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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Há 202 anos...

Depois de tantos meses sem ter publicado nada de novo (mais uma vez peço desculpa aos interessados), faço aqui um parêntesis à ordem cronológica dos factos que estou tentado descrever, a fim de relembrar que foi precisamente há 202 anos que as tropas de Junot começaram a ser evacuadas de Lisboa, onde se tinham confinado depois de sucessivos confrontos e derrotas sofridas em praticamente todo o país. Estava assim terminada, oficialmente, a chamada primeira invasão francesa (embora ainda tardasse algum tempo para que todas as tropas invasoras abandonassem completamente o território português).


Embarque dos Francezes
No Cais da Pedra na Gloriosa Restauração de Lisboa em o dia 15 de Setembro de 1808

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O primeiro dia em Lisboa

Apesar de chegar a Lisboa sob uma chuva copiosa e um vento rijo, Junot não perde tempo na cidade, indo logo à bateria do Bom Sucesso, ao lado da Torre de Belém, "desenganar-se com os seus próprios olhos de que a esquadra portuguesa tinha saído e a inglesa não entrara, limitando-se somente ao bloqueio do porto". Em seguida expediu parte do Regimento n.º 70 para o forte de S. Julião, regressando a Lisboa. Foi então "aquartelar-se em casa do Barão de Quintela, uma das mais ricas e opulentas da capital. Não entrarei, como outros fizeram, na indagação dos motivos que o decidiram nesta escolha, objecto de que nenhum interesse resultaria à posterioridade; direi somente que Junot melhorou muito em hospedar-se numa casa tal, onde foi tratado e assistido esplendidamente enquanto residiu em Lisboa, não só do preciso, mas até dos objectos do seu grande luxo, sem lhe custar um real, não obstante o receber do Senado da Câmara para o seu tratamento uma contribuição mensal de doze mil cruzados" (in José Accursio das NEVESHistória Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da Restauração deste Reino – Tomo I, 1809, Lisboa, pp. 215-217). 


Também não se vai aqui indagar os motivos pelos quais Junot se instalou naquela casa. Não obstante, inserem-se aqui as ordens do Marquês de Vagos a José Carcome Lobo acerca das tropas que deveriam escoltar a casa do Barão de Quintela: 

O Sr. General Marquês de Vagos ordena que V.S. se ponha à frente do Batalhão de Granadeiros e de dois Esquadrões de Cavalaria que devem marchar para o cruzeiro de Arroios para os comandar, e igualmente que mande já marchar uma guarda de Capitães, Tenentes, Alferes inferiores e 80 soldados para as casas do Barão de Quintela, aonde vai residir o General Junot.
Deus Guarde a Vossa Senhoria.
Quartel-General da Junqueira, 30 de Novembro de 1807.

Fonte: Arquivo Histórico Militar (cota: AHM/DIV/1/14/002/15)


Nesse mesmo dia expediram-se outras ordens relativas à evacuação de tropas portuguesas dos seus quartéis para darem lugar às tropas francesas, que deviam ser acolhidas com tranquilidade e harmonia (cf. AHM/DIV/1/14/002/15).



Fonte: BND

Barra de Lisboa, onde se assinalaram o forte ou torre de S. Julião da Barra, a bateria de Belém (ou forte do Bom Sucesso) e a Junqueira




Finalmente, segundo Domingos Alves Branco Muniz [sic] Barreto, na sua  Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa, desde vinte e nove de Novembro de mil oito centos e sete athe trez de Fevereiro de mil oito centos e oito [sic], (fl. 6), "nesse mesmo dia apareceu afixado nas esquinas e lugares públicos de Lisboa o Edital seguinte, promulgado pelo Intendente Geral da Polícia, para que nas compras não se recusassem a moeda francesa e espanhola":


 Edital


Faço saber a todos os moradores desta capital e seu termo, que ninguém deve recusar a moeda francesa e espanhola com que as tropas de Sua Majestade o Imperador e Rei se oferecem a comprar os géneros de que precisam: quem assim o não praticar será punido com graves penas a arbítrio da polícia. E para que assim indefectivelmente se observe, enquanto o Governo não dá mais circunstanciadas providências, mandei lavrar e afixar o presente Edital.
Lisboa, 30 de Novembro de 1807


