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domingo, 11 de setembro de 2011

Plano da batalha do Vimeiro, publicado no periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808






Uma relação da Batalha do Vimeiro
servindo de explicação ao plano da batalha


A Batalha do Vimeiro iniciará uma época importante na nossa História. É um daqueles acontecimentos decisivos que não só terminam uma campanha e aniquilam os recursos do inimigo naquela região, mas que produzem uma superioridade decidida nas operações posteriores dos vitoriosos. Neste aspecto, apresenta uma forte semelhança com as batalhas de Marengo, Ulm e Jena. Ela mudou completamente as características da guerra. Os franceses, que têm tido durante tantos anos o hábito de abrirem fogo e devastarem os Estados dos seus inimigos, e dos seus exércitos subsistirem às custas destes últimos, estarão agora limitados à necessidade de defenderem as suas próprias fronteiras contra uma força invasora. A relação transmitida por Sir Arthur Wellesley é tão clara e judiciosa que seria presunçoso acrescentar-lhe algo.

[Seguia-se um excerto da citada carta de Wellesley a Sir Harry Burrard]


quinta-feira, 14 de julho de 2011

As ordens e contra-ordens de Junot ao General Loison


Voltamos a repetir, agora com dados mais actualizados, que o estado de desorientação de Junot (face às poucas forças que dispunha para sustentar a ocupação efectiva de Portugal) é bem ilustrado pelas movimentações da divisão do General Loison: em meados de Maio de 1808, grande parte desta divisão abandonou a faixa costeira entre Mafra e Peniche, onde estava concentrada, para reforçar a guarnição de Almeida; pouco depois de ali chegar, Junot ordena a Loison para entrar na Espanha a fim de restabelecer as comunicações com o exército francês comandado por Murat (na Espanha); Loison passa a fronteira, mas logo no dia 17 de Junho volta a entrar em Portugal, para executar novas ordens de Junot, agora para se dirigir para o Porto; a 22 de Junho (apenas um dia depois de passar o Douro), depois de vários confrontos com os populares, que lhe tentam obstruir a passagem, Loison supostamente recebe contra-ordens para regressar para Almeida; porém, antes mesmo de chegar a essa praça-forte, recebe novas ordens para se voltar a aproximar de Lisboa, o que começa a executar a 3 de Julho, depois de dar descanso às suas tropas durante apenas um dia; finalmente, no dia 11, estas forças chegam a Santarém, depois de se terem enfrentado com alguns populares da aldeia de Souro Pires (a 29 de Junho), da cidade da Guarda (a 4 de Julho) e da aldeia da Alpedrinha (a 5 de Julho).



Ver mapa maior

Percurso das forças do General Loison, de Mesão Frio a Santarém, 
entre 22 de Junho e 11 de Julho de 1808
(de acordo com o boletim n.º 4 do exército francês).




Como se não bastassem já todas estas movimentações, referia a Gazeta de Lisboa de 14 de Julho que Loison, ao chegar a Santarém, "aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira"! 
De facto, Loison pouco tempo permaneceu em Santarém, pois no dia 15 já se encontrava em Alcobaça, ponto de reunião das forças de mais de 10.000 homens comandados pelos Generais Kellermann, Thomières, Brenier, Solignac, entre outros, que tinham o objectivo de aterrorizar a população da faixa litoral entre Lisboa e Leiria e submeter e reprimir qualquer tipo de revolta. Depois de alguns confrontos e saques combinados, Loison volta a partir para Lisboa, onde chegou no dia 20No entanto, apenas cinco dias se deteve na capital, pois logo recebeu novas ordens, desta vez para entrar no Alentejo, como mais adiante veremos...



terça-feira, 28 de junho de 2011

Plano de Operações Defensivas em Portugal, segundo Charles Vincent, Coronel de Engenheiros do Exército francês em Portugal (28 de Junho de 1808)



Lisboa, 28 de Junho de 1808.



