domingo, 21 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (21 de Agosto de 1808)



Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor: 

Meu Senhor, o que eu tive a honra de anunciar a Vossa Excelência quando saí de Leiria, compôs-se perfeitamente pelo que pertence ao que parecia diferença de opinião. Ontem recebi uma carta do General Wellesley, em que me comunica o que devo fazer daqui em diante. Acho-me em Óbidos por disposição de passar à Lourinhã ou Torres, conforme os movimentos do inimigo, que provavelmente já não procurará mais que retirar-se para as imediações de Lisboa depois das acções que têm havido, todas à vantagem do nosso Exército.
O General inglês está já em Mafra, e os franceses, reunidos em Torres, não têm outro recurso do que passando pela outra estrada vir ainda oferecer alguma oposição às operações em que o General Wellesley prossegue com tanto vigor e energia.
Eu devo seguir a unir-me com este General, logo que o inimigo lhe passe adiante, segundo me disse ontem, mas acho-me sempre embaraçado pelo pão; e isto depois de Vossa Excelência ter dado todas as disposições que podia; mas é particularmente pela falta de estarem as repartições montadas, como devia ser, e pela falta de energia dos empregados.
Suplico instantemente a Vossa Excelência [para que] queira mandar-me com a maior brevidade Sebastião Correia, com os oficiais que entender [que] lhe são precisos para me ajudar nesta parte tão essencial, e sem o qual estamos peados. Aqui temos recebido as remessas dos diferentes ofícios que devemos ao particular cuidado de Vossa Excelência. Supondo que a entrada em Lisboa não se demorará muito, e eu coxo, por assim dizer, por falta de subsistências seguras, o que não sucede aos ingleses, que levam consigo provimentos suficientes de bolacha, rogo a Vossa Excelência ainda uma vez [mais] que me mande Sebastião Correia quanto mais depressa. Creia Vossa Excelência que nada me pode ser mais sensível do que a desordem em que vejo a administração dos víveres e transportes deste Exército; porque quando não se fazem as distribuições a tempo, não se podem fazer com regularidade, e do mesmo modo a respeito dos transportes. Por aqui não tem ocorrido mais novidade de que possa informar a Vossa Excelência, e graças a Deus o Reino não tem padecido senão onde os franceses estavam. 
Tenho a honra de ser o mais obrigado, respeitoso e fiel amigo e criado.

Bernardim Freire d'Andrada [sic].

Óbidos, 21 de Agosto de 1808.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 196-197 (doc. 28)].

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