os desembarques de que se tem falado da banda da Nazaré e Peniche se tivessem realizado; porquanto pela sábia previdência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe se achavam aí reunidas forças mui respeitáveis, ficando prontas a marchar para todos os pontos que se pudessem ver ameaçados, e a aniquilar todos aqueles que se tivessem apresentado. Se os ingleses quiserem abrir aos emigrados portugueses uma sepultura, assim como a abriram, há vários anos, aos emigrados franceses em Quiberon, o resultado será infalivelmente o mesmo; e as famílias deste país conhecerão enfim a quem devem atribuir as suas desgraças e as suas lágrimas.

De algum tempo a esta parte se tem feito estudo, sem que se saiba porque razão, de misturar o nome do General Gomes Freire com os dos rebeldes que se esforçam por trazer sobre o seu país os flagelos da guerra civil e de uma luta sobejamente desigual contra um ilustre General formado na escola do maior dos guerreiros antigos e modernos, e contra um exército acostumado a todos os sucessos e cheio do mais ardente desejo de renová-los. Nada por certo é mais ridículo; pois que, durante esse tempo, o Senhor Gomes Freire se achava doente e até prisioneiro dos espanhóis em Valladolid; e mui modernamente é que ele se viu libertado pelo mesmo corpo de tropas francesas que de todo bateu os espanhóis naquele sítio, e que entrou triunfante na cidade de Valladolid, para puni-la pela resistência que ela opusera momentaneamente. Desde então, o General Gomes Freire (atravessando a Biscaia, onde se tem mantido a paz) tem continuado o seu caminho para a França, onde foi unir-se às tropas portuguesas de que comanda uma parte. Estas particularidades se confirmam por alguns criados seus, que não havendo podido segui-lo, voltaram os dias passados a Lisboa.

Enquanto ao mais, o norte de Espanha se vai apaziguando, à medida que chegam aí as tropas francesas, as quais entram em grande número por todos os pontos dos Pirenéus; e são já senhoras assim de Segovia como de Zaragoza. Um corpo considerável, que se destina a receber ainda novos reforços do exército de Itália, se formou na Catalunha, a maior parte da qual nunca se agitou e reconhece o novo Governo.
Em Lisboa há cartas de Madrid até à data de 28 de Junho, as quais atestam que se haviam aí renovado, segundo o costume, as especulações comerciais; e que tudo ficava em sossego naquela vila, sem que houvesse ali movimento algum. Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, exercendo as funções de Lugar-Tenente do Reino, em novo do novo Rei José Napoleão, que se achava ainda em Bayonne, residia numa casa de campo nos arredores de Madrid, onde tinha o seu Quartel-General. O General Savari, um dos Ajudantes de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, exercia o lugar de Governador de Madrid.
Conforme todas as informações que recebemos, era já de notar, como tão facilmente se podia prever, que a discórdia se ia introduzindo nas Juntas revolucionárias; que elas começavam a obedecer com repugnância umas às outras; pois que efectivamente nenhuma tem autoridade legítima, e todas podem formar pretensões igualmente fundamentadas; que vários dos seus membros, convencidos pela sua própria experiência de que o império da multidão, além de ser calamitoso, só pode ter uma mui curta duração, pensavam em subtrair-se ao despotismo popular que os oprime a eles mesmos; e em ceder a sua influência ao novo Governo, capitulando com ele secretamente, e entregando-lhe até mesmo aqueles dos seus cúmplices que achavam ser menos perspicazes do que eles. Os camponeses, por outra parte, se queixavam de que os habitantes das cidades os iam arrancando às suas famílias e aos seus úteis e pacíficos trabalhos, ao tempo da colheita, para sujeitá-los aos seus caprichos, e fazê-los suportar fadigas, a que estes sabem muito bem esquivar-se com diversos pretextos. Portanto, os homens acostumados a calcular a marcha dos acontecimentos políticos têm por certo que as partes revoltadas da Espanha não tardarão em restabelecer-se por si mesmas daquele delírio de insurreição, abraçando, como a única tábua de salvamento em meio da anarquia que as devora, a centralidade do poder e a unidade do Governo Monárquico, que só pode assegurar-lhes o génio e o braço mui poderoso de Sua Majestade o Imperador e Rei NAPOLEÃO. Muitos de entre eles, até mesmo em Espanha, pensam que esta feliz mudança se efectuará talvez pela influência tão somente da razão pública e do interesse nacional bem entendido, sem esperar que o prescrevam a presença e a força dos exércitos franceses que se adiantam, e aos quais é nimiamente absurdo imaginar que poderia resistir a Espanha, sem Chefe, sem objecto, sem finanças, já dividida, já desmembrada; pois que aquelas mesmas tropas com que será invadida quando preciso for, tem tantas vezes vencido todas as Potências da Europa tão inutilmente coligadas contra o GRANDE NAPOLEÃO e contra a sua Grande Nação!

