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terça-feira, 16 de agosto de 2011
Análise à Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, pelo Deão da Sé de Braga
[Fonte: Analyse á Proclamação do General Junot aos habitantes de Lisboa em 16 de Agosto de 1808, Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1808, in Discurso do Imortal Guilherme Pitt..., pp. 103-117].
Segundo uma nota manuscrita no exemplar acima publicado, "o autor deste folheto [publicado anonimamente] foi o Deão da Sé de Braga, Luiz António Furtado de Mendonça, fiho natural da casa do Visconde de Barbacena, tinha gosto pela eloquência, possuía talentos, falava com actividade e calor, cortejava a todos, e todos lhe eram afeiçoados. Recolhendo-se a Lisboa com o seu Arcebispo depois da invasão dos franceses no Porto [em 1809], com [?] de vituperar os procedimentos de Bernardino Freire, o que ofendeu D. Miguel Pereira Forjaz; censurou a inércia dos regentes, o que os escandalizou. Olharam-o como homem preguiçoso, e trataram de o segurar; assim aconteceu. Foi preso repentinamente, e conduzido aos cárceres do Santo Ofício como farinação; este crime se lhe imputou para o malquistar com o público que o amava, e para sanar a violência do procedimento que aborreceu as pessoas sensatas. A capa da religião ofendida cobriu ódios particulares contra o autor preso. Nada tão mau como a malícia dos homens!".
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Soneto ao festejo que fez Junot em Lisboa pelos anos de Bonaparte
Soneto de Ópio
De Soléques, Meliques, Trapalóques,
Sulfúrios, sulfurantes, sulfurados,
Rotundos, salitrosos, carvonados,
Bum, bum, bum, bum, ressoam címbaloques;
Espaventos flamantes, trapiquoques,
Imbeles, infecundos, insolados,
Xenofes, Xenofontes, Xenofados,
Tripudiam berliques e berloques,
Strangurio, scalponio, figurato,
Gerivásio de gimbo, que gambeia
No Zimbório de Boreas, boreato.
Eis aqui o primor com que se arreia
O dia natalício celebrato
De um tal Napoleão em terra alheia.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Nova Grammatica Portugueza e Ingleza. A qual serve para instruir aos portuguezes na lingua ingleza (edição de 1808)
A obra cujo frontispício se pode apreciar acima poderia passar despercebida para os estudiosos das guerras napoleónicas, não fosse precisamente o contexto em que apareceu publicada e a sua suposta autoria. Impressa em Londres no ano de 1808, esta Nova Grammatica Portugueza e Ingleza tinha o propósito, como se indicava no subtítulo, de instruir aos portuguezes na lingua ingleza. Apesar de publicada anonimamente, Inocêncio da Silva, referindo-se à segunda edição desta obra, "revista e consideravelmente aumentada", diz que o seu autor teria sido nada menos do que José Hipólito da Costa [Cf. Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Terceiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1859, p. 199]. Contudo, devemos ter em conta que esta gramática não era tão nova como constava no título, pois tratava-se na verdade duma cópia quase integral duma outra gramática, da autoria de Jacob de Castro Sarmento, a qual tinha sido publicada originalmente em 1751 [ou talvez melhor, inserida na segunda edição da Grammatica Anglo-Lusitanica & Lusitano-Anglica: Or, a New Grammar, English and Portuguese, and Portuguese and English, London Printed for W. Meadows, 1751; confrontar, entre outras reedições, com a edição portuguesa de 1777].
Ainda que o próprio prefácio da edição de 1808 se baseie no da edição original de 1751, a sua leitura permite deduzir que a Nova Grammatica Portugueza e Ingleza foi publicada já depois do conhecimento, obviamente na Inglaterra, tanto das revoltas dos portugueses contra os franceses, como da abertura dos portos do Brasil às nações amigas, ou seja, a meados do terceiro trimestre de 1808:
Esta edição de 1808, que viria a ser reeditada pelo menos três vezes (em 1811, 1818 e 1828), tem a particularidade de incluir um glossário bilingue (não disponível nas edições acima mencionadas da Grammatica de Jacob de Castro) das palavras mais usadas na conversação, organizadas por temas, entre as quais se encontram as coisas pertencentes à guerra, como não podia deixar de ser pelo contexto em questão:
Finalmente, resta acrescentar nestas poucas linhas que a Nova Grammatica de 1808 mereceu a seguinte revisão crítica, dada à estampa numa publicação anti-jacobina inglesa:
The Antijacobin Review and Magazine; or, Monthly Political and Literary Censor: from January to April (inclusive) 1808. With an Appendix, containing an Ample Review of Foreign Literatura - Volume XXIX, London, 1808, pp. 491-492.
