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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Carta de Junot a Lagarde (19 de Agosto de 1808)


Torres Vedras, 19 de Agosto de 1808


Senhor Intendente Geral da Polícia:


Um corpo de dois mil homens do General Laborde teve antes de ontem uma acção com o Exército inglês. Esta acção durou cinco horas, sem que as minhas tropas recuassem um passo. De tarde, e durante a noite, o General Laborde veio tomar uma posição conforme eu lhe havia ordenado, para nos pudermos juntar. Com efeito, nós nos unimos ontem à noite. O inimigo está em aperto. Amanhã o hei de atacar, e espero que lhe saberemos fazer ver quanto nós podemos.
Aí haverá sem dúvida mil boatos ridículos; não deis crédito, porém, senão ao que eu vos escrever. Alguns prisioneiros feitos esta manhã me asseguraram que o 6.º e 29.º Regimentos ingleses foram destruídos; o Coronel deste último Regimento foi morto, assim como uma grande parte dos seus Oficiais. O Major e seis Oficiais foram aprisionados.
Tenho a honra de vos saudar.

O Duque de Abrantes


[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 31, 24 de Agosto de 1808].

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Agosto de 1808)



Lisboa, 17 de Agosto 


Ontem, pelas 5 horas da manhã, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes partiu para o seu Exército, a fim de certificar-se pessoalmente do que vem a ser esse desembarque de ingleses efectuado na Figueira, e que ainda não se adiantou, sem embargo de se dar aí por feito há mais de 15 dias.
Sua Excelência não estará por muito tempo ausente, segundo todas as aparências; porque parece estar no intento de colocar-se de sorte que possa ficar repartido entre a capital e o Exército, já para ter mão em tudo, por uma parte; já para dirigir tudo, pela outra, com a sua presença. É pois de esperar que dentro de poucos dias tornemos a ver aqui o General em Chefe.
Já se receberam, duas vezes, notícias de Vila Franca e de outras partes mais para lá; Sua Excelência ficou mui satisfeito do excelente espírito dum Exército tantas vezes vitorioso e que só mostra um ardente desejo de combater com inimigos que, de 15 anos a esta parte, não tem posto pé no Continente sem nele encontrar algum desastre.
Continua reinar a maior quietação em Lisboa, onde ficou uma guarnição francesa bem respeitável, com precauções mui adequadas às circunstâncias. 
Sua Excelência, ao tempo da sua partida, mandou publicar e espalhar por toda a parte as duas peças seguintes:


Precedentemente se tinha aqui publicado a carta seguinte:



[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 3, 17 de Agosto de 1808].

domingo, 14 de agosto de 2011

Carta do Juiz Vereador do Alandroal para Lagarde, sobre o restabelecimento da tranquilidade naquela zona do Alentejo (14 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conselheiro do Governo e Intendente Geral da Polícia do Reino: 

Recebi seis ofícios de V.ª Ex.ª com algumas gazetas dos acontecimentos e notícias de Portugal e da Espanha, que tudo se achava demorado nos correios por causa da revolta do Alentejo. 
Agora não tenho a noticiar a V.ª Ex.ª senão que depois do acontecimento e exemplo da cidade de Évora estamos restituídos ao antigo sossego. 
Deus Guarde a V.ª Ex.ª 
Alandroal, 14 de Agosto de 1808 

O Juiz Vereador José António Paiva[?] 

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 175, doc. 32].

sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (6 de Agosto de 1808)



Lisboa, 6 de Agosto 


Não há coisa mais adequada para ilustrar os portugueses rebeldes sobre os resultados da sua monstruosa associação com os rebeldes espanhóis, que o medo com que estes se houveram em Évora.
Já os tratavam os espanhóis como futuros Vassalos, pois que a bandeira e a divisa de Fernando VII é que tremulava sobre as muralhas daquela cidade; os portugueses não estavam nisso mais que pelo sangue que vertiam a favor de senhores, logo ao princípio arrogantes; e que, depois de terem entrado na contenda, e me breve previsto o seu funesto êxito, fugiram a tempo com o seu Chefe Moretti; e não cuidaram mais que em salvar, à custa de seus supostos aliados, uma parte das suas tropas e algumas das suas peças de artilharia. Esta lição aproveitou à vila de Estremoz, de que tanto se blasonava há alguns dias como Quartel-General dos espanhóis e centro do pretendido governo! Os habitantes de Estremoz conheceram que não tinham outro recurso senão na clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe; e eles a invocaram por meio do Senhor General Loison, Conde do Império.
Portanto, a sua vila fica em sossego, restituída ao dever e à submissão; e a 2 deste mês passaram por ali, como por uma terra amiga, as nossas tropas, encaminhando-se na maior rapidez a outras vitórias.
Em Montemor[-o-Novo], os espanhóis é que, ao retirar-se, deram saque aos próprios habitantes, de quem não tinham recebido ofensa alguma. Em Arraiolos, cujos moradores ficaram sossegados, cometeram eles excessos quase semelhantes; e na própria cidade de Évora se deliberaram a outros muito mais atrozes, pois que espingardeavam eles mesmos os que não obedeciam aos seus caprichos.
No dia depois da batalha, se acharam cem dos ditos espanhóis escondidos em subterrâneos, e foram tratados como o mereciam.
O General Loison, por dar uma prova da consideração do Governo ao Clero, quando este procede bem e segue os princípios de paz do Evangelho, confiou a principal autoridade de Évora ao Senhor Arcebispo [Frei Manuel do Cenáculo], um dos Prelados os mais sábios e os mais distintos do Reino; e igualmente nomeou um Pároco em qualidade de Corregedor.

Para aperfeiçoar cada vez mais as nossas tropas em todo o género de exercícios militares em que tanto sobressaem já, ordenou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que houvesse exercícios de fogo que se executam, [desde] há vários dias a esta parte, no Campo de Ourique, à vista do Senhor General Delaborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno.
O dito espectáculo fez acudir um muito grande número de curiosos; Sua Excelência o General em Chefe o tem também honrado com a sua presença; e pessoalmente anunciou às tropas assim reunidas a nova que acabava de receber da vitória de Évora.