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Boletim n.º 4 do Exército [francês] de Portugal (13 de Julho de 1808)




[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].




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Errata: 

Na 10.ª linha e seguinte da última folha deste boletim, onde se lê "tão cheios de gravidade", deve-se antes ler "tão cheios de generosidade" (correcção feita na Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808).

Em relação aos topónimos (algumas vezes completamente desfigurados nas fontes francesas e inglesas), devem ser feitos dois reparos: Serpentina não é mais do que a aldeia de Souro Pires (concelho de Pinhel) [ver a este respeito Adelino Gomes, "A Primeira Invasão - Os Massacres", in jornal Público de 18 de Novembro de 2007]; enquanto que Cortisada é o vale da Cortiçada (não confundir com topónimos semelhantes ou homónimos), situado pouco abaixo da vila da Sertã, perto da Cumeada.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Proposta do Coronel Silveira à Junta da Galiza, para um acordo de cooperação mútua (22 de Junho de 1808)



As províncias de Trás-os-Montes, Minho e Porto sacudiram o jugo da opressão, e deixando obrar com força ao bem da causa comum, repito o que oralmente tratei com o sr. Corregedor [de Monterrei] e [com o] Administrador da Alfândega de Verín, para fazê-lo presente à Suprema Junta da Galiza. 

1.º Que convém muito que Lisboa seja libertada da tropa francesa. 
2.º Que para consegui-lo assim será muito conveniente um desembarco em Lisboa. 
3.º Que a Galiza deve também requerer este desembarco. 
4.º Que logo que não haja tropas francesas em Portugal, esta nação há de socorrer a Espanha com quarenta a cinquenta mil homens. 

Chaves, 22 de Junho de 1808. 


[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Estados de Fuerza de las tropas españolas en Portugal. Documentación relativa a los ejercitos de la provincia de Tras-os Montes, así como a subsistencias y pasaportes de ciudadanos", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.3//DIVERSOS-COLECCIONES,87,N.27].

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Observações:

Como atrás indicámos, o  Coronel Manuel Francisco da Silveira Pinto proclamara a restauração de Vila Real no dia 16 de Junho. Três ou quatro dias depois, soube-se em Vila Real que uma coluna de franceses comandada por Loison marchava em direcção ao Porto, vindo por Lamego. Os portugueses decidiram então tentar obstar a passagem dos franceses, fazendo uma emboscada no alto dos Padrões da Teixeira. Contudo, como não havia tropas organizadas na zona, Silveira partiu para Chaves, vila que tinha munições e pólvora armazenada, e onde já estava formado um pequeno exército duns 150 homens de infantaria de linha (recordemos que aquela vila tinha sido precisamente a primeira localidade portuguesa onde surgiram manifestações populares contra o governo francês).
Já em Chaves, Silveira enviou na tarde do dia 21 um ajudante seu até ao Corregedor de Monterrei e ao Administrador da Alfândega de Verín, a fim de convocá-los para tratarem de "assuntos importantes". Como um dia antes Loison tinha chegado a Lamego, os galegos, receosos de que os transmontanos se retractassem, tentaram impedir que aquelas duas autoridades passassem a fronteira portuguesa, não obstante as mesmas terem decidido fazê-lo. 
Enquanto estas não chegavam, partiram de Chaves os referidos 150 militares, com 4 peças de artilharia, munições e pólvora. Silveira ficou para trás, continuando à espera dos referidos Corregedor e Administrador, que só chegaram a Chaves às cinco da tarde do dia 22, já depois de Silveira lhes ter enviado um segundo aviso. A carta acima transcrita resume o resultado daquelas conversações, onde Silveira propôs os citados termos à Junta da Galiza, como base para um futuro acordo formal de cooperação mútua.

