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sábado, 10 de setembro de 2011

Notícias publicadas no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro (10 de Setembro de 1808)



Rio de Janeiro, a 10 de Setembro de 1808.


A Europa devia prever há muito a sorte do Sumo Pontífice, especialmente desde que foi obrigado a ir a Paris e a assinar a Concordata. O Santo Padre viu enfim que nada conseguia pela moderação evangélica que até aqui o caracterizava, e que a causa da religião exigia a nobre resolução que tomou. O capitólio tão celebrado na História não podia escapar por mais tempo aos desígnios do Imperador dos franceses. Roma deve suscitar-lhe muitas lembranças. A divisa do povo italiano acha-se neste verso de Alfieri!

Siam servi si, má servi ognor frémenti. 
[Sejamos servos, sim, mas servos sempre trémulos].

Ainda que estivéssemos preparados para acontecimentos desta natureza, quase que não pensávamos ver derrubar ao mesmo tempo o trono dos Papas, e roubar o da Espanha, a mais antiga Dinastia da Europa. O Governo francês ainda há pouco engodava a Prússia enquanto atacava a Áustria, enganava a Áustria enquanto combatia com a Prússia e Rússia, fazia protestações de amizade a Portugal, e disfarçava com a Espanha enquanto tinha a contender com as principais Potências do Norte, mandava a Rússia invadir a Suécia enquanto se apoderava da Dinamarca; mas agora empreende juntamente a conquista do Indostão, a ocupação da Pérsia, a desmembração do Império Otomano, a invasão da Sicília, da Suécia, da Espanha, a sujeição de Portugal, a usurpação dos bens e privilégios da Igreja, a protecção da América espanhola. Se ainda pudesse haver uma só pessoa que acreditasse de boa fé a doutrina francesa, bastariam estes factos para lhe abrir de todo os olhos; mas a rebelião de Constantinopla, os levantamentos e emigrações continuadas dos leais portugueses, a resistência de todos os espanhóis, cujo carácter sério e persistente é bem conhecido, a magnânima resolução de Sua Santidade, e o procedimento da Casa de Áustria são provas evidentes de que a Europa não crê mais em enganos.
O Monitor continua de vez em quando a ameaçar os incrédulos. Não há muito tempo que dizia que brevemente não restaria outro recurso a El-Rei de Suécia senão de ir reinar para alguma parte da América. Se esta frase do Monitor envolvesse alguma insinuação a nosso respeito, responder-se-lhe-ia: "Reinamos na melhor porção da América, e a prova disso são os sábios Actos do Governo do Nosso Amado Soberano. O Príncipe Regente Nosso Senhor imediatamente depois da sua chegada mandou abrir os portos destes seus Domínios ao Livre Comércio de todas as Nações Amigas, e declarou guerra àquela que invadiu aleivosamente o património que transmitiu o primeiro dos nossos Reis à sua Augusta Família Real, na cessão da qual jamais consentirá, e sobre o qual conservará sempre os mesmos direitos que tem ao vasto Império que herdou do Senhor Rei D. Manuel.
Entrou neste porto a 19 do passado [mês] uma fragata inglesa, vinda de Gibraltar, que trouxe as importantes notícias que se seguem. Em Cádis, depois de um renhido fogo das barcas canhoeiras e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais se comprehendem muitos Oficiais. Murat acha-se cercado no sítio do Bom Retiro [sic]. Todas as províncias da Espanha têm pegado em armas contra a tirania do Perturbador do Género Humano. As tropas francesas, que se acham dispersas, estão na maior consternação. O nosso fiel Aliado El-Rei da Grande [sic] Bretanha tem prestado todos os socorros aos espanhóis. A Junta do Governo Provisório estabelecida em Sevilha declarou guerra à França, e ajustou um armistício com os Chefes ingleses. Os nossos leais compatriotas manifestam o mesmo espírito, e já recobraram a importante posição de Elvas. O General Junot refugiou-se no Castelo de S. Jorge e dali oferece capitular. A cidade do Porto arvorou a Bandeira portuguesa.
Correu aqui notícia vinda por pedestres de Goiazes [sic], que os franceses, tendo feito um desembarque no Pará com aparências de amizade, o Capitão General os rechaçara completamente, ficando vivos só os prisioneiros; porém, isto ainda merece confirmação.
Igualmente correu voz que um corsário francês desembarcara 20 homens na costa do Pará ou Maranhão para procurar à força mantimentos, e que toda essa gente fora morta, ou feita prisioneira; tendo-se feito à vela o corsário bem embaraçado no porto em que tocaria, pois Caiena se diz bloqueada por duas fragatas inglesas.