domingo, 31 de julho de 2011
Cópia de uma carta escrita a Mr. Junot por um seu amigo
Como é volúvel a Roda da fortuna, que num momento corta a fio da mais sólida ventura! Nunca imaginei que vos havia de chegar a Santa-Unção primeiro que a Quintela. Que desconsolação para os vossos amigos e para a vossa Madame Ega, ver-vos expirar depois dum Ducado tão glorioso no Mundo como o Reinado de vosso amo! Vós tínheis os fundamentos lançados de uma fama tão assinalada como a daquele Herói que incendiou em Éfeso o Templo de Diana, e em tudo, e por tudo, seriam reproduzidas em vós as virtudes deste. Porém, quanto pôde a ingratidão dos portugueses tomando as armas contra vós! Como depressa se esqueceram da Protecção que trouxestes ao seu país, fazendo dele uma conquista de amigo, abrindo estradas, rompendo canais, e pondo a coberto o seu ouro e prata da influência maligna da Inglaterra; ah, meu amigo, quanto sinto ver-vos à borda do precipício, verificando-se em vós o rifão antigo: Entradas de leão e saídas de sendeiro. Quem me dera uma voz tão robusta que ressoasse nos montes e vales, ou tão irada como o som da artilharia; eu bradaria então:
Portugueses, que mal vos fez o vosso protector, para assim o acometerdes com ferro e fogo? Não é à iluminada Política deste General que o pobre Tejo deve o incomparável benefício de se ver desafrontado daqueles Exércitos de vasos que faziam gemer as suas águas com o enorme peso dos trigos, queijos, manteigas, arrozes, açúcares, farinhas de pão, algodões, panos, drogas e outras ridicularias deste género? Não é à grande protecção deste virtuoso chefe que a famosa Lisboa deve o ver-se evacuada de ingleses, americanos, gregos, marroquinos, holandeses, e de outros pobretões deste género, que nunca souberam comerciar como Mr. Junot, nem possuíram a grande arte de felicitar os povos como Napoleão; e não é por ele que se viu extinta na vossa capital a grande praga da traça, ficando tudo aliviado do peso das lãs, e remediada a sórdida indigência? Não é nas suas mãos que se viu reunido como num só ponto todo o vosso comércio; as artes num vigor tão prodigioso, que não fatigavam já os membros dos operários; as ciências em tanto gás que brevemente vos dariam um novo Camões; a Religião tão despida das superstições que a desonram, que sem demora seria o vosso catecismo o Filósofo militar, o Emílio, e outros iluminados Apóstolos que não teve a Igreja nos seus fundamentos; e em conclusão, uma polícia também ordenada, que tudo era uma limpeza decidida e elevada ao seu cume. E é contra um político desta ordem que vos tomais às armas? Assim insultais o Omnipotente que o enviou a proteger-vos, e que decidiu a vossa sorte dum modo tão glorioso e honrado? Assim se recompensam as acções grandes que ele obrou entre vós, e aquela piedosa protecção que enviou aos cidadãos das Caldas, pelo ministério dum General tão grande na virtude como mesquinho nos membros?
Amigo Junot, assim falaria eu por vós, porém a Natureza [...] não me fez gigante [como] Golias, nem me deu a lira de Orfeu. Eu ouço já o estrondo das armas portuguesas que marcham em vosso alcance, e se o vento vos deixa ainda articular alguns sons, pedi a Vossa Amante ou que tome as armas da sua casa para vingar como Heroína o insulto que se dirige à Vossa Pessoa, ou que diga um eterno adeus aos arbustos do Ramalhão, com que coroaste os seus mimosos sorrisos.
Vale
Portugueses, que mal vos fez o vosso protector, para assim o acometerdes com ferro e fogo? Não é à iluminada Política deste General que o pobre Tejo deve o incomparável benefício de se ver desafrontado daqueles Exércitos de vasos que faziam gemer as suas águas com o enorme peso dos trigos, queijos, manteigas, arrozes, açúcares, farinhas de pão, algodões, panos, drogas e outras ridicularias deste género? Não é à grande protecção deste virtuoso chefe que a famosa Lisboa deve o ver-se evacuada de ingleses, americanos, gregos, marroquinos, holandeses, e de outros pobretões deste género, que nunca souberam comerciar como Mr. Junot, nem possuíram a grande arte de felicitar os povos como Napoleão; e não é por ele que se viu extinta na vossa capital a grande praga da traça, ficando tudo aliviado do peso das lãs, e remediada a sórdida indigência? Não é nas suas mãos que se viu reunido como num só ponto todo o vosso comércio; as artes num vigor tão prodigioso, que não fatigavam já os membros dos operários; as ciências em tanto gás que brevemente vos dariam um novo Camões; a Religião tão despida das superstições que a desonram, que sem demora seria o vosso catecismo o Filósofo militar, o Emílio, e outros iluminados Apóstolos que não teve a Igreja nos seus fundamentos; e em conclusão, uma polícia também ordenada, que tudo era uma limpeza decidida e elevada ao seu cume. E é contra um político desta ordem que vos tomais às armas? Assim insultais o Omnipotente que o enviou a proteger-vos, e que decidiu a vossa sorte dum modo tão glorioso e honrado? Assim se recompensam as acções grandes que ele obrou entre vós, e aquela piedosa protecção que enviou aos cidadãos das Caldas, pelo ministério dum General tão grande na virtude como mesquinho nos membros?
