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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Spanish Joke!!!, caricatura de George Cruickshank (5 de Setembro de 1808)




Uma brincadeira espanhola!!!
Caricatura de George Cruickshank publicada a 5 de Setembro de 1808.


Tal como tinha feito o seu pai poucos dias antes (ver Sancho alias Ioe Butts...), George Cruickshank concebeu esta caricatura baseando-se num episódio da obra O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, segundo o qual D. Quixote, depois duma breve discussão com o dono da estalagem onde repousara, foge no seu cavalo Rocinante sem pagar a sua conta, e sem se aperceber que o seu escudeiro Sancho Pança não o seguia. Segundo Cervantes,
Quis a desventura que entre a gente que se achava na estalagem estivessem quatro tosadores de Segóvia, três fabricantes de agulhas de Córdova, e dois vizinhos da feira de Sevilha, gente alegre, bem intencionada, corrompedora e brincalhona, os quais, como instigados e movidos de um mesmo espírito, chegaram-se a Sancho, e apeando-o do burro, um deles foi buscar uma manta; e deitando-o todos nela, levantaram os olhos, e viram que o tecto era alguma coisa mais baixo do que se necessitava para a sua obra, e determinaram sair para o pátio, onde tinham altura de mais. Aí, deitado Sancho no cobertor, entraram a atirar com ele ao alto, e a brincar com o pobre como quem brinca com um cão. Os gritos que dava o miserável manteado foram tais que chegaram às orelhas do seu Amo; o qual, parando para escutar atentamente, julgou que nova aventura se lhe oferecia, até que claramente conheceu que seu Escudeiro era o que gritava. Mete logo o seu Rocinante a todo o galope para a estalagem, e achando-a fechada, dá volta para ver se achava por onde entrar. Mas como as paredes do pátio não eram muito altas, viu o brinco que faziam com seu Escudeiro, o qual subia e descia pelo ar com tanta graça e ligeireza que, a não estar tão irado como estava, não deixaria de rir. Uma e muitas vezes fez toda a diligência para ver se podia subir de cima do cavalo ao muro, mas estava tão moído e quebrantado que nem apear-se pôde; e assim, em pé como estava sobre o cavalo, entrou a dizer tantas injúrias aos que jogavam com o pobre Sancho, e a desafiá-los por tal maneira, que não é possível explicá-lo. Mas nem por isso deixavam eles de continuar a rir e jogar o seu jogo, e o triste Sancho a voar e a queixar-se, já ameaçando, já pedindo que o deixassem; mas de nada lhe valiam seus ameaços e rogos [...].
[Fonte: Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha - Tomo I, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1794, pp. 212-213 (cap. XVII)]. 

Servindo-se assim deste episódio, George Cruickshank representa Napoleão, qual D. Quixote, do outro lado do muro (alusão aos Pirenéus), vendo o seu irmão José Bonaparte, qual Sancho Pança, a ser lançado para o ar pelos espanhóis, aos quais injuria e ameaça: Vis cobardes, como ousais tratar o meu escudeiro desse modo tão descortês? Sabei que se for desafiado a pular o muro, eu o farei; sim, o farei. Um dos espanhóis vira-se para Napoleão e replica-lhe: Não damos a mínima para vós ou para semelhantes vilões. Declara outro: Isto é por roubardes a estalagem e fugirdes sem pagardes a vossa conta. Do outro lado, diz uma freira: Um arremesso pelo nosso FernandoEm pleno ar, José perde a sua coroa e roga para acabarem com tal brincadeira: Ah! Misericórdia [pelo] Rei Zé [King Jo]este é um mau momento para brincadeiras [Jo-King]John Bull, ou melhor, Don Bull, é representado como o dono da estalagem, à porta da qual aparece exibindo uma gazeta com o título Rendição de Junot e incentivando os espanhóis: Essa é a vossa qualidade, meus camaradas, para cima com ele, minhas galinhas de caça! Urra! Eis mais navios, colónias e comércio, mas não para o irmão de Napoleão!!! 
Finalmente, repare-se que à esquerda da gravura encontra-se a sacola de Sanchocarregada de ouro e prata: trata-se de mais uma alusão à obra de Cervantes, o qual conclui este episódio com a fuga de Sancho deixando para trás os seus alforges, ficando o estalajadeiro em sua posse como forma de pagamento do que se lhe devia...

sábado, 3 de setembro de 2011

The Spanish Pye. A Ditty for young Patriots, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Setembro de 1808)





A tarte espanhola. Uma cantilena para jovens patriotas.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Setembro de 1808.