sábado, 3 de setembro de 2011

A chegada a Londres das primeiras notícias das vitórias do exército comandado pelo General Wellesley em Portugal, e sua respectiva publicação



Por volta das 8 horas da noite de 1 de Setembro de 1808, Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, recebeu uma visita do Capitão Campbell, Ajudante de Campo do General Arthur Wellesley. Depois de cerca de oito dias de viagem, este Capitão vinha entregar a Castlereagh os importantes ofícios que Wellesley o tinha incumbido levar ao Governo britânico, relativos às vitórias que o exército britânico tinha obtido em Portugal contra o exército francês. 
Para além de escrever ao próprio Rei, ainda nessa mesma noite Castlereagh enviou um resumo destas notícias ao Lord Mayor de Londres, onde acrescentava que, em consequência da batalha do Vimeiro, "o General Kellermann chegou ao Quartel-General [britânico], com uma bandeira de tréguas, para tratar os termos [da capitulação]". Não se davam mais detalhes, pois estes ignoravam-se completamente naquele momento. Tal se devia ao facto do Capitão Campbell ter partido de Portugal no dia 22 de Agosto, pouco depois de Kellermann chegar ao Quartel-General britânico, mas antes de se concluírem na mesma tarde ou noite os referidos termos do armistício. Assim, ignorando completamente o resultado daquela anunciada trégua, Castlereagh deu permissão para que a referida carta ao Lord Mayor fosse publicada no periódico londrino The Times dois dias depois de ter sido escrita. Esta carta foi assim o primeiro documento oficial que se publicou, no qual era feita uma referência, ainda que muito breve, sobre o armistício assinado a 22 de Agosto, cujo conteúdo, no entanto, tardaria ainda duas semanas para se tornar conhecido do grande público na Inglaterra (tal como o texto da Convenção erroneamente chamada de Sintra). 

No dia 2 de Setembro, o Rei da Grã-Bretanha respondeu a Castlereagh, com grande satisfação, às duas cartas que este lhe tinha transmitido na noite anterior. Ainda nesse mesmo dia 2, o periódico The Morning Post revelou ao grande público, em primeira mão, as "gloriosas notícias" da derrota completa do exército de Junot em Portugal, e sua consequente rendição, num número encabeçado pelo sugestivo título: Most Glorious News from Portugal - Complete Defeat of General Junot and Proposals for the Surrender of His Army. 

Finalmente, no dia seguinte, uma série de documentos oficiais sobre as vitórias de Wellesley em Portugal (a maior parte escritas por ele próprio) foram publicados num número extraordinário do periódico The London Gazette. Tais documentos, acolhidos com natural entusiasmo, explicam em parte a recepção bastante desfavorável, duas semanas depois, dos textos do armistício de 22 de Agosto e da Convenção de 30 de Agosto.