Finalmente, resta dizer que esta carta era acompanhada pela seguinte nota de recomendação, escrita provavelmente por uma das duas referidas autoridades galegas, aquando da remessa desta e doutras cartas à Junta da Galiza, junto com um ofício que explicava os acontecimentos a norte do Douro:

Nota: O dito Manuel Francisco da Silveira Pinto era Tenente-Coronel do Regimento de Cavalaria portuguesa n.º 6 e Comandante interino do dito regimento, que tinha deixado o serviço e retirado-se à sua casa de Vila Real, sujeito de distinção e conhecido mérito, por mais razões dispunha no dia de ontem a saída de tropas, munições e armas para atacar a coluna francesa que invade a referida província de Trás-os-Montes, confiando o comando a um filho que tem, capitão; todos os oficiais militares tomavam as suas ordens e deve presumir-se que obra com a faculdade e o acordo das demais autoridades. 
Entre outras coisas relativas ao feliz êxito das armas de ambas nações, manifestou verbalmente que, evacuado Portugal de todas as tropas francesas, o auxílio das que oferece no 4.º artigo a favor de Espanha, serão pagas pela sua nação. Um sr. da minha confiança tratará com a Regência já estabelecido no Porto, e por conseguinte está (até que Lisboa esteja livre do jugo) com a que reassumirá em si a soberania em nome do seu legítimo Rei D. João VI.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Versos de Marfirio Cândido, “Pastor do Douro”, dedicados à retirada de Loison



À face das Lusas Quinas 
É qualquer um novo Marte: 
Que o diga Loison fugindo
E os seus Soldados no Douro, 
Que em vão tentam passá-lo, 
Pois lhe iam chegando ao couro. 

[Fonte: Trombeta da verdade metrico-analytica, contra os planos, e imposturas de Napoleão, e seus satellites, por Marfirio Candido, pastor do Douro, Lisboa, Impressão Regia, 1811, apud Artur de Magalhães Basto, "O Porto contra Junot (continuação)", in Revista de Estudos Históricos, Faculdade de Letras do Porto, vol. 1, nº. 3, 1924, pag. 88-120, p. 102].

Notícias circunstanciadas dos sucessos na viagem do General Loison, dos dias 21, 22 e 23 de Junho de 1808