Amigo Junot, assim falaria eu por vós, porém a Natureza [...] não me fez gigante [como] Golias, nem me deu a lira de Orfeu. Eu ouço já o estrondo das armas portuguesas que marcham em vosso alcance, e se o vento vos deixa ainda articular alguns sons, pedi a Vossa Amante ou que tome as armas da sua casa para vingar como Heroína o insulto que se dirige à Vossa Pessoa, ou que diga um eterno adeus aos arbustos do Ramalhão, com que coroaste os seus mimosos sorrisos.
Vale
[Fonte: Arquivo Histórico Militar (cota: AHM/DIV/1/14/006/32, fls. 1-3)].
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Nota:
Devemos o conhecimento deste documento, disponível fisicamente no Arquivo Histórico Militar, ao historiador Rui Manuel C. Prudêncio, que o disponibilizou integralmente no seu Blogue de História e Estórias, respeitando a ortografia original. Como referiu então Rui Prudêncio, ainda que o documento não se encontre datado, percebe-se pelo seu conteúdo que “é provável que date do período dos levantamentos populares organizados pelas sucessivas juntas formadas ao longo do país a partir de Junho de 1808 e antes do fim do governo de Junot com a Convenção de Sintra em Agosto do mesmo ano”. Resta-nos somente acrescentar que o seu tom de (aparente) incredulidade e de (falsa) ingenuidade parece ter sido inspirado por textos como a proclamação que Junot fez aos portugueses na data de 26 de Junho de 1808, precisamente a primeira onde o General francês se manifestou contra as incipientes revoltas que tinham então começado a surgir em vários pontos do país.
Em relação à autoria deste documento anónimo, não devemos confundir a última palavra do texto (Valle, no português antigo do manuscrito original) com o nome do autor. De facto, trata-se duma palavra latina que significa "adeus", e que era antigamente usada ao jeito de despedida, aparecendo precisamente com esse sentido no final de prefácios de outras obras portuguesas da época, e sendo exactamente assim definida no Diccionario da Lingua Portugueza de Rafael Bluteau de 1799).
Escrita por um suposto amigo e apologista de Junot, esta "carta" é na verdade um documento bastante sarcástico que satiriza subtilmente o papel de Junot em Portugal através duma aparente crítica directa (embora nitidamente irónica) à ingratidão dos portugueses para com os seus protectores. Para além de várias referências irónicas às inúmeras promessas presentes nas proclamações de Junot (particularmente a de 1 de Fevereiro de 1808), este texto anónimo também alude ao suposto affaire que as más línguas da época diziam existir entre Junot e a Condessa de Ega (contando supostamente com o consentimento do próprio Conde da Ega), havendo inclusive rumores que o General francês a instruía na arte equestre em sítios como a quinta do Ramalhão. Raul Brandão, na sua obra El-Rei Junot, recolheu algumas poesias coetâneas que abordam este caso: "[...] O Ega a mulher / Ao Junot foi entregar. // É onde pode chegar / O génio de ser cabrão. / Enfim, já chamam à Ega / Princesa do Ramalhão"; "O tal amigo Jinó [= Junot] / Sem ser do seu mandado / Fez o Ega coronel / Deixando-o mui bem armado"; "Dizem que se transformaram / O conde da Ega e a mulher, / Ele em burro paneleiro, / Ela em besta de aluguer"; "P. - Trus, trus. R. - Quem é? / P. - Aqui é que mora o almocreve / que aluga a égua e anda a pé?" [Fonte: Raul Brandão, El-Rei Junot, Porto, Renascença Portuguesa, 1919 (2.ª ed.), p. 276, p. 449 e p. 454]. Por curiosidade, e independentemente da veracidade de tais boatos, a convivência harmónica entre os Condes da Ega e Junot viria a motivar a fuga do casal para a França após a chamada Convenção de Sintra, acabando mesmo o Conde da Ega por ser condenado à morte em 1811, pena esta que foi finalmente anulada em 1823.
