Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia anti-francesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia anti-francesa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Joseph in Jeopardy, in the last scene of the Pantomime Royal, at Madrid. A Spic and Span New Ballad, to the Tune of "Beat the Knave out of Doors", sátira publicada por John Hatchard (Setembro de 1808).




Esta gravura foi publicada na Inglaterra em Setembro de 1808, tratando-se de uma das muitas sátiras coetâneas sobre o início dos desaires dos franceses na Espanha. A caricatura que encabeça a folha alude à saída apressada de Madrid, por parte do exército napoleónico (ao fundo) e de José Bonaparte (em primeiro plano), depois da tomada de conhecimento das vitórias espanholas dos Generais Castaños e Blake em Bailén. Como noutras caricaturas publicadas na mesma época, José Bonaparte perde a coroa de Espanha nesta fuga, embora mantenha consigo vários objectos religiosos roubados. Da boca de um dos Generais (vestidos como nobres espanhóis) que seguem no encalce do novo monarca sai a seguinte frase latina: Non fuit Autolyci tam piceata manus ["Nem Autólico tinha tal mão de gatuno"]. Trata-se duma expressão atribuída ao poeta latino Marcial, referindo-se a Autólico, que, na mitologia grega, era filho de Hermes, e, como o seu pai, famoso em todas as artes da fraude e do roubo. 

A ilustração é procedida pelos versos duma "balada", que, como o título indica, deveria ser cantada ao som duma suposta música intitulada Beat the knave out of doors. Ora, esta expressão, que na verdade era o nome dum antigo jogo de cartas, significa literalmente Expulsar/retirar o valete para fora, para além de ter outros significados possíveis: dar batida ao patife; provocar a retirada apressada do patife; levar a melhor sobre o patife; expulsar o patife à pancada; bater no patife na ruaremover o patife para o exterior, etc. Deve notar-se ainda que o termo knave tanto significa valete como patife, como ainda criado (neste caso, de Napoleão). Alguns destes significados estão presente tanto na ilustração como na tradução livre que fizemos dos versos originais, que contudo não permite reproduzir as rimas originais dos versos (AABCCB). 






José em perigo, na última cena da Pantomima Real, em Madrid.
Uma balada novinha em folha,
ao som de "Beat the knave out of doors"


A toda a pressa para Madrid
José Bonaparte viajou;
E quando entrou na cidade
Vigorosamente berrou:
Dizei aos vossos Bourbons boa noite!
Eles cederam o seu Direito
A Napoleão: Para que lado o vento está
Claramente podeis ver, 
Pois Napoleão deu-o a mim:
Sou, assim, Zé, Rei da Espanha e das Índias».

«Se fostes convocado pela Providência
Para reinar sobre o nosso Reino da Espanha,
mostrai-nos a sua autorização»,
Exclamaram os espanhóis - «Visto que,
Zé, se nenhuma podeis mostrar,
Regressareis sem cumprir a vossa missão».

Tão inflexíveis pareciam ambos os Dons,
Que Zé concluiu que era tempo de ir embora; 
e, pronto para partir,
Pensou ele: aqui vou eu,
Estou em forma; deveis saber,
Sou irmão-rendido do grande Bonaparte.


Filho de peixe sabe nadar,
E, assim, forçou todos os cadeados,
Roubou o alcaçuz do palácio;
Roubou as Igrejas para o butim;
Bem sabia ele como fazê-lo,
Tendo durante tantos anos roubado os patíbulos.  

O seu zelo em despojar
A prata e ouro dos espanhóis
Não poupou nem as suas refeições nem as suas bolsas;
Se os dentes das suas cabeças
Fossem feitos daqueles metais,
Todos furtaria Zé das suas dentaduras.

Assustado, então regressou,
Para Bayonne debandou
Como um cão cuja cauda foi chamuscada;
Pois Castaños e Blake 
Perseguiram de perto o seu rastro,
Determinados a dar-lhe uma carga de pancada.

Mas Zé não receia o chicote
Desde que deles escapou; 
Pois a sua pressa, como a sua coragem, era grande: 
E, tendo entretanto sido privado da Coroa
Nesta corrida celebrada,
Zé jura que veio pela Prata.

Apologia do Rei José Bonaparte aos espanhóis (no fim do seu Reinado de Sete Dias) 
sobre a sua fuga de Madrid com as pilhagens do Palácio e Igrejas, etc.


          Se na breve Pantomima tive uma má actuação
          Enquanto fiz de Rei no seu trono,
          Fazei-me justiça, e dizei: Representei bem o Ladrão:
          Pois essa personagem, Senhores, era a minha própria. 