Tendo-se em 16 de Junho em Vila Real, primeiro que em outra parte, reconhecido os Direitos do Nosso Augusto PRÍNCIPE e rompido o vergonhoso Grilhão Francês que nos oprimia, na tarde desse feliz dia se ouviram por toda a parte alegres vozes de Viva Portugal, Viva o PRÍNCIPE, e Viva a Religião, pondo-se à testa de toda a Nobreza e Povo Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, Tenente Coronel de Cavalaria. Depois de tão gloriosa acção, se principiou a combinar os meios com que se fizesse realizar o projecto de extermínio do Tirano e Sanguinário Governo Francês, e restaurar em Portugal o da Soberana Casa de BRAGANÇA. Foi então que se soube em Vila Real que o General Loison, à testa de 2.500 homens, se encaminhava por Lamego ao Porto, a vingar nesta cidade a prisão que os valorosos Espanhóis tinham feito nos executores infames do pérfido Governo Francês; projectou-se obstar-se-lhe na passagem do Douro, porém, reflectindo-se melhor, intentou-se atacar o inimigo na passagem do escarpado Marão no sítio dos Padrões da Teixeira, convidando-se a isto os Povos de Guimarães, [Marco de] Canaveses e Amarante; partindo o Tenente-coronel Silveira para Chaves, a procurar fazer marchar 150 homens de Infantaria, já ali unidos, alguma Artilharia, e principalmente pólvora e bala, que não tínhamos. 
Enfim chega o dia 21, em que Loison passa o Douro com 2.500 Infantes, 100 Dragões, 4 Peças de Artilharia e 2 Obuses, trazendo 27 carros de bagagem. 0 General marchava numa carruagem no centro de uma desmantelada coluna, que marchava com toda a confiança de Conquistadores, sem ordem, e mesmo sem Armas carregadas: passaram primeiro 8 Cavaleiros, que imediatamente se dirigiram a Mesão Frio, para fazerem Quartéis; passou depois o General e o infame português Baeta, Físico-mor do Exército Francês, e a Cavalaria; o General e o Físico-mor dirigiram-se à Estalagem da Régua para almoçar, onde um valoroso Soldado do 18.º Regimento, por alcunha o Ruivo, intentou vingar neles as mortes que tão injustamente este General fez nos Oficiais, Soldados, e Paisanos na vila das Caldas, mas que aquela povoação não consentiu com o temor de que fosse arrasada. A Infantaria principiou a passar e logo que se achava formada alguma Divisão, carregava as armas e continuava a marcha a Mesão Frio. Estando Loison para jantar nesta vila, lhe veio dizer uma Ordenança que nos Padrões da Teixeira os Paisanos da Serra não os deixavam passar, a que respondeu o General, cheio de cólera: «Fazia tenção de dormir aqui, agora mudei de tenção; às 4 horas da tarde vou castigar os rebeldes.» Principiando de jantar, chega-lhe a notícia que na Régua dois valorosos homens portugueses tinham principiado a atacar as bagagens, e que este partido ia engrossando; destina-se o General a vir castigar os novos rebeldes: toca às armas; deixam comeres, malas e fardos em poder dos habitantes, e correm à Régua, aonde dois corajosos homens de Canelas, chamados António Teixeira Fraga Botelho e Manuel Pereira Falante, acompanhados depois de Manuel Alves Failde, António Teixeira de Araújo e do sempre animoso Capitão-Mor da Prezegueda, que ali tinha vindo com suas Ordenanças, e que em todo o dia comandou e animou, com outros de Poiares e Covelinhas, como também do Peso da Régua, atacaram a guarda da bagagem, que seriam 200 homens, e tendo-lhe feito grande carnagem, desampararam três carros que já tinham passado o Rio Douro, dos quais os nossos ficaram senhores, ficando a outra da margem oposta, à excepção de uma barca que vinha passando o rio, da qual os marinheiros se fizeram senhores, ficando todos os seus efeitos nas nossas mãos; este sucesso fez retroceder o General e a sua Coluna. Uns corajosos Paisanos se emboscaram no sítio do Santinho; Carlos, Cirurgião da Régua, e outro, cujo nome se ignora, esperaram com as armas ocultas, mas descobertos, que o General passasse; passou, e a 30 passos lhe atiraram quatro tiros, e vendo que não caíra, lhe começaram a atirar à pedra, acção que pasmou o General; os emboscados fizeram fogo, mataram 2 Oficiais de Dragões e alguns Soldados de Cavalaria, mas se retiraram, porque duas Companhias Ligeiras passaram a atacá-los nas vinhas; os nossos tomaram as alturas, e o General, estabelecendo as suas guardas, se acampou no Olival Escuro, e assim se manteve tranquilo aquela tarde e noite, sendo contudo incomodado algumas vezes pelos Paisanos. Foi neste dia de manhã que Carlos, irmão do Capitão do Peso, matou o Capitão da 3.ª Companhia do 2.º Regimento de Infantaria Ligeira, chamado Francisco Leport, com ferimento de faca. Distinguiram-se mais João Guedes Figueira, João de Mancilha, um Alfaiate, e o Esquerdino, e outros muitos do Peso e Régua. 