Lucas de Seabra da Silva




[nota: segundo o mesmo Muniz Barreto, "para evitar todas as dúvidas se mandou estampar todas as moedas francesas e espanholas"]

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Percurso de Junot em Portugal



Fonte: Google Earth


Percurso do General Junot e da vanguarda do seu Exército, acompanhado por uma Divisão espanhola comandada pelo General Carrafa, de Segura até Lisboa, onde chegam na manhã do dia 30 de Novembro. São cerca de 250 km, grande parte autênticos caminhos de cabras, que foram percorridos em 12 dias, à velocidade média de pouco mais de 20 km por dia. A maioria do exército invasor, no entanto, ficou para trás, acabando por chegar a Lisboa somente nos dias e semanas seguintes, em grupos esporádicos e relativamente pequenos.

Continuação do percurso das tropas invasoras enquanto a corte partia para o Brasil

Depois de saber em Abrantes que toda a corte se preparava para partir de Lisboa, Junot ainda envia uma carta ao príncipe, esperando-o reter na medida do possível. Ao mesmo tempo, continua a avançar "a toda a velocidade", chegando a Santarém no dia 27, apesar de ter tido, segundo as suas palavras, "de marchar durante um dia inteiro dentro de água e, por vezes, até à cintura; as minhas tropas estavam estafadas; em Santarém, soube que estava tudo pronto para a partida". Já nada havia a fazer... 
Continua ele: "Encontrei então o senhor [José de Oliveira] Barreto e, embora tivesse adivinhado muito bem o objecto da sua missão, fingi acreditar nele e reenviei-o imediatamente para Lisboa, pelo Tejo, com o senhor Hermann1; era minha única intenção que se soubesse que eu estava muito perto da cidade e que isso pudesse determinar o povo a impedir a saída da esquadra. [...] O senhor Hermann não pôde ver o Príncipe nem o senhor d'Araújo; este último apenas lhe mandou dizer que estava tudo perdido; entretanto, cheguei no dia 29 às 10 horas [da noite] a Sacavém, a 2 léguas de Lisboa, e tive de dar ali repouso às minhas tropas; de resto, não queria chegar a Lisboa de noite, no meio da desordem que a minha entrada faria aumentar. [...] Eu tinha recebido durante o dia muita gente, na sua maioria franco-maçons, que muito me serviram para fazer voltar a tranquilidade ao povo. Também recebi, da parte da chamada Regência, o senhor Tenente-General D'Albuquerque; vali-me dele para mandar dar as ordens que julguei necessárias às tropas portuguesas, que foram todas utilizadas para manter a tranquilidade na cidade, pela qual as tornei responsáveis, e para remontar as peças de canhão que defendiam o porto e que tinham sido viradas e, algumas delas, encravadas.
Mandei no mesmo dia imprimir e afixar em todas as ruas de Lisboa uma proclamação que segue em anexo [...]. Os espíritos estavam muito agitados, e os habitantes receavam pilhagens; o senhor Hermann escreveu-me uma longa carta, na qual me pareceu que ele tinha recomendado a alma a Deus e me encarregava de recomendar à bondade de Vossa Majestade a mulher e os filhos" (JUNOT, Diário da I Invasão Francesa, p. 101). 

Na manhã desse mesmo dia 29 tinha havido um eclipse, segundo conta o General Foy2




Sete dias antes tinha havido ainda um pequeno tremor de terra, segundo anotou Eusébio Gomes...

____________________________________________

  
 1  Hermann, cônsul francês em Lisboa, encarregado de negócios da França em Portugal desde o abandono da embaixada por Junot, em 1805, será nomeado em Dezembro de presidente do Real Erário, com o título de administrador-geral das finanças (in arqnet).

 2 Este curioso pormenor pode ser confirmado através do site da NASA, onde se pode determinar que o eclipse teve o seu pico máximo, na zona de Lisboa, por volta das 11 horas da manhã.