Uma esquadra inimiga ameaça o porto e a cidade de Lisboa. Independentemente dos seus meios e das boas informações que dispõe, pelas quais obterá vantagens momentâneas, ela pode agir com a confiança que lhe deve inspirar a certeza de ser poderosamente secundada pelos socorros que não deixarão de multiplicar-se no meio da fermentação das ideias que os homens exaltados e corrompidos pelo ouro do inimigo disseminarão com o objectivo de levar o povo a todo tipo de excessos.
Deve-se assim pensar que a cidade e o porto de Lisboa podem ser atacados ao mesmo tempo por mar e por terra; pode-se mesmo adiantar que o momento do ataque não tardará muito, se dermos crédito às diferentes notícias dos postos mais afastados ocupados pelo exército [francês], notícias essas que, contudo, raramente inspiram muita confiança. 
Perante este estado de circunstâncias, é urgente considerarmos quais são os ataques que mais se devem recear, bem como os meios pelos quais se podem repelir.
Considerar-se-á como ataques por mar apenas aqueles que se poderiam tentar investindo sobre o porto [de Lisboa] ou sobre aquela parte da costa que está compreendida entre Peniche e Setúbal; qualquer outra tentativa operada através de um desembarque será considerada na hipótese dos ataques por terra, os quais serão observados depois de se terem considerado os ataques por mar.
Suponhamos assim que o inimigo, informado acerca dos movimentos e dos desenvolvimentos de um ataque por terra, tenciona fazer uma diversão a favor de tal ataque, aproveitando-se do vento do momento, que provavelmente será de nordeste, para passar a estreita entrada [do Tejo], protegida de perto pelo forte de S. Julião, com o objectivo de arribar ao porto [de Lisboa]. Somente se pode esperar, num caso semelhante, que o forte de S. Julião trave a esquadra disparando à queima-roupa; devem alvejá-la apenas aquelas peças de artilharia que poderão estar bem servidas com carcaças, enquanto que todos os outros canhões devem ter como principal objectivo cortar as manobras das embarcações; as baterias altas do forte devem esforçar-se para danificarem e travarem os navios. A verdadeira vantagem que se obteria seria desacelerar o movimento dos navios, forçando-os talvez a afastarem-se, e como eles devem aproveitar o vento para entrar, não é de modo algum improvável que alguma embarcação poderia encalhar nos baixios a norte da passagem, o que seria a maior vantagem que podemos esperar.
É muito pouco provável que os atacantes ancorem diante do porto [de Lisboa], para aí tentarem o desembarque; se porém o ousarem, o General Travot, a quem está confiada a defesa da costa, obterá rapidamente assistência para repelir esta empresa, que não é nada provável, devido ao estado de armamento da margem norte [do Tejo].
Ainda assim, podemos pensar que o inimigo tentará passar as defesas de Belém e da Torre Velha [de Belém], as quais devem, portanto, ser tão reforçadas quanto possível, e isto sem demora; não há dúvidas que, no estado actual das circunstâncias, o inimigo encontrará dificuldades; mas é sobretudo da parte das embarcações russas que ele deve provar uma resistência imponente; a linha de navios, sustentada na direita pela bateria de Belém [=bateria do Bom Sucesso] e na sua esquerda pelo Arsenal da Marinha, posicionando-se o mais perto possível da margem norte do Tejo, apresentará a linha de defesa mais temível que se possa imaginar. Para auxiliar esta mesma linha, devem estabelecer-se baterias de morteiros, o mais rápido possível, no baluarte de Alcântara e na bateria de S. João de Deus; devido à sua localização, estes dois pontos podem receber peças de artilharia que não seriam tão úteis noutros sítios, pois supondo-se que o inimigo passa as nossas defesas e consegue ancorar no porto, gostava de poder manter o fogo multiplicado dos navios de guerra em linha e das baterias de morteiros de Alcântara, de S. João de Deus e do Arsenal da Marinha. Consequentemente, estas baterias de morteiros devem ser estabelecidas sem demora.
Não se devem detalhar aqui cada um dos movimentos e meios de defesa que devem ser utilizados no caso de que o inimigo desembarque tanto a sul como a norte do Tejo, entre Setúbal e Peniche; a defesa dessa parte da costa está confiada aos oficiais que conhecem profundamente o teatro das operações militares que deverão então ocorrer, sendo que as vantagens locais dão grande probabilidade de sucesso [aos franceses].


Linha defensiva do norte do Tejo, segundo o presente relatório do Coronel Vicent

Os marcadores azuis assinalam, da esquerda para a direita: o forte de S. Julião da Barra, a bateria do Bom Sucesso, a torre de Belém, o baluarte de Alcântara (hoje desaparecido), a bateria de S. João de Deus (igualmente desaparecida), e o Arsenal Naval. A linha a azul indica a zona onde se recomendava que se dispusesse a esquadra russa, possivelmente combinada (apesar do Coronel Vicent não o referir) com 2 navios portugueses, o Princesa da Beira (incapaz de navegar e armado como bateria flutuante) e o Vasco da Gama (reparado desde meados de Março de 1808), e talvez ainda algumas fragatas portuguesas (no máximo 5). As linhas a amarelo marcam os limites aproximados dos escolhos e baixios (segundo um mapa de 1811), que tornavam a entrada do Tejo bastante perigosa, sobretudo em maré baixa. Indicámos finalmente com o marcador a amarelo o forte do Bugio, no qual não se encontrava nenhuma guarnição francesa (devido à sua posição demasiado exposta).