As folhas que aparecem em algumas das cidades rebeldes de Espanha estão cheias de imposturas, que um dos seus correspondentes se viu obrigado a escrever-lhes para convidá-las a que também inserissem nelas algumas verdades, a fim de que a multidão não percebesse tão depressa que se zombava dela; e que a iludiam para sacrificá-la e vendê-la em breve. Portanto, a vão dispondo pouco a pouco para saber que não está longe o instante em que será preciso depor as armas diante das colunas francesas que se avançam, e implorar a clemência do Rei legítimo, José Napoleão, cujo coração, tão cheio de bondade, não ficará fechado ao arrependimento daqueles que o tiverem momentaneamente desconhecido.
Vê-se, por exemplo, segundo as próprias folhas espanholas, que as tropas francesas chegam sucessivamente, e em grande número, ao norte da Espanha, pois que aqueles diários são constrangidos a reconhecer positivamente, em data de 6 de Julho, que a tomada de Santader pelas sobreditas tropas é indubitável; que há naquela cidade e em Torrelavega mais de 8 mil homens, que ameaçam as Astúrias; e que, a 25 daquele mês, deviam achar-se em Oviedo. O Bispo inutilmente se pôs na frente dos rebeldes; mais acostumado a dizer missa do que a dirigir tropas, conduziu as suas por uma parte diametralmente oposta àquela por onde se avançava o exército francês. 
Outro corpo se apoderou de Valladolid; e como achasse naquela cidade uma resistência criminosa, a puniu, como nós punimos Évora, e como parece que o General Dupont, pouco antes, tratara Córdoba, igualmente criminosa.
O Senhor Marechal Moncey, à testa de 12.000 homens de infantaria e duma quantidade proporcionada de cavalaria, se achava, a 2 de Julho, em Cuenca, e marchava sobre Valencia para atacar aquela cidade, e vingar a matança de 240 franceses, que ali se achavam estabelecidos havia muito tempo, e que foram indignamente assassinados por uma multidão furibunda, à voz de um cónego de Santo Isidoro de Madrid, por nome Baltasar Calvo; os próprios cúmplices daquele monstro, espantados dos seus crimes, acabaram por lançá-los ao mar. Na cidadela onde eles se achavam detidos é que um Sacerdote fizera tirar a vida àqueles infelizes!
O General Dupont, a quem as mesmas folhas espanholas, depois de o terem dado por morto, são obrigadas a fazer reviver, segundo elas dizem, se achava ainda a 15 de Julho nas margens do Guadalquivir, para a parte de Andújar; e uma prova de não ter ele padecido revés algum é que nessa época se esperava que houvesse uma importante batalha entre eles e os rebeldes, capitaneados por mrs. Coupigny e Reding.
Os rebeldes de Badajoz vão a achar-se em breve desconcertados, pelo muito que confiavam numa aliança que pretendiam ter feito com a província do Alentejo, representada por alguns facciosos de Évora que tinham prometido morrer por eles, e que talvez haverão estimado mais viver e fugir.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 30, 6 de Agosto de 1808].

sábado, 30 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (30 de Julho de 1808)



Lisboa, 30 de Julho

Até aqui não se pôde haver notícia dos primeiros golpes descarregados pelo numeroso corpo de exército que partiu de Lisboa e seus arredores para ir destruir a cabeça da rebelião em Portugal. Só nos dá cuidado um objecto, qual é que os verdadeiros rebeldes e os seus chefes não se atrevem nem sequer a esperar as sobreditas tropas para com elas se arrostarem; e que não lhes deixam que punir mais que os indivíduos por eles seduzidos, em cujo número há alguns que por causa do vergonhoso medo que os tornou culpados, são talvez ainda mais dignos de compaixão que da cólera dos vencedores da Europa.
Desgraçados daqueles porém que persistirem no seu delírio à chegada dos seus libertadores, e que se abalançarem a fazer uso das suas armas contra os que vão a despedaçar o jugo ignominioso a que estão submetidos por alguns pequenos corpos de espanhóis! Para com esses é que não haverá indulgência nem perdão.

Um espia-aliciador e portador de proclamações sediciosas e de convites para a revolta foi preso, os dias passados, em Setúbal, com os documentos de convicção que se lhe acharam; foi conduzido ante uma Comissão Militar, a 28 deste mês, e condenado a ser espingardeado. No mesmo dia padeceu ele a execução da sua sentença*.

Lembrou-se a malevolência de fazer circular os mais falsos boatos a respeito de Abrantes e da sua posição. Por cartas porém do Corregedor mor da Estremadura e do Juiz de Fora Bivar, escritas da própria vila de Abrantes a 26 deste mês, se confirma que tudo tem ali sempre estado e está em perfeito sossego. Os habitantes, ensoberbecidos de ver que o nome da sua vila é o de que usa e a que dá honra um dos mais ilustres guerreiros do Império francês, jamais tem pensado em afastar-se dos seus deveres, apesar das insinuações de alguns mal intencionados que se acham presos, com grande satisfação dos mesmos habitantes.
O General Charcot ficava em Abrantes com um corpo de tropas bem capaz de infundir ali respeito.

O corpo do General Dupont, que os novelistas de Sevilha e os seus ecos tantas vezes deram por aniquilado, nem por isso deixa de ficar intacto, fazendo face por todos os lados como uma coluna inacessível. Deve ele agora haver-se unido com uma divisão comandada pelo Marechal Moncey, e que se enviou pelas costas para a parte meridional da Espanha, a fim de restabelecer aí a ordem e a submissão à autoridade legítima. Segundo as cartas de Madrid, o corpo que dali partira com o dito Marechal era de 16 a 18 mil homens.