Escrita por um suposto amigo e apologista de Junot, esta "carta" é na verdade um documento bastante sarcástico que satiriza subtilmente o papel de Junot em Portugal através duma aparente crítica directa (embora nitidamente irónica) à ingratidão dos portugueses para com os seus protectores. Para além de várias referências irónicas às inúmeras promessas presentes nas proclamações de Junot (particularmente a de 1 de Fevereiro de 1808), este texto anónimo também alude ao suposto affaire que as más línguas da época diziam existir entre Junot e a Condessa de Ega (contando supostamente com o consentimento do próprio Conde da Ega), havendo inclusive rumores que o General francês a instruía na arte equestre em sítios como a quinta do Ramalhão. Raul Brandão, na sua obra El-Rei Junot, recolheu algumas poesias coetâneas que abordam este caso: "[...] O Ega a mulher / Ao Junot foi entregar. // É onde pode chegar / O génio de ser cabrão. / Enfim, já chamam à Ega / Princesa do Ramalhão"; "O tal amigo Jinó [= Junot] / Sem ser do seu mandado / Fez o Ega coronel / Deixando-o mui bem armado"; "Dizem que se transformaram / O conde da Ega e a mulher, / Ele em burro paneleiro, / Ela em besta de aluguer"; "P. - Trus, trus. R. - Quem é? / P. - Aqui é que mora o almocreve / que aluga a égua e anda a pé?" [Fonte: Raul Brandão, El-Rei Junot, Porto, Renascença Portuguesa, 1919 (2.ª ed.), p. 276, p. 449 e p. 454]. Por curiosidade, e independentemente da veracidade de tais boatos, a convivência harmónica entre os Condes da Ega e Junot viria a motivar a fuga do casal para a França após a chamada Convenção de Sintra, acabando mesmo o Conde da Ega por ser condenado à morte em 1811, pena esta que foi finalmente anulada em 1823.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Cathecismo Civil, e Breve Compendio das Obrigações do Hespanhol; Conhecimento pratico da sua liberdade, e explicação de seu inimigo: Mui util nas actuaes circunstancias; posto em forma de dialogo (1808)
Nota:
Ainda que não possamos precisar a data em que este catecismo espanhol foi publicado pela primeira vez, podemos dizer que uma das suas primeiras impressões (no original castelhano) consta entre as páginas do periódico Diario de Badajoz de 28 de Julho de 1808, e que muito provavelmente foi composto depois dos acontecimentos de 2 de Maio do mesmo ano em Madrid. O certo é que, até ao dito ano de 1808 acabar, este catecismo viria a ser publicado na Espanha (e também no México) pelo menos mais de uma dezena de vezes, inserido noutros periódicos ou estampado em forma de panfleto ou opúsculo, coexistindo diversas edições com algumas variantes e títulos diferentes, como por exemplo as seguintes:
Apesar de dirigida directamente ao público espanhol, a mensagem simples, concisa e ao mesmo tempo político-satírica deste catecismo ultrapassou fronteiras, tendo sido publicado na Inglaterra logo em Setembro de 1808 (se não antes), através do periódico The Monthly Register for September 1808 (pp. 146-147). Em Portugal, logo a seguir à saída dos franceses da capital em meados de Setembro do mesmo ano, também foram impressas diferentes edições, das quais podemos enumerar duas: para além da tradução que acima inserimos, temos constância da existência duma outra versão, anunciada na Gazeta de Lisboa, n.º 38, de 11 de Outubro de 1808, que se intitulava Doutrina Contradoutrina, Hespanhol Christão e Libertino Francez, ou Catecismo civil e breve Compendio das obrigações do bom Hespanhol: dado á luz, para correcção de huns, e divertimento de outros.
A disseminação desta obra anti-napoleónica não se ficou por aqui: em 1809, a versão deste texto publicada em Sevilha foi traduzida para o alemão por Friedrich Schlegel, com o título Bürger-Katechismus und kurzer Inbegriff der Pflichten eines Spaniers, nebst praktischer Kenntniß seiner Freyheit und Beschreibung seines Feindes. Von großem Nutzen bey den gegenwärtigen Angelegenheiten. Gedruckt zu Sevillia und für die Schulen der Provinzen vertheilt, aparecendo inserida na quarta parte duma compilação de textos relativos ao levantamento espanhol (Sammlung der Aktenstücke über die spanische Thronveränderung - Vierte Abtheilung, Bd., Germanien, 1809, pp. 103-114), compilação esta publicada em Viena, sob os auspícios do Governo do Império Austríaco, que, aproveitando as dificuldades dos exércitos franceses na Península Ibérica, voltara a declarar guerra a Napoleão em Abril de 1809. Curiosamente, o escritor romântico Heinrich von Kleist inspirou-se precisamente na dita tradução alemã do catecismo espanhol (embora não o tenha seguido à letra, senão adaptando-o à mundividência germânica) para compor no mesmo ano de 1809 uma obra de dezasseis capítulos intitulada Katechismus der Deutschen. Abgefaßt nach dem Spanischen, zum Gebrauch für Kinder und Alte. In sechzehn Kapiteln. Heinrich von Kleist ambicionava publicar este virulento "catecismo dos alemães, redigido a partir do espanhol, para o uso de crianças e velhos" num periódico seu intitulado Germania, mas ambos projectos foram frustrados pela derrota da Áustria na batalha de Wagram. Apesar de ter sido publicado somente depois da morte do seu autor, este "catecismo alemão" é, ao lado dos Discursos à nação alemã de Fichte (publicados em Berlim em 1808), uma das primeiras obras que aborda o fenómeno do nacionalismo, particularmente o germânico.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
A propaganda anti-francesa e a criação da Minerva Lusitana (11 de Julho de 1808)
A revolta dos povos peninsulares contra a ocupação francesa foi acompanhada de perto por uma enorme máquina propagandística de feição conservadora, patriota e anti-francesa. Depois dos acontecimentos de 2 de Maio em Madrid, e à medida que se iam formando Juntas governamentais nas províncias espanholas que não estavam controladas pelas forças de Napoleão, começava a ser produzida e impressa uma imensa quantidade deste tipo de escritos, entre os quais se encontravam várias proclamações dirigidas aos portugueses. Os levantamentos portugueses, indubitavelmente influenciados pelos espanhóis, não foram imunes a estas proclamações e a este tipo de propaganda, que logo foi imitada. Contudo, ao contrário da Espanha, Portugal contava com poucas imprensas, e como maioria das quais estava concentrada em Lisboa, seria somente depois da saída dos franceses da capital que esta propaganda começaria a ser imprensa em larga escala. Só para nos cingirmos aos periódicos (notando que a lista dos folhetos, panfletos e opúsculos é muito mais vasta), desde o referido mês de Setembro até ao fim desse ano de 1808, foram criados e impressos em Lisboa nada menos que quatro periódicos (que se somavam assim à Gazeta de Lisboa), a saber: Gazeta do Rossio; O Lagarde Português ou Gazeta para depois do Jantar; Semanário Patriótico; O Telégrafo Português ou Gazeta para depois do Jantar.
