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sábado, 3 de setembro de 2011

The Spanish Pye. A Ditty for young Patriots, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Setembro de 1808)





A tarte espanhola. Uma cantilena para jovens patriotas.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Setembro de 1808.


Esta caricatura satiriza o susto de José Bonaparte e dos franceses perante a inesperada irrupção das sublevações espanholas, representando o momento em que um grupo de pequenos soldados espanhóis (identificados pelas suas roupas e pela bandeira que ostentam) irrompe de dentro da tarte espanhola que o novo monarca, de faca e garfo nas mãos, se preparava para comer. Surpreendido e assustado, José Bonaparte recua, e ainda que ostente ameaçadoramente a faca do bolo, o certo é que os seus reforços estão do outro lado da mesa, também assustados... Trata-se provavelmente duma alusão directa às consequências da derrota em Bailén do General Dupont (que talvez esteja representado na caricatura como o francês com a cabeça enfaixada, as calças rasgadas e as botas gastas), facto que viria a provocar a decisão de José Bonaparte retirar-se de Madrid, apenas cerca de uma semana depois de aí ter chegado.
Por cima da tarte espanhola que dá título à caricatura encontram-se os versos da cantilena assinalada no subtítulo, que abaixo traduzimos literalmente: 

Canto uma canção de seis pences - um saco cheio de centeio, 
Quatro e vinte Patriotas - cozidos numa torta.
Quando a tarte foi aberta, os rapazes começaram a cantar. 
Ora, não era um belo prato para apresentar a um rei?



Os versos originais em inglês correspondem precisamente (ou melhor, quase inalterados) aos primeiros versos duma famosa cantilena infantil inglesa, Sing a song of sixpence, cuja fixação moderna pode ser abaixo escutada: 

 


Tendo em conta algumas variações conhecidas desta cantilena*, conseguimos apurar que a maior alteração que Cruikshank fez aos versos originais foi a introdução de um único termo que lhe era alheio (a saber, patriots), o qual, no entanto, para além de complementar o sentido da ilustração, altera significativamente o sentido dos versos originais. De facto, devemos ter em conta que o termo patriots ["patriotas"] tinha sido largamente difundido pela imprensa britânica, desde meados de Maio de 1808, em referência aos sublevados espanhóis, pelo que passara praticamente a ser sinónimo destes. Devemos finalmente acrescentar que para além da referida cantilena inglesa que indubitavelmente serviu de inspiração à caricatura, é possível ainda que a alusão à mocidade espanhola (através do termo sublinhado boys ["rapazes"] e do termo young ["jovens"], presente no subtítulo) derive do conhecimento que Cruikshank tinha de uma obra patriótica dirigida aos jovens espanhóis, nomeadamente um catecismo que começara a ser largamente divulgado na Espanha pouco depois dos incidentes de 2 de Maio de 1808 em Madrid, e que chegou mesmo a ser traduzido e publicado na Inglaterra em Setembro de 1808 (se não antes), através do periódico The Monthly Register


Outra digitalização: British Museum.

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Nota: 


* Como vulgarmente sucede em recolhas de manifestações da cultura popular, os versos desta cantilena (cuja primeira recolha foi publicada em 1744) encontram-se publicados em diferentes obras com algumas variações. Indicamos abaixo, a negrito, algumas dessas variações (relativamente ao excerto que nos interessa), acompanhadas por uma sugestiva gravura:


Sing a song of sixpence 
bag/pocket full of rye;
Four and twenty naughty boys/blackbirds 
Baked/Bak'd in a pie.

When the pie was open'd, 
the birds began to sing;
[And/NowWasn’t that a pretty/dainty dish 
to set before a/the King?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

The Spanish Bull broke loose or Josephs flight out of Spain, caricatura de James Gillray (Setembro de 1808)


Fonte: Brown University Library

O touro espanhol solto ou a debandada de José da Espanha.
Caricatura de Charles William, publicada em Setembro de 1808.

Esta caricatura é uma sequela duma outra que já tivemos ocasião de publicar aqui. Se na anterior caricatura o touro espanhol não tinha nome, agora passa a ser nomeado Don Bull ("Dom Touro"), e a corrente corsa que antes levava ao pescoço jaz agora no chão, debaixo do seu acompanhante, John Bull personificado também num touro, o qual transporta no dorso um cesto (com a sigla do rei britânico George III) cheio de inúmeras espadas e espingardas munidas de baionetas. Iluminados e aquecidos pelo sol do Patriotismo, ambos touros bufam Liberdade das narinas enquanto perseguem José Bonaparte, que foge espavorido em direcção a Bayonne, montado num burro carregado com cálices e outros objectos religiosos de prata e com sacos com dólares ouro (este último está rasgado e já caíram algumas moedas ao chão). Ao fundo, atrás de José (que deixa cair a coroa espanhola na fuga), e toldados por uma nuvem densa e escura que nada augura de bom, soldados franceses marcham também em direcção à França, puxando dois carros carregados com Prata das Igrejas e de Privilégios Reais



Finalmente, e tal como na outra caricatura acima aludida, toda a cena é observada com aparente euforia por um grupo de soberanos europeus, dispostos sobre um monte localizado no centro da gravura.

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Outras digitalizações: 


- Oxford Digital Library

- British Museum

Joseph in Jeopardy, in the last scene of the Pantomime Royal, at Madrid. A Spic and Span New Ballad, to the Tune of "Beat the Knave out of Doors", sátira publicada por John Hatchard (Setembro de 1808).