Depois desta visão global sobre os meios de resistência a um inimigo que tente forçar o porto com a ajuda da sua esquadra, iremos agora tomar em consideração os ataques por terra, que aparentemente são os que mais devem ser receados pelo porto e cidade de Lisboa.
Suponhamos (ainda que não seja nada provável) que multidões de insurgentes [algarvios] sem controlo, sem qualquer chefe com talento, sem meios de subsistência, e muito provavelmente sem unissonância, ousam penetrar no Alentejo, deixando para trás delas uma praça como Elvas (que nunca deve ter menos de 3.000 homens), para vir passar o Tejo diante dum corpo do exército [francês] que se poderia alcançar uns 6.000 homens. Não hesitamos nada em pensar que podemos passar para o outro lado do Tejo, para tomarmos como primeira linha de defesa o curso do Sor, a partir de Salvaterra, e subindo-o até Soverigno[sic], a partir donde a linha apoiar-se-ia sobre o rio; contudo, se a ponte sobre o Tejo não puder ser construída, e se a tranquilidade de Lisboa não permitir que daqui parta um grande destacamento, ficaremos com uma posição muito mais concentrada e muito mais forte na margem norte do rio. O centro desta posição será na confluência do Zêzere com o Tejo, estendendo-se pela sua direita até Lisboa; e se parecer que esta direita não pode ser forçada, os maiores meios do exército serão desenvolvidos sobre Tomar, Ourém e Leiria, onde provavelmente um oficial instruído encontrará posições defensivas excelentes, na própria geografia do terreno; admitindo no entanto que a esquerda pode ser forçada, o exército retirar-se-á então para entre Santarém e Peniche, onde o terreno, estudado e reconhecido previamente, proporcionará provavelmente meios potentes para repelir o ataque. 
Não longe dali também se encontra a boa posição de Alenquer e Torres Vedras, a partir donde a direita estender-se-ia até ao Tejo, e a esquerda até ao mar.
Chegando finalmente àquele desagradável estado de circunstâncias no qual o exército se visse reduzido à necessidade de abandonar a posição de Alenquer e Torres Vedras, a sua retirada somente pode ser para Lisboa. [Neste caso], o exército teria ainda antes da cidade uma boa posição, com a direita apoiada na ribeira de Sacavém, e a esquerda nas elevações de Belas. Esta posição, que em pouco tempo pode estar disposta em estado de defesa, impedirá que o inimigo consiga circundá-la ou que recorra a alguma diversão, obrigando-o forçosamente a investir com a sua força principal, operação esta bastante delicada, com escassas probabilidades de sucesso para as tropas verosimilmente pouco aguerridas que tentassem tal ataque.
Dado que os meios de defesa que acabámos de considerar deixam o Alentejo à disposição do inimigo, devemos sensatamente recear que ele dará ordens às suas tropas e artilharia para irem ocupar as colinas de Almada, donde poderá fazer infinitos danos à cidade [de Lisboa] e aos navios; é portanto indispensável que se impeça este perigo, assegurando uma boa posição para proteger Almada e garantir a sua boa defesa.
Supondo-se que fica bem estabelecida a primeira linha acima mencionada, cuja direita se estende da foz do Zêzere até Lisboa, será pouco provável que o inimigo consiga passar para a margem norte do rio por esta parte do seu curso; talvez tente passá-lo acima da boca do Zêzere, mas seremos informados disso, e, movendo-nos ao longo da margem norte desse rio, podemos disputar a sua passagem pelo menos até Pedrogão, elevação considerável, na qual podemos tentar impedir que o inimigo se reúna com os corpos que poderão vir da Beira Alta, do Porto e de Coimbra; contudo, supondo-se que se efectua esta junção, a defesa seria precisamente a mesma que antes abordámos, e não se esperariam novas combinações de defesa.
A força de dois ou três mil homens que supomos estar entre Leiria e Mafra poderá facilmente concertar as suas operações com os seis mil homens encarregados da defesa da margem norte do Tejo e da linha de Tomar a Leiria; estas forças serão provavelmente suficientes para enfrentar as aproximações à capital, enquanto que as tropas deixadas no interior estarão ocupadas no importante dever de manter a tranquilidade.
Contudo, com o objectivo de compreender todas as hipóteses mais ou menos verosímeis e as mais funestas para o exército [francês] – um dever que devemos impor, mesmo que o raciocínio se recuse a submeter-se – suponhamos que o exército é forçado a evacuar Lisboa. A divisão de Travot aproximaria-se para Belém, preservando as colinas da Memória e das Necessidades, para ajudar a garantir a tranquilidade na cidade. Todos os tipos de depósitos do exército serão removidos para a margem norte do rio, onde não possam ser atacados. Sacavém será o ponto de reunião, e o exército, caso se veja forçado a retirar, começará a fazê-lo a partir deste ponto, passando por Santarém até Tomar, a partir donde passará o Zêzere em Vila de Rei, continuando então a subir até Belmonte, Guarda e Almeida, passando por Sertã, Monte Gordo e Atalaia.



Itinerário da retirada do exército francês pela Estremadura e Beira


Não prevemos obstáculo algum susceptível de poder inquietar o exército na sua retirada, que poderá ser feita em peso até Tomar; mas uma vez chegando a este ponto de reunião, ou até mesmo antes, o exército poderá dividir-se em muitas colunas, para alcançarem o seu destino pela Beira Alta. 
Ao alcançar Almeida, o exército conservará provavelmente forças suficientes para atravessar a Espanha, ou o que ainda é mais provável, para efectuar a sua reunião com os corpos de tropas que estiverem mais perto.
Supomos que a retirada que se deve fazer pela província da Beira e até Almeida é a única retirada possível, se o rio [Tejo] cair no poder do inimigo; mas é muito mais provável que, em caso contrário, a retirada seja encaminhada por Elvas. 


Itinerário da retirada do exército francês através da "melhor estrada de Portugal".



A passagem do rio, tal como foi prevista antes, não apresentará provavelmente dificuldades algumas, estando reunido um grande número de barcos na ribeira de Sacavém e ocupando o exército a extensão da margem norte [do Tejo]; as tropas entrincheiradas em Almeida retirar-se-ão para proteger o desembarque na margem esquerda; e o exército poderá fazer a retirada pela melhor estrada de Portugal, o que dá toda a esperança que será realizada na melhor ordem, vantagem esta temos todo o direito de esperar que nunca ambicionaremos.

O Coronel de Engenheiros,
Vincent.

