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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Carta de Manuel Ferreira Sarmento ao General Bernardim Freire de Andrade (2 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 



Esta noite passada, pela meia para uma hora, o General Murray recebeu ordem para se pôr em marcha com a sua Divisão para Mafra, onde devemos ficar hoje, e sairmos amanhã pelas 6 horas para Sintra, para onde se avançou hoje pelas 6 horas da manhã a coluna que vem de Torres Vedras; e tinha acampado também na nossa retaguarda. 
Como nós esperávamos defronte da porta da tapada que a coluna de Torres passa-se para nós irmos na sua retaguarda, teve o General Murray ocasião de falar com o General dos postos avançados, o qual lhe disse alguma coisa a respeito da Capitulação. Sobre o artigo relativamente à Esquadra russa, nada se lhe admitiu. Os franceses sairão com a sua bagagem militar tão somente; não devem levar pinturas ou estátuas que pertençam a qualquer indivíduo do país; enfim, fica-nos o direito de poder examinar toda a sua bagagem. Queria Junot que a sua tropa só embarcasse em 3 Divisões, e que ele entregaria a Torre de S. Julião depois que a primeira estivesse embarcada, a outra [fortificação] que se lhe segue, depois da segunda, etc. Não estiveram por esta proposição, de maneira que hoje se entregaram as Torres [=fortificações]. Exigiu-se que eles dessem uma conta exacta do dinheiro da contribuição, responderam que como o país tinha sido conquistado, eles podiam pedir aquela para despesas do Exército, e que nelas o tinham despendido todo. Tratou-se também de que dessem conta da prata das igrejas, que isto tinha sido roubo, e não contribuição; porém Junot rogou que este artigo não fosse público, porque dalgum modo era chamar-lhes ladrões. O General disse-me que por ora era o que sabia. 
Mafra, 2 de Setembro de 1808.

De Vossa Excelência criado muito fiel e obrigadíssimo,
Manuel Ferreira Sarmento.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 196 (doc. 66)].

Carta do General Bernardim Freire de Andrade a Dalrymple (2 de Setembro de 1808)





Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:


Tenho deixado, na conformidade das insinuações de Vossa Excelência, algumas pequenas forças para conter a guarnição de Peniche, e havendo recomendado aos Oficiais que ali se achavam que fizessem as aparências necessárias para impor ao inimigo, e mesmo que se aproveitassem (na suposição de que o Armistício se romperia) do susto em que se achava aquela guarnição, para a obrigar a capitular, recebi ontem notícias destes Oficiais que a dita guarnição estava disposta a fazê-lo, julgando ser atacados por forças mais superiores; contudo, pela comunicação que me fez o Major Aires Pinto sobre a assinatura da Capitulação concluída por Vossa Excelência, mandei suspender a continuação desta negociação [=capitulação da praça-forte de Peniche], perdendo sem dúvida por isso a ocasião de me apoderar de 300 ou 400 homens de que se compõe aquela guarnição.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Encarnação, 2 de Setembro de 1808.


De Vossa Excelência [o] mais reverente e obrigado servidor,


Bernardim Freire de Andrade

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 21 (doc. 67). Originalmente, este documento foi publicado em inglês, in Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, pp. 202-203 (doc. 101)].

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Carta do General Junot ao General Dalrymple (1 de Setembro de 1808)





O General em Chefe do Exército francês em Portugal a Sua Excelência o Senhor General em Chefe do Exército inglês em Portugal




Lisboa, 1 de Setembro de 1808.




Senhor:


Recebi a ratificação [da Convenção de 30 de Agosto] que Vossa Excelência me reenviou ontem através do sr. Tenente-Coronel Lord Proby, e apresso-me a reparar a omissão que ocorreu da minha parte sobre a Convenção Definitiva*.
As minhas tropas receberam ordens esta manhã para se retirarem de maneira a deixar às de Vossa Excelência os postos que devem ocupar segundo a Convenção. Convém-vos agora nomear, pela vossa parte, um Comissário para a execução definitiva de todas as medidas que devem ser tomadas para o embarcamento das tropas que comando, tal como o farei pela minha parte.
Os fortes do Bugio e de S. Julião serão entregues às tropas de inglesa amanhã, às dez horas da manhã, e a partir de então nada poderá retardar o embarcamento.
Rogo a Vossa Excelência o reconhecimento da garantia da minha alta estima, e de me crer, 
Senhor General em Chefe, 
O vosso mais humilde e mais obediente servidor,


O Duque de Abrantes.



