domingo, 21 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley ao General Burrard, sobre a batalha do Vimeiro (21 de agosto de 1808)




Vimeiro, 21 de Agosto de 1808


Senhor: 

Tenho a honra de vos informar que o inimigo atacou-nos esta manhã na nossa posição no Vimeiro.
A aldeia do Vimeiro está num vale pelo qual corre o rio Maceira [Alcabrichel]; atrás desta aldeia está uma montanha, que se estende de norte a oeste, cuja ponta ocidental toca no mar, e que no lado oriental é interrompida por uma funda ravina, que a separa da colina sobre a qual passa o caminho que vem da Lourinhã e do norte para o Vimeiro. A maior parte da infantaria – as brigadas n.os 1, 2, 3, 4, 5 e 8 – estava postada nesta montanha, com oito peças de artilharia, estando a brigada do Major General Hill à direita e a do Major General Ferguson à esquerda, com um batalhão sobre a colina separada da montanha. A sudeste da aldeia está uma colina que fica completamente dominada, particularmente na sua direita, pela montanha a oeste da aldeia, e que por sua vez está sobranceira a todo o terreno nas proximidades para sul e leste, colina essa onde estava postado o Brigadeiro General Fane com os seu caçadores e com o Regimento n.º 50, bem como o Brigadeiro General Anstruther com a sua brigada, com meia brigada de artilharia de calibre 6 e outra meia brigada de calibre 9, os quais tinham recebido ordens para tomar essa posição durante a noite. O terreno sobre o qual passa o caminho da Lourinhã fica sobranceiro à esquerda desta altura, e tinha sido ocupado apenas por um piquete, pois o posto tinha sido tomado somente para uma noite*, e não havia água nas vizinhanças desta elevação.
A cavalaria e a reserva da artilharia estavam no vale, entre as colinas sobre as quais se postou a infantaria, e ambas flanqueavam e sustentavam a guarda avançada do Brigadeiro General Fane.
A primeira aparição do inimigo ocorreu às oito horas da manhã, com um grande corpo de cavalaria sobre a nossa esquerda, na colina do caminho da Lourinhã; e logo se tornou óbvio que o ataque seria feito sobre a nossa guarda avançada e sobre a esquerda da nossa posição. A brigada do Major General Ferguson marchou imediatamente através da ravina para a colina sobre o caminho da Lourinhã com três peças de artilharia, e foi sucessivamente seguida pelo Brigadeiro General Nightingale com a sua brigada e três peças de artilharia, pelo Brigadeiro General Acland com a sua brigada, e pelo Brigadeiro General Bowes com a sua brigada. Estas tropas fizeram as suas formações (a brigada do Brigadeiro General Ferguson na primeira linha e a do Brigadeiro General Nightingale na segunda linha, enquanto as brigadas dos Brigadeiros Generais Bowes e Acland formaram-se em colunas na retaguarda) nessa elevação, com a sua direita sobre o vale que vai ter ao Vimeiro, e a sua esquerda sobre a outra ravina que separa estas elevações da cordilheira que termina no lugar de desembarque da Maceira [Porto Novo]. Nestas últimas elevações postaram-se à primeira instância as tropas portuguesas, que estavam mais abaixo, perto do Vimeiro, sendo sustentadas pela brigada do Brigadeiro General Crauford.
As tropas da guarda avançada, postadas nas elevações para o sul e leste da aldeia, eram aparentemente suficientes para sua defesa; e o Major General Hill marchou para o centro da montanha sobre a qual se tinha postado o grande corpo de infantaria, para sustentar aquelas tropas e como reserva para todo o exército. Além deste apoio, estas tropas tinham como reserva a cavalaria na retaguarda da sua direita. 
Várias colunas do inimigo começaram a atacar a totalidade das tropas postadas nesta elevação; avançaram pela esquerda, não obstante o fogo dos caçadores que estavam perto do Regimento n.º 50, e foram cerceados e batidos somente pelas baionetas deste corpo. O 2.º batalhão do Regimento n.º 43 também estava por perto, apoiando-os no caminho que vai para o Vimeiro; tendo uma parte deste corpo recebido ordem para ocupar o adro da igreja, para prevenir que os inimigos não penetrassem na aldeia. Na direita da posição, foram estes repelidos pelas baionetas do Regimento n.º 97, cujo corpo foi sustentado com bom sucesso pelo 2.º batalhão do Regimento n.º 52, que, avançando em coluna, tomou o inimigo pelo flanco. 
Para além desta oposição feita ao ataque do inimigo na nossa guarda avançada pelas suas próprias diligências, o seu flanco também foi atacado pela brigada do Brigadeiro General Acland, na marcha para a sua posição na elevação da esquerda, sustentando-se todas as operações com canhoneadas sobre os flancos das colunas do inimigo, pela artilharia que estava naquela elevação. 
Por fim, depois de uma resistência muito desesperada, o inimigo foi batido e teve que se retirar desordenadamente deste ataque, com a perda de sete peças de artilharia, muitos prisioneiros, e grande número de oficiais e soldados mortos e feridos. Foi ainda perseguido por um destacamento do Regimento n.º 20 de Dragões ligeiros, mas a cavalaria do inimigo era de tal modo superior em número que este destacamento sofreu muito, e o Tenente Coronel Taylor foi infelizmente morto. 