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Soneto ao festejo que fez Junot em Lisboa pelos anos de Bonaparte





Soneto de Ópio


De Soléques, Meliques, Trapalóques,
Sulfúrios, sulfurantes, sulfurados,
Rotundos, salitrosos, carvonados,
Bum, bum, bum, bum, ressoam címbaloques;

Espaventos flamantes, trapiquoques, 
Imbeles, infecundos, insolados,
Xenofes, Xenofontes, Xenofados,
Tripudiam berliques e berloques,

Strangurio, scalponio, figurato, 
Gerivásio de gimbo, que gambeia
No Zimbório de Boreas, boreato.

Eis aqui o primor com que se arreia
O dia natalício celebrato 
De um tal Napoleão em terra alheia.


domingo, 17 de julho de 2011

Soneto e Réplica tendo como mote: Vendo-se Terça-Feira 17 de Julho pelas ruas de Lisboa avultadíssimos bandos de mosquitos




Soneto

Parabéns, parabéns Sebastianistas!
Consumou-se o mistério, é certo, é certo,
Não tarda o nevoeiro, e o Encoberto
Vem aos Galos vencer, cortar as cristas:

Dos profetas santões as longas distas
Estão de eternizar-se muito perto,
Testemunho infalível vos oferto,
No que há pouco passou às nossas vistas:

Já em vosso favor virou a Roda
Uma destas manhãs, abençoada!
Houve um sinal, que à vinda se acomoda;

Mandou o Grande Rei tropa esforçada,
Mas por maior disfarce, veio toda
Em nuvens de mosquitos transformada.

De José Daniel Rodrigues da Costa


Resposta pelos mesmos consoantes.

Aceitai parabéns Sebastianistas,
Que os contrários não vencem; nem decerto
Há de afrouxar a fé desse Encoberto,
Enquanto o Mundo der Galos com cristas.

Dos sábios defensores, grandes listas
As futuras verdades vêm de perto;
Nos seus contraditores vos oferto,
Um bando de Tafices, faltos de vistas:

'Inda em vosso favor remove a Roda
Uma e outra manhã abençoada,
Às provas de que vem, mais se acomoda;

Do encoberto Real, Gente esforçada,
Dos Galos fará ver a tropa toda
Em montes de mosquitos transformada.

Por um Franciscano

[Fonte: Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., fls 441-442]. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Versos de Marfirio Cândido, “Pastor do Douro”, dedicados à retirada de Loison



À face das Lusas Quinas 
É qualquer um novo Marte: 
Que o diga Loison fugindo
E os seus Soldados no Douro, 
Que em vão tentam passá-lo, 
Pois lhe iam chegando ao couro. 

[Fonte: Trombeta da verdade metrico-analytica, contra os planos, e imposturas de Napoleão, e seus satellites, por Marfirio Candido, pastor do Douro, Lisboa, Impressão Regia, 1811, apud Artur de Magalhães Basto, "O Porto contra Junot (continuação)", in Revista de Estudos Históricos, Faculdade de Letras do Porto, vol. 1, nº. 3, 1924, pag. 88-120, p. 102].

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Décimas ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus em Lisboa







Tenho um conto que contar,                                                                               
Mas não o quero dizer,   
Porque não me hão de crer    
Se eu o for publicar:   
Eu fui sem dar nem tomar  
À rua da procissão,  
Vi do exército cagão  
O soldado e o tambor  
Fugir com todo o valor, Fugirem com todo o valor
Sendo de Napoleão. Os oficiais de Napoleão.


Se isto é verdade, ou não,   
Eu não estava a dormir; Eu não estive a dormir,
Vi os soldados fugir Eu vi os soldados fugir
Largando as armas da mão;  
Vi os generais então E vi os Generais então
Saírem à desfilada, Saindo à desfilada,
Julgando que a pancada   
Lhes caía de improviso,  
E que antes do final juízo  
Davam todos a ossada.  


A cavalaria sentada  
Não esperou capitão, Não esperou por Capitão:
Fugindo à discrição,  
Corriam pela calçada;  
Largando armas e espada,  
Julguei que a Infantaria  
Da mesma forma corria  
Com medo dos portugueses,  
E que doze mil ingleses E que dez mil ingleses
Os tragavam neste dia.  


Que disseres e que diria [?] Ora quem tal diria
Que o exército de Marengo  
Fugia como podengo  
De uma coisa que não via!  
Largavam a artilharia, Largando a artilharia,
Que empresa mais gloriosa!  
Fugir à morte aleivosa  
De um valor iracundo: É um valor iracundo.
Assim venceu todo o mundo Assim vence todo o mundo
Esta tropa valorosa. Esta tropa valorosa?