Esta caricatura satiriza o susto de José Bonaparte e dos franceses perante a inesperada irrupção das sublevações espanholas, representando o momento em que um grupo de pequenos soldados espanhóis (identificados pelas suas roupas e pela bandeira que ostentam) irrompe de dentro da tarte espanhola que o novo monarca, de faca e garfo nas mãos, se preparava para comer. Surpreendido e assustado, José Bonaparte recua, e ainda que ostente ameaçadoramente a faca do bolo, o certo é que os seus reforços estão do outro lado da mesa, também assustados... Trata-se provavelmente duma alusão directa às consequências da derrota em Bailén do General Dupont (que talvez esteja representado na caricatura como o francês com a cabeça enfaixada, as calças rasgadas e as botas gastas), facto que viria a provocar a decisão de José Bonaparte retirar-se de Madrid, apenas cerca de uma semana depois de aí ter chegado.
Por cima da tarte espanhola que dá título à caricatura encontram-se os versos da cantilena assinalada no subtítulo, que abaixo traduzimos literalmente: 

Canto uma canção de seis pences - um saco cheio de centeio, 
Quatro e vinte Patriotas - cozidos numa torta.
Quando a tarte foi aberta, os rapazes começaram a cantar. 
Ora, não era um belo prato para apresentar a um rei?



Os versos originais em inglês correspondem precisamente (ou melhor, quase inalterados) aos primeiros versos duma famosa cantilena infantil inglesa, Sing a song of sixpence, cuja fixação moderna pode ser abaixo escutada: 

 


Tendo em conta algumas variações conhecidas desta cantilena*, conseguimos apurar que a maior alteração que Cruikshank fez aos versos originais foi a introdução de um único termo que lhe era alheio (a saber, patriots), o qual, no entanto, para além de complementar o sentido da ilustração, altera significativamente o sentido dos versos originais. De facto, devemos ter em conta que o termo patriots ["patriotas"] tinha sido largamente difundido pela imprensa britânica, desde meados de Maio de 1808, em referência aos sublevados espanhóis, pelo que passara praticamente a ser sinónimo destes. Devemos finalmente acrescentar que para além da referida cantilena inglesa que indubitavelmente serviu de inspiração à caricatura, é possível ainda que a alusão à mocidade espanhola (através do termo sublinhado boys ["rapazes"] e do termo young ["jovens"], presente no subtítulo) derive do conhecimento que Cruikshank tinha de uma obra patriótica dirigida aos jovens espanhóis, nomeadamente um catecismo que começara a ser largamente divulgado na Espanha pouco depois dos incidentes de 2 de Maio de 1808 em Madrid, e que chegou mesmo a ser traduzido e publicado na Inglaterra em Setembro de 1808 (se não antes), através do periódico The Monthly Register


Outra digitalização: British Museum.

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Nota: 


* Como vulgarmente sucede em recolhas de manifestações da cultura popular, os versos desta cantilena (cuja primeira recolha foi publicada em 1744) encontram-se publicados em diferentes obras com algumas variações. Indicamos abaixo, a negrito, algumas dessas variações (relativamente ao excerto que nos interessa), acompanhadas por uma sugestiva gravura:


Sing a song of sixpence 
bag/pocket full of rye;
Four and twenty naughty boys/blackbirds 
Baked/Bak'd in a pie.

When the pie was open'd, 
the birds began to sing;
[And/NowWasn’t that a pretty/dainty dish 
to set before a/the King?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Burglary and robbery!!!, caricatura publicada por John Fairburn (c. Agosto de 1808)




Roubo e Pilhagem!
Caricatura publicada por John Fairburn, circa Agosto de 1808.


