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domingo, 31 de julho de 2011

The Ghosts of the Old Kings of Spain appearing to their Degenerate Posterity, caricatura atribuída a Charles Williams (Julho de 1808)




Os fantasmas dos velhos Reis da Espanha aparecendo à sua posteridade degenerada
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Julho de 1808.



Quatro fantasmas irados de antigos Reis da Espanha surgem no meio de fumo para condenar a família real espanhola. Um dos fantasmas, ao centro da gravura, vira-se para Carlos IV e declara-lhe: Desgraça dos vossos antepassados, tremereis pela vingança! O velho monarca, horrorizado, implora pela misericórdia do fantasma: Oh, não olheis com essa carranca para um pobre, miserável e velho rei. À esquerda da imagem, Fernando volta-se para o fantasma que está atrás de si, declarando-lhe, enquanto aponta um dedo acusador a Godoy:  Eis a causa da nossa desgraça. Contudo, o fantasma recorda a Fernando que também ele é responsável pelo destino da sua família: Relembrai que sois um Príncipe. Godoy, cujo chapéu está tombado no chão, enterra a sua cabeça no colo da rainha, como que buscando protecção, e do seu bolso caem papéis da Correspondência entre Godoy e Bonaparte e outros Para o Príncipe [da] Paz. Incapaz de assistir à horrífica cena, a própria rainha tapa a cara. Napoleão, no lado direito da gravura, é indiferente às aparições. Com um sorriso no rosto, remove a coroa de Carlos IV, e declara-lhe: Não vos alarmeis, meu bom amigo, tomarei conta da vossa Coroa, a qual não poderia estar em melhores mãos; penso que servirá no mano Zézinho. Vendo isto, John Bull, atrás de Napoleão, ordena-lhe que pare: Parai, meu pequeno senhor. Vereis que aí está uma pessoa chamada Fernando; essa coroa servir-lhe-á muito melhor do que em Zézinho



Outras digitalizações:

British Museum (a cores).

British Museum (a preto e branco).

Brown University Library (a preto e branco).


sexta-feira, 8 de julho de 2011

The Corsican Tiger at Bay, caricatura de Thomas Rowlandson (8 de Julho de 1808)




O Tigre Corso em apuros.
Caricatura de Thomas Rowlandson, publicada a 8 de Julho de 1808.


Traduzimos livremente o título desta caricatura, que baseia-se na expressão inglesa at bay, que por sua vez vem do francês aux abois, que significa "numa situação desastrosa". No vocabulário da caça, a expressão refere-se à posição dum animal acuado que, perseguido por uma matilha, vê-se incapaz de continuar a fugir, virando-se então para enfrentar os cães que o acossam. É possível que Thomas Rowlandson se tenha inspirado em algumas das ilustrações que Samuel Howitt concebeu para uma obra de caça intitulada Oriental Field Sports, cujo primeiro volume, publicado em Londres em 1807, incluía diversas gravuras representando a caça aos tigres, entre as quais se encontrava uma intitulada precisamente The Tiger at Bay, ao lado de outras com alguns motivos semelhantes aos representados na caricatura acima inserida, como por exemplo A Tiger seizing a Bullock in a Pass, Shooters coming by surprise upon a Tiger, ou ainda A Tiger hunted by wild Dogs.
Napoleão é assim representado como um "tigre da Córsega", ainda que, na verdade, as manchas do seu corpo mais se assemelhem à de um leopardo, possivelmente para o associar à carga simbólica da besta descrita numa passagem do livro do Apocalipse (13: 2), a qual, aliás, seria representada alguns dias mais tarde pelo mesmo caricaturista. O dito "tigre" arreganha ferozmente os dentes a dois galgos patriotas, que disputam os quatro galgos reais (alusão a Carlos IV, à sua esposa D. María Luisa, a Fernando VII e a Godoy, então supostamente presos na França) que domina com as suas patas dianteiras, enquanto que, à esquerda da imagem, uma matilha dos mesmos galgos patriotas corre impetuosamente ao seu encalço
Esta cena aparece separada por água de outros três cenários, à direita da gravura. Em primeiro plano vê-se o sapo holandês, que fuma um cachimbo enquanto observa o "tigre" acossado pelos cães espanhóis, o qual diz que será "o próximo a dar-lhe uma bofetada". Ao fundo vê-se o urso russo agrilhoado pelo pescoço e ligado por uma corrente ao pescoço duma das três cabeças coroadas da águia austríaca, a qual declara: "Chegou o tempo, mano urso, de quebrarmos os nossos grilhões". Entre o sapo e os outros dois animais, aparentemente sobre a posição defensiva natural de White Cliffs of DoverJohn Bull aponta uma espingarda ao "tigre", enquanto canta o início duma canção infantil ("Havia um homem pequeno, e ele tinha uma arma pequena, e as suas balas eram feitas de chumbo"), que subitamente interrompe para declarar "vamos tratar dele entre nós". 

Existem duas versões espanholas desta caricatura, uma intitulada El Tigre Corso en su último ataque, e outra reproduzida a partir das chapas originais, com o título espanhol El Tigre Corso Atacado, com traduções das inscrições originais em inglês, onde John Bull aparece como Juan Toro, como se pode ver abaixo:



El Tigre Corso Atacado.