Neste número foram publicados excertos e cópias dos seguintes documentos oficiais, segundo a ordem que se indica:


2. Relatório dos mortos, feridos e desaparecidos da acção da Lourinha (sic) [na verdade foi travada a sul de Óbidos].










sábado, 20 de agosto de 2011

Aviso sobre a chegada ao Rio de Janeiro das primeiras notícias sobre a guerra da Espanha contra Napoleão (20 de Agosto de 1808)



Aviso ao Público



Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 1808


As interessantes ocupações da Imprensa Régia* não permitem satisfazer os justos desejos do público, pondo-o ao corrente, com toda a individuação, das plausíveis notícias vindas na fragata inglesa que entrou ontem neste porto, procedente do de Gilbraltar, segundo as quais consta que em Cádis, depois de um forte combate das baterias e fortalezas, ficou prisioneira a esquadra francesa com perda de mais de mil homens, entre os quais pereceram muitos oficiais; que o General Murat encontra-se em apuros nos curtos limites do sítio do Buen Retiro, fora dos muros de Madrid; que armadas todas as províncias de Espanha e animadas de um singular patriotismo, têm na maior consternação os franceses que se encontram em distintos lugares dela, como se descobriu pela interceptação de uma correspondência dos Generais franceses em que mutuamente se pediam auxílio; que o nosso muito fiel aliado o Rei da Grã-Bretanha socorreu a Espanha com todo o género de recursos, tendo transportado as tropas que se achavam nas ilhas de Mahón [Menorca] e Maiorca ao porto de Sevilha, deixando-as ao comando do General Castaños, e enviado o seu General Spencer com o seu respectivo Exército, que já tinha desembarcado em Ayamonte para agir de unânime consentimento com os espanhóis contra o perturbador do género humano, visto que a Suprema Junta de Sevilha declarou guerra em nome do Rei e de toda a nação espanhola, por mar e por terra, contra Napoleão I e contra a França toda, durante o tempo que esta permanecer sob o seu jugo tirânico. 


A Suprema Junta Geral de Sevilha e os chefes de Sua Majestade Britânica existentes diante de Cádis acordaram um armistício e trégua com os fiéis vassalos de Sua Majestade Católica, com a esperança firme e segura de concluí-la com uma paz estável e duradoura.

[Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx 6, doc. 31].

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Nota: 

* Aquando da partida da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, o Ministro e Secretário de Estado D. António de Araújo e Azevedo (futuro conde da Barca) mandou embarcar no navio Medusa uma tipografia que tinha sido comprada na Inglaterra por cem mil libras esterlinas, para uso da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, a qual não se tinha chegado a montar em Lisboa devido a ter chegado pouco antes da entrada de Junot em Portugal. Assim sendo, a dita tipografia foi embarcada, ainda empacotada, para o Brasil, onde viria a servir para estabelecer a Impressão Régia (do Rio de Janeiro), fundada por decreto de 13 de Maio de 1808 (não confundir com a original Impressão Régia, a de Lisboa, fundada por alvará de 24 de Dezembro de 1768, que continuou as suas actividades mesmo depois do Príncipe Regente ter abandonado Portugal, tendo apenas passado a nomear-se Impressão Imperial e Real durante o período que Junot governou Portugal). É certo que já tinha existido pelo menos uma tipografia no Brasil (a de António Isidoro da Fonseca), mas a duração da sua actividade tinha sido bastante efémera, devido a problemas com os censores de Lisboa. A impressa instala-se assim definitivamente no Brasil com a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, mais precisamente através do decreto acima referido, datando a sua primeira obra publicada do mesmo dia em que foi criada: Relação dos Despachos publicados na Corte pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negocios Estrangeiros, e da Guerra no faustissimo dia dos annos de S. A. R. o Principe Regente N. S. e de todos os mais, que se tem expedido pela mesma Secretaria desde a feliz chegada de S. A. R. aos Estados do Brazil até o dito dia. 
Empenhada nos primeiros tempos em publicar sobretudo documentos oficiais (dos quais a John Carter Brown Library da Brown University apresenta um importante espólio, nomeado The Código Brasiliense), entre os quais se contavam cartas régias (como a de 28 de Janeiro de 1808), manifestos (como o de 1 de Maio), decretos (como o de 10 de Junho), alvarás ou avisos, a Impressão Régia não devia ter mãos para medir no momento em que o aviso acima transcrito foi composto. De facto, não só ainda deviam estar nos seus prelos a "justa reclamação" e os manifestos (e respectivas traduções em castelhano) de D. Carlota Joaquina e de D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, legítimos pretendentes do trono de Espanha (motivados pela chegada ao Brasil das primeiras notícias sobre a forçada abdicação da família real espanhola e o seu suposto aprisionamento na França); como também deviam estar a ultimar-se os tipos para impressão da Memoria Historica da Invasão dos Francezes em Portugal no anno de 1807 (que como já referimos foi composta pelo bispo do Rio de Janeiro, que conseguiu fugir de Portugal no início de Março de 1808), dumas Observações sobre o Commercio Franco do Brazil (escritas pelo economista José da Silva Lisboa), e ainda da própria Gazeta do Rio de Janeiro, em cujo primeiro número, de 10 de Setembro, se anunciava estarem ainda no prelo as duas obras anteriores. 