Considerando que na passada noite de 20 de Julho um numeroso bando de bandidos entrou na cidade de Madrid e assaltou de rompante o Palácio Real, o Banco Nacional, e a maioria das Igrejas; matando todos os que se opunham aos seus procedimentos mais infames.
O dito bando continuou em Madrid até ao dia 27 do dito mês, e então partiu subitamente, tomando o caminho para a França, carregado com saques imensos, tendo ali roubado diversos carros cheios de prata e todos os artigos de valor móveis; todos os patriotas espanhóis são por este meio requisitados para ajudarem e auxiliarem na captura de todos ou de algum dos ditos ladrões; e quem quer que capture todos ou qualquer um deles, receberá os agradecimentos e as bênçãos de todas as pessoas bem intencionadas da Europa.
Os ditos bandidos eram conduzidos por Zé Nap, um feroz rufião cuja descrição é a seguinte: Tem cerca de cinco pés e sete polegadas de altura, de aspecto magro, esquálido, com a pele cor de açafrão. Estava vestido, quando escapou, com o manto real, que se sabe que foi por ele roubado do guarda-roupa do Rei em Nápoles. Ele é um irmão do famoso ladrão que praticou um sem número de roubos em toda a Europa, matando milhões da raça humana, o qual estava nos últimos tempos em Bayonne, onde se supõe que permanece com o objectivo de receber os bens roubados que o seu irmão devia trazer da Espanha.

Spanish flies or Boney takeing an imoderate dose, caricatura atribuída a Charles Williams (Agosto de 1808)



Moscas-espanholas ou Boney tomando uma dose imoderada.
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Agosto de 1808.


Aludindo à retirada do exército francês de Madrid, esta caricatura representa um enxame enorme de moscas-espanholas (Lytta vesicatoria), que cobrindo o céu desde a capital da Espanha (à direita), persegue e provoca a debandada do exército francês pela passagem do caminho dos Pirenéus para Bayonne (à esquerda). Em primeiro plano, Napoleão, a cujos pés encontra-se (ao lado duma bandeira e de espadas destroçadas) um papel parcialmente rasgado, onde se pode ler Decretos da Junta em Bayonne e Joseph Bonaparte Rex Espagnol [sic], tenta livrar-se  destes insectos, que o envolvem e assediam. O seu esforço é infrutífero, pelo motivos que o próprio afirma: "Morbleu - quão fraco e tonto estou, estas moscas costumavam ter uma grande utilidade para mim, mas receio que este seu uso descuidado vai causar uma mortificação, a menos que Doutor Tall[e]y[and] possa aliviar-me". De facto, o subtítulo da caricatura revela que Napoleão foi imprudente em abusar dos espanhóis, representados aqui como insectos que eram utilizados como uma espécie de viagra da época, visto que "uma dose muito grande de Cantáridas, ou moscas espanholas, provoca desmaios, delírios, tonturas, loucura e morte. Vide [The NewDispensatory de Lewis". 



Pormenor 


Outras digitalizações:

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Spanish Lick-Rish, caricatura publicada por Thomas Tegg (30 de Agosto de 1808)




Alcaçuz espanhol.
Caricatura publicada por Thomas Tegg a 30 de Agosto de 1808.



Tomando como pano de fundo uma batalha onde espanhóis avançam sobre franceses em retirada, um soldado espanhol, em primeiro plano, ostenta numa mão uma espada (cuja lâmina tem a inscrição Real Toledo), enquanto esgana com a outra o pescoço dum oficial francês, ao qual afirma, em tom ameaçador: Canalha Dupont, vamos ensinar-te a tocar nos espanhóis. Responde-lhe o General francêsOh! Miserável de mim. Não gosto do "alcaçuz espanhol"; prefiro muito mais o açúcar francês, prumo da Grande  Legião de Honra
Devemos assinalar que traduzimos por "alcaçuz espanhol" a expressão spanish lick-rish (também dita spanish licorishlicuorish ou liquorice), nome pelo qual era então vulgarmente conhecido na Inglaterra tanto o pau de alcaçuz como o xarope doce que se extrai dessa planta. Note-se no entanto que, ao sublinhar o termo lick ("lamber", "bater", "dominar"), o anónimo autor desta caricatura alerta-nos para uma série de trocadilhos possíveis, muitos deles de cariz (homo)sexual.