Outra digitalização: 


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Manifesto da Junta Suprema de Sevilha (17 de Junho de 1808)



Manifesto ou declaração dos principais factos que motivaram a criação desta Junta Suprema de Sevilha que, em nome do senhor Fernando VII, governa os Reinos de Sevilha, Córdova, Granada, Jaén e as províncias da Extremadura, Castela-a-Nova e as demais que forem sacudindo o jugo do Imperador dos franceses 



A Espanha descansava na sua própria grandeza, por tantos séculos conservada, e contava com a aliança e com as forças da França. Logo que fez a paz com esta em 1795, abraçou os seus interesses e entregou-lhe navios, dinheiro, tropa, e quantos auxílios foram exigidos. Até os próprios reis de Espanha pareciam feudatários da França; e pode-se dizer que a França deve os seus triunfos e progressos a esta união com Espanha. 
Entretanto, dominava a Espanha com império absoluto e despótico o perverso Godoy, que, abusando da excessiva bondade do nosso Rei Carlos IV, apropriou-se, em dezoito anos de favor, dos bens da Coroa, dos interesses dos particulares, dos empregos públicos que distribuía infamemente, de todos os títulos, honras, e até do tratamento de Alteza, com as dignidades de Generalísimo e Almirante, e com direitos aumentados sobre imensas e escandalosas quantias, que faziam transbordar a nossa miséria. 
Como parece que aspirava ao trono real e tinha como obstáculo o Príncipe das Astúrias D. Fernando, acometeu directamente à sua sagrada pessoa: atribuiu-lhe conspirações contra o seu augusto pai, e sob este pretexto o fez prender e expediu a horrível circular de 30 de Outubro de 1807 e a propriamente ridícula de 5 de Novembro seguinte. Os povos viram uma e outra com espanto. Não lhe deram fé alguma, e o Conselho de Castela, chamado ao conhecimento desta causa, unanimemente declarou que o Príncipe das Astúrias era inocente
O Rei pai não se conformou com esta providência e fez castigar com dureza os supostos cúmplices do Príncipe das Astúrias. Bastava ao povo espanhol o nome do seu Rei para obedecer e sofrer com silêncio; durou assim até ao mês de Março deste ano de 1808, quando o perigo do mesmo Rei e da pátria converteram a sua paciência em furor. Entretanto, os reis de Portugal tinham-se vistos obrigados a abandonar a Europa, passar à América, e mandar os seus vassalos a não levantarem resistência com armas ao exército francês que entrava no seu território. Tanta moderação não moderou nem acalmou a ambição de Napoleão. As suas tropas apoderaram-se de Portugal e fizeram nele estragos que estremecem a humanidade. Napoleão agregou ao seu império este Reino, e impôs-lhe contribuições duríssimas, quais não teria sofrido pelo mais feroz conquistador. 
A Espanha viu neste exemplo que se os seus reis a abandonavam, padeceria da mesma sorte que Portugal; ademais, que nem o nome espanhol, nem o amor que tem aos seus reis, nem outras mil razões podiam permitir que os espanhóis vissem com indiferença o transtorno das suas leis fundamentais e a aniquilação da sua monarquia, a mais gloriosa de toda a terra. 
Nesta conjuntura, torna-se público e dão-se provas de que os reis pais e toda a real família iriam abandonar a capital, passar à Andaluzia, e viajar para as Américas em embarcações inglesas. Estas vozes irritam extremamente o povo contra D. Manuel Godoy, único e solitário autor deste abandono. Todas as tropas da Casa Real, as demais do exército, e todos os habitantes honrados unem-se em Aranjuez para impedir a sua execução, o que conseguem. O infame privado excita a sua justa violência, e fica a dever a vida à generosidade do Príncipe das Astúrias. O Rei Carlos renuncia à Coroa, e remete ao Conselho o instrumento mais autêntico desta livre abdicação. Em sucessos tão extraordinários não se derrama uma gota de sangue em Aranjuez. Tal é a lealdade inaudita do povo espanhol. 
Em Madrid, o Conselho tornou pública a abdicação de Carlos IV e proclamou como Rei o seu filho mais velho, o senhor D. Fernando VII, Príncipe jurado das Astúrias. O povo da capital e o de toda a nação recebeu esta notícia com um júbilo nunca visto, e declarou o seu amor, a sua obediência e a sua fidelidade ao seu novo Rei com uma união, ardor e demonstrações tão novas que são desconhecidas na história da fidelíssima nação espanhola. Os exércitos franceses não puderam deixar de ver atónitos tão estranhos sucessos; e o próprio incêndio dos móveis de algumas casas suspeitas de Madrid foi executado com tal ordem, com tanto cuidado para que não padecesse o público, e sem derramamento de sangue, que se pode dizer que só a nação espanhola é capaz de semelhante circunspecção num tumulto popular. 
Todos acharam que os franceses se uniriam aos espanhóis para celebrar o feliz facto de se ter impedido que os seus reis abandonassem a Espanha e embarcassem na esquadra inglesa. Mas qual foi a sua admiração, quando viram que este mesmo sucesso, que devia ser tão agradável aos franceses, foi precisamente o pretexto que abraçaram para nos perseguir, destruir os nossos reis, acabar com a monarquia, e cometer horrores de que a história não fala nem pode falar. Foram estes tão multiplicados que será muito difícil, para não dizer impossível, pôr alguma ordem na relação dos que vamos indicar. 
Foi o primeiro [horror] a entrada do exército francês em Madrid, fixando artilharia em vários sítios públicos, e usando da autoridade como nunca o tinha feito monarca algum da Espanha; entretanto, continuavam as aclamações de Fernando VII, mas Carlos IV, enganado tantas vezes, fazia o seu protesto contra a abdicação anterior e enviava-o a Napoleão, pondo a sua sorte nas mãos deste. 