[Fonte: "Colonel Vicent's Report upon the Defence of Portugal", in Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 145-148 (texto original francês); uma tradução em inglês, deturpada nalguns trechos, tinha sido previamente publicada com o título de "Translation of the Plan of Defensive Operations for the French Army in Portugal", in Correspondence, Despaches, and other papers, of Viscount Castlereagh – Vol. VI, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 376-381. Existe uma outra cópia do original francês, in Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 74-77 (doc. 117)].


terça-feira, 21 de junho de 2011

Relação das acções militares espanholas ocorridas junto do rio Guadiana a 21 de Junho de 1808



D. Josef de Giron, vogal da Junta de Ayamonte, tendo sabido que estavam muito poucos franceses em Vila Real [de Santo António] e Castro Marim, comunicou esta notícia ao comandante General D. Ignacio Fonnegra e à Junta [de Ayamonte], que se formou às 7 horas da manhã do dia 21. Questionou-se durante algum tempo se se devia atacar o inimigo, pois não havia ordem desta Suprema Junta [de Sevilha] para o efeito. [Contudo,] as representações do General comandante começaram a fazer ruir esta indecisão; e tendo-se observado ao mesmo tempo que chegavam tropas [francesas] a Vila Real num barco que, depois de as desembarcar, voltava pelo rio acima (donde tinha vindo), Fonnegra ordenou ao comandante das lanchas para que enviasse um ou dois oficiais com os seus botes para deter o barco e impedir o desembarque de mais reforços. 
Pouco tempo depois da execução desta ordem, apresentou-se na Junta [de Ayamonte] um oficial da Marinha, dizendo: Senhores, não percamos tempo. Os oficiais que foram nos botes arvoraram a bandeira espanhola na bateria da Carrasqueira. O Comandante mandou tocar imediatamente a generala e sair para Vila Real e Castro Marim; e efectuou o seu desembarque com a protecção da divisão de lanchas ao comando do seu comandante D. Francisco Escalera. Na bateria da Altura estavam reunidos cerca de 60 soldados portugueses que dispararam alguns tiros. Fonnegra enviou ali um oficial com 100 soldados da marinha, e aqueles se entregaram. O Coronel português [José] Lopes de Sousa pediu esta gente para reforçar Tavira e Faro. As baterias da Carrasqueira e do Cemitério foram inutilizadas pelas tripulações das nossas lanchas, a bordo das quais se embarcaram todas as suas munições e apetrechos. Os franceses tinham saído na noite anterior de Vila Real para Tavira. 
D. Pedro Gil, Capitão de guerrilha, dirigiu-se num bote para Castro Marim, com 4 homens do seu grupo. Ao aproximar-se à praça, um oficial português que estava num falucho gritou-lhe para que não saltasse para a terra, porque vinha entrando na povoação uma companhia de franceses. Apesar disto, efectuou o desembarque, apoderou-se da bateria do Registo, deixando nela D. Josef Valera, Alferes de Fragata, comandante dum falucho canhoneiro que se lhe tinha reunido, tomou depois a fortaleza [sic] de S. António, e sabendo que a companhia francesa de setenta homens fugia da povoação, perseguiu-a sem a conseguir alcançar. Subiu depois ao castelo, que lhe foi entregue, e deixou-o em poder do Sargento mor da província de Badajoz, com 40 homens do seu mando, passando a render o forte de S. Sebastião, único que restava. As baterias que podem ofender Ayamonte foram destruídas; e a instâncias dos portugueses foram conservadas as que lhes podiam servir para se defenderem dos franceses. Estes tinham reforçado as quatro baterias de Vila Real com 54 peças de artilharia, um morteiro e um obus. Todas estas peças foram enterradas e as baterias desfeitas; trabalho a que concorreram com igual zelo as tropas de artilharia e as de mar. Esta empresa teve como resultados a tranquilização da população de Ayamonte, antes exposta a uma invasão, e o restabelecimento da comunicação do Guadiana. 
Os Oficiais de marinha que começaram as gloriosas operações deste dia, apoderando-se das baterias de Vila Real [de Santo António], são os Alferes de fragata D. Joaquin Ruiz, D. Juan María de Miguel e D. Gabriel Cláudio Sequeira; e em geral, o Comandante, Oficiais e Tropa de marinha do posto de Ayamonte manifestaram um zelo e patriotismo digno do reconhecimento público, tal como o Comandante, Oficiais e as Tropas de terra.

[Fonte: Gazeta Ministerial de Sevilla, n.º 16 en la Imprenta de la viuda de Hidalgo y Sobrino, 23 de julio de 1808, pp. 121-123]. 




Fortificações referidas no texto.
A amarelo indicam-se as localizações aproximadas das baterias actualmente desaparecidas.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os escassos recursos militares de Junot e a ida do General Loison para o Porto




Como atrás vimos, foi preciso esperar até ao dia 9 de Junho para chegarem a Junot as notícias de que três dias antes o exército espanhol comandado por Belestá tinha aprisionado os franceses que estavam no Porto e marchado com estes para a Galiza. Para além de em represália ter mandado prender os vários destacamentos dispersos de espanhóis que estavam ao seu alcance (fora alguns que conseguiram fugir, como o Regimento de Múrcia), Junot deu também ordens ao General Loison para que este retrocedesse a sua marcha e fosse ocupar a cidade do Porto. 