Spanish lickerish: "Espanhol saboroso gostoso" (literalmente, "lambível"); "Espanhol ávido / glutão / voraz / guloso / garganeiro"; "Espanhol lascivo / lúbrico / luxurioso / impudico / licencioso".
lick a rish: "Lamber um junco".
lick or wish: "Lamber ou desejar".
lick rich: "Rica lambidela".
lick rush: "Carga [de] pancada"; "golpe impetuoso"; "avanço predominante"; lambidela incómoda".
lick rash: "lamber [a] erupção"



Outra digitalização:


Sancho alias Ioe Butt's entertainment on taking possession of his new Government!, caricatura de Isaac Cruikshank (30 de Agosto de 1808)




Distracções de Sancho, também conhecido por Zé Pipa, na tomada de posse do seu novo Governo!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 30 de Agosto de 1808.



Esta caricatura alude à tomada de posse do novo governo de José Bonaparte (que abdicara do trono de Nápoles para reger a Espanha, segundo a nomeação do seu irmão Napoleão), que, ao chegar a Madrid, no dia 20 de Julho de 1808, viu-se cercado por diversas províncias rebeladas. O governo de José não foi reconhecido na maior parte dessas províncias, que bloquearam Madrid à distância, impedindo o acesso a víveres que faltavam na capital. A manutenção do exército francês tornou-se rapidamente insustentável, e, ao tomar conhecimento da derrota de Dupont em Bailén, José Bonaparte viu-se obrigado a dar ordens, logo no dia 30 de Julho, para o seu exército evacuar Madrid. Significativamente, Isaac Cruikshank chama Sancho ao monarca, aludindo assim à tomada de posse do efémero governo da ínsula da Bataria por parte de Sancho Pança, o escudeiro realista e prático do idealista D. Quixote (que seguindo a analogia, seria Napoleão*). 
O título da caricatura diz ainda que Sancho tem um outro pseudónimo, Joe Butt, sendo que butt, entre outros, tem o significado de "pipa de vinho", referência à alcunha com que o monarca ficou conhecido na Espanha, Pepe Botella ("Zé Garrafa", em português). Este sentido é reforçado pela imagem que encima o trono de José Bonaparte, no meio de parras e cachos de uvas: um pequeno Baco, de taça e garrafa nas mãos, sentado precisamente sobre uma pipa. 
Sancho, ou Zé Pipa, está sentado no centro da mesa, de babete ao peito e de faca e garfo nas mãos, mas tem o prato vazio. Como não há cadeiras para todos, parece que os espanhóis que aparecem na sala não foram convidados para a refeição, e irromperam na cena somente para esvaziar a mesa do monarca. Um bispo retira do alcance de José um prato de "galo bravo das Astúrias", e, com o braço estendido ameaçadoramente em direcção ao monarca, diz-lhe: "Não toqueis - não proveis - vil usurpador - desaparecei - ide-vos embora - ou então provareis dez mil mortes em cada prato, tudo preparado para vós e para o vosso bando de assassinos sacrilégios". O prato de "galo bravo das Astúrias" é passado a um outro espanhol, em cujo chapéu está inscrito F[ernando] VII, o qual afirma: "Por Santander! Isto será suficiente para o rei Fernando, ele adora a cozinha asturiana". José Bonaparte, nitidamente irritado, vira-se para o Bispo e diz: "Oh Diabo! Dom Bispo, não me dais um pouco? Rogo que me deis algo"**
Aproveitando a distracção momentânea do monarca, o espanhol que está imediatamente à sua direita retira da mesa um prato de "ganso de Madrid", enquanto atrás deste vê-se um outro saindo com um prato de "bife de Lisboa", o qual, virando-se para trás, diz ao monarca: "Sim, canalha, dar-vos-ei algo: viestes aqui para roubar a Coroa de Fernando - agora dar-vos-ei uma coroa [moeda britânica] para comprardes um cabresto". À esquerda deste espanhol vêm-se outros a levar mais pratos: "pudim da Catalunha", "tartes da Extremadura", um prato não identificado da Biscaia e outro de Leão, e "nozes de Barcelona". 
À frente da mesa, entre outros três espanhóis que levam pratos de "sopa da Andaluzia", "laranjas de Sevilha", e "guisado de Burgos", está uma pilha de "saques para Paris", onde  se vê uma coroa, dois crucifixos, alfaias religiosas de ouro e prata e sacos com dólares. Em cima da mesa somente resta um galheteiro com "vinagre de Bayonne", um saleiro com "sal de Minorca", um prato com "presunto de Múrcia", e outro com um "caboz de Portugal", que está prestes a ser retirado pelo personagem que está atrás do Bispo. 