Fernando VII foi pessoalmente receber o próprio Napoleão, que tinha prometido e feito anunciar, através do duque de Berg, que vinha à Espanha no prazo de quatro dias. Fernando VII enviou diante de si o seu irmão, o infante D. Carlos, que, não tendo encontrando Napoleão, entrou na França. Seguiu-se-lhe o Rei Fernando até Vitória, e nesta cidade, o povo, a quem o seu coração terno e leal lhe fazia pressagiar o triste destino que Fernando esperava na França, impediu-o de sair, cortou os tirantes do coche, e gritou para que não se entregasse a Napoleão. O Rei, confiado na sua própria generosidade e na grandeza da sua alma, fez-se de surdo a estes clamores e continuou a sua viagem, entrando em Bayonne para abraçar Napoleão, que o tinha chamado a si com mil carícias e seguranças fingidas, dando-lhe nas suas cartas o tratamento de Rei de Espanha. 
Antes de se prosseguir, regressemos a Madrid e aos horríveis factos a que assisti. Fernando VII tinha criado uma Junta Suprema de Governo, cujos membros indicou, nomeando para Presidente o seu tio, o infante D. António. Era preciso destruir esta Junta e consumar os projectos de iniquidade que estavam tramados: para este fim fez-se sair de Madrid e passar à França a Família Real, sem exceptuar aqueles infantes que, pela sua tenra idade, deviam aparentemente inspirar alguma compaixão. O povo de Madrid enfureceu-se vendo este acontecimento, e o exército francês tomou daí o pretexto para entrar armado e com artilharia a 2 de Maio, guerreando raivosamente com aquele pobre povo, e cometer nele uma carnificina que ainda hoje faz tremer a sua memória. O débil governo espanhol, oprimido pelo duque de Berg, depois de ter proibido às tropas espanholas que saíssem para ajudar os seus irmãos, apresentou-se em público nas ruas de Madrid, e à sua vista o povo deixou as armas e acalmou o seu furor. 
Esta obediência, este respeito próprio do povo espanhol, em vez de aplacar irritou o ferocíssimo Murat, e sob o pretexto de que os populares levavam armas (o que só será proibido por uma lei posterior), ordenou que fossem fuzilados a sangue frio. Sofreram a morte, assim, sacerdotes que só levavam consigo um aparador de penas para escrever, artesãos que traziam navalhas ou instrumentos dos seus ofícios, e todo o tipo de pessoas, pelo simples capricho dum exército furioso, sem honra, sem religião e sem considerações. 
Seguidamente, o infante D. António foi obrigado a dirigir-se para Bayonne. Fernando VII tinha nomeado os vogais da Junta de Governo e ninguém podia agregar outros; não obstante, o estrangeiro Murat não teve vergonha em obrigar estes vogais a elegerem-no Presidente na sua própria presença, circunstância que, por si só, basta para convencer a horrível violência com que se procedia; no entanto, todos os vogais da junta assinaram este decreto e publicaram-no. 
Pretendia-se entretanto, através dos franceses, a formação dum partido em Madrid e no Reino por Carlos IV, valendo-se de proclamações capciosas e de outros meios indecentes, mas nada se pôde conseguir. Os autores destas tramas ficaram sem castigo, mas a nação, a Europa e o mundo todo viram que os franceses faltaram à verdade descaradamente, quando publicaram que na Espanha há divisões e partidos. Não os há, e para perpétua ignomínia dos que espalharam o contrário, a nação inteira grita que não deseja, não ama e não é de outro rei senão do senhor Fernando VII. Apareceu por fim no Conselho de Castela o protesto de Carlos IV enviado por Napoleão a Murat, e este tribunal, dominado por um terror que será a sua eterna deshonra, decidiu que não era Rei de Espanha Fernando VII, mas sim Carlos IV, pela nulidade da sua abdicação. Que reflexões se apresentam de tropel aqui, quando se considera que o Conselho é o primeiro tribunal de justiça do Reino, e os seus ministros os ministros das leis! Mas continuemos. 
Em virtude de Carlos IV ter reassumido a coroa, entrou outra vez na potestade de eleger um governador do Reino; e afectando o espírito e a linguagem francesa até nas palavras, indicou para este emprego, com o título de Lugar-Tenente, Murat, ou seja, o duque de Berg. Até aqui parecia que se tinham guardado as formas, mas muito rapidamente acabou-se até com a aparência delas. A 4 de Maio, em Bayonne, Carlos IV declarou-se rei, dizendo que queria consagrar os últimos dias da sua vida ao governo e felicidade dos seus vasalos. Pois no dia 8 do mesmo mês o rei Carlos esqueceu-se de tudo isto e renunciou à Coroa de Espanha a favor do Imperador Napoleão, com a faculdade expressa de que este a pudesse pôr em quem quisesse, segundo a sua vontade. Que contradições! Que insensatez! 
A monarquia de Espanha não era de Carlos IV, nem este a tinha por si mesmo, mas sim por direito de sangue, segundo as nossas leis fundamentais; e o mesmo Carlos IV acabava de assentá-lo e dizê-lo ao reassumir o Reino. Com que autoridade e com que direito aliena a coroa de Espanha e trata os espanhóis como rebanhos de animais que pastam nos campos? Com que poder priva da monarquia os seus filhos e descendentes e todos os herdeiros dela pelo nascimento e pelo sangue? 
Será certamente uma prova autêntica da cegueira espessíssima a que conduz a ambição, o facto de que Napoleão, com o seu ponderado talento, não tenha conhecido estas verdades, lançando sobre si a infâmia eterna de ter recebido a monarquia espanhola de quem não tinha nenhum direito e poder para dá-la. E a mesma nulidade haveria se conseguisse realizar os seus infames desígnios de entronizar como Rei de Espanha o seu irmão José Napoleão; pois nem este nem Napoleão I podem ser nem serão reis de Espanha, senão pelo direito de sangue que não têm, ou por eleição unânime dos espanhóis, que jamais a farão - saibam-no assim desde agora e para sempre. 