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Nota:



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Carta do Vice-Almirante russo Séniavin ao Almirante britânico Charles Cotton (29 de Agosto de 1808)



Lisboa, a bordo do Tuerdoi, 17-29 de Agosto de 1808*


Senhor:

Havendo sido informado dos progressos que as armas britânicas têm feito em Portugal, em união com os portugueses, e supondo, segundo as comunicações que me foram feitas pelo General em Chefe das tropas francesas em Lisboa, que é muito natural, em consequência de uma convenção que se vai a concluir entre os Chefes das forças britânicas e o General francês que este evacue Lisboa e suas fortificações, e que as forças de Sua Majestade Britânica tomem posse delas, em consequência disto é do meu dever requerer a V.ª Ex.ª que me faça saber, em tal caso, se os chefes das forças de Sua Majestade Britânica de mar e terra e particularmente V.ª Ex.ª consideraram Lisboa como um porto neutral, tomando posse dele, e de seus fortes, em nome do Príncipe Regente de Portugal, ou se eles devem ser considerados como fazendo parte dos domínios britânicos, e se é a bandeira inglesa ou a portuguesa que se há de arvorar em Lisboa.
Mr. Sass, Secretário da Legação no serviço de Sua Majestade o Imperador de todas as Rússias, que terá honra de entregar a V.ª Ex.ª esta carta, gozará a minha plena confiança; toda a comunicação que V.ª Ex.ª for servido fazer-lhe, ou verbalmente ou por escrito, será inteiramente segura, e a considerei como se fosse feita a mim mesmo. Lisonjeando-me de que V.ª Ex.ª me honrará com o favor de uma resposta, pelo portador da presente, a respeito das matérias sobre que vos escrevi; aproveito-me desta ocasião para assegurar a V.ª Ex.ª da minha mais alta consideração.
Sou, etc.

Séniavin


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Nota: 

* Conforme o calendário juliano (utilizado pelos russos), o dia 17 de Agosto corresponde ao 29 no calendário gregoriano (utilizado na maioria dos países ocidentais). Daí as diferentes datas inscritas no início da carta.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Carta do Tenente-Coronel Murray ao General Dalrymple (26 de Agosto de 1808)





Lisboa, 26 de Agosto de 1808.

Meu caro Senhor:

Hoje de manhã eu e o General Kellermann pusemos mãos à obra, e progredimos com boa tolerância; espero que pelas doze horas de amanhã já tenhamos acabado.
Um dos artigos mais importantes que já estão escritos é o relativo à evacuação de Peniche, Almeida, Elvas e Palmela, assim que as nossas tropas consigam chegar para render as guarnições francesas, e de alguma forma para proteger a sua retirada.
Nos meus memorandos referia-se que as tropas francesas deviam ser obrigadas a atravessar para o outro lado do Tejo. Penso que este empurrão poderia levar a uma condescendência da nossa parte em relação a outros pontos realmente mais importantes, e a própria operação poderia tender a atrasar consideravelmente a preparação do embarque.
Foi feita uma proposta para levar o [navio] Vasco da Gama e algumas fragatas, face à qual declarei categoricamente que nunca poderia concordar. Eles querem ter os fortes de S. Julião e do Bugio até ao embarque da última divisão. Destes, penso que pelo menos o de S. Julião está fora de questão. Foi feita uma sugestão esta noite, sobre a troca de prisioneiros espanhóis por um número igual de franceses; penso que devemos tê-los sem troca.
Se vos tiver ocorrido uma outra sugestão que me possa ser útil, rogo para que ma forneceis assim que vos for possível.
Talvez seja aconselhável que ocorra um encontro entre os Comandantes em Chefe em Cascais, quando a ratificação for assinada; e se tal vos parecer devido, rogo-vos que mo informeis.
Acreditai em mim, etc., 

George Murray

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta do General Arthur Wellesley ao General Harry Burrard, sobre o estado das circunstâncias em Espanha e Portugal (8 de Agosto de 1808)



Lavos, 8 de Agosto de 1808



Senhor:

Como recebi instruções da Secretaria de Estado que me informam que estais quase a chegar à costa de Portugal com um corpo de 10.000 homens, que tinha estado empregado nos últimos tempos no norte da Europa debaixo das ordens de Sir John Moore, apresento-vos agora aquelas informações que recebi relativas ao estado geral da guerra em Portugal e na Espanha, bem como o plano de operações que estou prestes a pôr em execução, em obediência às ordens da Secretaria de Estado*.
A força do inimigo actualmente em Portugal consiste, tanto quanto sou capaz de formar uma opinião, entre 16.000 a 18.000 homens, dos quais cerca de 500 estão no forte de Almeida, mais ou menos o mesmo número em Elvas, cerca de 600 ou 800 em Peniche, e 1.600 ou 1.800 na província do Alentejo, em Setúbal, etc.; o resto está disposto para a defesa de Lisboa, encontrando-se nos fortes de S. Julião e Cascais, nas baterias ao longo da costa até ao Cabo da Roca, e na velha cidadela de Lisboa, na qual o inimigo fez algumas obras nos últimos tempos.
Nos últimos tempos, o inimigo destacou, da força disponível para a defesa de Lisboa, um corpo de cerca de 2.000 homens sob as ordens do General Thomières, sobretudo, segundo julgo, para observar as minhas movimentações, corpo este que agora está em Alcobaça; e um outro corpo de 4.000 homens sob as ordens do General Loison atravessou o Tejo, no dia 26 do passado, para passar para o Alentejo; este destacamento tinha como objectivo dispersar os insurgentes portugueses naquela parte, forçar a retirada do corpo espanhol composto por cerca de 2.000 homens que tinha avançado desde a Extremadura até Évora, e por conseguinte conseguir incrementar a força destinada para a defesa de Lisboa com os corpos das tropas francesas que têm estado estacionados em Setúbal e na província do Alentejo. Em todo o caso, o corpo de Loison regressará a Lisboa, e os corpos franceses disponíveis para a defesa deste lugar deverão andar provavelmente à volta dos 14.000 homens, dos quais pelo menos 3.000 devem permanecer de guarnição e nos fortes na costa e no rio.
O exército francês na Andaluzia, comandado por Dupont, rendeu-se, no dia 20 do passado mês, ao exército espanhol comandado pelo General Castaños; e por isso não existem agora tropas francesas no sul da Espanha. 
O exército espanhol da Galiza e de Castela, no norte, foi posto em xeque em Rioseco, na província de Valladolid, no dia 14 de Julho, por um corpo francês supostamente debaixo do comando do General Bessières, que avançou de Burgos.
As tropas espanholas retiraram-se no dia 15 para Benavente, e julgo que houve desde então alguma contenda com os postos avançados naqueles arredores; mas não estou certo disto, nem tenho conhecimentos da posição do exército espanhol, ou do francês, desde o dia 14 de Julho. Depois de estardes pouco tempo neste país e observardes o grau de deficiência das informações autênticas, produzido pela circulação de notícias infundadas, não vos surpreendereis da minha falta de conhecimentos exactos sobre estes assuntos.
No entanto, é certo que nada de importante aconteceu naquela parte desde o dia 14 de Julho, e por esta circunstância concluo que o corpo do Marechal Bessières atacou o exército espanhol em Rioseco somente para proteger a marcha do Rei José Bonaparte para Madrid, onde chegou no dia 21 de Julho.
Para além da derrota na Andaluzia, é provável que tenhais ouvido dizer que o inimigo foi batido num ataque que fez em Zaragoza, em Aragão; também foi batido sobre a cidade de Valencia (diz-se que em ambas as acções perdeu bastantes homens); e relata-se que na Catalunha dois destacamentos franceses foram desbaratados, que o inimigo tinha perdido o forte de Figueras nos Pirenéus, e que Barcelona estava sitiada; não vi quaisquer notícias oficiais das últimas acções e operações mencionadas, mas todos acreditam no relato delas, que circula por todo o lado. Em todo o caso, sejam estas notícias fundadas ou não, é evidente que a insurreição contra os franceses é geral por toda Espanha; que grandes corpos de espanhóis estão em armas (entre outros, em particular, um exército de 20.000 homens, incluindo 4.000 de cavalaria, em Almaraz, sobre o Tejo, na Extremadura); e que os franceses não conseguem levar a cabo as suas operações através de pequenos corpos. Pela sua inacção e pelas desgraças que sofreram, imagino que não têm meios para reunir uma força suficientemente forte para contrariar o progresso da insurreição e os esforços dos insurgentes, bem como para sustentar os destacamentos dos seus diferentes corpos; ou que percebem que não podem levar a cabo as suas operações sem depósitos de abastecimentos suficientes para um exército tão grande quanto achassem necessário empregar.
