quinta-feira, 15 de Março de 2012

Nota



Alerto aos visitantes e seguidores deste blog que parei temporariamente a ordem cronológica que estava a seguir para passar a publicar diversos documentos anteriores a 11 de Setembro de 1808, data dos que aparecem na página inicial, e que podem erroneamente dar a impressão que não tenho publicado nada há vários meses. 
Na verdade, nos últimos tempos transcrevi, traduzi e publiquei uma série de documentos, todos eles produzidos antes de 11 de Setembro de 1808. Continuarei esta tarefa até que a tenha mais adiantada, pelo que ainda tardarei algum tempo até publicar documentos posteriores à data acima referida. Entretanto, aviso os interessados que os documentos principais que tenho publicado são os seguintes: 

1. Mais de uma centena de cartas trocadas entre personalidades como o General Bernardim Freire de Andrade e o seu Ajudante de campo, o Bispo do Porto, Wellesley, Dalrymple, etc., correspondência esta que faz parte dum importante corpo documental intitulado "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", publicado originalmente nos dois primeiros volumes do Boletim do Arquivo Histórico Militar. Alguns destes documentos encontram-se repetidos (na língua original ou traduzidos) na actas referidas no ponto seguinte.

2. Diversas dezenas de documentos publicados originalmente nas actas do processo dos Generais britânicos responsáveis directa e indirectamente pela chamada Convenção de Sintra (Cf. entre outras edições, Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809). 

3. Vinte e cinco documentos relacionados com a missão do naturalista francês Geoffroy Saint-Hilaire a Portugal, durante o contexto da primeira invasão francesa.

4. Várias caricaturas, sobretudo de autores ingleses, relacionadas e produzidas durante o contexto da Guerra Peninsular. Este último ponto será aumentado consideravelmente nos próximos tempos.


Para qualquer dúvida, sugestão, correcção ou esclarecimento, podem contactar-me para edgarcavaco@gmail.com

domingo, 11 de Setembro de 2011

Anedotas relativas à campanha do exército britânico em Portugal, segundo o periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808



Na batalha do dia 21 [de Agosto de 1808], os franceses tinham no campo cerca de 15.200 homens, dos quais 1.200 compunham a cavalaria. Esta última força não teve a oportunidade de se distinguir, pois não fez sequer uma só carga durante todo o dia; contudo, a sua posição e número era formidável, o que contribuiu para manter embaraçado um corpo considerável de tropas britânicas, ocupado a observar os seus movimentos. Os seus uniformes eram verdes. 
As munições Shrapnel (assim chamadas devido ao seu inventor, o Coronel de artilharia Shrapnel) fizeram, por si só, uma matança terrível entre as fileiras francesas. Elas contêm cerca de 100 balas de mosquete, e são calculadas para explodir a uma determinada distância, espalhando instantaneamente a morte e a devastação em seu redor. 


Fonte: Wikipedia
Exemplo do efeito de metralha
 provocado pelas munições Shrapnel 