Quiseram-se autorizar estas violências com o nome e assinatura de Fernando VII e para isto se publicou primeiramente a sua renúncia a favor do seu pai Carlos IV, e depois uma outra, desta vez a favor de Napoleão, a qual, violentados, assinaram Fernando, o seu irmão o infante D. Carlos, e o seu tio o infante D. António. Há motivos gravíssimos para se presumir que estas duas renúncias são supostas; mas ainda que sejam verdadeiras, nelas mesmas está evidente a violência com que se fizeram e a sua completa nulidade. A 4 de Maio, Carlos IV reassumiu o trono, e com a data de 6 aparece a renúncia de Fernando VII. Se Carlos IV podia por si mesmo reassumir o trono, para quê a renúncia de Fernando VII? Se esta renúncia era de todo necessária, com que autoridade Carlos IV reassumiu o trono antes dela? * 
O mesmo argumento, e ainda com mais força, aplica-se à renúncia do domínio de Espanha a favor de Napoleão. Carlos IV fê-la em 8 de Maio, e Fernando VII em 12. Não foi pois válida a de Carlos IV em 8 porque faltava a de Fernando VII, e se foi válida, para quê se exigia esta outra? 
Numa e noutra, a violência que se fez a todos é manifesta e não tem exemplo igual. Fernando VII foi tratado, logo que entrou em França, com um desprezo que não podia imaginar-se. Está rodeado de guardas franceses; foi separado da sua comitiva; foi reduzido a um estado miserável; e ainda lhe ameaçaram de morte **. O mais estranho é que Napoleão não alcançou o seu fim com toda esta ignomínia. Depois de Fernando VII, o seu irmão o infante D. Carlos, toda a Família Real e a sua descendência ficam com um direito inviolável ao trono de Espanha. Causará admiração à posteridade que o próprio Conselho de Castela se tenha prestado a tantas e tão horríveis usurpações, e que as tenha autorizado com o seu nome, o qual enganou a alguns pouco reflexivos. É mais claro que a luz que o Conselho de Castela não tem poder algum para mudar a dinastia reinante e transtornar as leis fundamentais na ordem da sucessão. As consequências horríveis de terem sidos obrigados a derrogar o poder que não têm trouxeram males gravíssimos à nação inteira. 
Foi pois por toda a necessidade e para remédio daqueles [males] que se criou a Junta Suprema de Governo de Sevilha, a instâncias do povo, e que no uso das suas faculdades se tenha declarado independente, desobedecendo ao Conselho e Junta Superior, cortando toda a comunicação com Madrid, levantando exércitos, e fazendo-os marchar para guerrearem com os franceses. Deus lançou a sua santa bênção sobre nós e sobre as nossas puras intenções. Dos dias 23 a 27 de Maio toda a nação se levantou em massa a proclamar o seu Rei e defender a sua pátria. Elegeram-se Capitães-Generais e chefes do exército. Estes foram organizados, correndo os povos com ardor às armas, e as classes e corpos poderosos fazem abundantes donativos. 
A Andaluzia era acometida por um exército francês [comandando pelo General Dupont] no mesmo momento em que levantou a voz pela sua religião, pelo seu Rei e pela sua pátria, e em menos de quinze dias temo-lo já cercado e não poderá escapar de se render ou de se retirar vergonhosamente. A esquadra francesa ancorada em Cádis acaba de arrear a sua bandeira e sensatamente entrega-se a nós. As províncias de Espanha vão reconhecendo nesta Suprema Junta o fiel depósito da autoridade real e o centro da união, sem o qual expor-nos-íamos a guerras internas ou civis que arruinariam completamente a nossa santa causa. 
Tratámos um armistício com os ingleses e temos livre comunicação com eles. Ofereceram e deram-nos muitos auxílios, e esperamos outros maiores. Desembarcaram parte das suas tropas, e lutam já em alguns dos nossos pontos ***; estão em Cádis prontos a embarcar três enviados nossos ao Rei da Grã-Bretanha, que tratarão e ajustarão uma paz durável e vantajosa com a nação inglesa. Portugal está em comoção e pronto a sacudir o seu vergonhoso jugo. 
As Américas, tão leais ao seu Rei como a Espanha europeia, não podem deixar de se unir a ela numa causa tão justa. Uno será o esforço de ambas pelo seu rei, pelas suas leis, pela sua pátria e pela sua religião. Ameaçam também as Américas, se não se reúnem a nós, os mesmos males que sofreu a Europa, a destruição da monarquia, a mudança do seu governo e das suas leis, o desregramento horrível dos costumes, os roubos, os assassinatos, a perseguição dos sacerdotes, a violação dos templos e das virgens consagradas a Deus, a extinção quase total do culto e da religião; em suma, a escravidão mais bárbara e vergonhosa, sob o jugo dum usurpador que não conhece nem piedade, nem justiça, nem humanidade, nem até sinal algum de vergonha. 
Burlaremos as suas iras uma vez reunidas a Espanha e as Américas espanholas. Esta Junta Suprema cuidará de tudo com um zelo infatigável. As Américas sustentarão-na com quanto abunda no seu fértil solo tão privilegiado pela natureza, enviando imediatamente os fundos reais e todos quantos possam adquirir-se por donativos patrióticos dos corpos, comunidades, prelados e particulares. O comércio voltará a florescer com a liberdade da navegação e com os favores e graças oportunas que lhe dispensará esta Junta Suprema, de que podem estar certos os nossos compatriotas. 
Somos todos espanhóis. Sejamo-los, pois, verdadeiramente reunidos na defesa da religião, do rei e da pátria. 
Palácio Real do Alcázar de Sevilha, a dezassete do mês de Junho do ano de mil oitocentos e oito. 