Avisos tardios e últimas tentativas de resistência

Ao mesmo tempo que a corte se preparava para rumar para o Brasil teriam chegado a Lisboa algumas cartas dos governadores e generais das cidades por onde passavam as tropas ou aonde iam chegando as primeiras notícias da invasão. O primeiro documento que se transcreve de seguida é um ofício do General da Beira, Florêncio José Correia de Melo (futuro Governador da ilha da Madeira), avisando António de Araújo Azevedo (ministro que acabou por rumar para o Brasil) que os franceses estavam invadido o país, conforme o documento que recebera, por sua vez, de Joaquim Rebelo Trigueiros Martel, Coronel do Regimento de Milícias de Castelo Branco (abaixo também transcrito). Ambas as notícias, considerando-se que realmente chegaram a Lisboa antes do embarque da corte, vinham, no entanto, já bastante tarde... Percebe-se no entanto que tinha havido uma ordem datada de 14 de Novembro que visava alguma tentativa de resistência face à invasão. Rapidamente tudo mudaria...




No dia de hoje às três horas da tarde, tendo o desprazer de receber a notícia inclusa que me dá o Coronel do Regimento de Milícias de Castelo Branco, sem eu ter tido tempo de me prevenir a tomar as disposições necessárias para repelir a invasão dos inimigos, pois que recebendo os avisos de V.Ex.ª em 14 do corrente, e sendo necessário distribuir as ordens precisas depois, bem se conhece a impossibilidade que habia de juntar forças nos portos [=passagens] precisos para estorvar toda a agressão dos contrários; nestas circunstâncias só me resta o expediente de fazer marchar logo o Regimento de Infantaria n.º 11, que se acha neste Quartel, para ir com alguma tropa miliciana e com as ordenanças que se ponham [?] juntar a alguma posição vantajosa sobre a serra da Estrela se houver tempo para isso; quando não, irei fazer-me forte sobre a ponte do Murrela[?] indicada no referido aviso de V.Ex.ª; e ali esperarei as ordens ulteriores sobre o partido de que verei tomar.
Deus guarde a V.Ex.ª.
Viseu, 24 de Novembro de 1807


Florêncio José Correia de Melo
...


Por um soldado do Regimento do meu comando recebo hoje, 19 do corrente, às quatro horas da tarde, notícia que ontem de tarde chegara uma partida de Cavalaria espanhola a Zebreira com o fim [?] de fazer quartéis para os franceses naquela vila, Rosmaninhal e Alcafozes; e como ignoro a autoridade daquela ordem e o modo com que me hei de comportar, e o número de tropa francesa que vem, rogo a V.Ex.ª me determine o que devo obrar a este respeito.

Deus guarde a V.Ex.ª
Idanha-a-Nova, 19 de Novembro de 1807.


Joaquim Rebelo Trigueiros Martel







sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O percurso de Salamanca a Abrantes visto pelo General Foy





















[Fonte: Général FOY, Histoire de la guerre de la péninsule sous Napoléon – Tome II, Paris, Baudouin Frères Editeur, 1827, pp. 351-367]




Ver num mapa maior



A azul, o percurso de Salamanca a Alcántara.
A amarelo, o percurso da vanguarda (composta por uma companhia de atiradores, o 70.º regimento de infantaria, duas companhias de sapadores catalães, o regimento de hussardos espanhóis de Maria Luísa, as 1.ª e 2.ª divisões de Infantaria, e a divisão de Carrafa).
A azul claro, a passagem da fronteira do restante corpo do exército. Talvez em Zebreira, este restante corpo foi dividido em duas colunas (assinalas a verde e a vermelho, respectivamente).  
Em Castelo Branco, o exército voltou a dividir-se: A vanguarda (a amarelo), agora já mais pequena, continuou o percurso de Castelo Branco até Abrantes por um caminho praticável por homens e cavalos. O Estado-Maior, a 1.ª Divisão e maior parte das colunas da retaguarda e algumas carruagens com artilharia seguiram de Castelo Branco a Abrantes pela estrada mais larga, mas que contava com bastantes dificuldades (a violeta)

Chegada dos invasores a Abrantes



Mapa de Abrantes e arredores (1801)