Ainda que a Gazeta de Lisboa anunciasse frequentemente que Portugal vivia num cenário de tranquilidade, aqueles acontecimentos do Porto vieram agravar a situação bastante crítica em que Junot já se encontrava, e isto antes mesmo de ter conhecimento dos vários focos de insurreição que começariam a surgir nos dias seguintes e a alastrar pelo norte e pelo sul do país. A saída da divisão de Solano do sul de Portugal, algumas ordens de Napoleão e do Grão-Duque de Berg, e finalmente as revoltas espanholas, obrigaram Junot a dividir e a dispor sucessivamente o seu exército em novos postos. Desta forma, nos primeiros dias de Junho mais de um terço da totalidade dos seus homens estava repartido entre Almeida, Elvas e no sudeste do país (estes últimos com ordens para entrar na Espanha e abafar as revoltas da Andaluzia, juntamente com o exército de Dupont, e depois seguir para Cádis). À excepção de alguns destacamentos dispersos pelas estradas que conduziam de Lisboa a aqueles pontos, e exceptuando também a região litoral à volta de Lisboa, onde se encontravam cerca de 10.000 homens (ou seja, cerca de metade dos franceses que nesta época eram comandados por Junot), o resto do país estava então literalmente livre de franceses:



Ver mapa maior
Principais pontos ocupados pelos franceses (cerca de 10 de Junho de 1808)




As ordens e contra-ordens das movimentações do General Loison ilustram bem o estado de desorientação em que Junot se encontrava, sabendo que as suas forças eram insuficientes para conseguir sustentar a ocupação do país em caso de um desembarque dos ingleses e/ou do alastramento das revoltas espanholas a Portugal (desorientação esta que se torna visível em grande parte da correspondência que Junot enviou a Napoleão pelo menos até 7 de Junho de 1808, data da última carta conhecida). De facto, Loison, que no dia 8 de Dezembro de 1807 instalara o seu Quartel-General em Torres Vedras para comandar a sua divisão, que se concentrou sobretudo entre Mafra e Peniche, recebeu ordens em meados de Maio do ano seguinte para partir para a praça de Almeida, acompanhado com uma coluna de cerca de 4.000 homens. Depois de cerca de 15 dias de árdua viagem até Almeida, Loison continuou a marcha em direcção a Ciudad Rodrigo, a fim de repor as comunicações com o exército francês que ocupava a Espanha, pois os rebeldes espanhóis tinham começado a interceptar a correspondência dos franceses desde meados de Maio de 1808. Pouco depois de passar a fronteira e de mandar ocupar o forte de la Concepción, Loison recebe as contra-ordens de Junot para ir ocupar o Porto, dado que os espanhóis tinham abandonado esta cidade. Assim, no dia 17 de Junho, Loison viu-se obrigado a retroceder a sua marcha, começando a caminhar para o Porto acompanhado por cerca de 2.600 franceses e com 3 ou 5 peças de artilharia (consoante as versões). 
A viagem decorreu sem grandes incidentes até Lamego, onde este corpo pernoitou no dia 20. Contudo, tudo se alteraria nos dias seguintes. Como temos mostrado, depois dos espanhóis terem aprisionado os poucos franceses que se encontravam no Porto, várias povoações a norte do Douro começaram a aclamar o Príncipe regente e a levantar-se contra o governo francês. 





Focos de insurreições no norte do país até 19 de Junho de 1808





Ao cruzar o Douro na manhã seguinte, um militar experiente como Loison iria deparar-se com um cenário que jamais tinha visto, sendo atacado não por um exército mas por pequenos bandos de guerrilhas emboscados no meio das vinhas, que, quando acabavam as suas munições, atiravam pedras... Como veremos, depois de quase ir para o maneta, Loison acabou por no dia 23 voltar a passar para a margem sul do Douro, supostamente por ter recebido novas ordens de Junot para regressar a Almeida...



terça-feira, 14 de junho de 2011

A rendição incondicional da esquadra de Rosily em Cádis (14 de Junho de 1808)




A esquadra britânica bloqueando o porto de Cádis


Em Outubro de 1805, o Almirante Pierre Villeneuve, comandante de 18 navios de guerra franceses ancorados em Cádis, recebeu uma carta do seu Governo, através da qual era informado que ia ser destituído do seu posto, pois Napoleão não estava nada satisfeito com o facto dele não conseguir furar o bloqueio que alguns navios britânicos faziam àquele importante porto. Pressionado desta forma, e antecipando a chegada do Vice-Almirante Rosily (que o ia substituir), Villeneuve decidiu sair de Cádis, acompanhado por outros 15 navios espanhóis. Contudo, o tiro saiu-lhe pela culatra, devido à estratégia naval do Almirante inglês Horatio Nelson, que embargou as movimentações das embarcações inimigas, executando um fulminante ataque, no dia 21 do mesmo mês. Entre embarcações apresadas, afundadas e explodidas, somente 11 navios aliados (5 franceses e 6 espanhóis) e algumas fragatas conseguiram regressar à Cádis. Rosily, ao chegar a esta cidade poucos dias depois da batalha de Trafalgar (como ficou conhecido este episódio), deparou-se com um triste cenário... Desde então, Rosily ficou com os seus cinco navios e uma fragata naquele mesmo porto, igualmente sem os conseguir retirar, pois a esquadra britânica, comandada (depois da morte de Nelson na referida batalha) pelo Vice-Almirante Collingwood, persistia no seu bloqueio a Cádis. 