No manuscrito original do aviso acima transcrito, escrito em castelhano, acrescentou-se a seguinte nota, em português: “Para ser traduzido em português, depois copiado e afixado no Paço, Alfândega e nos outros lugares públicos”. Por sua vez, o segundo parágrafo acima transcrito, assente numa folha diversa da que em que se encontra o aviso, é acompanhado da seguinte nota: “Deve agregar-se ao aviso público o seguinte”. Assim o fazemos, ignorando contudo se, pelas razões expostas, este aviso chegou realmente a ser publicado pela Impressão Régia. Não obstante, é certo que grande parte das informações acima transcritas foram dadas à estampa numa notícia datada de 10 de Setembro de 1808, publicada no primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A propaganda anti-francesa e a criação da Minerva Lusitana (11 de Julho de 1808)



A revolta dos povos peninsulares contra a ocupação francesa foi acompanhada de perto por uma enorme máquina propagandística de feição conservadora, patriota e anti-francesa. Depois dos acontecimentos de 2 de Maio em Madrid, e à medida que se iam formando Juntas governamentais nas províncias espanholas que não estavam controladas pelas forças de Napoleão, começava a ser produzida e impressa uma imensa quantidade deste tipo de escritos, entre os quais se encontravam várias proclamações dirigidas aos portugueses. Os levantamentos portugueses, indubitavelmente influenciados pelos espanhóis, não foram imunes a estas proclamações e a este tipo de propaganda, que logo foi imitada. Contudo, ao contrário da Espanha, Portugal contava com poucas imprensas, e como maioria das quais estava concentrada em Lisboa, seria somente depois da saída dos franceses da capital que esta propaganda começaria a ser imprensa em larga escala. Só para nos cingirmos aos periódicos (notando que a lista dos folhetos, panfletos e opúsculos é muito mais vasta), desde o referido mês de Setembro até ao fim desse ano de 1808, foram criados e impressos em Lisboa nada menos que quatro periódicos (que se somavam assim à Gazeta de Lisboa), a saber: Gazeta do Rossio; O Lagarde Português ou Gazeta para depois do Jantar; Semanário Patriótico; O Telégrafo Português ou Gazeta para depois  do Jantar. 
No entanto, antes disso, surgiram em Portugal (para além do Correio Brasiliense, impresso em Londres) outros dois periódicos (três, se contarmos com a Gazeta de Almada, que era manuscrita), a saber: O Leal Portuguez [sic], redigido por José Joaquim de Almeida Araújo Correia Lacerda, que se começou a imprimir a 6 de Julho de 1808, no Porto, na Tipografia de António Álvares Ribeiro, pouco depois de ali se ter formado a Junta Suprema de Governo; e a Minerva Lusitana, impressa na Real Universidade de Coimbra, cujo primeiro número data de 11 de Julho de 1808, ou seja, também poucos dias depois desta cidade se ter levantado. Ambos periódicos foram os primeiros a ser impressos nas respectivas cidades. 
Enquanto O Leal Portuguez foi fruto dos trabalhos da Junta Suprema do Porto, a Minerva Lusitana deveu-se à iniciativa do Governador de Coimbra, Manuel Pais de Aragão Trigoso, que também era vice-reitor da Universidade da mesma cidade (o reitor era D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra, que partira para a França para se juntar à chamada deputação portuguesa, donde somente regressaria em 1814), que nomeou para seu redactor José Bernardo de Vasconcelos Corte Real, e para seus ajudantes Joaquim Navarro de Andrade e Fr. Luís do Coração de Maria [Cf. Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 135-136 e pp. 174].
Publicamos abaixo o primeiro número da Minerva Lusitana, complementado com uma parte do segundo, para não se cortar um Discurso sobre a origem e progressos da actual Revolução de Portugal: 