A maneira científica segundo a qual o Comandante em Chefe [Wellesley] enfrentou o ataque dos franceses contribuiu materialmente para a derrota destes. O exército francês avançou em três grandes colunas, de forma a carregarem todas elas sobre a esquerda e centro do exército britânico. À medida que cada uma destas colunas avançava, invariável e independentemente da resistência que encontrava pela frente, sofria um ataque em ambos os flancos pelo fogo dos corpos avançados para tal objectivo, através duma pequena mudança das suas posições; desta forma os franceses perderam um surpreendente número de homens antes de poderem usar as baionetas. Em caso algum os franceses chegaram a recorrer a esta última arma, pois cada vez que carregavam, eram instantaneamente batidos. 
O avanço do inimigo para o ataque foi impetuoso e até furioso. À medida que se aproximava, o inimigo saudava os ingleses com todos os epítetos injuriosos que são tão férteis na sua língua, ao passo que, pelo contrário, os ingleses, escarninhamente, davam vivas à sua aproximação. O uniforme do inimigo era singular: azul e com adornos brancos, sobre o qual levava um sobretudo branco de lã, um pouco parecido à bata dum condutor de carroças; o seu chapéu era quadrado, como o dos ulanos [lanceiros polacos]; e as mochilas eram de pele de cabra. A sua mosquetaria foi completamente formidável, particularmente a de dois Regimentos suíços ao seu serviço, que se comportaram com a maior bravura. Os seus atiradores [voltigeurs] foram, em geral, bons, mas muito inferiores em actividade e real serviço aos caçadores [riflemen] ingleses. Proporcionalmente, o número das forças sobre o campo era muito favorável aos ingleses, não se podendo dizer o mesmo acerca do número que realmente participou na acção. Resumindo, a batalha do Vimeiro foi decidida pela superior habilidade militar do Líder e pela bravura superior do soldado; todas as manobras praticadas surgiram dos vários e combinados movimentos de ataque e defesa; ocorreram em ambos os lados repetidas mudanças de posição; e finalmente, a palma da vitória foi o prémio para quem melhor mereceu portá-la, depois duma longa e árdua luta de quase quatro horas.
Em relação aos Generais franceses comprometidos naquele dia, umas poucas palavras não serão desinteressantes. Da conduta pessoal de Junot, que comandou o exército francês na batalha do Vimeiro, pouco se sabe. Os seus Oficiais capturados, e até aqueles de alta graduação, falaram muito superficialmente, e até em termos de reprovação, em relação às suas manobras durante a acção. Pouco se fala do General Loison, apesar deste ter, contudo, a reputação de ser um homem hábil. O General Laborde distinguiu-se na Roliça no dia 17, quando contestou aos ingleses, de forma tão hábil, os passos da montanha. Tem a reputação de oficial experimentado, mas possui um carácter muito feroz. O General Brenier também se distinguiu na batalha da Roliça. Por três vezes conduziu o ataque que resultou tão destrutivo para os Regimentos os 9 e 29 de infantaria a pé, cobrindo assim a retirada de Laborde com o corpo principal do exército, e retirando-se depois em boa ordem, apesar de com muitas baixas. Foi aqui que pereceram os Coronéis Lake e Stewart. Ele não foi, contudo, tão feliz no dia 21, sendo aprisionado na brava carga da brigada do General Ferguson, que rompeu a coluna direita do inimigo, à frente da qual combatia Brenier. É impossível não noticiar aqui algumas circunstâncias relacionadas com a captura deste Oficial. Ele rendeu-se, quando a coluna cedeu, ao Cabo Ross*, do Regimento n.º 71, e imediatamente tirou o seu relógio e dinheiro, que, juntamente com a sua espada, dragonas e faixa, ofereceu ao seu capturador: este nobre homem, contudo, recusou tudo o que lhe foi oferecido, trazendo o General em segurança ao Coronel Pack, e entregando-o a este Oficial. Brenier, espantado, não pôde deixar de exclamar: Que tipo de homem é este; ele prestou-me o maior dos serviços: trouxe-me para aqui em segurança, arriscando a sua vida, e ainda assim recusa tomar-me todas as recompensas que lhe posso oferecer! A esta exclamação observou secamente o Coronel Pack: Nós somos soldados britânicos, Senhor, não saqueadores. Os nossos leitores ficarão contentes, contudo, em saber que tal conduta não deixou de ser recompensada: assim que Sir Arthur Wellesley foi informado deste caso, pediu ao Coronel Pack o favor de graduá-lo sargento no campo de batalha (o que foi cumprido imediatamente pelo Coronel), e deu do próprio bolso uma boa gratificação ao seu generoso camarada. A conduta, nesse dia, dum primo deste mesmo Cabo Ross, que era tocador de gaita de foles do mesmo regimento, é também demasiado notável para ser passada em silêncio. Ao avançar até às suas fileiras, combatendo com bravura enquanto os seus músicos ficaram para trás, foi ferido gravemente na sua perna por uma bala de mosquete; vendo-se incapaz de prosseguir, sentou-se deliberadamente no chão, e tirando as correias do seu instrumento, gritou [no seu gaélico nativo]: Camaradas, não posso mais combater convosco, mas constante será a minha alma se quereis música, e imediatamente começou a tocar a sua música mais bélica com o seu máximo poder e na maior descontracção**
O General Kellermann, que foi enviado por Junot para tratar os termos sobre os quais capitularia o seu exército, comandava a reserva francesa na acção do dia 21. Foi ele que se esforçou para recuperar os canhões tomados pela brigada do General Ferguson, num desesperado ataque sobre os Regimentos n.os 71 e 82, que tinham parado no vale onde os franceses tinham perdido as ditas peças. Contudo, este ataque foi repelido através duma brilhante manobra do Comandante em Chefe, que, posicionado sobre um terreno alto, vendo a desvantagem que estes corpos teriam se fossem atacados no vale, deu-lhes ordens para se retirarem para as alturas, medida esta que foi obedecida muito relutantemente. Chegando às alturas, pararam, dispararam e, descendo a colina, carregaram sobre o inimigo, que a este tempo tinha chegado ao fundo do vale, com tal impetuosidade e efeito, que o derrotaram e o obrigaram a retirar-se completamente com muitas baixas, deixando as seis peças de canhão para trás. Este Oficial é o filho do célebre Marechal do mesmo nome. Ao chegar ao Quartel-General britânico no dia 22, ele não parecia minimamente abatido pelos acontecimentos desastrosos dos dias 17 e 21, nem mostrava o menor sentimento ou compaixão pela desgraça de muitas centenas dos seus camaradas soldados que estavam mortos e morrendo devido às suas feridas por toda a parte. Ao jantar à mesa do General, para a qual foi naturalmente convidado, pareceu surpreendido pelos biscoitos duros que aí havia, e disse: Sinceramente, General, se soubesse que estáveis tão mal providos, ter-vos-ia trazido algum pão fresco!



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Notas:


* Tratava-se na realidade do Cabo Angus Mackay.


** O aludido tocador de gaita de foles escocesa, que se tornou algo famoso por este feito, chamava-se George Clark (ou Clarke).

Plano da batalha do Vimeiro, publicado no periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808






Uma relação da Batalha do Vimeiro
servindo de explicação ao plano da batalha


A Batalha do Vimeiro iniciará uma época importante na nossa História. É um daqueles acontecimentos decisivos que não só terminam uma campanha e aniquilam os recursos do inimigo naquela região, mas que produzem uma superioridade decidida nas operações posteriores dos vitoriosos. Neste aspecto, apresenta uma forte semelhança com as batalhas de Marengo, Ulm e Jena. Ela mudou completamente as características da guerra. Os franceses, que têm tido durante tantos anos o hábito de abrirem fogo e devastarem os Estados dos seus inimigos, e dos seus exércitos subsistirem às custas destes últimos, estarão agora limitados à necessidade de defenderem as suas próprias fronteiras contra uma força invasora. A relação transmitida por Sir Arthur Wellesley é tão clara e judiciosa que seria presunçoso acrescentar-lhe algo.