Parece que a desconfiança continua a fazer progressos nas Juntas revolucionárias; e que a multidão, que acaba sempre por ser iludida em tais circunstâncias e sacrificada às especulações de alguns ambiciosos, espera ver-se brevemente abandonada por alguns dos seus chefes militares e civis. Tem ela já grandes suspeitas de que vários dentre eles  vão negociando clandestinamente, para contarem decerto com um futuro político.
A fim de que a canalha possa capacitar-se daquelas mudanças mui naturais que ela divisa, sem que se descubra os seus verdadeiros motivos, dizem-lhe, nas próprias folhas de Espanha, que chegaram de Bayonne 20 milhões de pesetas para comprar os seus Generais e para que eles se deixem bater; fábula absurda, destinada para consolar de antemão a vaidade do povo dos reveses que os rebeldes do norte têm já experimentado e que em breve recairão igualmente sobre os mais.
A verdade é que a gente sensata de Espanha, ainda mesmo entre os rebeldes, reconhece que não se deve já pensar no Príncipe das Astúrias, pois que seria necessário ir buscá-lo à própria cidade de Paris, jornada algum tanto extensa e bastantemente laboriosa para cidadãos mal armados e camponeses com lanças. Portanto, falam uns de um Príncipe da extinta Casa de Nápoles; outros do Cardeal Borbón, autómato ambulante bem como o resto da sua família; e outros finalmente até chegam a representar na fantasia o Arquiduque Carlos! Cada um declara o seu candidato e a sua quimera: prova evidente de que estão em vésperas de não se entenderem uns aos outros! E modo adequado de indicar ao povo que, concitando-o até aqui em nome de um pretendido Fernando VII, se tem feito dele zombaria; que é tempo de que o povo abra os olhos; e que para evitar toda a casta de flagelos deve dirigir a sua atenção e homenagem ao único Rei que possa salvar a Monarquia espanhola e reuni-la à unidade; àquele José Napoleão, cuja extrema bondade e virtudes foram destinadas pela Providência e pelo GRANDE NAPOLEÃO, seu augusto irmão, para fechar as chagas da Espanha e deter as torrentes de sangue que, a não ser ele, deverão inundar aquele belo Reino.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 30 de Julho de 1808].


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Nota: 

 Tratava-se de "Custódio Dias da Costa, solteiro, filho de José Dias da Costa e de Maria da Costa, natural de S. Martinho de Rogado, bispado do porto, desertor de um dos Regimentos da Corte, o qual se prendeu em Setúbal, de ordem do General Graindorge, por uma escolta de franceses, e conduzido à cadeia no dia 28 de Julho de 1808, e nesse mesmo dia conhecido à pressa o delito de conduzir cartas insidiosas e sentenciado, o levaram ao cais novo, onde o fuzilaram. Confessou-o e assistiu-lhe espiritualmente o padre Carlos. [Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., p. 349].

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (27 de Julho de 1808)



Lisboa, 27 de Julho. 


A revista geral que, como fica anunciado, se efectuou Sábado passado, ofereceu um belíssimo espectáculo e fez acudir uma imensa multidão de gente. Nunca se viram melhores tropas; nem, entre elas, um ardor mais impaciente para ir dar cabo dos rebeldes que se julgam muito seguros entre alguns bandos de espanhóis, reunidos ao acaso, e a quem se vai a fazer pronta justiça! 
A sobredita revista durou desde as 5 até às 8 horas da tarde. A infantaria, a cavalaria, a artilharia e os artilheiros cobriam as imensas Praças do Comércio e [do] Rossio, as ruas Augusta e dos Ourives d'Ouro e da Prata, e várias outras contíguas. 
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército, foi acolhido pelas tropas, assim como o costuma ser, logo que se apresenta entre soldados, em quem parece que vê outros tantos filhos seus: estava no seu brilhante traje de Coronel-General dos Hussardos de França, trazendo por cima a sua banda encarnada de que pendia a grande águia da Legião de Honra. 
Sua Excelência levava adiante os seus Ajudantes de Campo, também vestidos como Hussardos, e atrás um grande número de oficiais Generais e superiores; entre outros, o General de Divisão de Laborde, Comandante superior de Lisboa e dos Fortes; e os Generais de Divisão Conde do império Loison, e Kellermann. 
Nenhuma das particularidades relativas à disciplina, vestuário e armamento das tropas, e ao essencial desta parte do seu exército, escapou à atenção do General em Chefe; parecia que tudo se fazia digno dos maiores elogios da parte de Sua Excelência, que se retirou tão satisfeito das suas tropas e do seu excelente espírito, quanto estas se mostram sempre sensíveis à sua bondade, à sua afabilidade e ao desvelo paternal que lhes dá a conhecer em toda a ocasião.

Constava, havia algum tempo, que os rebeldes e os seus partidistas tinham por uma coisa muito importante o tentar que efeito produziria no povo de Lisboa a repentina aparição dos diferentes sinais e emblemas que eles trazem nas partes levantadas das províncias. Era porém difícil achar algum tão temerário que consentisse numa tal tentativa, dentro da própria capital, e quase à vista do exército francês. 
Finalmente, os agentes dos rebeldes encontraram, para a parte de Belém, um indivíduo que, movido pelo dinheiro, pelo fanatismo e também por uma espécie de extravagância habitual, que nem por isso deixa de ser menos perigosa, se aventurou, Domingo passado [24 de Julho], a oferecer-se para exibir um tal espectáculo. 
Debalde lhe representaram no seu bairro várias pessoas do seu conhecimento que arriscaria a sua vida pelo inútil projecto de servir os inimigos internos e externos de Portugal; ele porém estava persuadido de que ia impunemente ganhar o seu dinheiro e sublevar o povo. 
No Domingo pela manhã, à hora que os fiéis acodem às igrejas, o tal sujeito, por nome Manuel José, de idade de 28 anos, correio que fora do ex-ministro Araújo, e que residia em Lisboa havia muito tempo, se bem que era de origem castelhana por bastardia, se pôs em trajo de rebelde, com as cruzes, cores e cocar de seu uso, à porta de uma das principais igrejas de Lisboa, e decorreu sucessivamente várias outras. 
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes foi logo informado desta criminosa provocação à rebelião.
O dito Manuel José foi imediatamente preso e interrogado com toda a diligência: confessou ele tudo o que lhe era pessoal; mas obstinou-se em calar os nomes do que lhe haviam pago para ser seu precursor. 
Teve pois sentença de ser logo espingardeado. Conseguintemente, a execução se fez, naquele mesmo dia, na Praça do Comércio, aonde o réu foi conduzido, com a assistência de um confessor, seguindo-o uma numerosa multidão de gente que reconhecia a justiça de um acto de severidade necessário para dissuadir os cúmplices dos rebeldes de toda a trama contra a tranquilidade de Lisboa. 

Estes dias passados partiu daqui um grande número de tropas para uma expedição cujos resultados não tardarão em ressoar por Portugal, e em dar a conhecer aos rebeldes o partido que há em fazer frente a soldados vencedores da Europa, se se ousar esperá-los! A execução destas operações, delineadas por Sua Excelência o General em Chefe, foi por ele confiada ao Senhor General de Divisão Loison, que leva às suas ordens os Generais de Brigada Margaron e Solignac. 