 


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Introdução ao primeiro número do Diario de Badajoz (17 de Junho de 1808)



O chamado bando de Mostóles, escrito no dia 2 de Maio de 1808, na sequência da repressão do exército francês sobre a população de Madrid, tardou apenas 2 dias para chegar a Badajoz, onde motivou a ocorrência, nesse mesmo dia 4, dum tumulto entre a população e trinta e cinco franceses e nove napolitanos que por ali estavam, talvez a caminho de Lisboa pela "melhor estrada de Portugal" (segundo as palavras do Coronel de Engenheiros Charles Vincent). Tentando serenar os ânimos, o Governador da província, o conde de Torre del Fresno, decidiu pôr a salvo aqueles estrangeiros, provavelmente dentro da prisão, embora logo no dia seguinte os libertasse para remetê-los para Elvas, onde se encontrava o General Kellermann (com cerca de 2.000 franceses). Na carta que escreveu ao dito General francês a este respeito, o referido Governador espanhol tentava suavizar a questão, dizendo que tudo não tinha passado duma "pequena perturbação" causada por rumores contrários à aliança entre a Espanha e a França. Não obstante esta missiva, o mesmo conde de Torre del Fresno difundia no mesmo dia pelas povoações da sua jurisdição uma carta circular, onde, apesar de duvidar da credibilidade do dito bando de Mostóles, passava a ordenar medidas defensivas, convocando um alistamento geral para fazer frente aos franceses, caso tais notícias fossem verdadeiras. Estas medidas acabariam por ser suspensas poucos dias depois, na sequência da chegada duma carta circular que a Junta de Regência, sediada em Madrid, enviara a todas aos Governadores das províncias espanholas, procurando evitar mais confrontos entre espanhóis e franceses. É certo que, tal como ocorreu em Portugal, também na Espanha sucederam volta e meia alguns desacatos pontuais, antes de começarem os levantamentos populares propriamente ditos. Contudo, a partir do momento em que se divulgaram as primeiras notícias e boatos sobre o que ocorrera no dia 2 de Maio em Madrid, o convívio entre intrusos e populares tornou-se bastante mais difícil. A sede de vingança passou a ser o escape de todos os agravos sofridos pelo povo, que até aí aceitara passivamente servir as necessidades - e não eram poucas - do exército intruso. Apesar de todas as precauções das autoridades locais, os desacatos passaram então a ser mais frequentes, sobretudo nas zonas escassamente controladas por franceses. Enquanto ponto de frequente passagem de correios, mensageiros ou pequenos destacamentos de franceses a caminho de Portugal, a cidade de Badajoz não foi excepção, como se queixou o General Kellermann ao conde de Torre del Fresno numa carta de 18 de Maio. Não sabemos se o dito Governador espanhol chegou a publicar essa carta, como lhe instava o General francês. O certo é que o comportamento demasiado permissivo do conde de Torre del Fresno viria mesmo a provocar um motim popular, no dia 29 de Maio, que culminou no seu assassinato às mãos dos populares. Para ocupar o vazio do poder foi constituída nos primeiros dias de Junho uma Junta Suprema de Governo da Extremadura, para a qual foi nomeado presidente o General José Galluzo. Uma das primeiras medidas que este órgão de governo tomou, ao exemplo de outras Juntas, foi, para além do alistamento geral, a instauração duma máquina propagandística local, que se saldou logo no dia 17 de Junho de 1808 com um dos seus primeiros frutos, a saber, a publicação do primeiro número do Diario de Badajoz, redigido pelo médico extremenho [=da província da Extremadura] Pedro Pascasio Fernández Sardino, que também participou na redacção doutros periódicos, como o coetâneo Almacén patriótico e a Gazeta de Extremadura, ambos publicados em Badajoz, ou El Robespierre Español, publicado em Cádis, cujo tom bastante crítico viria a provocar a prisão do dito redactor, em 1811. Feita esta apresentação, publicamos abaixo a tradução da introdução do primeiro número do aludido Diario de Badajoz, periódico que, apesar de ter tido a duração de dois anos, é bastante raro, sendo apenas quinze o total de números existentes na colecção da Biblioteca Nacional de Espanha, alguns dos quais (como precisamente o primeiro número) reimprimidos pela Casa da Misericórdia de Cádis.