[Seguia-se um excerto da citada carta de Wellesley a Sir Harry Burrard]


sábado, 10 de Setembro de 2011

Carta da Junta de Beja ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)





Beja, 10 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Comandante em Chefe do Exército britânico:

A Junta Suprema desta cidade e província, reconhecendo em Vossa Excelência todas as qualidades e virtudes capazes de suportar o carácter duma nação verdadeiramente grande (a generosa Inglaterra), verdadeira amiga do nosso amado Soberano, tem a satisfação de manifestar a Vossa Excelência os nossos sentimentos mais puros de amizade e de gratidão.
Até agora, nenhuma circunstância desconcertou o patriotismo da cidade de Beja ou das povoações dos arredores, que têm todas, como a própria cidade, continuado a ser subordinadas e unidas, para dar a maior prova do seu amor e fidelidade pelo seu legítimo Soberano, em cujo coração habitam as virtudes.
Todos têm conhecimento da assistência que nos foi enviada pela Grande Nação (pelos generosos ingleses) tal como pelos nossos amigos fraternos, os espanhóis.
Portugal mereceu isto; e as três nações unidas protegerão a religião, restaurarão os Soberanos, e aliviarão os sofrimentos do país. E chega agora o tempo dos opressores experienciarem não só o que merecem enquanto inimigos, mas mais ainda enquanto delinquentes. Vossa Excelência sabe que eles não foram simples intrusos, mas que a sua audácia ilimitada lançava-se contra a dignidade da Casa de Bragança, o que feriu os corações dos portugueses, e que somente pode ser curado pela destruição destes inimigos. Começando por ofender a Sua Majestade humana, eles elevaram os seus insultos até mesmo contra a Divina Majestade, cujos altares saquearam. Os portugueses, fiéis cristãos, e a província do Alentejo, provaram ser homens dignos, unidos à Junta Suprema, estando perfeitamente dispostos a derramar a última gota do seu sangue em defesa da sua religião, do seu Soberano e do seu país. O povo de Lisboa é irmão do povo do Alentejo; e ele irá, em companhia com este, procurá a vitória, ou morrer gloriosamente na batalha contra o vil inimigo, ao qual não se pode dar permissão para deixar a capital sem impunidade, quando eles, pelos seus crimes, ofenderam tanto a religião como a humanidade.
A Junta Suprema tem liberdade de sentimentos, estando segura que Vossa Excelência a receberá favoravelmente, pelos ditos sentimentos estarem em consonância com os vossos. Vossa Excelência, que se uniu a nós para vencer, unir-se-á também para punir.
A Junta Suprema é sensível do pouco uso da vida, quando esta não é arriscada durante algum tempo em defesa da nossa religião ou do nosso Rei. Morrer como mártir pela religião ou pelo patriotismo é, em ambos os caso, morrer com glória, quando a ocasião o requer. E requeremos que Vossa Excelência permitir-nos-á tomar uma oportunidade de digna emolução da nação portuguesa.
Esta Junta Suprema ama, no mais alto grau, a nação britânica; e por Vossa Excelência, o seu valoroso General, eles têm a mais alta consideração.


D. João José Mascarenhas de Azevedo.
D. Silvestre dos Santos Chaves.
D. António Joaquim d'Oliveira.
D. Diego da Buenha Sotto, Major.
D. Manuel do Cabo de Arcez.


[Fonte: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 214 (doc. 127)].

Notícias publicadas na Minerva Lusitana (10 de Setembro de 1808)



Lisboa, 10 de Setembro, pelas 5 horas da tarde. 

A Fundição, [o] Arsenal, e dizem também que o Castelo, estão já guarnecidos pelos nossos aliados ingleses; de que já entrou um grande número em Lisboa com o General Beresford. O forte do Exército português ainda está hoje em Mafra; mas assegura-se que fará a sua entrada amanhã.
Quase todos os franceses estão, há dias, abarracados no Terreiro do Paço, Rossio, Campo de Santana [actual Campo dos Mártires da Pátria], e no largo de São Paulo; e começaram já hoje a embarcar.
Ontem apresentaram-se no Quartel-General inglês muitas pessoas constituídas em autoridade, e entre as quais alguns dos Governadores do Reino.
O Tejo não oferece, há muitos anos, mais vistoso e lisonjeiro espectáculo, pelo considerável número de embarcações que têm entrado.

[Fonte: Minerva Lusitana, 12 de Setembro de 1808]. 

Proclamação dos Comissários britânicos (Proby e Beresford) e francês (Kellermann) encarregados da execução da Convenção de 30 de Agosto (10 de Setembro de 1808)



Proclamação dos Comissários britânicos e francês encarregados de fazer executar a Convenção ajustada entre os respectivos Comandantes em Chefe


Para cumprimento das estipulações feitas na Convenção ajustada para a evacuação de Portugal pelo exército francês*, assentámos que toda a qualidade de propriedade confiscada ou usurpada dos vassalos ou outras pessoas residentes em Portugal, ou dos Palácios Reais, Bibliotecas Públicas e Museus, ou de outras pessoas, ainda existente em Portugal, deveria ser restituída. 
Nós, os Comissários encarregados da execução da dita Convenção, visto que Sua Excelência o Comandante em Chefe do Exército francês o tem já feito saber ao seu Exército**, houvemos também por justo e conveniente fazer publicar o mesmo, para instrução de todos os que nisto forem interessados; e para facilitar a restituição ou o recebimento de tais propriedades, julgámos conveniente nomear uma Comissão composta de três pessoas, a saber: o Senhor Tenente-Coronel Trant, o Senhor António Rodrigues de Oliveira, e Mr. Debluir, Comissário de Guerra, que se juntarão no Largo do Loreto n.º 8, os quais são nomeados a fim de receber, inquirir e julgar de todas as reclamações desta natureza; devendo receber a devida execução as suas ordens de restituição de propriedade, seja quem for a pessoa a quem elas forem dirigidas. 
A fim de [as]segurar a conservação dos objectos ou móveis que foram tirados das casas Reais ou públicas, para uso e cómodo de quaisquer Generais, Administradores ou outros indivíduos do Exército francês, declaramos que as pessoas que possuírem propriedades sequestradas ou usurpadas ficam responsáveis por elas, seja qual fora a casa ou lugar para onde ou donde tenham sido removidas. 
Estes mesmos possuidores devem trazer a descrição de todos os móveis, com o nome de seus proprietários, ficando obrigados a todo o seu conteúdo; o que será entregue somente depois da prova legal do direito de propriedade. Os possuidores dos artigos acima mencionados deverão apresentar nesta Comissão uma relação exacta de tudo quanto possam ter em seu poder das referidas propriedades. E todas as pessoas poderão dirigir-se seguramente a este Tribunal.
Julgámos igualmente necessário fazer saber a todos aqueles a quem pertencer, que toda a compra dos artigos tirados de Arsenais públicos ou armazéns desde o dia 30 de Agosto, ou [de] qualquer objecto que legalmente se provar haver sido ilegitimamente vendido ou distraído em qualquer tempo ainda anterior ao dia 30 de Agosto, será nula e de nenhum efeito; e os artigos usurpados e os compradores sujeitos à pena decretada pelas Leis. 
A Comissão empregada para receber as reclamações e facilitar a restituição das propriedades terá as suas sessões em casa do Senhor António Rodrigues de Oliveira, n.º 8 no Largo do Loreto. 
Lisboa, 10 de Setembro de 1808. 