Alguns velhacos se lembraram, há dias, de dirigir a prelados de conventos e a negociantes supostas requisições de dinheiro, disfarçadas com motivos respeitáveis, em nome de diversas autoridades e especialmente do senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino [Lagarde]. A falsificação das assinaturas e dos selos era tão grosseira que ninguém com ela se podia enganar. Contudo, para evitar toda a surpresa deste género, estamos autorizados para declarar que nenhuma soma de dinheiro se pode levantar [a] menos que seja pelo Secretário de Estado das Finanças [Hermann], na forma ordinária; por efeito de leis anteriores ou dum decreto do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes. Portanto, a ordem formal de Sua Excelência é que aqueles que receberem clandestinamente avisos para o fornecimento de fundos sem autorização como fica dito, façam logo prender os portadores, e os enviem à Intendência Geral da Polícia com os originais dos documentos que lhes forem dados para sua segurança, a fim de verificar a letra, e facilitar deste modo os meios de fazer com que sejam presos os falsários. 
Aqueles que, nesta espécie de casos, deixarem de conformar-se às referidas disposições, a si deverão imputar os laços em que caírem e o vão desassossego que se procurar inspirar-lhes com desatinadas ameaças e ridículas imposturas. 

É de notar, de algum tempo a esta parte, que o Teatro de S. Carlos multiplica os seus esforços por merecer a alta protecção que o sustém e extrair a afluência do público. As óperas e as danças novas se sucedem com rapidez e vão entressachá-las, de sorte que deixam removida a monotonia que produz a repetição diária dos mesmos dramas. A ópera séria e a ópera burlesca se representam aí alternadamente, com a música dos melhores mestres. 
Hoje, Quarta-feira, se torna a representar uma grande ópera nova intitulada Il Credolo [de Domenico Cimarosa], com a dança La Contadina Astuta [de Giovanni Battista Pergolesi], na qual executará o principal papel [a] Madame [Eufemia] Eckart Neri, de quem estivera a ponto de ficar privado o sobredito teatro, e cujo talento, apreciável ao público, se reproduz aí, em cada ocasião, com grande lustre. 

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 29, 27 de Julho de 1808].

sábado, 23 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (23 de Julho de 1808)



Lisboa, 23 de Julho


O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes deve hoje, Sábado, pelas 5 horas da tarde, passar uma revista geral às tropas que se acham nesta capital.
Esta revista se fará na Praça do Comércio, aonde as sobreditas tropas se acharão postadas, como igualmente nas praças e ruas vizinhas.

As circunstâncias actuais dão motivo para de novo observar até que ponto chegam o fanatismo e o espírito de partido a alucinar os entendimentos os mais perspicazes, em certas épocas que parecem destinadas pela Providência para punir as nações pelas culpas acumuladas dos seus Governos. Portugal gozava de paz e tranquilidade, apesar da fugida dos seus antigos Príncipes.
Apenas se divisavam mudanças efectuadas, tão suave e moderada era a lei de um vencedor amigo do país, e tal era o respeito com que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes considerava até as instituições antigas, só a fim de remover o partido arriscado de toda a revolução. De repente, porém, se lembram alguns assalariados ingleses e alguns clérigos e frades tão inimigos de Deus como dos homens, de excitar o fogo da discórdia e da rebelião em algumas províncias, chamando a estas o saque e o incêndio em castigo dos mais graves excessos; e, à sua voz pérfida, a multidão se subleva contra a vontade da gente de bem e das pessoas ilustradas, por estarem na persuasão de que estas vãs e criminosas agitações só podiam servir para trazer sobre elas todas os desastres. Por que razão essas pessoas, em vez de se deixaram oprimir e arrastar por força a uma tão perigosa cumplicidade, não se reúnem, como se fez em Tomar, para implorar a bondade e a clemência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, o qual, ainda ao tempo de descarregar o golpe sobre os mais criminosos, só procurará perdoar às vítimas das suas seduções e enganos?
Como é possível que Portugal, a não querer ir meter-se debaixo do jugo espanhol, que os seus antepassados suportaram com tanto horror, se não envergonhe do indigno modo com que algumas partes das suas fronteiras são tratadas por corpos pouco numerosos de contrabandistas espanhóis, que vêm a ditar nessas partes impunemente a lei, arrebatando daí os seus melhores Magistrados e levando-os presos para Espanha? Porventura é desta sorte que Portugal espera mostrar-se digno de ser ainda uma nação, ou uma simples província tributária e sujeita à Espanha?
A Espanha, sempre ciosa de Portugal e cheia de um ardente desejo de reconquistá-lo, viu com inveja os direitos que este país adquiria, pela sua prudência, à bondade de Sua Majestade o Imperador e Rei; e logo fez cair sobre ele os males que a devoravam, para envenenar o presente e comprometer as esperanças de independência, de prosperidade e de glória que o mui poderoso Árbitro da Europa lhe assegurara num futuro próximo! Portugueses, é ainda tempo de vos deterdes na borda do abismo a que vos impelem os espanhóis, vossos eternos inimigos, fingindo fazer convosco causa comum, a fim de subjugar-vos para sempre; é ainda tempo de merecerdes ser felizes, tornando prontamente ao vosso dever, e imitando o exemplo de submissão e de tranquilidade que vos oferece a vossa capital.

A 20 do corrente voltou a Lisboa o Senhor General Loison, Conde do Império, com o corpo numeroso de tropas que consigo levara. A sua chegada fez acudir um grande número de espectadores, entre os quais havia vários que, acalentados com os contos ridículos que a malignidade e a inconsideração obstinadamente divulgaram sobre a suposta prisão do dito General, mal podiam crer que o viam com os seus próprios olhos. O povo de Lisboa foi induzido a ajuizar assim o quão pouca confiança merecem todas aquelas exagerações e fábulas absurdas por onde se procuram agitar os ânimos, a fim de incitar os habitantes a movimentos cujo primeiro e infalível resultado seria a ruína desta capital, que deve a sua quietação às firmes e sábias disposições de Sua Excelência o General em Chefe.

[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 23 de Julho de 1808].

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (20 de Julho de 1808)



Lisboa, 20 de Julho


Anunciam diversas cartas de Badajoz e seus arredores que era ali mui vivo o desassossego entre os chefes dos rebeldes, por terem recebido de Madrid a notícia de que um corpo de tropas francesas se adiantava para aquela vila, a fim de dar auxílio ao exército de Portugal. Este boato, apesar do cuidado com que se procurava encobri-lo, transpirou entre o povo, o qual clamava já que se via cercado e entre dois fogos, o que não pode deixar de acontecer-lhe, mais cedo ou mais tarde. Algumas pessoas chegavam a dizer que o dito corpo se tinha já avistado nos contornos de Trujillo. 