No entanto, antes disso, surgiram em Portugal (para além do Correio Brasiliense, impresso em Londres) outros dois periódicos (três, se contarmos com a Gazeta de Almada, que era manuscrita), a saber: O Leal Portuguez [sic], redigido por José Joaquim de Almeida Araújo Correia Lacerda, que se começou a imprimir a 6 de Julho de 1808, no Porto, na Tipografia de António Álvares Ribeiro, pouco depois de ali se ter formado a Junta Suprema de Governo; e a Minerva Lusitana, impressa na Real Universidade de Coimbra, cujo primeiro número data de 11 de Julho de 1808, ou seja, também poucos dias depois desta cidade se ter levantado. Ambos periódicos foram os primeiros a ser impressos nas respectivas cidades.
Enquanto O Leal Portuguez foi fruto dos trabalhos da Junta Suprema do Porto, a Minerva Lusitana deveu-se à iniciativa do Governador de Coimbra, Manuel Pais de Aragão Trigoso, que também era vice-reitor da Universidade da mesma cidade (o reitor era D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra, que partira para a França para se juntar à chamada deputação portuguesa, donde somente regressaria em 1814), que nomeou para seu redactor José Bernardo de Vasconcelos Corte Real, e para seus ajudantes Joaquim Navarro de Andrade e Fr. Luís do Coração de Maria [Cf. Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 135-136 e pp. 174].
Publicamos abaixo o primeiro número da Minerva Lusitana, complementado com uma parte do segundo, para não se cortar um Discurso sobre a origem e progressos da actual Revolução de Portugal:
Enquanto O Leal Portuguez foi fruto dos trabalhos da Junta Suprema do Porto, a Minerva Lusitana deveu-se à iniciativa do Governador de Coimbra, Manuel Pais de Aragão Trigoso, que também era vice-reitor da Universidade da mesma cidade (o reitor era D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra, que partira para a França para se juntar à chamada deputação portuguesa, donde somente regressaria em 1814), que nomeou para seu redactor José Bernardo de Vasconcelos Corte Real, e para seus ajudantes Joaquim Navarro de Andrade e Fr. Luís do Coração de Maria [Cf. Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 135-136 e pp. 174].
Publicamos abaixo o primeiro número da Minerva Lusitana, complementado com uma parte do segundo, para não se cortar um Discurso sobre a origem e progressos da actual Revolução de Portugal:
quinta-feira, 16 de junho de 2011
As fontes sobre a restauração do Algarve principiada em Olhão
No início dos três capítulos que Acúrsio das Neves dedica à "Restauração do Algarve, principiada em Olhão", na sua História da Invasão dos Franceses, começa o autor por referir que "a história da revolução do Algarve acha-se muito complicada, por causa dos escritos que sobre ela se têm publicado, cheios de incorrecções e mesmo contraditórios em pontos essenciais. Entrou neles o espírito de partido, querendo por força alguns dos que os dirigiram serem os autores, ou terem a parte principal na restauração; e é quanto basta para confundirem a verdade".
Um pouco mais adiante, já ao abordar o levantamento de Faro, volta a frisar o mesmo autor: "Muitos pretendem a honra de serem os primeiros que lhe deram o movimento; sem me intrometer nas suas disputas, referirei os factos, e ver-se-á que entre tantos e tão distintos patriotas que cooperaram nesta acção, pertence talvez a maior glória àqueles que têm feito menos bulha com os seus argumentos" [Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 270-271 e p. 285, respectivamente].