Francisco de Saavedra, Presidente. 
El arzobispo de Laodicea, coadministrador do desta diocese 
Fabián de Miranda y Sierra. 
Francisco Cienfuegos. 
Vicente Hore. 
Francisco Díaz Bermudo. 
Juan Fernando Aguirre. 
El conde de Tillí. 
El marqués de Grañina. 
El marqués de las Torres . 
Andrés de Miñano y las Casas. 
Antonio Zambrana Carrillo de Albornoz. 
Andrés de Coca. 
Josef de Checa. 
Eusebio Herrera. 
Adrián Jacome. 
Antonio Zambrano. 
Manuel Peroso. 
Josef Morales Gallego. 
Víctor Soret. 
Celedonio Alonso. 
Manuel Gil. 
Josef Ramírez. 

Por mandado de Sua Alteza Sereníssima, 
Juan Bautista Pardo, secretário, 
Manuel María Aguilar, secretário.


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Notas:

* Deve-se aclarar que, aparentemente, a Junta de Sevilha somente tinha conhecimento da renúncia anunciada numa carta de 6 de Maio de Fernando VII ao seu tio o infante D. António (presidente do Governo provisório criado pelo sobrinho), desconhecendo um facto anterior: Fernando VII tinha renunciado à coroa no dia 1 de Maio (embora condicionalmente), conforme ele próprio o atestou novamente numa carta de 6 de Maio, enviada a seu pai, carta esta onde fica finalmente assente a sua renúncia incondicional.

** Como se vê, o mito do "rapto" e da "prisão" de D. Fernando foi construído pouco depois de chegarem à Espanha as notícias da sua abdicação (e pouco faltaria para que o começassem a apelidar de Desejado). Na verdade, em troca da sua abdicação, D. Fernando passou a viver no château de Valençay com o seu irmão D. Carlos e com o seu tio D. António (entre outros membros da sua comitiva), à custa de largas rendas provenientes dos cofres franceses. Contudo, a mitificação já estava consumada: "Na guerra da independência os espanhóis improvisaram tudo, começando pelo mito preciso, e que sempre lhes foi necessário para prosseguirem em diante. Aqui o mito foi o próprio Fernando, idealizado no seu Palácio-prisão de Valençay como modelo de virtudes, como acumulado de sofrimentos, como protótipo de integridade. O amado  Rei Fernando era como o príncipe encantado pelo qual combatia a Espanha inteira" [Fonte: Fernando Solano Costa, "Influencia de la Guerra de la Independencia en el pueblo español", in Revista de Historia Jerónimo Zurita, n.º 3, 1952, pp. 103-121, p. 108].

*** Na verdade, apesar de ser certo que algumas tropas inglesas tinham desembarcado perto de Cádis, nenhumas delas se tinham ainda envolvido, aquando da redacção deste manifesto, em qualquer tipo de luta no território espanhol.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Boney and his horse Talley - returning to Paris with a Spanish Cargo, caricatura de Charles Williams (14 de Junho de 1808)



Boney e o seu cavalo Talley regressando a Paris com uma carga espanhola.
Caricatura de Charles Williams, publicada a 14 de Junho de 1808.

Depois de em Bayonne ter obtido a coroa de Carlos IV (que jaz a seus pés), Napoleão regressa triunfalmente a Paris, conduzindo uma pequena carruagem cuja roda dianteira passa por cima duma "Declaração de Amizade à Família Real da Espanha", papel este que, por sua vez, está sobre uma espada. No banco da frente, ao lado do Imperador, vão sentados o velho Carlos IV e a sua esposa D. María Luísa, a qual ainda ostenta a sua coroa, enquanto no banco de trás estão sentados D. Fernando VII e o Príncipe da Paz D. Manuel Godoy, ambos ligados por correntes de ferro presas ao pescoço. Estes últimos trocam olhares atónitos, aparentemente porque Napoleão acaba de dizer: Podeis estar seguros, faço tudo isto pelos vossos bens. De facto, na bagageira da carruagem encontram-se empilhados e lacrados com o selo do Imperador os "bens do bom velho Rei", os "bens da amável Rainha", os "bens do Príncipe das Astúrias", e um saco, quase tão grande com os três outros volumes, com os "bens do Príncipe da Paz"
Finalmente, apesar da caricatura representar Talleyrand metamorfoseado em cavalo a puxar a carruagem, devemos voltar a dizer que este opunha-se aos planos de Napoleão em relação à Espanha, e que por tal motivo tinha sido afastado, no ano anterior, do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França.


Pormenor




Outras digitalizações:


domingo, 12 de junho de 2011

Boney at Bayonne blowing a Spanish Bubble, caricatura publicada por Thomas Tegg (12 de Junho de 1808)




Bonaparte em Bayonne enchendo uma bolha espanhola.
Caricatura publicada por Thomas Tegg a 12 de Junho de 1808.


Apesar de termos traduzido literalmente o título desta caricatura, devemos notar que outra tradução possível seria Bonaparte em Bayonne difundindo um rumor espanhol, como que aludindo às notícias que a imprensa napoleónica começou a espalhar a partir daquela cidade (ver em particular uma carta anónima de 8 de Maio de 1808, atrás publicada), antes mesmo da abdicação da família real espanhola. Assim, Napoleão é representado a criar uma enorme bolha (note-se que outro significado de bubble, em inglês, é "embuste"), dentro da qual aparecem, da esquerda para a direita, D. Carlos IV, a sua esposa D. Maria Luísa, D. Fernando VII e Godoy, todos eles (exceptuando a rainha) com as cabeças despojadas. Bonaparte cumprimenta-os com mostras de amizade: Meu bom velho Rei, confiai em mim, venho como um Amigo! Digníssima Rainha, Vossa Majestade nada tende a recear de mim. Ah! O Príncipe das Astúrias, meu Amigo e Irmão! Generosíssimo Príncipe da Paz, vede em mim o vosso Anjo da Guarda. Apesar destas promessas e garantias, Bonaparte está sentado num tambor de guerra, rodeado de três peças de artilharia (uma das quais cheia de espuma de sabão gálica), e munido de diversas balas de amizade. Lançando fogo à bombarda que está à sua frente, Napoleão dispara uma bala/bolha em direcção a Madrid, sob as aparências de uma visita amigável, mas que, ao rebentar, dela irrompem diversos soldados franceses, os quais caiem sobre a capital espanhola. Trata-se duma nítida alusão à repressão dos motins madrilenos de 2 de Maio de 1808, o que aliás coincide com uma outra tradução possível de blowing a bubble: "estoirando/atacando uma efervescência"... 