Alguns indivíduos, em violação do decreto do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes em data de 5 de Abril, persistiam em manter comunicação com a esquadra inglesa; e outros, em levar-lhe mantimentos. Por vezes se lhes advertiu, com ameaça, que pusessem termo a um tráfico tão criminoso e tão arriscado, a não quererem expor-se às penas as mais severas; prevaleceu porém o engodo de um lucro miserável. Conseguintemente, 4 dos ditos indivíduos foram presos na Trafaria, ao tempo que voltavam; e não puderam negar o seu delito. Outros indivíduos do mesmo género existem na outra margem do Tejo; mas são conhecidos, e sobre eles se vigia, de maneira que tampouco poderão escapar, se continuarem a proceder assim. Em breve se deve decidir, de um modo exemplar, a sorte dos que já estão presos.

Como é melhor atalhar o mal que puni-lo, cumpre dar a saber aos inventores de fábulas absurdas e aos distribuidores de notícias extravagantes que algumas das lojas de bebidas que lhes serviam de ponto de reunião se mandaram fechar, os dias passados, por não haverem [os] seus donos tido a resolução nem de fazê-los calar nas conversações em que ali entravam, nem de ir denunciá-los à polícia, segundo a ordem que para isso tinham, e como o fazem prudentemente vários outros.
Também foram chamados alguns dos que espalham imposturas nas sociedades e nos lugares públicos, uns para serem admoestados severamente, e outros para estarem alguns dias reclusos nos cárceres da Inquisição que foi, a fim de aprenderem ali a haver-se com mais reserva tanto nas conversações como nas suas correspondências com os países inimigos ou revoltados.
Ninguém por certo deve ser responsável pelo conteúdo das cartas que recebe, ainda quando cheguem por vias clandestinas, se bem que então se fazem naturalmente suspeitas. Pode-se porém evadir este inconveniente com facilidade, e ficar livre de toda a exprobração, indo sinceramente comunicar à Autoridade competente as cartas que chegam, ou seja de países inimigos ou de partes momentaneamente revoltadas, quando anunciam alguma coisa que interesse o Governo.

Era de notar, havia já algum tempo, que as bandeiras ou estandartes postos nesta cidade às portas de certas tavernas, estanques ou lojas de bebidas, se multiplicavam mais que de costume; e que em algumas partes se variavam as cores destas insígnias de um modo tão equívoco que podia indicar lugares de maus ajuntamentos ou ainda de prostituição.
Portanto, os Corregedores e Juízes do Crime dos 13 bairros de Lisboa foram encarregados de mandar logo tirar os ditos estandartes, que são pelo menos inúteis, pois que as inscrições pintadas e escritas sobre as portas das lojas para designar o seu objecto bastam em todos os países. Aqueles que, 48 horas depois da ordem do Comissário do bairro, não tiverem feito desaparecer as ditas insígnias de que a malevolência poderia tirar partido para convocar os seus cúmplices, serão punidos: a primeira vez por uma multa, e a segunda, mandando-se fechar a casa onde se tiver cometido a contravenção.

Por uma Ordenança de Polícia publicada com data de 9 de Abril [...] passado, se tinha proibido que se deixasse vagar pelas ruas ou praças públicas boi ou vaca alguma que não fosse conduzida seguramente, de sorte que ficasse atalhado todo o desastre. Por 2 dias sucessivos, porém, escaparam e se introduziram nas ruas algumas vacas bravas que, decorrendo a praça do Rossio, fizeram com que corresse risco a seguridade dos pacíficos cidadãos que por ali passeavam. Uma delas até feriu perigosamente um indivíduo. Portanto foi apanhada de ordem do Senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino; entregue aos soldados franceses e portugueses dos dois postos que concorreram para ter mão nela, e vendida logo por eles em seu benefício.
É de esperar que este exemplo, que não será o único, se as mesmas contravenções se renovarem, coíba aqueles que estão no hábito de deixar o seu gado andar errante pelas ruas de Lisboa.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 28, 20 de Julho de 1808].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (18 de Julho de 1808)



Lisboa, 18 de Julho


Havendo muitos mancebos que se acham em Lisboa pedido ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que lhes permitisse armar-se, equipar-se à sua custa e servir junto da sua pessoa como voluntários de ordens, anuiu Sua Excelência ao seu pedimento. Portanto, o dito corpo, comandado por mr. Bastia, militar que fora, se apresentou já a Sua Excelência, por quem foi acolhido dum modo muito afável e benigno.
O General em Chefe lhe prometeu fornecer-lhe ocasião de distinguir-se, combatendo, se o caso o pedisse, a seu lado contra todos e quaisquer inimigos de Sua Majestade o Imperador e Rei.

O corpo de tropas que se expedira para varrer a costa desde Peniche até acima de Leiria não pôde achar aí nem inimigos que combater, nem rebeldes que punir; o que tão somente se encontrou foram alguns indivíduos semelhantes que se atreveram a esperar no forte da Nazaré, à roda do qual se dissera que se tinha efectuado um desembarque, que nunca existiu. Aquele forte foi tomado num instante, ficando prisioneiro o pequeno número dos que nele se achavam. Os ingleses, na persuasão de que os indivíduos que seduzem para conduzi-los à morte estavam nessas paragens em grande número, puseram ali em terra poucos dias antes alguns morteiros e obuses duma forma particular, os quais não deixarão de nos ser úteis; deles nos apoderámos, em vez de deixá-los ir à sua destinação.