Esta gravura foi publicada na Inglaterra em Setembro de 1808, tratando-se de uma das muitas sátiras coetâneas sobre o início dos desaires dos franceses na Espanha. A caricatura que encabeça a folha alude à saída apressada de Madrid, por parte do exército napoleónico (ao fundo) e de José Bonaparte (em primeiro plano), depois da tomada de conhecimento das vitórias espanholas dos Generais Castaños e Blake em Bailén. Como noutras caricaturas publicadas na mesma época, José Bonaparte perde a coroa de Espanha nesta fuga, embora mantenha consigo vários objectos religiosos roubados. Da boca de um dos Generais (vestidos como nobres espanhóis) que seguem no encalce do novo monarca sai a seguinte frase latina: Non fuit Autolyci tam piceata manus ["Nem Autólico tinha tal mão de gatuno"]. Trata-se duma expressão atribuída ao poeta latino Marcial, referindo-se a Autólico, que, na mitologia grega, era filho de Hermes, e, como o seu pai, famoso em todas as artes da fraude e do roubo. 

A ilustração é procedida pelos versos duma "balada", que, como o título indica, deveria ser cantada ao som duma suposta música intitulada Beat the knave out of doors. Ora, esta expressão, que na verdade era o nome dum antigo jogo de cartas, significa literalmente Expulsar/retirar o valete para fora, para além de ter outros significados possíveis: dar batida ao patife; provocar a retirada apressada do patife; levar a melhor sobre o patife; expulsar o patife à pancada; bater no patife na ruaremover o patife para o exterior, etc. Deve notar-se ainda que o termo knave tanto significa valete como patife, como ainda criado (neste caso, de Napoleão). Alguns destes significados estão presente tanto na ilustração como na tradução livre que fizemos dos versos originais, que contudo não permite reproduzir as rimas originais dos versos (AABCCB). 






José em perigo, na última cena da Pantomima Real, em Madrid.
Uma balada novinha em folha,
ao som de "Beat the knave out of doors"


A toda a pressa para Madrid
José Bonaparte viajou;
E quando entrou na cidade
Vigorosamente berrou:
Dizei aos vossos Bourbons boa noite!
Eles cederam o seu Direito
A Napoleão: Para que lado o vento está
Claramente podeis ver, 
Pois Napoleão deu-o a mim:
Sou, assim, Zé, Rei da Espanha e das Índias».

«Se fostes convocado pela Providência
Para reinar sobre o nosso Reino da Espanha,
mostrai-nos a sua autorização»,
Exclamaram os espanhóis - «Visto que,
Zé, se nenhuma podeis mostrar,
Regressareis sem cumprir a vossa missão».

Tão inflexíveis pareciam ambos os Dons,
Que Zé concluiu que era tempo de ir embora; 
e, pronto para partir,
Pensou ele: aqui vou eu,
Estou em forma; deveis saber,
Sou irmão-rendido do grande Bonaparte.


Filho de peixe sabe nadar,
E, assim, forçou todos os cadeados,
Roubou o alcaçuz do palácio;
Roubou as Igrejas para o butim;
Bem sabia ele como fazê-lo,
Tendo durante tantos anos roubado os patíbulos.  

O seu zelo em despojar
A prata e ouro dos espanhóis
Não poupou nem as suas refeições nem as suas bolsas;
Se os dentes das suas cabeças
Fossem feitos daqueles metais,
Todos furtaria Zé das suas dentaduras.

Assustado, então regressou,
Para Bayonne debandou
Como um cão cuja cauda foi chamuscada;
Pois Castaños e Blake 
Perseguiram de perto o seu rastro,
Determinados a dar-lhe uma carga de pancada.

Mas Zé não receia o chicote
Desde que deles escapou; 
Pois a sua pressa, como a sua coragem, era grande: 
E, tendo entretanto sido privado da Coroa
Nesta corrida celebrada,
Zé jura que veio pela Prata.

Apologia do Rei José Bonaparte aos espanhóis (no fim do seu Reinado de Sete Dias) 
sobre a sua fuga de Madrid com as pilhagens do Palácio e Igrejas, etc.


          Se na breve Pantomima tive uma má actuação
          Enquanto fiz de Rei no seu trono,
          Fazei-me justiça, e dizei: Representei bem o Ladrão:
          Pois essa personagem, Senhores, era a minha própria. 



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Long faces at Bayonne or King Nap and King Joe in the dumps, caricatura publicada por Walker (Agosto de 1808)



Rostos descontentes em Bayonne ou o Rei Nap' e o Rei Zé carrancudos.
Caricatura publicada por Walker em Agosto de 1808.



Esta caricatura retoma as circunstâncias da resistência espanhola e da retirada de José Bonaparte de Madrid após a derrota de Dupont em Bailén. Transportado para Bayonne (embora na realidade continuasse na Espanha), José Bonaparte é representando com as vestes e coroa dos monarcas espanhóis, portando um colar da ordem do Tosão de Ouro e tendo ao seus pés um ceptro com uma faixa com a inscrição latina Servata Fides Cineri (fiel às cinzas dos antepassados). Ao seu lado, também sentado e com uma expressão igualmente mal humorada, encontra-se o seu irmão Napoleão, que lhe diz: Um belo pedaço de negócio foi o que fizemos, mano Zé. Ao que este lhe replica: Sempre te disse o que ocorreria por seres tão liberal com os espanhóis... 
Note-se que a caricatura é rica em trocadilhos que nos remetem para o tema já abordado da evacuação de Murat. Tanto Napoleão como o seu irmão parecem estar em posição para defecar, acção essa que é precisamente um dos vários significados do termo "dumps". Por outro lado, note-se a quase homofonia entre "long faces" (expressões carrancudas) e "long faeces/feces" (fezes longas), pelo que outra tradução livre para esta caricatura poderia ser: Grandes excrementos em Bayonne ou a cagada do Rei Nap' e do Rei Zé.

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