Os franceses levaram o nosso Rei, invadiram o nosso País, apoderaram-se das nossas Praças, os seus Exércitos atravessam impunemente desde Barcelona a Lisboa, e desde Pamplona a Cádis; e nós estamos aturdidos e sem ordem nem concerto. Não há remédio, seremos escravos de Napoleão! As cadeias que nos hão de aprisionar soam já nos nossos ouvidos; as nossas campinas desoladas vão oferecer-nos um espectáculo horroroso; e dentro de poucos dias os nossos desgraçados irmãos, atados como vis delinquentes, irão preparar noutro extremo da terra novos louros e novos escravos ao monstro da linhagem humana.
Assim discorríamos há poucos dias; os espíritos exaltados previam estes males, a imaginação arrebatada amontoava-os, e nos críamos perdidos porque o remédio não era tão veloz como ela. Mas a mina arrebentou, variou a cena, e uma nova perspectiva apresentou-se aos nossos olhos. O que éramos a 23 de Maio? O que éramos há 20 dias? E que somos já hoje? Um espaço tão curto enobreceu os ânimos, e deu energia a toda a Nação. Os gritos Pátria, Religião e Fernando soaram nas praias do Oriente e do Meio-Dia [=Sul] do Reino, e as montanhas do Poente e do Norte repetiram o eco. Pátria, Religião e Fernando ressoaram também nas planícies do Guadiana; e, atónitos, os traidores fugiram para esconder-se, ou desapareceram, os irresolutos animaram-se e as almas grandes e generosas repetiram entusiasmadas vivas à Pátria, à Religião e a Fernando.
Num instante tudo se ordena de novo. As rendas de um Governo inerte e cobarde passam para mãos patrióticas e activas, e em tão poucos dias renasce a esperança nos corações de todo o bom Espanhol. Por todo o Reino circulam proclamações, fazem-se alistamentos, e a gente corre à porfia a todos os pontos importantes do Reino, para formar Exércitos que defendam a Religião, sustentem a honra da Pátria, e salvem ou vinguem Fernando.
Glória e honra aos Chefes ilustres que o Povo designou para depositar nas suas mãos a vontade geral! Leais patriotas, vós sabeis bem que desde aquele momento vos impusestes a obrigação de cada um ser um herói; porque nada menos se necessita para corresponder à confiança que o Povo, que a Nação inteira fez de vós. Juntas Supremas de Governo, Juntas patrióticas, Juntas de verdadeiros Espanhóis, a vós se dirije a minha voz: em vossas mãos está o bem e o mal; em vossas mãos está a Soberania. Um Povo sem cabeça, ou dirigido por caminhos sinistros, abandonou os seus Chefes; e para ser governado com energia abrigou-se nas vossas luzes e no vosso patriotismo. O Povo não pôde fazer mais; desempenhai o vosso cargo, e a eleição terá sido acertada.
Mas o Povo não o duvida; vê o trabalho e as fatigas que tomais; e compraz-se nos seus Chefes. No primeiro dia deste mês não havia nesta cidade mais que desordem e descontentamento; 16 dias bastaram para criar um Exército que já intimida o inimigo, e que se aumenta com uma rapidez assombrosa. Haveis comunicado avisos, espalhado anúncios e proclamações, e haveis crido oportuno publicar um Diário, por meio do qual se espalhem e generalizem os vossos decretos e as vossas decisões, se fixe a opinião pública, e se avivem em todos os corações os sentimentos patrióticos.
Haveis-me confiado o resumo [das notícias] e todo o meu cuidado será não desmerecer a vossa confiança. Segundo o plano que vos apresentei, e que vos dignastes aprovar, cada dia se publicará um número do tamanho e letra do presente; a menos que por urgência ou por ordem do Governo haja que apresentá-lo duplo como este.
Não duvido que todos os bons espanhóis me ajudarão com as suas forças numa empresa da qual não espero nem tomarei outra recompensa que o servir a minha Pátria, como bom Espanhol, e como bom Extremenho. Os papéis que me dirijam pelo correio virão remetidos Ao redactor do Diario de Badajoz; e se merecerem a aprovação dos prudentes e sábios Censores que a Suprema Junta me nomeou, imprimir-se-ão com o nome do Autor, ou suprimindo-o se assim se manifeste.
O primeiro lugar será ocupado pelas proclamações, bandos, circulares, lista de donativos e demais que o Governo me ordene. O segundo pelas notícias sobre as ocorrências do dia em cada uma das Províncias do Reino. O terceiro pelas produções em prosa e verso que tenham por objecto inflamar a nação e assegurar o respeito ao Governo.
Uma empresa nova nesta cidade não pode começar com toda a perfeição; mas o público compreenderá e dissimulará os defeitos, que a cada dia serão menores. É possível que este papel ofereça pouco interesse nos primeiros dias, devido à sua pouca variedade; mas tendo subscrito muitos dos periódicos das Províncias, e tratando de fazê-lo com os restantes, e ainda com alguns estrangeiros, não poderei por muito tempo carecer de novidades.