Pormenor


terça-feira, 24 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (24 de Maio de 1808)




Lisboa, 24 de Maio.


Com data de 27 do mês passado se expediu um aviso pela Secretaria de Estado das Finanças às Superintendências das Décimas de Lisboa e termo, por onde se lhes adverte que sendo muito errada a inteligência que se deu em alguma das do termo ao § 12 das instruções de 27 de Fevereiro precedente, quanto aos prazos do pagamento da Contribuição extraordinária de Guerra, imposta pelos artigos 17 e 18 do decreto do 1.º [do] dito [mês]; visto que, tendo-se ali declarado que estes prazos são os mesmos das imposições ordinárias, e referindo-se evidentemente esta declaração à geral disposição da lei em todo o Reino, não pode senão por capciosas interpretações deixar de compreender o termo de Lisboa; e que, portanto, em consequência das ordens do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal, se ficará entendendo que a dita Contribuição deve satisfazer-se em dois pagamentos; o primeiro, passado que seja o mês de Junho; e o segundo, passado o mês de Dezembro.

Por cartas recentemente chegadas dos Generais comandantes das tropas portuguesas que vão a estar de guarnição nas fronteiras do Meio-Dia[=sul] da França, em Pau e em Auch, consta haver a deserção cessado naqueles corpos, desde que se lhes fez conhecer que se arriscavam a comprometer assim a alta protecção que o Imperador e Rei se dignou prometer à nossa pátria, e a alterar o conceito favorável que Sua Majestade forma desta nação.

Pela correspondência das províncias se sabe também que os desertores que por elas se espalharam no primeiro instante de alucinação, se vão aproveitando em grande número da amnistia que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe, lhes concedeu pelo seu decreto de 27 de Abril; e procurarão com todo o empenho passar aos depósitos indicados para recebê-los. A dilação que se lhes fixou, expira no 1.º de Junho: termo passado o qual aqueles que se não tiverem reunido aos seus corpos serão julgados como desertores pelo Conselho de Guerra.

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes acaba de ordenar a supressão do direito de asilo assim nas Igrejas como nos Conventos, declarando que era fazer injúria à santidade da Religião o incluir no número dos seus privilégios ou dos seus ministros, o de assegurar a impunidade aos criminosos cobertos do sangue dos seus semelhantes, ou manchados com qualquer outro delito.

Sua Excelência deu também uma nova prova da sua consideração e da sua confiança ao clero deste país, escolhendo a conjuntura em que podem ainda existir algumas nuvens da banda das fronteiras da Espanha, para fazer com que o Excelentíssimo Principal Regedor ordenasse a todos os bispos, párocos e eclesiásticos de residência fixa que passassem logo a ela, e aí permanecessem, como lho prescrevem os Cânones da Igreja; mostrando assim o quanto se persuade de que, se contra toda a verosimilhança, a menor agitação pudesse alterar a venturosa tranquilidade de que goza Portugal, pela firmeza e sabedoria reunidas num tão alto grau em todas as disposições de Sua Excelência, ninguém contribuiria mais eficazmente para reprimir os turbulentos que aqueles veneráveis pastores, cuja voz está acostumada a ter neste povo uma poderosa influência. O Clero português não podia receber uma recompensa mais grata do bom espírito que o anima, nem um penhor mais seguro da estima do General em Chefe.

A regularidade actual dos correios entre Lisboa e Madrid atesta o quanto é geral a tranquilidade que reina nesta estrada e no interior da Espanha; os partidistas da conspiração de Aranjuez, e conseguintemente os cúmplices das maquinações inglesas não se atrevem já a levantar ali a voz.

Tudo fica sossegado em Madrid, onde Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg habita, nas margens do Manzanares, o palácio de El-Rei Carlos IV, a quem representa.

Não se deve imaginar em Portugal que este país seja o único onde as circunstâncias obrigam a suspender os benefícios e as vantagens do comércio marítimo. Os Estados Unidos da América, que não têm inimigos, adoptaram e mantêm por prudência uma medida que outras causas nos prescreveram. Nos seus portos, bem como nos da Rússia, existe um embargo universal, sendo proibido a toda a embarcação americana o sair deles, por se saber que o Governo inglês não teria deixado de declarar guerra aos Estados Unidos, logo que o seu comércio, disperso pelos mares, pudesse oferecer uma presa capaz de satisfazer a cobiça de uma nação para quem todas as outras não são mais que uma matéria de especulação.


As armas da Rússia continuam a fazer na Suécia rápidos progressos. Toda a Finlândia, a 6 de Abril, ficava já conquistada, e definitivamente incorporada ao Império russiano [sic]. El-Rei da Suécia, pela perda dos seus Estados, vai a dar ao mundo um novo exemplo dos desastres que os Príncipes e as nações acham na aliança desse Governo britânico que não faz mais que sufocar aqueles que ele finge receber nos braços. O pouco dinheiro que lhes dá a preço do sangue dos seus povos, é uma verdadeira origem de morte, de que ficará convencido quem lançar os olhos sobre as mudanças traçadas, [desde] há 15 anos a esta parte, sobre o mapa político da Europa, e sobre as que nele se preparam ainda!