Projectando no dia 22 o inimigo saquear o Peso e a Régua, quis assegurar-se das alturas de S. Gonçalo, e Senhora da Graça de Lobrigos, e Ribeira de Jugueiros; para isto mandou o Grão-Major de Batalha com um Destacamento de 30 homens, e vários outros Destacamentos, e fez passar a Artilharia para o lado oposto do rio, e a fez assestar no Peso e Régua; pôs as suas Guardas de forma que estas povoações ficaram cercadas; bordou tudo com a sua Tropa, e passou a executar mil modos de barbaridades e crueldades sobre os infelizes, que por sua idade, sexo e enfermidades não puderam largar as suas casas; o que tendo executado, sendo avisado [que] ia a ser atacado por diferentes Colunas de valorosas e corajosas Ordenanças, ao meio-dia tocou a reunir, e começou de repassar o Rio Douro, esquecendo-se de ir ao Porto executar os vis projectos do seu infame Governador. Foi neste dia de manhã que no posto da Senhora da Graça três valorosos Paisanos de Vila Real e um do Peso atacaram a Guarda do Grão-Major, matando a este e mais dois Soldados, sendo o primeiro que o feriu João Baptista de Araújo, Estanqueiro de pólvora em Vila Real, e repetindo-lhe segundo o caixeiro do Velela do Peso, tomando-lhe o primeiro um bom macho em que ia o tal Oficial. O Reverendo Capucho Fr. Pedro de Parada de Cunhos aqui matou 2 Soldados, e no alto de S. Gonçalo outro foi morto, sem que neste ataque tivéssemos algum morto ou ferido, mas tão somente aqueles infelizes, que a raiva a barbaridade de hum inimigo batido sacrificou no saque ao seu furor. 
Foi na tarde do dia 22 que a Coluna de Ordenanças de Vila Real, numerosa em mais de 10.000 animosos Paisanos, comandada, por unânime consentimento de todos e pela nomeação do Capitão mor das mesmas Ordenanças de Vila Real, pelo Tenente de Cavalaria João Botelho Guedes, chegou a S. Gonçalo de Lobrigos, e sendo informado que o inimigo tinha embarcado e que só lhe restava uma pequena porção de Tropa a passar, animou o Povo, mandando uma porção pelas alturas da Senhora da Graça, e outra pela Ribeira de Jugueiros, para irem batendo todas aquelas vinhas, não caírem em alguma emboscada, e reconhecer o país; foi pelo centro o Tenente de Granadeiros de Milícias de Vila Real, António de Almeida, acompanhado dos valorosos habitantes de Vila Real, os quais, por mais que voaram, já acharam que o inimigo havia passado o Rio Douro; porém como divisassem gente e carros, se embarcam, passam o Rio, espargem uma pequena Guarda, fazem um prisioneiro, e tomam uma forja de Campanha; sendo noite se recolhem à Régua, aonde pelas 10 horas da noite chegaram também duas Colunas de Ordenanças de Guimarães e Amarante, vindo à testa desta o Alferes de Cavalaria n.º 6 Luís Maria de Cerqueira e o Cadete de Artilharia João Borges de Cerqueira; e à testa daquela o Monsenhor Miranda, o Mestre Escola e Cónegos da Colegiada de Guimarães, o Capitão de Cavalaria António de Sousa, o Tenente de Cavalaria João Pinto Passo e outros muitos Fidalgos e Cavalheiros daquela Província, não faltando em todas estas colunas imensos Religiosos de todas as Ordens, Clérigos e seculares de toda a qualidade. Para segurança e sossego de Paisanos tão valorosos mas cansados com marchas de 5, 7, e 12 léguas, se estabeleceram guardas avançadas, guarnições em todos os barcos e barcas, os quais foram guardados, e rondados com valor, vigilância e disciplina Militar. 
Tendo-se no dia 23 pela manhã distribuído pólvora e bala que a actividade do Tenente-coronel Silveira tinha remetido de Chaves, e chegando à nossa notícia que Lamego era saqueada, determina-se o embarque e ir socorrer os nossos compatriotas; não se vê outra coisa mais do que a emulação de ser o primeiro no embarque; e se algum desfalecia por falta de comida (pois havia muitos que fizeram a marcha de um dia sem ter tomado alimento) o Tenente Botelho e Francisco Correia do Amaral o animava, dando-lhe mesmo do seu dinheiro para comprarem pão em Lamego e marcharem, sendo ambos incansáveis em fazer embarcar a gente, animá-la e conduzi-la em seguimento do inimigo. 