Lisboa continua a gozar duma grande tranquilidade, apesar do vão terror que certos indivíduos, que se conhecem e sobre os quais se vigia de perto, procuram espalhar; e apesar das exagerações que a malevolência divulga ou que a inadvertida crueldade adopta cegamente sobre a entrada de alguns pequenos corpos de paisanos espanhóis em algumas partes das fronteiras. Sem dúvida é esse um mal momentâneo a que certas combinações de uma ordem superior não permitem dar remédio tão prontamente como se desejara, porque convém esperar que se desenvolva um plano geral ditado pela mais profunda sabedoria. Que são porém algumas partidas espanholas contra um exército tal como o do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, pronto a esmagá-las a elas e aos seus cúmplices, quando menos o esperarem? Como é possível que se deixe de ver por outra parte que esses espanhóis, afora qualquer outra causa coactiva, terão de voltar precipitadamente à sua pátria, à medida que as tropas francesas, que se vão adiantando, submeterem o interior do seu país, assim como já têm submetido o norte e a capital do mesmo; e que então, ao mais tardar, abandonarão aqueles dos portugueses que tiverem desatinadamente abraçado a sua causa à animosidade de um vencedor justamente irritado?
Para ajuizar do resultado dos acontecimentos actuais, não se deve fugir deste pensamento decisivo e bem próprio para conter na ordem e no dever todos os homens de razão: Que pode a Espanha, que poderiam até mesmo algumas províncias revoltadas de Portugal, quando, em vez de estarem sem chefes, sem concentração, sem interesses comuns, se vissem reunidas contra aquele gigante da França tantas vezes vitoriosa da Europa e dirigida pelo Grande NAPOLEÃO?

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 28, 18 de Julho de 1808].

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (14 de Julho de 1808)



Lisboa, 14 de Julho


Não há fábula absurda que não se tenha espalhado, de 15 dias a esta parte, a respeito do General Loison, que uns muitas vezes davam por morto, e outros, ao menos, por aprisionado. O ter ele porém voltado felizmente, com um corpo considerável, desconcerta a malevolência e traz ao Exército um numeroso e útil reforço.
O Boletim do Exército contém as particularidades da sua marcha, que foi uma espécie de vitória contínua por entre milhares de dificuldades que ele teve de vencer.
Veio até Santarém; e aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira.

As notícias que diariamente se recebem do General Margaron continuam a ser muito boas. As suas últimas cartas eram de Tomar, onde tudo ficava restituído à boa ordem e à submissão, depois de um instante de desatino expiado pela expressão do mais vivo arrependimento. O dito General só cessou de bater os rebeldes por se haverem dispersado diante dele, sem que os tornassem a achar reunidos, desde que foram desbaratados em Leiria.

Tudo o que se tem espalhado, nestes últimos dias, a respeito de um suposto desembarque de ingleses ou de emigrados portugueses, da banda da Nazaré e nas costas vizinhas de Alcobaça, é falso e forjado. Naquela parte da praia sim apareceram uns cem meninos perdidos, destinados a lançar ali algumas armas e munições, a fim de aumentar a desordem e alimentar a revolta: tal é o eterno modo de proceder dos ingleses, que só subsistem pelas perturbações do continente, multiplicando neste as vítimas, para se salvarem a si mesmos. Prometem incessantemente socorros a todos aqueles que querem ajudar os seus projectos e os seus furores; mas não lhes mandam, em troca de algumas espingardas e de um pouco de ouro corruptor, senão a ruína e a morte! Como é possível, depois de tantos exemplos famosos da ilusão das suas promessas e do desastre da sua aliança, que eles possam ainda achar gente insensata que se deixe por eles extraviar e conduzir ao degoladouro? Como é possível que aqueles dos portugueses que eles procuram seduzir e arrancar à doce fruição da paz e do sossego, deixem de ver que serão por eles abandonados e traídos, assim como o serão sucessivamente todas as nações que caíram no absurdo de consentir em vender-lhes o seu sangue e a sua tranquilidade?
Enquanto ao mais, seria para desejar que os desembarques de que se tem falado da banda da Nazaré e Peniche se tivessem realizado; porquanto pela sábia previdência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe se achavam aí reunidas forças mui respeitáveis, ficando prontas a marchar para todos os pontos que se pudessem ver ameaçados, e a aniquilar todos aqueles que se tivessem apresentado. Se os ingleses quiserem abrir aos emigrados portugueses uma sepultura, assim como a abriram, há vários anos, aos emigrados franceses em Quiberon, o resultado será infalivelmente o mesmo; e as famílias deste país conhecerão enfim a quem devem atribuir as suas desgraças e as suas lágrimas.

De algum tempo a esta parte se tem feito estudo, sem que se saiba porque razão, de misturar o nome do General Gomes Freire com os dos rebeldes que se esforçam por trazer sobre o seu país os flagelos da guerra civil e de uma luta sobejamente desigual contra um ilustre General formado na escola do maior dos guerreiros antigos e modernos, e contra um exército acostumado a todos os sucessos e cheio do mais ardente desejo de renová-los. Nada por certo é mais ridículo; pois que, durante esse tempo, o Senhor Gomes Freire se achava doente e até prisioneiro dos espanhóis em Valladolid; e mui modernamente é que ele se viu libertado pelo mesmo corpo de tropas francesas que de todo bateu os espanhóis naquele sítio, e que entrou triunfante na cidade de Valladolid, para puni-la pela resistência que ela opusera momentaneamente. Desde então, o General Gomes Freire (atravessando a Biscaia, onde se tem mantido a paz) tem continuado o seu caminho para a França, onde foi unir-se às tropas portuguesas de que comanda uma parte. Estas particularidades se confirmam por alguns criados seus, que não havendo podido segui-lo, voltaram os dias passados a Lisboa.