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Notas:

* A propósito da analogia entre D. Quixote e Napoleão (aqui aludida apenas indirectamente; ver a este propósito a caricatura A Spanish Joke!!!, publicada poucos dias depois), recordemos um trecho duma carta que o Imperador francês escreveu no dia 5 de Novembro de 1807 ao seu ministro da Guerra, mandando-lhe dizer a Junot (que então marchava em direcção a Portugal) o seguinte: "não entendo que, sob o pretexto de falta de víveres, a sua marcha seja retardada um dia; esta razão somente serve para homens que não querem fazer nada; 20.000 homens vivem em qualquer lugar, inclusive no deserto"... [Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 165 (n.º 13327)].


** Traduzimos por "não me dais um pouco" a expressão vont you give me von little bit, frase feita com que os ingleses (bem alimentados) gozavam com os franceses (que tinham a reputação de passar fome). Existem expressões semelhantes em diversas caricaturas, veja-se por exemplo: BM Satires 5790BM Satires 8650BM Satires 9996BM Satires 10597BM Satires 11579. Ver ainda a este respeito a caricatura que aqui introduzimos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Enseada da Maceira, segundo William Bradford




Enseada da Maceira
[actualmente conhecida como praia do Porto Novo]



A frota com as tropas comandadas pelo Tenente-General Sir Harry Burrard* ancorou em mar aberto, diante desta enseada, no dia 25 de Agosto de 1808.
Enquanto ponto de desembarque, a única vantagem que surgia deste lugar era a sua contiguidade com o campo do Ramalhal, onde o exército [britânico] tinha ocupado uma posição depois da acção do dia 21. Em relação à ancoragem dos transportes e à protecção dos barcos na aproximação à costa, [este lugar] não possuía qualquer superioridade, e, tal como toda a extensão da costa desde o Douro ao Tejo, estava exposto aos ventos de oeste e à arrebentação do Atlântico.
Pouco depois da frota surgir no horizonte, enviaram-se carros para esta enseada para serem abastecidos de provisões, os quais permaneceram durante dois dias na praia, antes de qualquer barco ter podido aventurar-se até à costa. Por fim, o tempo tornou-se mais favorável, a arrebentação diminuiu, e o desembarque começou, mas não foi concluído sem riscos consideráveis e algumas perdas.
O rio da Maceira [Alcabrichel] dá o seu nome a esta enseada, e é aqui, quando está caudaloso pelas chuvas de inverno, que encontra uma passagem para o oceano. No Verão, mal se percebe a sua corrente, e como tem pouco caudal para passar através dos bancos de areia grossa que a arrebentação formou, termina numa pequena lagoa, e desaparece gradualmente na areia.
Os primeiros exemplos de habitações portuguesas encontram-se numa aldeola [Maceira] por onde passa a estrada, a qual se encontra a uma milha e meia do mar e à mesma distância do Vimeiro. Esta [última] aldeia, que fica directamente a leste da enseada, consiste em cerca de cem casas construídas sobre uma colina, numa região parcialmente cultivada, abundante de matas de pinheiros, das quais a resina da esteva e da murta formam a vegetação rasteira e proporcionam a fragrância mais agradável.

[Fonte da gravura e do texto: Sketches of the Country, Character and Costume in Portugal and Spain, made during the Campaign, and on the Route of the British Army in 1808 and 1809. Engraved and Coloured from the drawings by the Rev. William Bradford, A.B. of St. John's College, Oxford, Chaplain of Brigade to the Expedition. With incidental illustration, and appropriate descriptions of each subject, London, Printed by William Savage, 1809, p. 1. Existe uma outra edição, de 1810, que pode ser descarregada a partir daqui].


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Nota: 


* Por "tropas comandadas pelo Tenente-General Sir Harry Burrard" deve-se entender o corpo de John Moore. Como já trás referimos, Sir Harry Burrard tinha-se destacado da frota que transportava este corpo à altura do cabo Finisterra, chegando na noite de 20 de Agosto à enseada da Maceira ou praia do Porto Novo, embora só tivesse desembarcado na tarde seguinte. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

The oven on fire - or Boneys last Batch entirly spoiled!!!, caricatura de Isaac Cruikshank (24 Agosto de 1808)




O forno em chamas - ou a última fornada de Boney completamente estragada!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 24 Agosto de 1808.