No dia 24 de Outubro a vanguarda do exército de Junot entrava em Abrantes. Um dia depois, nessa mesma cidade, o General em Chefe francês escreve a Napoleão (Jean-Andoche JUNOT, Diário da I Invasão Francesa, pp. 98-100): 
"Depois de marchas excessivamente penosas em regiões sem quaisquer recursos e por caminhos horrorosos, atravessados a cada passo por torrentes, e sem ter recebido uma ração de pão desde que saíram de Alcántara, as minhas duas primeiras divisões chegaram, finalmente, a Abrantes, mas deixando para trás cerca de 1200 homens que serão recolhidos pelos diversos destacamentos que deixei para esse efeito; a tropa está tão estafada que não pode seguir adiante sem repouso, e estou decidido a dar-lhe aqui uma paragem. Esta cidade apresenta-me menos recursos que os que eu pensava, mas ainda assim poderei dar-lhes carne, legumes, vinho e algum pão com que eles recuperarão um pouco das suas forças. A 3.ª divisão e a minha cavalaria, que ficaram retidas por um dia em Espanha por causa de uma torrente, só poderão chegar aqui a 27 ou 28, pelo menos. Perderei alguns homens por causa da fadiga e mais alguns outros, retardatários e pilhantes, terão sido assassinados pelos habitantes, aos quais, segundo o seu louvável costume, tudo terão roubado e queimado na retaguarda das colunas a pretexto de ir procurar pão e não poder acompanhá-las. [...] Vossa Majestade sabe que só tenho comigo um Regimento espanhol; prouvera a Deus que não tivesse nenhum; é impossível ver algo mais mal comportado, mais indisciplinado e de maior atrevimento. O General [espanhol] Carrafa, que comanda a Divisão, é um valente homem, mas os oficiais não valem nada e não tratam das suas obrigações. Também não devo ocultar a Vossa Majestade que é ao Governo espanhol que devemos a miséria em que nos encontramos.

De Salamanca até Alcántara, nada estava preparado, e no trajecto, já de si tão penoso, a minha tropa mal recebeu meia ração por dia; embrenhámo-nos nas serras de Portugal sem saber como lá poderíamos viver. [...] Como não trazíamos nada connosco, tivemos falta de tudo, a não ser de vinho, o que causou muito mal, pois, sem ter nada para comer e bebendo vinho forte, os soldados foram vitimados por uma terrível embriaguez que matou vários deles. Mas enfim, Sire, abrem-se-nos agora as planícies de Portugal, e a 30 de Novembro flutuarão sobre o magnífico porto de Lisboa as bandeiras de Vossa Majestade. As privações e as fadigas do meu exército, tudo será esquecido, Sire, se tivermos conseguido executar as ordens de Vossa Majestade. 
Está em Lisboa uma esquadra russa que dizem ter vindo de Corfu; dizem também que Sidney-Smith cruza com a sua esquadra em frente do porto, mas não se fala de tropas de desembarque; também não ouço falar do exército português. [...] Em Lisboa, não esperavam ver-me tão depressa, e ainda há 4 dias me suponham nas bandas de Salamanca; também ainda não vi ninguém da parte do Governo. O Príncipe ainda estava em Lisboa no sábado passado, e não se falava lá da sua partida; ignoro o que ele decidiu depois disso. [...] A artilharia das 2.ª e 3.ª Divisões, todas as bagagens e todos os transportes militares estão na retaguarda e levarão muito tempo para chegar junto de nós; dei ordens para tudo isso, mas há grandes dificuldades para a passagem dos furgões pelos caminhos por onde nós viemos; dei ordens para a sua reparação, sem a qual isso seria impossível. [...] As duas Divisões espanholas, que segundo a convenção [assinada juntamente com o Tratado de Fontainebleau] deviam entrar em Portugal ao mesmo tempo que eu, uma pelo Alentejo e a outra pela Galiza, ainda não fizeram qualquer movimento, o que necessariamente me causará dificuldades para a ocupação dos portos da margem esquerda do Tejo e também para a do Porto; se de outro modo o não puder fazer, empregarei para isso os poucos espanhóis que tenho comigo e muito feliz me sentirei por assim me livrar deles".
Gravura da época, onde se vê o estado do exército que entrou em Portugal






Ainda no mesmo dia 24 de Novembro, Junot publica o seguinte decreto:




Decreto ordenando a requisição de sapatos para os miitares franceses


Ordena-se ao Corregedor de Tomar, ou a quem seu cargo servir de intimar a todos os Juízes de Fora das vilas e aldeias do seu distrito, de fazer entregar ao portador desta ordem, que é Manuel Álvares, todos os sapatos que houver nas terras aonde este se apresentar, para o que vai autorizado e munido das competentes ordens. 
Quartel-General de Abrantes, 24 de Novembro de 1807


Junot


PS: Os particulares são todos compreendidos nesta requisição.






quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A entrada das tropas invasoras em Portugal


Fonte: Wikipédia
Ponte de Alcantára, sobre o rio Tejo 





Depois de marchas forçadas por caminhos bravios e serras, acompanhadas por chuva incessante e até um pouco de neve (à saída de Salamanca), e de grande parte dos seus homens, cavalaria, artilharia e munições terem ficado para trás, Junot consegue-se reunir, em Ciudad Rodrigo, com um corpo de cerca de 7.500 espanhóis comandados pelo General Carrafa. Uma vez aí, Junot ordena que se preparem em Alcántara rações para para 4 dias, pois sabia que a região portuguesa onde ia entrar não estava melhor abastecida do que a que tinham acabado de passar. No entanto, como ele próprio escreverá a Napoleão, chegando a Alcántara, no dia 17, "lá não encontrámos nada, nem sequer para o dia de chegada"... 
Pese este grande contratempo, Junot envia no dia seguinte uma tropa de reconhecimento do terreno até ao ao Rosmaninhal, que comprovaram que os mapas que tinham eram bastante inexactos. Finalmente, no dia 19, Junot ordena que comece a entrar a vanguarda do exército invasor no território português. Essa vanguarda era composta por:


300 homens de cavalaria ligeira espanhola;
1 companhia de mineiros - entre 100 a 200 homens (?);
70.º Regimento de linha - cerca de 2500 homens.




Na madrugada do dia 20 entra o resto da 1.ª divisão, comandada por Junot:


Fonte: Panoramio
Ponte de Segura, unindo Portugal e Espanha



1.ª Brigada:
                 15.º Regimento de linha - 1040 homens;
                  47º Regimento de linha - 1280 homens;
                      1 Batalhão do 4.º Regimento suíço - 1300 homens;
                      1 Companhia de Artilharia ligeira espanhola, com as suas 6 peças de canhão;
2.ª Brigada:
                  86.º Regimento de linha - 2490 homens;
                      1 Regimento espanhol de Infantaria (Mallorca) - 1500 homens;
                      1 Companhia de Artilharia ligeira com 6 peças.














Ver mapa maior

Percurso das primeiras tropas a entrarem em Portugal: de Alcántara ao Rosmaninhal, passando por Segura

A passagem das tropas de Junot pela Espanha



As tropas de Junot começaram a entrar na Península Ibérica a 18 de Outubro, ou seja, alguns dias antes do Tratado de Fontainebleau ter sido assinado. Recordemos que a convenção secreta anexa ao referido tratado previa, entre outros termos, que "as tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha". 
Pois bem, logo no dia 3 de Novembro, Junot escrevia a Napoleão, em Vitoria, dizendo que algumas ligeiras discussões que resultavam da diferença das moedas francesa e espanhola "teriam sido evitadas se o Príncipe da Paz nos tivesse querido ajudar com todo o seu poder, mas parece que o seu zelo tem abrandado bastante de há tempo a esta parte; apesar disso, tudo correrá bem". 
Tudo correrá bem... bem cedo perceberia Junot o quanto estava enganado... Nessa mesma carta, como que prenunciando o que viria a acontecer, dizia ele que "tivemos alguns dias maus à partida, mas agora estamos na planície, e espero que haja melhor tempo; faltam-nos capotes na maioria dos Regimentos das 2.ª e 3.ª divisões; é de certo um erro dos majores, que os não mandaram dar aos seus Regimentos na ocasião da partida para Bayonne ". Ainda assim, rematava: "Não é possível ver soldados mais bem dispostos nem oficiais mais ávidos de merecer a confiança que receberam de Vossa Majestade Imperial e Real". 
No dia 6 de Novembro, em Pancorbo, Junot recebia uma carta do imperador, que lhe ordenava que estivesse em Alcántara, junto à fronteira portuguesa, no dia 20 do mesmo mês. Na resposta a Napoleão, Junot diz que "ouso assegurar-vos que ela [i.e., a primeira divisão do exército] lá estará e que toda a segunda [divisão] se lhe terá reunido, quando muito, no dia 23 e que não perderei um minuto para entrar em Portugal. Sinto muito bem a importância que há em me apoderar de Lisboa para descuidar o que quer que seja que Vossa Majestade se digna dar-me, seriam precisos acontecimentos imprevisíveis, e que me não fosse possível evitar, para que eu falhasse o objectivo que V.M. se propõe. Estamos agora na estação das chuvas, e desde a nossa partida elas não nos deixaram nem por um instante, mas os soldados marcham com coragem e em boa ordem".