Por decreto de Sua Majestade o Imperador e Rei, de 2 de Março, se vão a formar em França 50 batalhões de marinha imperial a fim de servirem para a equipagem de 50 naus de linha de 74 peças. Todos os marinheiros da equipagem de um navio serão daqui em diante formados, adestrando-se no exercício da artilharia. 

Segundo uma carta escrita por Sua Excelência o ministro secretário de Estado da França a alguns prefeitos dos departamentos meridionais, a estada do Imperador e Rei em Bayonne não deveria já ser de longa duração. Sua Majestade adiou, enquanto por ora, a sua viagem a Espanha e a Portugal, para visitar os departamentos do Meio-Dia, e ir sem demora a Pau, Tarbes, Auch e Agen.

Toda a família real de Espanha, conforme algumas cartas particulares, partiu já de Bayonne, para passar ao interior da França; El-Rei Carlos IV, a Rainha Luíza e o Príncipe da Paz vão para a casa de campo de Compiegne que se reparou com toda a magnificência para recebê-los dignamente; o Príncipe das Astúrias, seu irmão o infante D. Carlos, e seu tio, a Valence, terra belíssima, em Touraine, pertencente a Sua Alteza Sereníssima o Príncipe de Bénévent.

O Príncipe da Paz, antes de partir de Bayonne, teve a honra de ser admitido, várias vezes, à audiência de Sua Majestade o Imperador e Rei.


[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 21, 24 de Maio de 1808].


domingo, 15 de maio de 2011

Comunicado de Lagarde com notícias relativas ao Algarve (15 de Maio de 1808)





Boletim n.º 14 


Lisboa, 15 de Maio de 1808


Faro


O Corregedor Mor dos Algarves escreveu-me, a 11 de Maio, que aquela província desfruta duma grande tranquilidade e que o espírito dos seus habitantes é bom; e que lhe será fácil indicar-me brevemente alguns malévolos que podem desejar a desordem. 
Foram encontradas, na costa do mar perto de Albufeira, algumas arcas contendo papéis pertencentes ao governo de Havana. 
Estas arcas parecem ter permanecido muitos dias no mar. Fizemo-las secar para transportá-las para Lisboa. 
Entre esses papéis estão alguns relativos às comunicações secretas do Príncipe da Paz com a Inglaterra; donde se pode conjecturar, nas circunstâncias actuais, que arribando os escritos como se fosse de propósito, talvez não venham da América; mas sim que foram lançados ao mar na [costa da] Espanha, assegurando-se que abordassem à costa de Portugal; e que chegariam daí ao seu destino. 
Foi ao Secretário de Estado, Mr. Hermann, que o Corregedor Mor dos Algarves enviou estas arcas. 

[Fonte: António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 346-347; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 371-372 (doc. 49). Traduzimos o texto original (em francês) desta última fonte].

sábado, 7 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (7 de Maio de 1808)



Lisboa, 7 de Maio 


Segundo as últimas notícias de Baiona [sic], Sua Majestade o Imperador e Rei continuava a estar naquela cidade, onde parecia dever em breve reunir consigo a Família Real de Espanha, como também um certo número de Grandes daquele Reino que se encaminham para a mesma destinação. 

É um belo e novo espectáculo na Europa o ver um Monarca que, chegado ao cume da glória e do poder, consente em se dar por árbitro entre um pai e um filho que enchem há vários meses a Europa das suas acusações recíprocas, e põe assim os povos numa espécie de incerteza de qual dos dois é aquele a quem devem obedecer. Cumpre esperar o resultado daquele nobre arbítrio, o qual vai mostrar às nações que a sua causa não tornará a ficar abandonada às intrigas e aos caprichos de alguns cortesãos, que de ordinário se ocupam mais em disputar entre si a autoridade do que em assegurar o bom êxito das combinações úteis ao bem da humanidade. 

Ao mesmo tempo, o Príncipe da Paz, cometido pelas autoridades espanholas a 600 dragões franceses encarregados de defendê-lo da indignação de um povo, à custa do qual soube acumular o mais escandaloso cabedal, que dizem deita a mais de 500 milhões de libras turnezas, se vê, por outra parte, conduzido para França. O acto da entrega diz que ele não pode jamais tornar a entrar em parte alguma dos domínios de Sua Majestade Católica. 


Pelas ordens cuja execução confiou o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes ao Intendente Geral da Polícia do Reino, é já de notar muito maior asseio nas ruas de Lisboa, dum grande número das quais se vão também tirando os entulhos que as obstruíam; e está quase destruída a multidão de cães que de dia e noite andavam pela cidade e interrompiam a quietação. 

Sua Excelência o General em Chefe também deu ordem para que se desembaraçasse a magnífica Praça do Comércio do grande número de barracas de pau que a empachavam, de sorte que se possa por ela passear sem obstáculo. Já se deu princípio aos preparativos necessários para este efeito. 

A cidade de Lisboa continua a gozar do maior sossego. Entre os habitantes e a guarnição, assim francesa como espanhola, reina a melhor inteligência. O povo sabe que o Governo, em quem tem posto tanta confiança como se existissem há largos anos, procede com toda a vigilância para acudir às suas precisões; e entrega-se ao seu trabalho com tanta seguridade como o fazia nas circunstâncias passadas as mais pacíficas. 


[Fonte: Segundo Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 18, 7 de Maio de 1808].


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Notícias de Paris relativas aos affaires da Espanha (28 de Abril de 1808)





[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 17 de Maio de 1808].


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (20 de Abril de 1808)




Madrid, 20 de Abril de 1808*.