Enquanto ao mais, o norte de Espanha se vai apaziguando, à medida que chegam aí as tropas francesas, as quais entram em grande número por todos os pontos dos Pirenéus; e são já senhoras assim de Segovia como de Zaragoza. Um corpo considerável, que se destina a receber ainda novos reforços do exército de Itália, se formou na Catalunha, a maior parte da qual nunca se agitou e reconhece o novo Governo.
Em Lisboa há cartas de Madrid até à data de 28 de Junho, as quais atestam que se haviam aí renovado, segundo o costume, as especulações comerciais; e que tudo ficava em sossego naquela vila, sem que houvesse ali movimento algum. Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, exercendo as funções de Lugar-Tenente do Reino, em novo do novo Rei José Napoleão, que se achava ainda em Bayonne, residia numa casa de campo nos arredores de Madrid, onde tinha o seu Quartel-General. O General Savari, um dos Ajudantes de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, exercia o lugar de Governador de Madrid.
Conforme todas as informações que recebemos, era já de notar, como tão facilmente se podia prever, que a discórdia se ia introduzindo nas Juntas revolucionárias; que elas começavam a obedecer com repugnância umas às outras; pois que efectivamente nenhuma tem autoridade legítima, e todas podem formar pretensões igualmente fundamentadas; que vários dos seus membros, convencidos pela sua própria experiência de que o império da multidão, além de ser calamitoso, só pode ter uma mui curta duração, pensavam em subtrair-se ao despotismo popular que os oprime a eles mesmos; e em ceder a sua influência ao novo Governo, capitulando com ele secretamente, e entregando-lhe até mesmo aqueles dos seus cúmplices que achavam ser menos perspicazes do que eles. Os camponeses, por outra parte, se queixavam de que os habitantes das cidades os iam arrancando às suas famílias e aos seus úteis e pacíficos trabalhos, ao tempo da colheita, para sujeitá-los aos seus caprichos, e fazê-los suportar fadigas, a que estes sabem muito bem esquivar-se com diversos pretextos. Portanto, os homens acostumados a calcular a marcha dos acontecimentos políticos têm por certo que as partes revoltadas da Espanha não tardarão em restabelecer-se por si mesmas daquele delírio de insurreição, abraçando, como a única tábua de salvamento em meio da anarquia que as devora, a centralidade do poder e a unidade do Governo Monárquico, que só pode assegurar-lhes o génio e o braço mui poderoso de Sua Majestade o Imperador e Rei NAPOLEÃO. Muitos de entre eles, até mesmo em Espanha, pensam que esta feliz mudança se efectuará talvez pela influência tão somente da razão pública e do interesse nacional bem entendido, sem esperar que o prescrevam a presença e a força dos exércitos franceses que se adiantam, e aos quais é nimiamente absurdo imaginar que poderia resistir a Espanha, sem Chefe, sem objecto, sem finanças, já dividida, já desmembrada; pois que aquelas mesmas tropas com que será invadida quando preciso for, tem tantas vezes vencido todas as Potências da Europa tão inutilmente coligadas contra o GRANDE NAPOLEÃO e contra a sua Grande Nação!

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A propaganda anti-francesa e a criação da Minerva Lusitana (11 de Julho de 1808)



A revolta dos povos peninsulares contra a ocupação francesa foi acompanhada de perto por uma enorme máquina propagandística de feição conservadora, patriota e anti-francesa. Depois dos acontecimentos de 2 de Maio em Madrid, e à medida que se iam formando Juntas governamentais nas províncias espanholas que não estavam controladas pelas forças de Napoleão, começava a ser produzida e impressa uma imensa quantidade deste tipo de escritos, entre os quais se encontravam várias proclamações dirigidas aos portugueses. Os levantamentos portugueses, indubitavelmente influenciados pelos espanhóis, não foram imunes a estas proclamações e a este tipo de propaganda, que logo foi imitada. Contudo, ao contrário da Espanha, Portugal contava com poucas imprensas, e como maioria das quais estava concentrada em Lisboa, seria somente depois da saída dos franceses da capital que esta propaganda começaria a ser imprensa em larga escala. Só para nos cingirmos aos periódicos (notando que a lista dos folhetos, panfletos e opúsculos é muito mais vasta), desde o referido mês de Setembro até ao fim desse ano de 1808, foram criados e impressos em Lisboa nada menos que quatro periódicos (que se somavam assim à Gazeta de Lisboa), a saber: Gazeta do RossioO Lagarde Português ou Gazeta para depois do JantarSemanário PatrióticoO Telégrafo Português ou Gazeta para depois  do Jantar
No entanto, antes disso, surgiram em Portugal (para além do Correio Brasiliense, impresso em Londres) outros dois periódicos (três, se contarmos com a Gazeta de Almada, que era manuscrita), a saber: O Leal Portuguez [sic], redigido por José Joaquim de Almeida Araújo Correia Lacerda, que se começou a imprimir a 6 de Julho de 1808, no Porto, na Tipografia de António Álvares Ribeiro, pouco depois de ali se ter formado a Junta Suprema de Governo; e a Minerva Lusitana, impressa na Real Universidade de Coimbra, cujo primeiro número data de 11 de Julho de 1808, ou seja, também poucos dias depois desta cidade se ter levantado. Ambos periódicos foram os primeiros a ser impressos nas respectivas cidades. 
Enquanto O Leal Portuguez foi fruto dos trabalhos da Junta Suprema do Porto, a Minerva Lusitana deveu-se à iniciativa do Governador de Coimbra, Manuel Pais de Aragão Trigoso, que também era vice-reitor da Universidade da mesma cidade (o reitor era D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra, que partira para a França para se juntar à chamada deputação portuguesa, donde somente regressaria em 1814), que nomeou para seu redactor José Bernardo de Vasconcelos Corte Real, e para seus ajudantes Joaquim Navarro de Andrade e Fr. Luís do Coração de Maria [Cf. Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891pp. 135-136 e pp. 174].
Publicamos abaixo o primeiro número da Minerva Lusitana, complementado com uma parte do segundo, para não se cortar um Discurso sobre a origem e progressos da actual Revolução de Portugal


 


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (8 de Julho de 1808)


Lisboa, 8 de Julho

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, acompanhado do seu Estado-Maior e do General de Laborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno, visitou ontem o castelo, os diferentes parques de artilharia, o arsenal, os quartéis e os estabelecimentos militares nesta capital. Sua Excelência, sem embargo de não ser esperado, achou tudo na melhor ordem; e só teve que dar louvor àqueles que precedentemente incumbira dos trabalhos e disposições relativas às circunstâncias, dando em especial indícios de aplaudir os aditamentos feitos às fortificações do castelo, exprimindo ao mesmo tempo assim o voto como a esperança de não ter que servir-se disso, porque a cidade de Lisboa, onde se acaba de completar o desarmamento com o melhor sucesso, nunca esteve mais tranquila, nem mais longe de toda a ideia de agitação e de movimento.
Nos postos militares que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes sucessivamente decorreu, por espaço de várias horas, foi acolhido, tanto pelo oficiais como pelos soldados, com aquele entusiasmo que tão bem justificam as gloriosas memórias que o rodeiam, e com aquela ingénua afeição e cordial confiança que seriam um penhor seguro da vitória, se alguns inimigos quaisquer que fossem reduzissem um exército numeroso, aguerrido e contente da sua sorte, à necessidade de pelejar e de vencer.