[Fonte: Diario de Badajoz del viernes 17 de junio de 1808 (Reimpreso en la Casa de Misericordia de Cádiz. Año de 1808, pp. 1-3)].

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Primeiro número da Gazeta Ministerial de Sevilla (1 de Junho de 1808)










O Correio Braziliense ou Armazem Literario





"Considerado por alguns estudiosos como primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazem Literario foi publicado em Londres durante 14 anos (junho de 1808 a dezembro de 1822), num total de 175 números, chegando ao Brasil, pelos tempos de viagem marítima da época, entre 45 a 90 dias depois. Na então capital do Brasil, ainda América Portuguesa, começava a circular a partir de setembro de 1808 a Gazeta do Rio de Janeiro (coleção digitalizada disponível em www.bn.br), primeiro periódico impresso em terras brasileiras, na Impressão Régia instalada pela Corte recém chegada ao Novo Mundo.
A importância e a originalidade do Correio, cujo impacto foi grande entre as elites luso-brasileiras, residia em ser um jornal de opinião explícita, que praticava o debate público, defensor das modernas liberdades, em contraponto às tradicionais gazetas de Antigo Regime, ainda que houvessem importantes pontos em comum entre os dois periódicos que acabavam de surgir. A circulação do Correio era formalmente proibida e perseguida no Brasil e em Portugal, o que não impediu que circulasse, inclusive entre as autoridades. A própria localidade de elaboração deste órgão já expressava sua dupla e complexa relação com o liberalismo monárquico inglês e com a expansão econômica do Império britânico.
O redator do Correio, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774 - 1823), nascido na Colônia de Sacramento pertencente então a Portugal, era um típico homem de letras luso-brasileiro, que valorizava o papel do Brasil nesse conjunto. Ele empreendeu a monumental tarefa de coletar materiais e redigir durante todo o tempo uma publicação que lembra pouco um jornal de nossos dias. Cada número se compunha de um volume, mensal, apresentando em média entre 72 e 140 páginas, embora alguns tenham ultrapassado 200. Era dividido em quatro seções gerais: Política, Comércio e Artes, Literatura e Ciência e, ainda, Miscelânia (que se subdividia em Correspondência e Reflexões).
Tal publicação pertenceu a uma época de crise, instabilidades e expressivas transformações: impérios que ruíam ou se reestruturavam, nações que se constituíam. Em suas páginas vibram estas tensões, incertezas e esperanças. O Correio, sem dúvida, está associado às condições que resultaram na Independência do Brasil, ainda que só nos últimos momentos tenha apoiado a separação de Portugal. Para os pesquisadores atuais trata-se de um enorme e precioso manancial de fontes documentais. Sobretudo porque seu redator não apenas registrou de modo privilegiado tais acontecimentos locais e internacionais, formando um amplo “armazém”, como participou deles, assumindo posições e influindo, no seu limite, nas mudanças que ocorriam. A Era das Revoluções palpita nestas folhas impressas" [Fonte: Marco Morel, Correio Braziliense ou Armazem Litterario (1808-1822)].