Chega-se a Lamego: a valorosa coluna de Vila Real formada a 3, com Bandeiras despregadas e ao som de caixas batentes, e seguida das outras, fazem declarar a esta cidade, ressoar nas suas ruas alegres vozes de Viva o PRÍNCIPE REGENTE, Viva PORTUGAL, Morram os seus inimigos. Os Cidadãos desta cidade, berço da nossa Monarquia, repetem o mesmo, correm às armas e unem-se à causa comum. Isto feito, corre-se ao ataque e encontra-se o inimigo acima da Póvoa de Juvantes, aonde estavam descansando; mas vendo que o seguíamos, continua a sua marcha nesta forma: O General Loison com toda a sua Cavalaria na Vanguarda, levando no centro a bagagem, e a Infantaria em coluna na retaguarda, marchando com grande união e disciplina, mas velozmente. Foi aqui que 250 a 300 homens valorosos, cheios do maior ânimo e coragem fazem sobre o inimigo um fogo matador e constante por mais de duas léguas. É de admirar a ordem e o método, com que o faziam, aproveitando-se das posições locais, penedias, e desfiladeiros; a presteza com que depois de fazerem a sua descarga, se lançavam à terra para carregar, e enquanto os outros avançavam terreno para dar a sua descarga, o reconhecimento das alturas, as emboscadas, etc., sendo animados todos pela Nobreza já dita, distinguindo-se muito o Monsenhor Miranda e o Tenente João Pinto Passo, que igual ao vento chegou numa escaramuça a raspejar a coluna inimiga; porém, a falta de pólvora e bala fez cessar o fogo e ataque. Mostra bem o respeito que nos olharam, a disciplina com que a coluna inimiga marchava, a retirada em ordem que fazia, as guardas que lançava para protegê-la, e o ser obrigado o General a montar a cavalo e a manobrar em consequência. 
Cessando o ataque, o inimigo acampou em duas pequenas eminências, formando da sua coluna dois quadrados, e reconcentrando no seu intervalo toda a bagagem, postando fortes guardas em todas as direcções, que mesmo de noite foram incomodadas por alguns que dormiram ao pé e pelos povos daquelas serras, que igualmente concorreram a seguir o inimigo. 
No dia 24 não passaram de Castre Daire, sendo até ali mesmo acossados, aonde o General pediu fios para se curar, por ir ferido numa coxa. 
Resultou destes diferentes ataques ser livre a capital do Porto, pôr-se em fugida um General experimentado, que comandava esses chamados valorosos vencedores de Marengo, Austerlitz e Jena, sendo acossados por Paisanas descalços, armados pela maior parte de foices, chuços e paus; vermos seguras de invasão as províncias do Minho e Trás-os-Montes; sofrendo de perda incalculáveis bagagens, já na Régua, que se lhe tomaram, já em Mesão Frio e Castro Daire, que abandonaram; vários e ricos uniformes, que ornam os Templos de S. Gonçalo de Amarante e [da] Senhora da Oliveira em Guimarães, e de que andam vestidos os nossos Paisanos; 2 obuses e mais de 25 barris de pólvora e bala, que foram mergulhados no Rio Douro, uma forja de Campanha, que enobrece Vila Real, outra despedaçada na Póvoa de Juvantes, uma carreta ali quebrada, a secretária lançada no Rio; perda para eles e para nós considerável, para nós por perdermos o conhecimento de seus planos e projectos, livros mestres e económicos de Companhias, livros e instrumentos de música, e sobretudo várias preciosidades de ouro e prata, que deixaram os nossos Paisanos ricos. 
Calcula-se a perda dos mortos do inimigo em mais de 300, e sabe-se que em Viseu achou de menos 700 a 800; nos mortos entra um Grão-Major, um Ajudante de Ordens, um Capitão e dois Oficiais de Cavalaria; consta levar de Castro Daire 20 carros de feridos, sendo do seu número o General e um Ajudante de Campo. Morreram da nossa parte 4 valorosos homens, perda considerável pelo seu valor, o qual os sacrificou até ir com uma foice no Peso atacar-lhe as fileiras; tivemos três feridos; morreram mais no saque 15 pessoas das desgraçadas que nas casas se achavam e [e que se] encontravam nos caminhos descuidadas. 
Distinguiram-se, além dos já nomeados e cujos nomes se puderam averiguar, de Vila Real o Capitão Baía, o Padre Luís Cambalhoto, 2 irmãos por alcunha os Paciências, Gregório das Quintelas, o Tenente de Milícias de Parada Cristóvão, o Reverendo José de Galegos da Serra, um sobrinho do pintor da Rua Nova, o Padre José Ferreira Grilo, Alexandre Carroça, António Dias, o Reverendo Abade de S. Dionísio, António Cumprido, um rapaz por alcunha o Mirandeiro, Romão Fernandes, todos de Vila Real, e outros muitos que ignoro os nomes; 3 Religiosos de Celeiros, os de Canelas, os da Prezegueda, muitos de Guimarães, alguns de Lamego, e entre estes os Marchantes, que até foram a cavalo e com os seus cães de fila; é grande o sentimento ignorar o nome de um Religioso que em toda a acção de 23 perseguiu o General, e que obrigou a este a fazer-lhe elogios em Viseu. Deve-se grande parte desta acção ao valoroso Coronel de Milícias António da Silveira Pinto, motor da marcha da Coluna de Vila Real; e que com presteza nos veio sustentar e franquear a passagem do Rio com 150 homens de Tropa de Linha e 4 peças. 
Assim se terminaram três gloriosos dias, cujos louros são as primícias dos muitos que se hão-de de colher, e que puseram em segurança o Porto, o Minho, e Trás-os-Montes.