O Comissário francês para a execução do Tratado de 30 de Agosto, 
O General Kellermann. 

W. C. Beresford, Major General 
Proby, Tenente Coronel. 
Comissário britânicos.


[Fonte: Esta proclamação foi publicada originalmente no dia 11 de Setembro, através dum edital que continha tanto a versão original em inglês como a respectiva tradução em português, que acima transcrevemos. Curiosamente, consta na última página (de 3) do edital original que o mesmo tinha sido impresso na Impressão Régia (título que, como já referimos, o Governo francês chefiado por Junot tinha substituído pelo de Impressão Imperial e Real), sendo assim, pelo menos aparentemente, o primeiro documento que foi publicado novamente com o seu antigo título. A referida versão em inglês foi publicada posteriormente in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 195 (doc. 86). Em português, a proclamação foi também publicada no Correio Braziliense, Londres, Outubro de 1808, pp. 408-409; e posteriormente, em pelo menos outras duas fontes: Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 241-243 (contém o texto original em inglês e a tradução em português); e Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 120-121. Finalmente, devemos mencionar que no Arquivo Histórico Militar encontra-se uma cópia manuscrita deste documento traduzido para o francês (cota: PT AHM/DIV/1/14/162/41)]. 

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Notas:

Deve notar-se que, nesta data, apesar de já terem começado a surgir rumores sobre a Convenção (só depois chamada de Sintra) que os franceses tinham assinado com os britânicos, o grande público ignorava completamente o conteúdo exacto dos artigos da dita convenção, que eram então conhecidos, em toda a sua extensão, por pouquíssimas pessoas (entre as quais se contavam o General Bernardim Freire de Andrade, o seu Ajudante de Ordens, e todos ou pelo menos alguns dos membros da Junta de Governo do Porto. 

*Através das ordens publicadas no dia 6 de Setembro e no dia seguinte

Edital da Junta do Porto sobre a organização do Corpo de Cavalaria da Guarnição do Porto (10 de Setembro de 1808)





Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Mafra, 10 de Setembro de 1808.



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Acabo de receber ordens da Junta do Governo Supremo Provisional estabelecida na cidade do Porto, que determinam [que] combine com Vossa Excelência a parte que devo ter na entrada e ocupação de Lisboa, como também sobre a posição e comportamento, tanto do Exército do meu comando, como de todas as mais tropas portuguesas que se acham empregadas em qualquer parte deste Reino, e principalmente das que estão [empregadas] no bloqueio de Almeida; e que em consequência do que ajustar com Vossa Excelência, assim o faça observar pelas sobreditas tropas, expedindo para isso as ordens necessárias. E como tudo isto exige detalhes e combinações que se devem prosseguir sem interrupção, torno a enviar junto a Vossa Excelência o Major Aires Pinto, oficial da minha particular confiança, e a quem encarrego de tratar sobre os mesmos assuntos, e de me comunicar o que se ajustar, para que eu possa expedir as ordens convenientes da forma que pela sobredita Junta de Governo se me determina.
Deus guarde Vossa Excelência.
Quartel-General de Mafra, 10 de Setembro de 1808.
Muito atento e respeitoso servidor,

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 58 (doc. 101). Este texto foi originalmente publicado em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 210 (doc. 117)].

Instruções do General Bernardim Freire de Andrade ao Major Aires Pinto de Sousa (10 de Setembro de 1808)



O Senhor Major Aires Pinto de Sousa Coutinho passará imediatamente ao Quartel-General do Exército inglês, estabelecido em Oeiras, a fim de tratar com o General em Chefe do sobredito Exército, e na conformidade do que se me determina pela Junta do Governo Supremo Provisional estabelecido na cidade do Porto, dos seus objectos:


1.º Combinar a parte que devo ter na entrada e ocupação de Lisboa: sobre este este assunto deve o Sr. Aires Pinto saber que, tendo-me requerido o General em Chefe do Exército inglês um destacamento de três mil homens, que deveria entrar em Lisboa com outro destacamento maior, que comanda o Tenente-General inglês Hope, se mandou reunir este Corpo em Bucelas, aonde deve ficar hoje; que este Corpo, que será comandado pelo Brigadeiro Manuel Pinto Bacelar, se compõe de um Batalhão de Infantaria escolhida dos três Regimentos de Almeida, Penamacor e Bragança, da força de quinhentos homens; de outro Batalhão espanhol de igual força; dos Corpos que comanda o Brigadeiro Marquês de Valladares; de um Batalhão de igual força do Regimento n.º 18, ou 2.º do Porto; de outro de igual força do Corpo do Regimento de Infantaria n.º 21, ou Valença; e de toda a Infantaria da Guarda Real da Polícia, que aqui se tem juntado, e que se mandou logo organizar do mesmo modo que o estava antes de abandonar Lisboa, a fim de poder ser logo empregada, como parece conveniente a todos os respeitos, no mesmo serviço que fazia naquela capital; fazendo-se muito necessário que se mande logo incorporar a este Corpo uns cento e tantos soldados que se farão reunir a Sintra ao Exército inglês, e que ainda ali se conservam. O Corpo de Cavalaria se compõe de toda a Cavalaria da Polícia, que se manda reorganizar do mesmo modo e com as mesmas vistas; de dois esquadrões completos do Regimento de Cavalaria n.º 6; de uma Companhia de Cavalaria espanhola que nos tem acompanhado; e de oitenta cavalos do Exército do Brigadeiro Bacelar; o que fará ao todo uns quatrocentos e tantos cavalos; [e] finalmente de um destacamento de Artilharia, com 2 peças de 6 e 4 de 3. Sobre este objecto há [ade]mais que considerar que este destacamento não deve entrar em Lisboa antes da evacuação do Exército francês; mas que logo que ela se fizer, parece conveniente que o comando militar da cidade de Lisboa se incumba a um General português.


2.º Quanto às participações relativas às guarnições das praças de Almeida, Peniche, Elvas, etc., e sua ocupação, que deve lembrar-se, que todas estas coisas devem ser feitas pelo General em Chefe do Exército inglês e por tropas inglesas, em virtude do que se acha estipulado na Convenção definitiva, e que a nós só nos pode pertencer avisar as tropas que as bloqueiam, do que se acha estipulado; porém, lembra-me a necessidade que há de não retardar a ocupação de Almeida, não só pelo perigo que há de que alguma divisão francesa vinda de Espanha, visto que este país se acha ainda ocupado por eles, se dirija para ali, como pela necessidade que há por este motivo de aprovisionar logo, e guarnecer convenientemente esta praça, que eles hão de deixar no maior abandono, como fazem em toda a parte; não serão precisas grandes forças para esta ocupação, e as mesmas tropas destinadas para esta diligência poderiam servir de escolta à guarnição que, conforme os termos do Tratado, deve ir embarcar no Porto, fazendo-se substituir por tropas portuguesas, que se poderiam pôr ao seu alcance para este efeito, logo que isto se combine e ajuste com o mesmo General em Chefe inglês, como agora se pretende. 


Quartel-General de Mafra, 10 de Setembro de 1808.


Muito atento e respeitoso servidor,

Bernardim Freire de Andrada [sic].


[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, pp. 59-60 (doc. 102)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Almirante Charles Cotton (10 de Setembro de 1808)


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Não havendo sido requerida a minha concorrência, em qualidade de Comandante em Chefe do Exército português destinado a obrar de acordo com o Exército inglês, para a conclusão do Tratado estipulado entre o General Dalrymple e o General francês Junot, e tendo sobre muitos dos seus artigos feito de ofício as minhas observações, e até protestado solenemente contra muitos deles, como ofensivos da Soberania, independência, segurança e interesses deste Reino, não me restando outro algum meio legal para obstar as contínuas e insuportáveis depredações cometidas pelos franceses, com manifesta violação daquela mesma Capitulação tão vantajosa que propuseram e alcançaram da excessiva generosidade do Comandante em Chefe das tropas britânicas; tenho a honra de rogar a Vossa Excelência [para que] queira ouvir as reclamações que o Juiz do Povo, em nome de toda a população da capital, apresentará a Vossa Excelência, a respeito dos roubos e hostilidades de mil maneiras cometidas pelos franceses, em manifesta infracção do referido Tratado; ficando eu certo em que Vossa Excelência as tomará em consideração, como fazendo nisso um muito particular serviço, assim ao Príncipe Regente meu amo como a este Reino, que certamente não verá sem grande desprazer roubar a capital debaixo da garantia e protecção da bandeira inglesa, cujos generosos auxílios vieram tão gloriosa como poderosamente apoiar os seus esforços por libertar este país do pesado jugo que o oprimia; e para que Vossa Excelência conheça quais foram as minhas protestações, tenho a honra de as remeter a Vossa Excelência por cópia.
Deus guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Quartel-General de Mafra, 10 de Setembro de 1808.


O mais reverente e atento servidor,

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 60 (doc. 103)].

Carta do General Wellesley ao Brigadeiro Manuel Pinto Bacelar (10 de Setembro de 1808)




Lisboa, 10 de Setembro de 1808.


Senhor:


Recebi ordem do Comandante em Chefe do Exército inglês de marcar um lugar no qual podeis tomar [o] vosso terreno na vizinhança das tropas inglesas debaixo do meu comando, que estão em Santo António do Tojal; parece-me que a mais conveniente posição que vos podeis tomar é na vizinhança do Zambujal, com a vossa direita para a parte do rio Trancão.


P.S. O Quartel-Mestre-General do Departamento irá consequentemente para marcar o terreno aonde vos deveis mandar um oficial para o ver.
Eu tenho a honra de ser vosso obediente e mais humilde criado.


Wellesley




Está conforme com o original, 
Agostinho António da Fonseca e Costa,
Sargento mor de Infantaria, Secretário do Exército de Observação.

[Fonte: O texto original desta carta não se encontra na correspondência publicada de Arthur Wellesley, pelo que transcrevemos a tradução publicada por Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 58 (doc. 100)].

Carta do General Wellesley ao General Bernardim Freire de Andrade (10 de Setembro de 1808)



10 de Setembro de 1808.


Senhor:


Tenho a honra de vos informar que, segundo ordem do Comandante em Chefe, determinei que o corpo português comandado pelo Brigadeiro-General Bacelar esteja posicionado no Zambujal, perto de St. António do Tojal, antes da sua marcha para Lisboa.
Tenho a honra de ser o vosso mais obediente e humilde servidor,


Arthur Wellesley

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 57 (doc. 99)].