Percurso das tropas francesas no território espanhol (a azul).
A vermelho indicam-se os pontos de aquartelamento das tropas espanholas antes de invadirem Portugal.



Na cidade espanhola de Irun (fronteiriça com a França), publicou-se no dia 8 de Novembro a seguinte lista, referente à entrada das tropas de Junot na Espanha: 







Regressando à correspondência de Junot para Napoleão, entre os dias 6 e 19 de Novembro, verifica-se um novo hiato. (Seria a chuva que empapava o papel?)... 
Nesse dia 19, junto à fronteira portuguesa (mais precisamente em Alcántara), Junot confessava a Napoleão os sofrimentos que tinham decorrido dessa árdua viagem. Pelo seu conteúdo ser bastante esclarecedor, transcrevemos um grande excerto dela: 
"A 3.ª divisão e a cavalaria, bem como a artilharia das 2.ª e 3.ª divisões [isto é, grande parte do seu corpo, e talvez a mais importante, em caso de resistência dos portugueses] e todos os trens do exército, foram detidas a 2 dias daqui pelo súbito engrossamento de várias torrentes; na travessia de uma delas, afogaram-se-me 5 homens da 1.ª brigada da 2.ª divisão que nela se meteram muito imprudentemente. Apesar destes atrasos, espero que a 3.ª divisão chegue ao Rosmaninhal no dia 22 ao meio-dia, o mais tardar, e que a cavalaria, que tem ordens para forçar a marcha, esteja na mesma data em Idanha-a-Nova e possa chegar ao Zêzere ao mesmo tempo que as duas primeiras divisões; quanto aos trens e aos transportes militares, seguirão como puderem. Morreu parte dos cavalos e partiu-se grande número de caixões.
A artilharia da 2.ª divisão está neste momento praticamente toda sem condições para marchar. O estado de ruína em que ela se encontra resulta de ter sido conduzida por bois e gente do campo, por de outra maneira não ter sido possível; por isso agreguei a esta divisão 6 peças pertences à primeira [divisão], cuja artilharia, conduzida por cavalos do trem e dirigida pelo infatigável e excelente capitão Hulos, do 6.º Regimento de artilharia apeada, não sofreu praticamente quaisquer danos. 
Soube agora mesmo que toda esta artilharia atravessou as torrentes, com a única excepção de 9 caixões e carroças de munições, o que dará à minha primeira divisão 3 peças de 8 lb. e 3 peças de 4 lb. com munições e me permitirá acrescentar 2 peças de 4 lb. à minha vanguarda.
Vossa Majestade não pode fazer uma ideia da estrada que o meu exército teve de percorrer de Ciudad Rodrigo até aqui; não passa de uma sucessão de rochedos empilhados uns sobre os outros, que a minha artilharia teve de transpor; esta má estrada é cortada em vários locais por torrentes que em uma hora crescem três pés e, além de tudo isto, uma neve espantosa no alto da serra e uma chuva que nos fustiga continuamente quando chegamos ao lado que dá para a Extremadura. No entanto, Sire, o meu exército não se queixava destas dificuldades; mas, depois de percorrer 15 léguas por dia [± 60 km/dia, valor certamente exagerado] nestes horríveis caminhos, chegava a aldeias sem recursos onde não lhe tinham preparado qualquer subsistência.
Não devo deixar no desconhecimento de Vossa Majestade que desde Salamanca até aqui não tinha sido dada qualquer ordem para a nossa passagem e que em nenhum lado estava pronta qualquer ração de pão. Estou em Alcántara há dois dias, mandei reunir todos os meios de subsistência e, apesar disso, as tropas não puderam receber mais que a sua meia-ração. O Governador de Alcántara escreveu-me, dizendo positivamente que não tinha recebido da sua corte, nem também de Ciudad Rodrigo, nenhum aviso sobre a nossa passagem; que não tinham recebido nem um soldo, e eu fui testemunha de o Capitão General Carrafa, que deve comandar as tropas espanholas sob as minhas ordens, se ter visto obrigado a pedir emprestado à custa do seu próprio crédito para poder mandar fazer em Alcántara o pouco pão que ali tivemos.
Nenhum dos empregados do Governo espanhol acredita na nossa entrada em Portugal, e o próprio Carrafa (criatura do Príncipe da Paz) tinha ordens para reunir a sua divisão em ValladolidSalamanca. Felizmente, eu previra que isto ia acontecer e tinha-lhe enviado com antecedência um dos meus ajudantes de campo para que ele mandasse parar nos arredores de Alcántara as tropas que trazia e que me deram