[seguiam-se os boletins n.º 1n.º 2 e n.º 3 do exército francês em Portugal]

Havendo-se manifestado em Tomar um princípio de insurreição, os frades e a mais vil canalha foram os únicos que tomaram parte nesta revolta. Os habitantes honrados daquela vila porém se deram pressa a dirigir ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes a carta seguinte:  


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 
Motins populares excitados pelo fanatismo, que em todos os tempos se tem servido da ignorância para os seus malvados fins, obrigaram a nobreza e povo de Tomar a fazerem actos contrários ao governo estabelecido por Sua Majestade Imperial e Real. Mas actos feitos por força são nulos; e logo que cessa a força, há obrigação de assim o declarar. Isto é o que fazemos, suplicando a clemência de Vossa Excelência para com aqueles que foram alucinados com opiniões falsas, segundo as determinações de Vossa Excelência, pois que os que foram forçados diante da justiça de Vossa Excelência estão livres; e se do agrado de Vossa Excelência for que a este respeito e para instrução do povo se afixe alguma proclamação, fá-lo-emos em cumprimento das ordens de Vossa Excelência, de quem temos a honra e glória de ser, etc.
Súbditos reverentes,
Fr. Teotónio Cláudio da Costa Pereira, Ouvidor Eclesiástico – O Padre José Antunes da Silva – O Beneficiado Fr. Miguel Eduardo Azevedo Sampaio – O Padre Joaquim Roberto da Silva – O Padre Francisco Delgado da Gama – O Padre João Freire Gameiro – O Provedor da Comarca, Bartolomeu de Faria Pimentel Cabral Maldonado – Custódio Jacome Raimundo de Moura – O Vereador segundo, que serve de Juiz de Fora, Gaspar de Seixas da Costa Nogueira de Velasco – Francisco Valentim de Castro Araújo – José António Ferreira dos Reis – Manuel de Sousa Fernandes – António Pedro da Maia – Silvério António da Graça e Silva – Feliciano Lopes dos Santos – José Urbano da Costa – António Joaquim de Moraes Albuquerque – José Teixeira Madureira – José Lopes Canhaos – Tomé da Silva – O Juiz do Povo, em nome do mesmo, António de Évora
Sua Excelência ordenou ao General [Margaron] que marcha para Tomar, que distinguisse aquela vila da cidade de Leiria, que quis persistir no seu criminoso delírio, e que por isso recebeu o castigo merecido, como igualmente Beja e Vila Viçosa. A mesma sorte está reservada a todas as povoações que ousarem revoltar-se.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 8 de Julho de 1808].

terça-feira, 5 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (5 de Julho de 1808)



Lisboa, 5 de Julho


Nas circunstâncias actuais, é talvez útil trazer à lembrança dos portugueses que as promessas de felicidade e de governo separado, que Sua Majestade o Imperador e Rei se dignou de fazer-lhes por meio da Deputação, são condicionais: a sorte dos portugueses estava nas suas mãos, dizia a Memória; e a eles é que competia provar pelas suas acções que eram ainda dignos de formar uma nação independente e de ter um Rei, em vez de virem a ser uma simples província de outro Estado vizinho.
Por felicidade, o movimento de desvario, que por alguns dias parecia haver-se apoderado de uma parte de Portugal, parece que vai serenando e tomando uma face pacífica; pois de outra sorte mal conviria nem seria próprio representar este país a Sua Majestade o Imperador e Rei como digno dos altos destinos que a sua bondade tem feito brilhar à vista dos seus olhos. Os que têm pegado em armas contra as tropas francesas se assemelham inteiramente a um bando de escravos que querem agrilhoar-se pelas suas próprias mãos, e que correm deliberadamente, com a impaciência da servidão, para um jugo por largo tempo detestado, e que os seus antepassados tanto se ensoberbeciam de ter conseguido sacudir!
O sublevar-se hoje o povo em Portugal é proclamar o voto de cessar de ser português, para vir a ser vassalo espanhol.
Nada haveria de mais incompreensível que esta confusão de todo o cálculo político; por efeito do qual indivíduos de duas nações tão interessadas em aborrecer-se se entregariam com igual furor a uma revolta que deve ser igualmente fatal para ambas; mas cujo bom êxito, a poder-se sequer sonhar, prenderia uma com as cadeias da outra!
Outra extravagância da posição actual é ver duas nações que se pretende tornar fanáticas em nome de Príncipes que elas nem sequer têm à sua testa, e que debalde chamariam de tão longe e por entre tantos obstáculos.
Que desatino, portugueses, não seria o procurardes revoltar-vos contra o Imperador, hoje vosso único Soberano legítimo, e o qual representa, entre vós, o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes? Porque razão quereis expor-vos a ser, com Vila Viçosa e Beja, esmagados pela força, quando a autoridade mui poderosa só pensa em esquecer-se dos próprios direitos de conquista e em governar-vos com suavidade? Porventura diariamente de alguns pequenos corpos de facciosos em Portugal é que havia de desmaiar a estrela do GRANDE NAPOLEÃO e amortecer-se o braço de um dos seus mais valentes e hábeis Capitães?

O Decreto do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, para que voltem a Lisboa as pessoas que se ausentaram como fugitivas, se vai executando com celeridade. Hoje é que expira o termo fixado para se restituírem a esta capital; e amanhã, os que não tiverem obedecido, estarão no caso de serem presos por ordem do Senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino. Asseguram-nos que a sua intenção, bem como o seu dever, é fazer com que severamente se cumpra um decreto que prescrevem as circunstâncias, e sem o qual, por um terror pueril, a pesar da mais perfeita tranquilidade, estava para despovoar-se uma cidade que precisa de uma parte dos seus habitantes para alimentar a outra. O deixar aqui de improviso só a classe indigente haveria sido dar maior partido às desordens as mais prejudiciais aos consumidores e aos próprios donos das herdades.

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes acaba de nomear por Cónego da Sé de Lisboa o Pároco de Beja, que tão bem se portou ao querer impedir que os seus concidadãos provocassem os desastres que foram o justo castigo da sua criminosa agressão contra as tropas francesas.
O dito pároco porém deve continuar a exercer as suas funções numa cidade onde a sua presença é todavia necessária para reparar as desgraças que ele não pôde prevenir por não ter havido o bom espírito de lhe dar crédito.

Assegura-se que a cidade de Mérida, em Espanha, foi entregue às chamas, por haver também tentado fechar as suas portas a uma coluna do Exército de Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg.
Fala-se de ter havido mais três combates em Espanha, todos com grande vantagem dos franceses.

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 27, 5 de Julho de 1808].