Carta do General Wellesley ao General Dalrymple (10 de Setembro de 1808)





Zambujal, 10 de Setembro de 1808.


Senhor:

Tive a honra de receber, durante a noite, a carta que me haveis escrito ontem. Sempre tive a vontade de ser tão útil quanto possa para o oficial sob cujo comando posso estar a servir; e este desejo é apenas limitado pela dúvida que posso ter sobre a minha capacidade para o emprego que me é oferecido. As observações que tenho tomado sobre o estado das circunstâncias na Espanha já me tinham sugerido há algum tempo que era apropriado colocar naquele reino uma pessoa com as características que haveis referido, possuindo plenos poderes, meios de exercê-los em todas as partes da Espanha, e de comunicar e tratar com todas as Juntas de governo locais.
De forma a poder realizar a importante tarefa que lhe é atribuída, esta pessoa deve possuir a confiança de quem o empregue; e, acima de tudo, de forma a poder recomendar, com autoridade, um plano para os espanhóis, tal pessoa deve ser informada dos planos daqueles que o empreguem, e dos meios através dos quais tencionam habilitar a nação espanhola a executar aquele plano que lhes seria proposto.
Não posso certamente considerar-me possuidor de tais vantajosas características, que me poderiam qualificar para a situação que me haveis proposto; e deveis ser o melhor juiz para decidirdes se estais disposto a instruir-me, e se estais inclinado a confiardes em mim, para tudo o que seja necessário dar a minha opinião, de modo a obter qualquer vantagem geral de tal missão. É verdade que poder-se-ia encarregar alguém com vistas e objectivos mais limitados do que aqueles que acima vos aludo, e que são discutidos na carta que me haveis dado a honra de receber da vossa parte; e que poderiam ser limitados a meros ajustes com o General Castaños ou com a comissão militar em Madrid, sobre um plano para a restante parte da campanha. Esta missão, contudo, requererá uma explicação clara e completa dos objectivos e dos meios; e a pessoa que de tal se encarregar deve ter a confiança de quem o empregue, e deve estar segura que o plano que ajustará nestas circunstâncias será posto em execução.
Rogo para me considerardes pronto a ser empregado de qualquer forma que acheis apropriada; e acima indiquei os poderes e instruções que por si só podem, na minha opinião, tornar o emprego de qualquer pessoa, na posição que me haveis oferecido, bastante vantajoso para o exército ou para o país.
Tenho a honra de ser, etc., 


Arthur Wellesley

Notícias publicadas no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro (10 de Setembro de 1808)



Rio de Janeiro, a 10 de Setembro de 1808.


A Europa devia prever há muito a sorte do Sumo Pontífice, especialmente desde que foi obrigado a ir a Paris e a assinar a Concordata. O Santo Padre viu enfim que nada conseguia pela moderação evangélica que até aqui o caracterizava, e que a causa da religião exigia a nobre resolução que tomou. O capitólio tão celebrado na História não podia escapar por mais tempo aos desígnios do Imperador dos franceses. Roma deve suscitar-lhe muitas lembranças. A divisa do povo italiano acha-se neste verso de Alfieri!

Siam servi si, má servi ognor frémenti. 
[Sejamos servos, sim, mas servos sempre trémulos].

Ainda que estivéssemos preparados para acontecimentos desta natureza, quase que não pensávamos ver derrubar ao mesmo tempo o trono dos Papas, e roubar o da Espanha, a mais antiga Dinastia da Europa. O Governo francês ainda há pouco engodava a Prússia enquanto atacava a Áustria, enganava a Áustria enquanto combatia com a Prússia e Rússia, fazia protestações de amizade a Portugal, e disfarçava com a Espanha enquanto tinha a contender com as principais Potências do Norte, mandava a Rússia invadir a Suécia enquanto se apoderava da Dinamarca; mas agora empreende juntamente a conquista do Indostão, a ocupação da Pérsia, a desmembração do Império Otomano, a invasão da Sicília, da Suécia, da Espanha, a sujeição de Portugal, a usurpação dos bens e privilégios da Igreja, a protecção da América espanhola. Se ainda pudesse haver uma só pessoa que acreditasse de boa fé a doutrina francesa, bastariam estes factos para lhe abrir de todo os olhos; mas a rebelião de Constantinopla, os levantamentos e emigrações continuadas dos leais portugueses, a resistência de todos os espanhóis, cujo carácter sério e persistente é bem conhecido, a magnânima resolução de Sua Santidade, e o procedimento da Casa de Áustria são provas evidentes de que a Europa não crê mais em enganos.
Monitor continua de vez em quando a ameaçar os incrédulos. Não há muito tempo que dizia que brevemente não restaria outro recurso a El-Rei de Suécia senão de ir reinar para alguma parte da América. Se esta frase do Monitor envolvesse alguma insinuação a nosso respeito, responder-se-lhe-ia: "Reinamos na melhor porção da América, e a prova disso são os sábios Actos do Governo do Nosso Amado Soberano. O Príncipe Regente Nosso Senhor imediatamente depois da sua chegada mandou abrir os portos destes seus Domínios ao Livre Comércio de todas as Nações Amigas, e declarou guerra àquela que invadiu aleivosamente o património que transmitiu o primeiro dos nossos Reis à sua Augusta Família Real, na cessão da qual jamais consentirá, e sobre o qual conservará sempre os mesmos direitos que tem ao vasto Império que herdou do Senhor Rei D. Manuel.
Entrou neste porto a 19 do passado [mês] uma fragata inglesa, vinda de Gibraltar, que trouxe as importantes notícias que se seguem. Em Cádis, depois de um renhido fogo das barcas canhoeiras e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais se comprehendem muitos Oficiais. Murat acha-se cercado no sítio do Bom Retiro [sic]. Todas as províncias da Espanha têm pegado em armas contra a tirania do Perturbador do Género Humano. As tropas francesas, que se acham dispersas, estão na maior consternação. O nosso fiel Aliado El-Rei da Grande [sicBretanha tem prestado todos os socorros aos espanhóis. A Junta do Governo Provisório estabelecida em Sevilha declarou guerra à França, e ajustou um armistício com os Chefes ingleses. Os nossos leais compatriotas manifestam o mesmo espírito, e já recobraram a importante posição de Elvas. O General Junot refugiou-se no Castelo de S. Jorge e dali oferece capitular. A cidade do Porto arvorou a Bandeira portuguesa.
Correu aqui notícia vinda por pedestres de Goiazes [sic], que os franceses, tendo feito um desembarque no Pará com aparências de amizade, o Capitão General os rechaçara completamente, ficando vivos só os prisioneiros; porém, isto ainda merece confirmação.
Igualmente correu voz que um corsário francês desembarcara 20 homens na costa do Pará ou Maranhão para procurar à força mantimentos, e que toda essa gente fora morta, ou feita prisioneira; tendo-se feito à vela o corsário bem embaraçado no porto em que tocaria, pois Caiena se diz bloqueada por duas fragatas inglesas.


sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Carta do Tenente-Coronel Murray ao General Bernardim Freire de Andrade (9 de Setembro 1808)



No campo, 9 de Setembro de 1808.




Estou bastante triste, meu General, por não ter sabido que Vossa Excelência foi ao Quartel-General [britânico] ontem, pois teria tido um verdadeiro prazer em vos rever, e não teria deixado de aproveitar uma ocasião tão boa para voltar a assinalar o meu respeito por vós.
Podereis esperar, meu General, que em tudo o que dependa de mim, a boa inteligência entre as duas Potências será mantida. Eu não sei fazer muito, mas deve-se esperar que não serão necessários grandes esforços. Por aquilo que se diz, as nossas tropas deverão entrar em breve na capital. 
Duas divisões já receberam ordens para estarem prontas a marchar. Espero que cheguem a tempo de secundar os esforços louváveis de Vossa Excelência, porque seria uma verdadeira infelicidade se ocorressem tumultos na capital. 
Creio que as nossas tropas reunir-se-ão com prazer aos habitantes, a menos que estes estejam sob as armas.
Tenho a honra de ser, meu General, o vosso servidor mais humilde e mais obediente,


Murray.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 57 (doc. 98)].

Carta do General John Hope ao General Dalrymple (9 de Setembro de 1808)



Lisboa, 9 de Setembro de 1808 




Caro Senhor: 