Como Acúrsio das Neves não menciona explicitamente os escritos que o levaram a fazer tais afirmações, passemos a enumerá-los:
Em termos cronológicos, parece que o primeiro destes textos a ser impresso (na Minerva Lusitana, n.º 27, de 27 de Agosto de 1808) foi uma Relação da feliz e gloriosa Restauração do Reino do Algarve, da autoria de Sebastião Duarte Andrade Pinto Negrão. Logo após a saída dos franceses da capital, esta relação voltou a ser publicada no 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 31, de 17 de Setembro de 1808, e pouco depois seria ainda republicada em Londres, no Correio Braziliense de Outubro de 1808. Apesar de tanta publicidade, nenhum dos respectivos editores destes periódicos parece ter reparado e mandado corrigir uma incorrecção que existia logo na primeira linha desta relação, onde se anotava que a revolta de Olhão tinha principiado no dia 17 de Junho, dia de Corpo de Deus, quando esta festividade se tinha celebrizado, naquele ano, no dia 16. Esta é apenas uma falha (das menores) entre as inúmeras que estão contidas neste texto, sobretudo no que respeita à revolta de Olhão, que Sebastião Duarte Negrão conheceu de longe, estando em Faro, a uma légua de Olhão, nos dias daqueles acontecimentos.
O Coronel José Lopes de Sousa, pelo contrário, residia em Olhão desde 10 de Março daquele ano de 1808. Depois do exército francês ter entrado no Algarve, José Lopes de Sousa demitira-se do seu cargo de Governador de Vila Real de Santo António (que detinha desde 1788), e tinha ido viver para Olhão, onde já previamente vivia uma filha sua. No alto dos seus 63 anos (48 deles em serviço militar, incluindo 7 anos em Goa), José Lopes de Sousa era sem dúvida a pessoa mais distinta que então se encontrava no lugar de Olhão, sendo por isso naturalmente eleito, no dia 16 de Junho de 1808, para cabecilha da revolta ali principiada. Quando a Relação acima referida de Sebastião Duarte Negrão foi publicada pela primeira vez no periódico conimbricense Minerva Lusitana, encontrava-se José Lopes de Sousa em Setúbal, à frente de um exército de algarvios e alentejanos dispostos a defender a margem sul do Tejo, enquanto os franceses estavam concentrados na zona de Lisboa. Por esse motivo, com as comunicações entre norte e sul interrompidas, parece que este militar (entretanto elevado a Marechal de Campo pela Junta de Beja) somente tomou conhecimento de tal texto através da sua publicação no referido número da Gazeta de Lisboa, no dito dia 17 de Setembro de 1808, ou seja, dois dias depois dos franceses terem sido expulsos da capital. Parece assim que a sua versão dos factos (onde obviamente destaca a sua acção), intitulada Declaração da Revolução principiada no dia 16 de Junho de 1808 no Algarve, e Lugar de Olhão, pelo governador da Praça de Vila Real de Santo António José Lopes de Sousa, foi precisamente uma resposta ao texto de Sebastião Duarte Negrão, se é certa a nossa interpretação da última frase da longa declaração de José Lopes de Sousa: "É o que se faz saber ao público, a fim de não ficar duvidoso, ou equivocado, pela narração dada ao público em data de 17 de Setembro do presente ano de 1808".
Existem ainda mais duas relações impressas sobre a restauração do Algarve, ambas publicadas em 1809: Uma é da autoria do Major Joaquim Filipe de Landerset e intitula-se Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve, destacando-se pela sua exposição bem clara e pormenorizada dos acontecimentos, embora a certo ponto passe a dar um destaque excessivo à figura de Francisco José da Cunha de Mendonça e Meneses (futuro Marquês de Olhão), que então detinha, entre outros, os cargos de Monteiro mor do Reino e Governador do Algarve (motivo pelo qual seria naturalmente "eleito" presidente da Junta do Algarve). Deve-se notar que existem duas versões desta Breve notícia (só de título), ambas transcritas por Alberto Iria na sua obra A Invasão de Junot no Algarve (copiámos somente aquela que este autor refere como sendo a versão integral). A outra relação tem o longo título de Relação Histórica da Revolução do Algarve contra os Franceses que dolosamente invadiram Portugal no ano de 1807, seguida de todos os documentos autênticos que justificam a parte que nela teve Sebastião Drago de Brito Cabreira, Cavaleiro professo na Ordem de S. Bento de Avis, Tenente-Coronel do Regimento de Artilharia n.º 2, Fidalgo Cavaleiro, etc., etc., etc., oferecida aos seus compatriotas e dada à luz por António Maria do Couto, Professor Régio de língua grega nesta Corte. Mais do que meros lapsos (novamente a revolta de Olhão foi adiada para o dia 17 de Junho), este último texto (do qual somente saíram para venda 100 exemplares, segundo um anúncio na última página da Gazeta de Lisboa, n.º 166, de 12 de Dezembro de 1809) deturpa alguns factos (incluindo nos dez documentos anexos que servem de provas), apresentando em muitos trechos uma mera bazófia sobre a figura de Sebastião Cabreira, que está sempre à frente de tudo mas que se deixa dormir quando começa a rebelião em Faro...