Quase ao mesmo tempo, começou o ataque do inimigo nas elevações sobre o caminho da Lourinhã. Este ataque foi sustentado por um grande corpo de cavalaria e feito com a habitual impetuosidade das tropas francesas. Estas foram recebidas com firmeza pela brigada do Major General Ferguson, que consistia nos Regimentos n.os 36, 40 e 71; e estes corpos carregaram assim que se aproximou o inimigo, que retrocedeu, continuando eles a avançar sobre este, sustentados pelo Regimento n.º 82 (um dos corpos da brigada do Brigadeiro General Nightingale, que, em virtude da extensão do terreno, formou depois parte da primeira linha), pelo Regimento n.º 29 e pelas brigadas dos Brigadeiros Generais Bowes e Acland, enquanto a brigada do Brigadeiro General Crauford e as tropas portuguesas, dispostas em duas linhas, avançaram ao longo da elevação pela esquerda. Ao avançar, a brigada do Major General Ferguson matou e feriu um vasto número de inimigos, tomando-lhe seis peças de artilharia e muitos prisioneiros. 
O inimigo fez depois uma tentativa para recuperar uma parte da sua artilharia, atacando os Regimentos n.os 71 e 82, que tinham parado no vale onde tinham tomado a referida artilharia. Estes Regimentos retiraram-se do fundo do vale para as encostas, onde fizeram alto, apontaram e fizeram fogo, avançando então sobre o inimigo, que a este tempo chegara ao fundo do vale, sendo assim novamente obrigado a retirar-se com muitas baixas. 
Nesta acção, em que estava empregada a totalidade da força francesa em Portugal sob o comando do Duque de Abrantes em pessoa, em que o inimigo era certamente superior em cavalaria e artilharia, e em que não mais do que metade do exército britânico entrou realmente em combate, sofreu o inimigo uma assinalada derrota e perdeu treze peças de artilharia, vinte e três carros de munições, com pólvora, balas e apetrechos de todo tipo, e 20.000 cartuchos para espingardas. Um oficial General (Brenier) foi ferido e aprisionado, e muitos oficiais e soldados foram mortos, feridos e aprisionados. 
O valor e disciplina das tropas de Sua Majestade [Britânica] foi muito notável nesta ocasião, como vós, que presenciastes a maior parte da acção, o deveis ter observado; mas é justo referir os seguintes corpos de maneira particular, a saber: a artilharia Real, comandada pelo Tenente Coronel Robe; o Regimento n.º 20 de Dragões, que era comandado pelo Coronel Taylor; o Regimento n.º 50, comandado pelo Coronel Walker; o 2.º batalhão do Regimento de infantaria n.º 95, comandado pelo Major Travers; o 5.º batalhão do Regimento n.º 60, comandado pelo Major Davy; o 2.º batalhão do Regimento n.º 43, comandado pelo Major Hill; o 2.º batalhão do Regimento n.º 52, comandado pelo Tenente Coronel Lyon; o Regimento n.º 36, comandado pelo Coronel Burne; o 40.º [Regimento], comandado pelo Coronel Kemmis; o 71.º [Highland], comandado pelo Tenente Coronel Pack; e o 82.º [Regimento], comandado pelo Major Eyre. 
Tendo mencionado o Coronel Burne e o Regimento n.º 36, não posso deixar de acrescentar-vos nesta ocasião que foi notável a conduta regular e ordenada deste corpo durante o seu serviço, bem como a sua valentia e disciplina na acção. 
Devo aproveitar-me desta oportunidade para testemunhar o meu reconhecimento aos Oficiais Generais e do Estado Maior do exército. Fui muito devedor do discernimento e experiência do Major General Spencer, na decisão que tomei em relação ao número de tropas distribuídas para cada ponto de defesa, e dos seus conselhos e assistência durante a acção. Na posição tomada pela brigada do Major General Ferguson e no seu avanço sobre o inimigo mostrou este oficial igual bravura e discernimento, devendo-se também muito louvor ao Brigadeiro General Fane e ao Brigadeiro General Anstruther, pela valente defesa das suas posições em frente ao Vimeiro, e ao Brigadeiro General Nightingale, pela maneira como sustentou o ataque sobre o inimigo feito pelo Major General Ferguson. 
O Tenente Coronel G. Tucker e o Tenente Coronel Bathurst, os oficiais dos departamentos do Ajudante e do Quartel-mestre General, o Tenente Coronel Torrens, e os oficiais do meu Estado Maior prestaram-me a maior assistência durante a acção. 
Tenho a honra de incluir com esta carta uma relação dos mortos, feridos e desaparecidos.
Tenho a honra de ser, etc., etc.

Arthur Wellesley

N.B.: Depois de escrever o texto acima, fui informado que um oficial General francês, supostamente o General Thiébault**, chefe do Estado Maior, foi encontrado morto no campo da batalha.

A. W.

[Fonte: London Gazette Extraordinary, n.º 16177, September 3, 1808, pp. 1188-1189; John Joseph Stockdale (org.), Proceedings on the Enquiry into the Armistice and Convention of Cintra, and into the conduct of the Officers concerned, London, Printed for Stockdale Junior, 1809, p. 12-15; Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 93-97. Outras traduções em Correio Braziliense, Setembro de 1808, pp. 302-306; José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo V, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 135-145].

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Nota: 


Wellesley tinha a intenção de, na manhã seguinte (ou seja, no próprio dia da batalha, 21 de Agosto), continuar a marcha do seu exército em direcção a Lisboa. Contudo, ao contrário do que o General inglês esperava, os franceses atacaram as posições que o seu exército tinha tomado entre a tarde e a noite anterior, que são aquelas que Wellesley refere nesta primeira parte desta carta.


** Não era o General Thiébault.

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