Tive a honra de receber ontem as vossas ordens, acompanhadas pela carta do Ajudante General do dia 7, mandando que me dirigisse para Lisboa, para ajustar com o General francês diversos pontos relativos à ocupação da cidade pelas tropas britânicas. Recebi também a vossa comunicação sobre os passos que foram dados pelo actual Governo do Porto. 
Ainda não consegui comunicar-me com os Oficiais que foram nomeados para combinarem comigo o tempo e o modo da ocupação pelas tropas, mas espero que durante o dia de hoje serei capaz de vos escrever sobre este assunto. 
Depois de ter reflectido maduramente sobre os diversos tópicos que me haveis dado a honra de comunicar, tomo a liberdade de vos submeter as minhas ideias, embora o faça com aquela falta de confiança que devo sentir sobre um assunto em grande medida novo para mim, e sobre o qual mal tive tempo suficiente para obter a informação necessária.
Não é importante inquirir agora se os ressentimentos aparentes dos chefes do Exército português poderiam ter sido evitados ou não, pois são completamente infundados, e tão infantis como destituídos de fundamento. Tampouco é provável que qualquer ofensa que possam sentir poderia vir a exercer uma influência importante nas disposições finais do país, quando se ver que a intenção genuína do Comandante das Forças britânicas, ao executar as instruções do seu Governo, é recolocar a Monarquia portuguesa sobre as bases em que estava, antes da irrupção do Exército francês. Parece-me que seria desejável estabelecer os seguintes princípios, a saber:
Que se estabeleça a antiga e original Regência, enquanto possa ser conveniente, com a adição do Bispo do Porto e daqueles outros membros que lhe possam ser conformes. Que esta Regência seja proclamada quando os franceses embarcarem completamente. Que, ainda que não se obtenha a tempo o consentimento Bispo [do Porto], o seu nome deverá ser colocado à testa do Governo, permitindo-lhe depois declinar, caso o ache melhor. Que a residência da Regência seja fixada peremptoriamente em Lisboa, pois não é provável que o povo da capital se venha a submeter a uma espécie de poder controlador, que parece ser a vontade daqueles que o lançaram nas mãos do Governo Provisório do Porto; e existem razões para recear que poderão esperar-se as piores e mais graves consequências, caso se adopte uma linha de conduta contrária
É extremamente natural que, ao pensarem em fixar-se no Porto – apoiados pela popularidade e reverência que os últimos acontecimentos e que as circunstâncias locais envolveram o seu Governo, sustentando nas suas mãos os recursos das províncias do norte, retendo aquele grau de influência que a nomeação duma Regência lhes dará, e afastando-se de qualquer contacto próximo com o Poder britânico – , o Bispo e aqueles que são os seus conselheiros concebem que lucrarão infinitamente mais, tanto em influência real como substancial, do que poderiam perder num lugar glorioso e ostensivo [como Lisboa].
Contudo, devo sustentar que tal proposição é completamente incompatível com o bem-estar futuro do país. Penso que razões similares tornam extremamente desejável que a nomeação da Regência não seja um acto do Governo do Porto, mas sim dos Comandantes britânicos, os quais, ao executarem este acto, devem apenas aparentar reestabelecer o Governo deixado pelo Príncipe Regente, aquando da sua retirada para o Brasil.
Parece-me perfeitamente claro que a restauração desse Governo é tanto o efeito dos esforços feitos pela Grã-Bretanha, quanto o resultado do sucesso que as suas armas tiveram em Portugal, como ainda de qualquer outro acontecimento que marcou o nosso progresso neste país; e que nem o Governo português nem qualquer indivíduo que seja pode censurar razoavelmente qualquer medida, ainda que pesada, que o Comandante britânico pode ter achado necessário tomar, de forma a completar o reestabelecimento de tudo sobre as bases que estavam fixadas pelo Príncipe de Portugal, sujeitas sempre à sua futura vontade.
Ademais, parece-me que a prossecução dos ajustes do Governo sem qualquer referência que seja aos actuais interesses locais, está completamente em conformidade com as instruções que me haveis dado a honra de comunicar; e este princípio é tão amplo que, se não me engano, tendes, perante determinadas circunstâncias, o poder de assumir o Governo do país nas vossas próprias mãos, até que se recebam instruções adicionais da Grã-Bretanha.
Sem recorrer a este último extremo, é aconselhável que se comece a ajustar um Governo que seja favorável às principais autoridades do norte de Portugal, através da inclusão dos nomes de quatro membros da Junta original que se tenham mantido fiéis aos interesses da Monarquia, e colocando Bispo do Porto à sua testa; e acrescentando aqueles outros nomes que este último possa achar aceitáveis, depois de se ter comunicado com o seu agente, D. Luís de Sequeira*.
Segundo as circunstâncias acima mencionadas, não posso deixar de crer que é da maior importância que o Almirante [Charles Cotton] e vós próprio deveis, a partir deste momento, considerar como inadmissíveis quaisquer interferências por parte dos portugueses nos negócios do Governo, para além daquelas que poderão ser necessárias para o dispor nas mãos de magistrados inferiores, até que a Regência esteja completamente estabelecida; que o estabelecimento de tal corpo deve ser uma acção inteiramente vossa; que se deve confessar sensatamente que como a libertação do país dum Exército estrangeiro, e a oportunidade, que agora se apresenta, de restaurar a Monarquia portuguesa, foram conquistas do poderio militar britânico, o Governo britânico tem o direito, e os Comandantes britânicos o dever, de dispor o Governo naqueles que pareçam mais aptos para conservar a paz da capital, assegurar a prosperidade de todo o país e possuir a confiança do Príncipe. Que, ao levarem estas medidas a efeito, os comandantes britânicos não actuam por outros interesses senão aqueles que são puramente portugueses. Que no momento em que a Regência esteja estabelecida, toda a interferência militar tornar-se-á desnecessária, e terminará; mas até que chegue esse momento, e até que a paz e a subsistência da capital possa ser garantida, tomar-se-ão as medidas mais efectivas e imediatas para garantir a tranquilidade através de meios militares, e todos aqueles que ofendam a paz pública serão punidos com a severidade mais rigorosa. 
Ademais sugiro, como consequência da ideia acima mencionada, que não se deve permitir que parte alguma do Exército português entre em Lisboa até que as tropas francesas embarquem completamente, e que, perante qualquer reclamação que possa ser feita pelos chefes de tal exército sobre esta medida ou sobre qualquer outro assunto ligado à nossa situação relativa actual, deve-se decidir da maneira mais resoluta a não dar espaço a assuntos que afectem tão materialmente o bem-estar deste país e a honra do Exército britânico.
De modo a transmitir as minhas ideias de uma forma mais precisa, escrevi um esboço duma Proclamação que deve certamente ser publicada em vosso nome e no do Almirante [Charles Cotton].
Seja qual for a Proclamação que se adopte, esta deve ser imediatamente preparada e transmitida por alguma pessoa de confiança, e imprimida, para ser posta em circulação assim que os franceses abandonem o país; e sou da opinião que o seu teor deve ser comunicado duma forma que possa alcançar a sua concorrência, que, se for obtida, proporcionará grandes facilidades na preparação [do estabelecimento da Regência]. Tal proclamação deve ser acompanhada por outra, e por uma terceira, que será publicada em nome do Oficial que comanda as tropas, a qual deverá conter ordenanças de polícia e aqueles detalhes relativos à preservação da boa ordem, tal como pode ser necessário introduzir em mais proclamações gerais.
Devo aqui observar que parece que há uma grande falta de pessoas cujos princípios se saibam ser bem assumidos, com os quais possa comunicar, e através dos quais possa preparar estes passos preliminares; pois receio que algumas das pessoas indicadas no papel que ontem me comunicastes não aparecerão até que os franceses partam. Se me puderdes dar alguma informação sobre este assunto, ficar-vos-ei extremamente agradecido.
Somente me resta pedir desculpa por tomar tanto do vosso tempo sobre um assunto que tenho que reconhecer que sou um juiz muito inadequado.
Tenho a honra de ser, etc., etc.,

Tenente-General.


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Nota: 

Apesar de na cópia desta carta se ter fixado o nome de "Don Louis de Figueira" [sic], julgámos necessário corrigir tal nome, pois John Hope referia-se indubitavelmente ao Desembargador D. Luís de Sequeira da Gama Ayala, deputado da Junta do Porto, que, conforme as cartas que a dita Junta enviou a Dalrymple e a Bernardim Freire de Andrade no dia 5 de Setembro, foi enviado para Lisboa para organizar o restabelecimento da Regência. 
Não é a primeira vez que procedemos a este tipo de rectificação, mas devemos reforçar que estes erros de fixação de nomes portugueses, tanto antropónimos como topónimos, são bastante comuns nas transcrições e traduções de muitos documentos compostos nesta época (em inglês, francês ou castelhano), que escusamos dizer que derivam de más interpretações dos nomes originais, sobretudo devido à ignorância da língua e da geografia portuguesa por parte de quem os fixou.