Apesar das várias incorrecções e contradições destas quatro fontes (que José Acúrsio das Neves certamente consultou), todas elas concordam pelo menos num ponto: a revolta algarvia começara em Olhão. O mesmo não se pode dizer dos oito documentos que abaixo se referenciam, com a respectiva data de composição e com os títulos com que apareceram publicados, em dois números da Gazeta do Rio de Janeiro (n.º 4, de 24 de Setembro de 1808, e n.º 5, de 28 de Setembro de 1808), logo depois de chegarem ao Brasil as primeiras notícias da restauração do Algarve, a bordo dum caíque tripulado por olhanenses:
1. Auto de Eleição do Concelho Supremo deste Reino do Algarve, a que procedeu o Clero, Nobreza e Povo desta cidade [de Faro], como capital do mesmo Reino (22 de Junho).
2. Termo de Juramento dado e assinado pelos Deputados, eleitos para a constituição do Concelho Supremo do Algarve (23 de Junho).
3. Auto de posse dada aos Deputados do Supremo Concelho do Reino do Algarve (23 de Junho).
4. Participação do Supremo Concelho do Reino do Algarve a S.A.R. (5 de Julho).
5. Extracto de uma Carta escrita pela Câmara de Faro a S.A.R. (30 de Junho).
6. Extracto de uma Carta do Excelentíssimo e Reverendíssimo bispo do Algarve, D. Francisco Gomes [de Avelar] a S.A.R. o Príncipe Regente N.S. (2 de Julho).
7. Extracto de uma Carta do Real Compromisso do Lugar d’Olhão a S.A.R. (2 de Julho).
Entre estes oito documentos, são vários os que omitem que a revolta algarvia começara em Olhão, entre os quais a própria participação oficial da Junta do Algarve ao Príncipe regente, pelo que a revolta daquele pequeno lugar poderia ter ficado completamente enterrada no esquecimento se alguns olhanenses não tivessem tido a ousadia de arriscarem as suas vidas a bordo duma embarcação que não estava concebida para empreender uma viagem transatlântica e fossem expor pessoalmente a D. João o que se tinha passado naquele lugar. Como se verá no momento oportuno, o Príncipe regente soube dar o devido reconhecimento aos olhanenses.
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Ademais das inúmeras cartas, ofícios e atestados compostos nos meses e anos seguintes (que dada a sua extensão não serão aqui enumerados, podendo os interessados consultar uma parte deles n'A Invasão de Junot no Algarve de Alberto Iria), que complementam e pormenorizam as fontes impressas, este apontamento ficaria incompleto sem se mencionar aqui duas importantes fontes manuscritas, que Acúrsio das Neves certamente não conheceu (e que continuam a ser ignoradas por muito investigadores actuais), mas que certamente não são de menor importância para se compreender o que se passou no Algarve durante aquele tempo. Uma foi escrita pelo padre João Coelho de Carvalho, sobre a qual já fizemos uma menção, e intitula-se Memória da Revolução do Algarve. Apesar da sua importância enquanto fonte, notará o leitor atento que é dado um destaque excessivo à acção da providência divina, com passagens como a seguinte: "Deus é quem livrou o Algarve de franceses" (sendo caso para dizer fia-te na Virgem e não corras...). A outra fonte manuscrita que queremos mencionar é da autoria de João da Rosa, um dos poucos olhanenses que naquela época saberiam escrever, e que por isso mesmo detinha o cargo de escrivão do Compromisso Marítimo de Olhão. O texto de João da Rosa, ainda com os seus defeitos, traz a visão mais pitoresca e mais pormenorizada do que se passou naqueles dias em Olhão, e tudo em primeira-mão. E é importante referir-se que, como o antecedente, era um texto que não se destinava à publicidade das imprensas, sendo antes, como o autor longamente o intitulou, uma Lembrança para ficar na memória dos valorosos marítimos deste Lugar de Olhão, do que fizeram na restauração de Portugal e seu princípio. Casos sucedidos sobre o levantamento que este povo fez contra a nação francesa e como este Lugar de Olhão foi a primeira terra que se levantou no reino de portugal. E recomendamos muito a todos os nobres marítimos que sempre sejam muito leais valorosos vassalos a sua majestade, assim como eles foram em casos tais. Que o Altíssimo Jesus Cristo nos livre de tais casos sucedidos a todo o mundo, como sucedeu no ano de 1808. Escrito entre ordens, privilégios, alvarás, provisões, sentenças e outros ofícios camarários ou régios assentes nas páginas do livro de registo do Compromisso Marítimo de Olhão, este documento permaneceu ignorado dos investigadores durante quase cem anos (tal como, aliás, a referida Memória do padre João Coelho de Carvalho, que tinha sido assente no livro de registos do Seminário de Faro, do qual ele próprio era o director temporal). De facto, foi preciso esperar até 1906 para que o importantíssimo documento de João da Rosa fosse publicado (embora truncado), na Monografia do Concelho de Olhão da Restauração de Ataíde Oliveira. Posteriormente, seria incluída uma transcrição paleográfica integral desta fonte na já citada obra A Invasão de Junot no Algarve de Alberto Iria (impressa originalmente em 1941), que contudo dificultava a leitura. Já mais recentemente, em 2008, a Câmara Municipal de Olhão publicou uma segunda edição integral, revista, actualizada e anotada por Helena Vinagre, Veralisa Brandão e António Rosa Mendes, intitulada precisamente O Manuscrito de João da Rosa. Apesar disso, continua a ser um texto ignorado por muitos investigadores das guerras peninsulares, pelo que o publicamos adiante, juntamente com todos os outros documentos aqui mencionados.