Feita esta apresentação, vejamos agora a introdução com que principia o jornal e um dos muitos artigos de opinião de Hipólito José da Costa:



***




Nota: Curiosamente, no frontispício do segundo número (Julho de 1808) do Correio Braziliense, aparece em rodapé a seguinte nota: “Roga-se encarecidamente ao leitor que emende os erros da Imprensa, pois não há cuidado que baste para fazer com que o impressor inglês seja correcto no português; só quem tem dirigido uma edição pode ajuizar deste trabalho material das correcções de imprensa” (pp. 81-82).



sexta-feira, 13 de maio de 2011

Decreto do Príncipe Regente estabelecendo a Impressão Régia no Brasil (13 de Maio de 1808)





Tendo-me constado que os prelos que se acham nesta capital eram os destinados para a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra; e atendendo à necessidade que há da Oficina de Impressão nestes meus Estados; Sou servido que a casa onde eles se estabelecerão sirva interinamente de Impressão Régia, onde se imprimam exclusivamente toda a legislação e papeis diplomáticos que emanarem de qualquer repartição de Meu Real Serviço; e se possam imprimir todas e quaisquer outras obras; ficando interinamente pertencendo o seu governo e administração à mesma Secretaria. Dom Rodrigo de Souza Coutinho, do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, o tenha assim entendido, e procurará dar ao emprego da Oficina a maior extensão, e lhe dará todas as instrucções e ordens necessárias, e participará a este respeito a todas as estações o que mais convier ao Meu Real Serviço. 
Palácio do Rio de Janeiro, em treze de Maio de mil oitocentos e oito. 

Com a rubrica do Príncipe Regente Nosso Senhor

[Fonte: Correio Braziliense, Londres, Novembro de 1808, 517-518. A digitalização do decreto foi extraída do Código Brasiliense da John Carter Brown Library].


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Nota: O citado número do Correio Braziliense acompanhava a publicação deste decreto com a seguinte notícia: "Pela oficina que interinamente serve de Impressão Régia no Rio de Janeiro, se faz público que nela há faculdade para se imprimir toda e qualquer obra; assim como que se admitem aprendizes de compositor, impressor, batedor, abridor, etc., e oficiais dos mesmos ofícios e quaisquer outros que lhe sejam pertencentes, como fundidores e estampadores, etc".