Fonte: Wikipedia


Vista de Cádis e arredores


Quando o povo espanhol começa a manifestar-se contra os franceses, no início de Maio de 1808, Collingwood encontrava-se temporariamente afastado de Cádis, comandando o bloqueio do porto de Toulon (onde estavam ancorados 12 navios franceses). Não obstante estas movimentações, o porto de Cádis continuou a ser bloqueado por 12 embarcações britânicas, que eram agora comandadas pelo Contra-Almirante Purvis (Collingwood, sabendo das acções que mais abaixo se descrevem, regressaria a Cádis no dia 11 de Junho seguinte). A 14 de Maio, depois de conversações com a Junta de Sevilha, o Governador de Gibraltar (General Hew Dalrymple) envia o General Spencer (juntamente com 4 a 5 mil soldados), que estava estacionado naquela praça desde o final de Janeiro daquele ano, ao encontro da esquadra britânica em Cádis, com o fim de cooperar com os espanhóis em caso necessário. Poucos dias depois de ali chegar, Spencer manda publicar na cidade (provavelmente através de pescadores) alguns exemplares duma proclamação sua, onde propunha a união e cooperação entre espanhóis e ingleses contra os franceses. Apesar da oferta ter soado bem aos ouvidos do povo da cidade, as autoridades demoraram em dar uma resposta formal. O Governador de Cádis, que acumulava ao mesmo tempo, e entre outros, os cargos de Governador e Capitão General do exército e da província da Andaluzia, era nada menos que o Marquês del Socorro, o nosso conhecido General Solano, que como vimos recebera ordens em meados de Fevereiro anterior para regressar à Espanha. Parece que Solano queria atacar as embarcações francesas, mas faltava-lhe a pólvora necessária para empreender um ataque satisfatório. Com os ânimos populares já exaltados pelo facto das autoridades de Cádis não tentarem apresar ou destruir os navios franceses, finalmente, na noite do dia 29 de Maio, depois de se reunir com outros Generais espanhóis, Solano decide ordenar a publicação dum edital onde repudiava a ideia de uma aventurada declaração de guerra à França. Ao amanhecer do dia seguinte, os populares vêm a proclamação e dirigem-se imediatamente à casa de Solano. Este, querendo acalmá-los, aponta para a esquadra inglesa que se vê ancorada no horizonte, e indica-lhes que ali estavam os verdadeiros inimigos de Espanha. Supondo-o partidário dos franceses, o povo enraivecido não lhe perdoa e invade os seus aposentos, levando-o preso. No meio do tumulto, a caminho da forca, Solano morreu assassinado, atravessado por uma espada (Solano não foi a única vítima deste tipo de tumultos, que ocorreram um pouco por toda a Espanha - e seguidamente em Portugal. Curiosamente, longe dali e mais ou menos à mesma hora que Solano era assassinado, o Comandante General da província espanhola da Extramadura, o Conde de la Torre del Fresno, também morria às mãos dos populares de Badajoz).

Ainda no dia 29, depois de vários dias sem obter resposta alguma das autoridades de Cádis, Spencer escrevia uma carta ao Secretário de Estado da Guerra da Grã-Bretanha (Visconde Castlereagh), anunciando-lhe que a nobreza e o Governador daquela cidade pareciam “preferir a segurança e a submissão aos perigos duma resistência honrosa” [Fonte: “Précis of Letters from Major-General Spencer, relative to Spanish Affairs”, in Correspondence, despatches, and other papers, of Viscount Castlereagh, second Marquess of Londonderry – Volume VII, London, William Shoberl Publisher, 1851, pp. 146-157, p. 148]. Perante tal cenário, Spencer preparava-se no dia 30 para regressar à praça de Gibraltar, quando recebe a bordo da sua embarcação uma visita inesperada de dois enviados da Junta de Sevilha,  perguntando-lhe se continuava viável a proposta de acordo que tinha sido tornada pública. Foi assim que Spencer tomou conhecimento de que Solano acabava de ser assassinado, e que, na sequência do tumulto, criara-se em Cádis uma Junta que reconhecia a de Sevilha como Suprema. Depois de várias horas de conversações, chegou-se a um consenso, que foi formalizado no dia seguinte. Os espanhóis rejeitaram o auxílio das embarcações inglesas, pois queriam apresar para si as embarcações francesas. Por outro lado, não nos podemos esquecer que, até aí, espanhóis e ingleses eram inimigos, pelo que ainda continuava a haver algum receio de ambas as partes. Assim, ficou acordado que os ingleses manter-se-iam nas suas embarcações, continuando a bloquear a baía da cidade, mas só dariam assistência em caso estritamente necessário. O que realmente fazia falta aos espanhóis era pólvora (motivo pelo qual, como dissemos, Solano não tinha determinado o ataque aos navios franceses), a qual foi cedida pelos ingleses na quantidade de 400 quilos



Vista aérea de Cádis



Entretanto, antes ainda da revolta espanhola se ter alastrado a Cádis, Rosily, esperando o reforço do corpo comandado pelo General Dupont e prevendo já um eventual rompimento das relações com a Espanha por parte de Napoleão, tinha disposto as suas embarcações entrelinhadas com as espanholas, a fim de se prevenir contra um eventual ataque directo das baterias e fortificações costeiras. Contudo, no dia 30 de Maio (já depois da morte de Solano), sob o pretexto de festejar o dia de San Fernando, onomástico do monarca D. Fernando VII, as embarcações espanholas separam-se das francesas com o consentimento de Rosily, enquanto se começam a preparar as fortificações costeiras e a construir várias baterias terrestres, bem como a artilhar várias lanchas (é caso para se notar que somente um navio espanhol estava em condições de empreender um ataque bem sucedido). Vendo-se cercado por todos os lados e sem poder sair da barra devido ao bloqueio inglês, Rosily decide posicionar a sua esquadra bem dentro da baía de Cádis (numa zona conhecida por Poza de Santa Isabel), no dia 6 de Junho, ou seja, no mesmo dia em que a Junta de Sevilha declara formalmente guerra a Napoleão
Finalmente, no dia 9 de Junho, depois de ultimados todos os preparativos para o ataque, o novo Governador de Cádis (General D. Tomás de Morla) escreve a Rosily, intimando-o a render a sua esquadra e os seus homens:




Sr. Almirante:
A nação espanhola, religiosa, amante dos seus Soberanos, fiel e leal a eles, e sempre valorosa com honra, não pôde ver sem se irritar a perfídia com que a França se apoderou do nosso amado monarca [Fernando VII] sem guerra declarada, e com aparência de cordial amizade. 
A sua insurreição foi geral por todas as províncias, que se declararam mais ou menos prontamente, com muito pouca diferença de dias. Em Sevilha, capital da Andaluzia, erigiu-se uma Junta Suprema de Governo, à qual obedecemos. Esta não pode ver com indiferença que, enquanto as tropas da nação francesa já agem hostilmente nas nossas povoações, esteja neste porto armada e arvorando o pavilhão francês a esquadra comandada por Vossa Excelência. Em consequência, a Junta ordenou-me a intimar Vossa Excelência a render-se imediatamente, e, em caso contrário, a empregar todos os meios que dita a arte e que estão em meu poder para bater a esquadra até que se renda.
Para este efeito dou a Vossa Excelência duas horas para que se resolva a render-se; mas negando-se a fazê-lo depois desse tempo, ou se o ver fazer qualquer movimento, abrirei fogo de bombas e balas rasas (que serão incendiárias se Vossa Excelência se obstinar); atacará a esquadra espanhola e também as forças subtis. Por último, a esquadra inglesa estará na boca do porto para que não lhe reste o menor recurso.
A efusão de sangue é sempre dolorosa a quem tem sentimentos de humanidade; mas muito mais quando se derrama sem a menor esperança de sucesso, como não a pode ter Vossa Excelência. Para além disto, a vossa obstinação irritará muito mais o povo, e ainda que seja pouco o mal que nos possa fazer, não respondo pela sua vingança sobre inocentes vítimas [vivia em Cádis uma pequena colónia francesa]. Conheço a honra militar, e não seria capaz de intimar a Vossa Excelência (a quem pessoalmente estimo) algo contrário a ela. É certo que não a manchará rendendo-se; dado que Vossa Excelência não poderá ter o menor vislumbre de não ser destroçado, perdidas as suas embarcações, e não só a vida das suas tripulações, mas talvez também outras fora do campo de Marte.
Cádiz, 9 de Junho de 1808.
Tomás de Morla


Apesar da sua situação arriscada, Rosily nega render-se, adiantando na resposta ao ultimato de Morla que se a esquadra britânica não atacasse nem perseguisse as embarcações francesas por um período de quatro dias desde a sua saída, estas afastar-se-iam imediatamente das águas de Cádis. Em contra-resposta, o General Morla dá sinal para se começarem as hostilidades. Ao entardecer, depois de cinco horas de uma intensa troca mútua de fogo de artilharia, o combate cessa sem os franceses se renderem. 
Ao amanhecer do dia 10, recomeça o fogo da artilharia, embora com menor intensidade do que na tarde anterior. Por volta do meio-dia, os franceses hasteiam a bandeira de tréguas e Rosily envia um novo ofício a Morla, insistindo na sua postura anterior. A resposta de Morla não se faz esperar:

Peço a Vossa Excelência que reflexione sobre a inutilidade da sua resistência, e se persuada de que se não consente a rendição que lhe intimo pela segunda vez, usarei de todos os meios vigorosos que tenho para destruí-lo, responsabilizando Vossa Excelência por todos os prejuízos e desastres que se originem em consequência.


Na verdade, apesar desta resposta, os espanhóis mal dispunham de pólvora para um ataque em força, uma vez que a tinham gasto quase toda no primeiro dia do combate. Assim, Morla manteve os canhões silenciados à espera que os franceses tomassem a iniciativa, o que não voltou a ocorrer nesse dia 10. 
No dia seguinte, Rosily envia uma nova proposta: apesar de insistir em que o deixem sair de Cádiz com as suas embarcações e respectiva tripulação, adianta agora que cederia todo o seu armamento, que seria desembarcado na cidade. Vendo que os ânimos dos franceses começavam a fraquejar, Morla responde a Rosily que não estava capacitado para aceitar as condições sugeridas e que deve consultá-las com a Junta Suprema de Sevilha. Enquanto se espera pela resposta, os espanhóis aproveitam os dois dias seguintes para executarem ostensivamente (para enganar e induzir medo aos franceses) novas medidas de ataque, entre as quais o restabelecimento das posições danificadas e a instalação de uma bateria costeira de 30 canhões bem defronte dos navios inimigos. 
Finalmente, na manhã do dia 14, chega a Cádis a resposta da Junta de Sevilha, que nega a proposta de Rosily e oferece tão somente o respeito pelas vidas e equipagens dos rendidos. Depois de receber esta resposta, Rosily convoca os seus comandantes e, à vista da aparente inutilidade de resistir ao assédio, decide arrear a bandeira e render a esquadra. Ainda no mesmo dia, o General Morla torna público este facto através da seguinte proclamação:

Prevenções do Governo aos habitantes de Cádis



A esquadra francesa acaba de render-se à discrição, confiada na humanidade e na generosidade dos gaditanos, como já publiquei. As medidas que se tomaram libertaram a nossa esquadra do menor deterioro, e deixaram-na ilesa: mesmo nas forças que se empregaram não houve estragos consideráveis; e a efusão de sangue foi menor que a dum combate de duas embarcações pequenas: não houve mais que quatro mortos.