Décimas ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus em Lisboa
| Tenho um conto que contar, | |
| Mas não o quero dizer, | |
| Porque não me hão de crer | |
| Se eu o for publicar: | |
| Eu fui sem dar nem tomar | |
| À rua da procissão, | |
| Vi do exército cagão | |
| O soldado e o tambor | |
| Fugir com todo o valor, | Fugirem com todo o valor |
| Sendo de Napoleão. | Os oficiais de Napoleão. |
| Se isto é verdade, ou não, | |
| Eu não estava a dormir; | Eu não estive a dormir, |
| Vi os soldados fugir | Eu vi os soldados fugir |
| Largando as armas da mão; | |
| Vi os generais então | E vi os Generais então |
| Saírem à desfilada, | Saindo à desfilada, |
| Julgando que a pancada | |
| Lhes caía de improviso, | |
| E que antes do final juízo | |
| Davam todos a ossada. | |
| A cavalaria sentada | |
| Não esperou capitão, | Não esperou por Capitão: |
| Fugindo à discrição, | |
| Corriam pela calçada; | |
| Largando armas e espada, | |
| Julguei que a Infantaria | |
| Da mesma forma corria | |
| Com medo dos portugueses, | |
| E que doze mil ingleses | E que dez mil ingleses |
| Os tragavam neste dia. | |
| Que disseres e que diria [?] | Ora quem tal diria |
| Que o exército de Marengo | |
| Fugia como podengo | |
| De uma coisa que não via! | |
| Largavam a artilharia, | Largando a artilharia, |
| Que empresa mais gloriosa! | |
| Fugir à morte aleivosa | |
| De um valor iracundo: | É um valor iracundo. |
| Assim venceu todo o mundo | Assim vence todo o mundo |
| Esta tropa valorosa. | Esta tropa valorosa? |
| Mas nesta função ditosa | |
| Foi São Jorge desprezado, | |
| Roubam-lhe o seu estado, | |
| Que a fazia mais lustrosa: | |
| Houve uma voz poderosa | |
| Que a todos intimidou; | |
| O mesmo Junot ficou | |
| Mais mirrado que uma corda, | |
| Até o mesmo Laborda [sic] | |
| Os calções todos borrou. | Os calções todos cagou. |
| Mas eu a dizer já vou | |
| O que entendo piamente: | |
| Que a toda esta fraca gente | |
| De vida pouco lhe dou; | |
| Esta tropa aqui entrou | |
| Com fé de nos ajudar; | |
| Entraram logo a furtar, | |
| Saqueando em geral | |
| Ao reino de Portugal | O reino de Portugal |
| Sem os templos lhe escapar. | Sem o Divino escapar. |
| Que podemos nós esperar | Que poderemos esperar |
| De gente sem religião? | |
| Não tenham compaixão, | Não tenhamos compaixão: |
| Devem todos acabar: | |
| Nem um só deve escapar, | |
| Da ira dos portugueses, | |
| Morram todos os franceses, | |
| O Maneta e o Junot, | O Intendente e o Junot; |
| Não esteja vivo um só | |
| Quando entrarem os ingleses. | |
| Levantem-se os holandeses, | |
| A Itália e a Turquia, | |
| Tenham juízo um dia | |
| Renanos e genoveses; | |
| Acabem-se os franceses, | Acabem com os franceses, |
| Declarem-se os russianos, | |
| Alemanha e a Toscana | Alemanha e toscanos |
| Sejam com eles cruéis, | Sejam com eles cruel, |
| Não lhes prestem quartéis, | Não lhe dêem mais quartel |
| Façam como os castelhanos. | Como fazem os castelhanos. |
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Observações:
Para uma melhor compreensão do assunto tratado nestes versos, ver o relato de José Acúrsio das Neves sobre o aludido dia do Corpo de Deus em Lisboa.
Encontrámos estas décimas em dois manuscritos, respectivamente intitulados:
1. "A procissão do corpo de Deus em 1808", disponível no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil.
2. "Ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus", in Antonio Joaquim Moreira (org.), Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863, fls. 93-93v.
A versão transcrita à esquerda é a assinalada com o número 1 e é a mesma donde extraímos a imagem da primeira folha, acima inserida. Da segunda versão extraímos as variantes assinaladas à direita.
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