A fim de representar as dificuldades que Napoleão começou a sentir perante o alastramento das revoltas anti-francesas na Península Ibérica, Isaac Cruikshank concebeu uma espécie de sequela duma das caricaturas mais conhecidas de James Gillray, na qual o Imperador era representado como um padeiro a fazer fornadas de monarcas*. Contudo, dois anos e meio depois da primeira ter sido executada, o cenário alterou-se. Napoleão aparece agora vergado, de braços no ar, surpreendido pelas labaredas que irromperam do forno da Espanha e Portugal (este último nome mal se deixa ver devido ao fogo). Da boca do forno, também tapada pelas chamas, surge a expressão Um povo unido jamais pode ser conquistado, enquanto nas labaredas aparecem outras inscrições, a saber (no sentido dos ponteiros do relógio): Legiões das Astúrias, Exército de Portugal, Biscaia, Exército catalão, Exército da Galiza, Exército andaluz, Exército de Castela Velha e Nova, Exército e frota britânicaExército da Extremadura, Leão, Exército de ValenciaMúrciaExército de Granada. Perante estas chamas, Napoleão largou a pá com a qual queria meter o seu irmão José Bonaparte dentro do forno. Desequilibrado e prestes a cair como já caiu o seu ceptro, José grita ao seu irmão: "Oh Nap, Nap! O que é isto! Em vez de me tornardes um Rei, apenas me enganastes"**. Significativamente, também já caída sobre o chão debaixo de José, encontra-se uma pá em cujo cabo está inscrito o nome do General francês DupontNapoleão, que usa um avental de padeiro por cima do seu uniforme militar, bem como um chapéu bicorne exageradamente grande, exclama: "Raios, serei dominado por estas malditas chamas patrióticas; pensava que não restava uma única, mas acho que há ali mais chamas do que as que podem ser extintas por todos os meios da França". 
Na direita da imagem aparece Tayllerand, representado como assistente de padeiro, de mangas arregaçadas e avental. Observando o cenário, declara ironicamente a Napoleão: "Ai Ai! Eu disse-vos que queimaríeis os dedos nessa fornada de bolo de gengibre. Mas não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um carcereiro, por isso toda a minha glória chegou ao fim". Tayllerand está encostado a um móvel que ostenta a inscrição Prisão do Estado, sobre o qual aparecem as cabeças de Carlos IV, da sua esposa, de Fernando VII e seus irmãos***

Outras digitalizações:

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

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Notas: 

* Aludimos à caricatura intitulada Tiddy-Doll, the great French-Gingerbread-Baker; drawing out a new Batch of Kings, publicada originalmente a 28 de Janeiro de 1806:



** " [...] Instead of a King you've only made me a Dup - ont", no original. Trata-se de um trocadilho difícil de traduzir, entre o nome do General Dupont (que fora derrotado na batalha de Bailén), e a palavra inglesa dupe, sinónimo dos termos "ingénuo", "crédulo", "incauto" (e por extensão, "otário", "tolo", "parvo"), e dos verbos "enganar, ludibriar, lograr, iludir", sendo que a expressão be the dupe of someone significa "deixar-se enganar por alguém", enquanto que make a dupe of someone, tem o sentido de "trapacear ou enganar alguém".

*** O autor da caricatura alude ao facto de Fernando VII, o seu irmão D. Carlos, o seu tio D. António e diversas outras personalidades da alta nobreza e do alto clero espanhol terem ido viver, depois das chamadas abdicações de Bayona (e durante os 5 anos seguintes), para o Château de Valençay, propriedade do próprio Tayllerand. (Carlos IV e a sua esposa, por outro lado, foram primeiro para Compiègne, depois para Marselha, e finalmente para a Itália, acabando ambos por morrer em Roma, com poucos dias de diferença, em Janeiro de 1819). 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Horrid Visions or Nappy Napp'd at Last, caricatura de Thomas Rowlandson (23 de Agosto de 1808)






Visões horríveis ou Napoleão apanhado finalmente desprevenido. 
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 23 de Agosto de 1808.