Meus caros Colegas:


Estou em Madrid há vários dias; não sei quando partirei. Vim para aqui em circunstâncias bastante singulares, as quais me obrigam a nunca deixar o grosso do exército francês. Por outro lado, não encontraria nenhum meio de transporte, pois todos estão a ser conduzidos para Bayonne, transportando a comitiva dos príncipes espanhóis. 
Forçado a ficar aqui, tenho ocupado o tempo livre para visitar os sábios e os objectos de história natural.
Os sábios encontram-se na pobreza mais extrema; o Príncipe da Paz não pagava ninguém há 10 meses. Fez melhor, o seu agente financeiro apoderou-se duma soma de 4.000 pesos duros [piastres fortes], que um americano rico tinha legado para a continuação da flora dos Srs. Ruiz e Pavón**
Existem outros sábios, os Srs. Sessé e Mociño, que são dignos da maior benevolência, e seria conveniente encorajá-los: são aqueles que foram encarregados da expedição ao México. Percorreram todo esse [vice-]reino durante 5 anos, onde recolheram um número bastante considerável de desenhos de quadrúpedes, de aves, de répteis, de peixes, de insectos e de plantas; mas como não tinham consigo senão a 12ª edição de Lineu, a maior parte das suas determinações está errada. Eles crêem ter diversas espécies de animais sedentários da Europa, da África e da Ásia, e é muito provável que se tratem de outras espécies novas; por fim, possuem 4 a 5 géneros [novos] bem distintos de aves. Eles não podem trabalhar convenientemente senão forem a Paris para comparar o que possuem com as nossas colecções; mas estão longe de poder empreender uma semelhante viagem. Frustrados nas suas esperanças desde que há três anos atrás regressaram à Europa, vivem mediocremente e já têm uma idade avançada, de modo que bem se pode recear que o fruto duma tão longa e perigosa viagem será quase completamente perdido. 
Vi o Gabinete apenas uma vez. Em geral, é pouco rico; no entanto, de tempos a tempos encontram-se novidades importantes: um novo mirmecófago, vários tatus também novos, todos os crocodilos de Havana e de outros rios das duas Américas, o veado do Canadá que trouxeram do México, e muitos outros.
A mineralogia parece cuidada: contudo, foi composta por amostras mais destinadas a brilhar do que a instruir: encontra-se aí um número enorme de fluoretos calcários, carbonatos calcários, carbonatos de bário, etc., sem que esses objectos apresentem diferenças de cristalização.
O Sr. Izquierdo, que é o Director do Gabinete, está em Paris, e fará bem em permanecer por aí: o Príncipe da Paz é visto aqui como um outro Robespierre, e o seu agente é igualmente perseguido pela vingança pública. O vice-director está na Alemanha; as chaves do Gabinete estão na posse do Sr. Angulo, que tem a grande honra de corresponder-se com o Sr. Haüy. De resto, o Gabinete está sob a direcção de um funcionário dos Negócios Estrangeiros.
Pedi que me facilitassem o acesso às colecções; este assunto está pendente ainda. Contudo, se mo negam, como espero, empregarei meios que farão cessar todas as chicanas que me fazem. Sou apoiado por alguns espanhóis que me acompanham a todos os lados que vou, e que tinham sido repelidos do Gabinete devido a uma reles inveja.
Agradecer-vos-ei muito, meus caros colegas, que façam o Ministro aprovar a minha conduta, segundo o relatório da minha permanência em Madrid.
Para vos explicar o motivo [desta conduta], necessitariam de um relato dos acontecimentos políticos, sobre os quais creio que é prudente que me cale. Acreditai que quando chegar o momento, avançarei com toda a diligência possível.
Vi muitas vezes o Sr. Lagasca, professor de matérias medicinais; dei-lhe os livros e os herbários que o Sr. de Candolle me tinha encarregado de lhe entregar.
Jardim botânico está melhor mantido do que o Gabinete: utilizam-se algumas práticas nas estufas e laranjais que creio serem boas para pôr em uso em Paris; hei-de submetê-las ao Sr.  Thouin no meu regresso.
Empreendi um grande encargo: o Sr. Faujas, que tinha manifestado alguns pontos de vista acerca do que aconteceria neste caso, vai perfeitamente ao encontro do que eu estou a suportar. Lalande, na sua qualidade de noviço, acha que esta viagem é muito singular, para não dizer de outro modo. Assusta-se facilmente e não consegue acostumar-se à comida espanhola, tal como se serve nos albergues, ao vinho que tem o sabor do odre, etc. Contudo, estou muito satisfeito com ele: recolheu insectos, preparou duas cotovias que nos faltam e ocupa-se dando o seu melhor. 
Adeus, meus caros colegas, queirais aceitar a garantia da minha mais afectuosa amizade.

Geoffroy Saint-Hilaire

[P.S.] Dou conta do que fiz até agora ao Ministro do Interior em carta que segue pelo mesmo estafeta que esta.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 34-36].


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Notas:



Esta carta foi lida em sessão do Museu de História Natural de Paris a 4 de Maio de 1808.


*Os botânicos espanhóis Hipólito Ruiz e José Antonio Pavón (juntamente com o seu colega francês Joseph Dombey) tinham estado, entre 1777 e 1788, no vice-reino do Peru (que compreendia não só o actual território do Peru, mas também o actual Chile). Dessa importante expedição botânica resultou, entre outras obras, a produção da Flora Peruviana et Chilensis, cujo primeiro tomo foi publicado em 1798, o segundo em 1799, e o terceiro em 1802. Contudo, parece que a falta de fundos inviabilizou a continuação da publicação da obra, que, como refere Geoffroy Saint-Hilaire, continuava incompleta em 1808 (e que permaneceria em grande parte inédita até meados do século XX, quando finalmente se concluiu a sua publicação, com o primeiro e o segundo tomos de mais de três centenas de estampas que ilustravam a obra).