Ademais, os navios franceses e as suas munições e armas ficam ao nosso dispor; os seus prisioneiros servir-nos-ão de moeda de troca e como reféns. Nada disto se teria conseguido com os projectos pouco meditados e combinados de brulotes, balas incendiários e outros. Se não se tivessem tomado precauções que exigem tempo, a nossa mortandade teria sido considerável. Lisonjeio-me, pois, de ter correspondido à confiança destes habitantes, que tantas e tão repetidas provas me deram da sua estima, a que jamais o meu coração sensível poderá corresponder dignamente.

Mas agora peço, exijo e mando que cessem os rumores, que tudo entre na ordem: que se submeta cada um segundo a sua classe às Autoridades constituídas, que todas dependem da Suprema Junta [de Sevilha], sempre atenta ao bem geral e a procurar com a maior actividade alianças parciais e meios para o feliz êxito da nossa empresa; que se deixem reinar as leis, e se odeie a arbitrariedade. Escandaliza que o povo mais culto e urbano da terra exclame e queira a morte de um particular. Só o campo de Marte, onde se repele a força com a força, autoriza a ilegal efusão de sangue. Fora dele, até os próprios Soberanos não são donos da vida mais facínora; é nas leis que a foice tem a força que a faz obrar. Estas proíbem em todas as nações, mesmo nas mais bárbaras, as sedições, gritarias e tumultos; devemos obedecê-las e respeitá-las: é o único meio de esperar felizes êxitos e de não ofender nesta parte nem ao Deus dos Exércitos, nem ao Soberano cujos direitos sagrados jurámos defender.

Para não multiplicar escritos, dirijo-me agora aos franceses fixos ou residentes nesta cidade. A Junta Suprema teve uma consideração sem exemplo convosco, pois prestando juramento de fidelidade à nação espanhola, admite-vos no seu seio, e salva os vossos bens e propriedades; gratos a este grande benefício, não deveis ser víboras que destroem e mordem o seio que as abriga; pelo constrário, estais obrigados a mostrar a maior lealdade e estima a um Governo tão generoso; deste modo não só afastareis de vós o ódio destes habitantes urbanos, senão que atraireis o seu amor. De contrário, temei a sua justiça. Castigarei com rigor e sem a menor indulgência até as assembleias entre vós, as expressões e ditos desordeiros e contrários à nossa causa. Se algum insensato não a respeita pela sua razão e justiça, será a vítima do seu orgulho ou necessidade.

Cádis, 14 de Junho de 1808.

Morla



***


Chegava assim ao fim o primeiro confronto bélico entre os espanhóis e os franceses (apesar da bibliografia sobre a chamada Guerra de la Independencia muitas vezes dar tal primazia à batalha de Bailén, ocorrida mais de um mês depois). Este episódio marca também o início do fim do Império de Napoleão, provando-se pela primeira vez que as suas tropas não eram invencíveis. Cerca de 3.600 soldados foram aprisionados, e como as embarcações francesas (5 navios e 1 fragata) tinham sido previamente apetrechadas para cinco meses, foi imensa a quantidade de material bélico apreendido: 442 canhões e outras 80 peças de artilharia, 1.651 quintais de pólvora, 1.429 espingardas, 1.069 baionetas, 50 carabinas, 505 pistolas, 1.096 sabres, 425 chuços, 101.568 balas, assim como a quase totalidade de munições para os canhões... A luta andaluza via-se agora mais aliviada e fortalecida do que nunca

Mais de um mês depois, Napoleão tomou conhecimento destes factos através de um periódico inglês. Apesar de anos mais tarde vir a reconhecer que a guerra da Espanha foi o seu maior erro, por enquanto Napoleão mantinha-se altivo e desconfiado da veracidade de tais notícias: numa carta que no dia 28 de Julho de 1808 enviou ao seu irmão José (que como vimos passara a ser rei de Espanha), escreveu ele que um jornal inglês diz que a minha esquadra foi bombardeada durante três dias pelos rebeldes em Cádis, que foi forçada a se render e que se encontra no mesmo porto. E logo repetia, desconfiado da sua autenticidade: isto é uma notícia inglesa... [Fonte: The Confidential Correspondence of Napoleon Bonaparte with His brother Joseph, sometime King of Spain – Volume I, ed. cit., pp. 338-339, p. 339 (n.º 408)].

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Bibliografia e websites consultados:





Miguel Aragón Fontenla, “La rendición de la escuadra de Rosily”, in XXXV Jornadas de Historia Marítima – La Marina en la Guerra de la Independencia I (Ciclo de Conferencias – Octubre 2007), Cuadernos Monográficos del Instituto de Historia y Cultura Naval, n.º 55, Madrid, 2007, 67-90, pp. 88-89; republicado in Revista General de Marina, vol. 255, Agosto-Septiembre de 2008, pp. 329-348.






La captura de la flota francesa en Cádiz y la evacuación de las tropas españolas en Zelanda en 1808, in Todo a babor.