No centro da caricatura aparece Napoleão com o cabelo eriçado, fustigado pelos trovões britânicos e ameaçado por todos os lados. Espantado, exclama com preocupação: O que é tudo isto que vejo e ouço? Atrás de mim o trovão britânico e um furacão espanhol! Diante de mim a Águia austríaca saindo da sua gaiola, e o urso do norte despertando da sua letargia! Ao fundo está uma nuvem de males! E escuto os sapos coaxando nos pântanos holandeses. O que será de mim?




Pormenor representando o Rei José Bonaparte apanhado no meio do furacão espanhol.




Outra digitalização:




domingo, 21 de agosto de 2011

King Joes Retreat from Madrid, caricatura de Thomas Rowlandson (21 de Agosto de 1808)



A retirada do Rei Zé de Madrid.
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 21 de Agosto de 1808.


Esta sátira alude, como o título indica, à retirada do Rei José Bonaparte de Madrid, e é uma espécie de sequela da caricatura King Joes Reception at Madrid, publicada no mesmo dia e com o mesmo número de chapa, e desenhada e gravada pelos mesmos artistas. 
À esquerda da gravura, no topo duma "montanha", encontra-se um grupo de granadeiros e religiosos espanhóis que grita aos franceses Parem, ladrões! Parem ladrões! Roubaram a prata do Palácio!, ao mesmo tempo que dispara à queima-roupa sobre as suas costas. Os franceses, ao fundo, tentam trepar a "montanha" que está à direita, enquanto em primeiro plano vê-se José Bonaparte (que na fuga perde a coroa) e alguns oficiais franceses carregados com sacos de despojos, um dos quais cheio de prata. Cansado, José Bonaparte implora ao seu irmão para parar: Mano Nap - mano Nap! Porque não paras? Os filisteus estão a perseguir-nos! Napoleão,  dentro do coche que ascende a "montanha" da direita, responde-lhe: Não posso, mano Zé! Estou com muita pressa

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Brobdignags of Bayonne peeping over the Pyrenean Mountains at the Lilliputian Spanish Army, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Agosto de 1808)




Brobdingnagianos de Bayonne espreitando sobre as montanhas dos Pirenéus o exército liliputiano da Espanha.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Agosto de 1808



Isaac Cruikshank recorreu ao mundo imaginado por Jonathan Swift, na sua famosa obra Viagens de Gulliver, para representar nesta caricatura uma sátira sobre as primeiras derrotas de Napoleão na Espanha. 
Entre Brobdingnag, terra dos gigantes, "transportada" aqui para Bayonne (à direita) e os Pirenéus (ao centro) encontram-se dois gigantes, Napoleão e José Bonaparte, que observam com preocupação o cenário à esquerda, na Espanha-Liliput, em cujo horizonte se vêem várias bandeiras espanholas, arvoradas nos picos das montanhas. 
Depois de abandonarem o seu enorme acampamento, diversas linhas de infantaria espanhola perfeitamente formadas avançam sobre as tropas francesas, que lutam desordenadamente e começam a ser desbaratadas. No lado francês do campo da batalha (ver pormenor abaixo), vêem-se vários militares mortos, bem como um cavalo, em cuja sela aparecem as letras NB (iniciais de Napoleão Bonaparte e da expressão latina nota bene). Entre os que fogem precipitadamente, vê-se ainda um francês sem chapéu, que reza ajoelhado
Perante este cenário, Napoleão, com o chapéu depenado, exclama: Misericórdia de mim! Quem poderia ter pensado isto de um conjunto de tais liliputianos? Porque estão eles arruinando o nosso exército brobdingnagiano?! José Bonaparte, ostentando a coroa espanhola, replica ao seu irmão: Nap, digo-te que podes colocar também a minha coroa no teu bolso, para que não me surpreendam tais camaradas com rostos de assassinos.