Mas nesta função ditosa  
Foi São Jorge desprezado,  
Roubam-lhe o seu estado,  
Que a fazia mais lustrosa:  
Houve uma voz poderosa  
Que a todos intimidou;  
O mesmo Junot ficou  
Mais mirrado que uma corda,  
Até o mesmo Laborda [sic]  
Os calções todos borrou. Os calções todos cagou.


Mas eu a dizer já vou  
O que entendo piamente:  
Que a toda esta fraca gente  
De vida pouco lhe dou;  
Esta tropa aqui entrou  
Com fé de nos ajudar;  
Entraram logo a furtar,  
Saqueando em geral   
Ao reino de Portugal O reino de Portugal
Sem os templos lhe escapar. Sem o Divino escapar.


Que podemos nós esperar Que poderemos esperar
De gente sem religião?  
Não tenham compaixão, Não tenhamos compaixão:
Devem todos acabar:  
Nem um só deve escapar,  
Da ira dos portugueses,  
Morram todos os franceses,  
O Maneta e o Junot, O Intendente e o Junot;
Não esteja vivo um só  
Quando entrarem os ingleses.  


Levantem-se os holandeses,  
A Itália e a Turquia,  
Tenham juízo um dia  
Renanos e genoveses;  
Acabem-se os franceses, Acabem com os franceses,
Declarem-se os russianos,  
Alemanha e a Toscana Alemanha e toscanos
Sejam com eles cruéis, Sejam com eles cruel,
Não lhes prestem quartéis, Não lhe dêem mais quartel
Façam como os castelhanos. Como fazem os castelhanos.





________________________________________________________________

Observações:

Para uma melhor compreensão do assunto tratado nestes versos, ver o relato de José Acúrsio das Neves sobre o aludido dia do Corpo de Deus em Lisboa.

Encontrámos estas décimas em dois manuscritos, respectivamente intitulados: 

1. "A procissão do corpo de Deus em 1808", disponível no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil.

2. "Ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus", in Antonio Joaquim Moreira (org.), Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863, fls. 93-93v.

A versão transcrita à esquerda é a assinalada com o número 1 e é a mesma donde extraímos a imagem da primeira folha, acima inserida. Da segunda versão extraímos as variantes assinaladas à direita.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Poesia a propósito da contribuição dos 40 milhões de cruzados e dos prometidos Camões



Segundo Brito Aranha, "quando se espalhou pelo povo em 1808 o decreto para a contribuição forçada dos 40 milhões, e ao mesmo tempo Junot dizia numa proclamação, para lisonjear o povo, de que em cada terra haveria um Camões para cantar as glórias portuguesas, logo apareceu quem compusesse as seguintes décimas à fanfarronada do General francês. [...] Parece que esta glosa é do poeta António José Xavier Monteiro, que teve sonetos impressos alusivos à invasão dos franceses. Estas décimas não sei se foram impressas ou manuscritas":



                    MOTE

          Eu vos venho proteger
          Haverão muitos Camões
          Resgatai os vossos bens
          Dai-me quarenta milhões.


                    GLOSA
          
          Dessa traidora nação
          Em astúcias infernal,
          Para roubar Portugal
          Vem aqui muito ladrão:
          Vejam bem o figurão,
          Para a maldade esconder,
          Para nos empobrecer
          'Inda mais talvez que Job,
          Que nos dissesse Junot:
          Eu vos venho proteger.

          Isto disse o descarado,
          E estendeu-se muito mais,
          Prometeu romper canais
          E ter dos pobres cuidado;
          Um Camões assinalado
          Promete aos altos Beirões;
          Dizendo co'os seus botões:
          Se este engano o povo come,
          No artigo morrer à fome
          Haverão muitos ladrões.

          Na costumada carreira
          Após um volve outro mês,
          E já não pode o francês 
          Disfarçar a ladroeira:
          Então com voz lisonjeira
          Afectando mil desdéns,
          E dando-nos parabéns
          Da francesa ocupação, 
          Diz: Da parte do sultão
          Resgatai os vossos bens.

          Assolou, roubou cidades,
          Matou velhos e meninos,
          'Té q'enfim os céus benignos 
          Atulham tais crueldades.
          Com fingidas amizades 
          Não mais franceses ladrões
          Seduziram as nações;
          Nem para fartar marotos
          Dirá o chefe dos rotos
          Daí-me quarenta milhões.




Nota: Como se terá observado (se for verdade o que diz o Brito Aranha, sobre estes versos terem sido compostos logo depois da publicação dos aludidos editais de Junot), a última décima parece ser apócrifa, ou teria sido modificada posteriormente.

____________________

Fonte: Brito Aranha, Nota ácerca das Invasões Francezas em Portugal - Principalmente a que respeita á primeira invasão do commando de Junot. Contém muitos documentos relativos aos successos assombrosos na Europa no fim do seculo XVIII e principeios do seculo XIX, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1909, pp. 106-108.