                 1500 homens (Regimento de Maiorca)
                   400 homens (Dragões da Rainha)
                   150 mineiros
                        2 companhias de artilharia ligeira com 12 peças


O Capitão General Carrafa seguirá pessoalmente o meu quartel-general e deixa ordens para que os Regimentos constitutivos da sua Divisão que aqui deverão chegar o sigam imediatamente. 
O caminho que vamos percorrer até Abrantes é extremamente mau e as estradas são pouco menos que impraticáveis, já pelo pelo próprio terreno já pelas torrentes, que nesta estação engrossam tão depressa; vamos encontrar grandes dificuldades para aqui viver, mas isso será mais um motivo para que nos apressemos a entrar em melhor região. Cheguei aqui sem chefe de estado-maior, sem ordenador e sem pagador, pois nenhum deles me pôde acompanhar, mas tenho, pelo menos, a felicidade de ter conseguido activar todas as coisas e serei recompensado disso se assim tiver realizado as intenções de Vossa Majestade. Seriam precisos grandes obstáculos que eu não pudesse prever para não estar em Lisboa a 1 de Dezembro; teria, ao menos, feito para isso tudo o que humanamente era possível. Posso assegurar a Vossa Majestade que de Salamanca a Alcántara são 55 léguas de caminhos horrorosos e um tempo assustador, mas as minhas tropas percorreram percorrem esse trajecto em cinco dias [a uma velocidade média de 44 km/dia].
Não tive possibilidade de obter aqui a mínima informação sobre Portugal. O Governador de Alcántara nem sequer sabe de que lado está a fronteira, apesar de estar a apenas uma légua dela [1 légua francesa = ± 4 km]; não há aqui um único homem que fale português, e eu não consegui arranjar um guia que fosse à primeira aldeia; enviei ontem um reconhecimento até ao Rosmaninhal. Para lá chegar daqui, são precisas 8 horas; o melhor mapa é muito inexacto. Os habitantes das diversas aldeias que o meu destacamento atravessou receberam-no bem e disseram ter ouvido falar de um exército francês, mas ainda o supunham muito longe; também se tinha falado da guerra com os ingleses, mas nada mais sabiam acerca disso. São extremamente miseráveis e a sua região não oferece, praticamente, quaisquer recursos".


Se a corte portuguesa soubesse do estado destas tropas que começavam a passar a fronteira, talvez tivesse ordenado a defesa do país. Mas como se pensava na época, as tropas napoleónicas eram invencíveis...
 Seriam?

Cf. Jean-Andoche JUNOT (intr. António Ventura), Diário da I Invasão Francesa, Livros Horizonte, 2008 [tradução portuguesa do copiador da correspondência de Junot a Napoleão, entre 26 de Julho de 1806 e 7 de Junho de 1808, apreendido pelos portugueses na sequência da batalha do Vimeiro].


Ver também: Sargento-Ajudante José Luís ASSIS, Reunião do Corps D’Observation de La Gironde em Bayonne e Marcha Sobre a Espanha: Análise dos Relatos do Tenente-General Thiébault



Vincent BERNARD, Situation du 1er corps d’observation de la Gironde (Corps d’invasion du Portugal) 1er novembre 1807