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Outra digitalização: The British Museum

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego, segundo Henry L'Evêque







The landing of the british Army at Mondego Bay

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego


Nesta gravura, Henry L'Êveque representou o desembarque do exército britânico comandado por Wellesley em Lavos, na margem sul do Mondego, perto da Figueira da Foz (que se vê na outra margem). Deveu-se ao Capitão Pulteney Malcolm (comandante do Donegala boa execução do desembarque, que se prolongou durante os cinco primeiros dias de Agosto de 1808, devido sobretudo à arrebentação das ondas naquela parte da costa portuguesa, que dificultou as manobras. Como a gravura assinala, este exército recebeu logo a ajuda dos portugueses da zona, através do fornecimento de botes para o desembarque, cavalos, mulas e burros, carros de bois, e provisões diversas. 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Apotheosis of the Corsican-Phœnix, caricatura de James Gillray (2 de Agosto de 1808)



Fonte: British Museum


 Apoteose da Fénix-Corsa.
Caricatura de James Gillray, publicada a 2 de Agosto de 1808.



O sentido desta caricatura é explicado pelo seu subtítulo, que cita um trecho imaginário duma obra supostamente editada em 1808 e intitulada A Nova Enciclopédia Espanhola (The New Spanish Encyclopaedia): "Ao cansar-se de viver, a Fénix constrói um ninho sobre as montanhas, incendiando-o através do bater das suas asas e consumindo-se ela própria nas chamas! E do fumo das suas cinzas renasce uma nova Fénix para iluminar o Mundo!!!"
Napoleão é assim representado como a Fénix-corsa auto-imolando-se no topo duma escarpa das Montanhas dos Pirenéus, as quais estão envoltas por densas nuvens de fumo negro, como que aludindo às revoltas anti-francesas na Península Ibérica. O seu ninho é formado por mosquetes e baionetas, sobre as quais está um globo terrestre, em forma de ovo, com toda a Europa continental em chamas, bem como a Sicília e a Algéria. Com as asas já pegando fogo, a Fénix-corsa (adornada com um cordão de honra tricolor e um colar militar franjado com pequenos punhais) está prestes a sucumbir perante as chamas que a envolvem, tendo já saltado da sua cabeça a coroa e das suas garras o ceptro e o orbe (símbolos, respectivamente, do poder temporal e espiritual). Por cima do fumo provocado por esta combustão, surge uma pomba da paz, irradiando luz e com um ramo de oliveira no seu bico, podendo ler-se nas suas asas abertas a inscrição Paz sobre a Terra.


Outras digitalizações:



domingo, 31 de julho de 2011

The Ghosts of the Old Kings of Spain appearing to their Degenerate Posterity, caricatura atribuída a Charles Williams (Julho de 1808)




Os fantasmas dos velhos Reis da Espanha aparecendo à sua posteridade degenerada
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Julho de 1808.



Quatro fantasmas irados de antigos Reis da Espanha surgem no meio de fumo para condenar a família real espanhola. Um dos fantasmas, ao centro da gravura, vira-se para Carlos IV e declara-lhe: Desgraça dos vossos antepassados, tremereis pela vingança! O velho monarca, horrorizado, implora pela misericórdia do fantasma: Oh, não olheis com essa carranca para um pobre, miserável e velho rei. À esquerda da imagem, Fernando volta-se para o fantasma que está atrás de si, declarando-lhe, enquanto aponta um dedo acusador a Godoy:  Eis a causa da nossa desgraça. Contudo, o fantasma recorda a Fernando que também ele é responsável pelo destino da sua família: Relembrai que sois um Príncipe. Godoy, cujo chapéu está tombado no chão, enterra a sua cabeça no colo da rainha, como que buscando protecção, e do seu bolso caem papéis da Correspondência entre Godoy e Bonaparte e outros Para o Príncipe [da] Paz. Incapaz de assistir à horrífica cena, a própria rainha tapa a cara. Napoleão, no lado direito da gravura, é indiferente às aparições. Com um sorriso no rosto, remove a coroa de Carlos IV, e declara-lhe: Não vos alarmeis, meu bom amigo, tomarei conta da vossa Coroa, a qual não poderia estar em melhores mãos; penso que servirá no mano Zézinho. Vendo isto, John Bull, atrás de Napoleão, ordena-lhe que pare: Parai, meu pequeno senhor. Vereis que aí está uma pessoa chamada Fernando; essa coroa servir-lhe-á muito melhor do que em Zézinho



Outras digitalizações:

British Museum (a cores).

British Museum (a preto e branco).

Brown University Library (a preto e branco).