Em relação a Portugal, todo o reino, exceptuando os arredores de Lisboa, está num estado de completa insurreição contra os franceses; contudo, os seus meios de defesa são menos poderosos do que os que têm os espanhóis. As suas tropas foram completamente dispersas, os seus oficiais foram para o Brasil, e os seus arsenais foram pilhados ou estão em poder do inimigo. Nas circunstâncias em que foi feita, a sua revolta é ainda mais admirável do que a da nação espanhola. 
Os portugueses devem ter, nas províncias setentrionais do reino, cerca de 10.000 homens em armas, dos quais 5.000 marcharão comigo em direcção a Lisboa; os restantes, juntamente com um destacamento de 1.500 homens que vieram da Galiza, estão ocupados em bloquear Almeida à distância e em proteger a cidade do Porto, que é presentemente a sede do Governo. 
A sul, a insurreição é geral por todo o Alentejo e Algarve, e a norte, em Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes e Beira; contudo, devido à falta de armas, o povo nada pode fazer contra o inimigo.
Depois de consultar Sir Charles Cotton, pareceu-nos a ambos que o ataque proposto sobre a baía de Cascais era impraticável, porque a baía é bem defendida pelo forte de Cascais e pelas outras obras construídas para sua defesa, e os navios de guerra não poderiam aproximar-se até uma distância suficiente para os fazer calar. O desembarque em Paço d'Arcos, no Tejo, não poderia ser efectuado sem calar o forte de S. Julião, mas aqueles que iriam executar essa operação acharam que isto seria impraticável. 
Existem pequenas baías a sul e a norte do cabo da Roca, que talvez pudessem permitir o desembarque das tropas; contudo, todas elas são defendidas por fortes que primeiro tinham que ser calados; são pouco amplas, e apenas poucos homens poderiam desembarcar de cada vez; há nelas uma arrebentação contínua que afecta de tal modo o desembarque que se duvidava que as tropas que chegassem primeiro à costa poderiam ser sustentadas a tempo pelas outras que se lhes seguissem; e inclusive se os cavalos para a artilharia e cavalaria, bem como os abastecimentos e provisões necessárias, conseguiriam mesmo desembarcar.
Estes inconvenientes relativos ao desembarque em qualquer uma das baías perto do cabo da Roca seriam agravados pela proximidade do inimigo em relação ao lugar do desembarque, e pelos poucos recursos do território onde as tropas deveriam desembarcar.
Por estes motivos, o melhor plano era desembarcar na parte mais a norte de Portugal, e acabei por fixar-me na baía do Mondego, por ser o lugar mais próximo [de Lisboa] que oferecia mais facilidades para o desembarque, à excepção de Peniche; contudo, o lugar de desembarque desta península é defendido por um forte ocupado pelo inimigo, que teria de ser necessariamente atacado com regularidade, a fim de dispor os navios em segurança.
Um desembarque a norte era mais recomendado, porque garantiria a cooperação das tropas portuguesas na expedição para Lisboa. Tendo desembarcado a totalidade dos corpos dispostos debaixo do meu comando, incluindo o comandado pelo General Spencer, tenciono começar a marchar na Quarta-feira [10 de Agosto]. Devo tomar a estrada por Alcobaça e Óbidos, tendo em vista manter a minha comunicação pela costa, e examinar a situação de Peniche; e irei para Lisboa pela estrada de Mafra e pelas colinas a norte daquela cidade.
Como fui informado pelo Secretário de Estado que um corpo de tropas debaixo do comando do Brigadeiro General Acland deve chegar à costa de Portugal antes da vós, escrevi-lhe desejando que se dirija daqui para o sul, ao longo da costa de Portugal; e propus comunicar-me com ele através do Capitão Bligh, do Alfred, que seguirá os movimentos do exército, com uns poucos navios-transportes que têm a bordo as provisões e as dispensas militares. Tenciono ordenar ao Brigadeiro General Acland para atacar Peniche, se achar necessário obter a posse dessa praça; em caso contrário, proponho ordenar-lhe a se juntar à esquadra estacionada na foz do Tejo, com o objectivo de desembarcar numa das baías próximas do Cabo da Roca, logo que eu me aproxime o suficiente para permitir-lhe que efectue essa operação.
Se imaginasse que o corpo do General Acland estava equipado de tal modo que lhe fosse permitido mover-se a partir da costa, deveria ter-lhe dado ordens para desembarcar no Mondego e marchar até Santarém, a partir donde poderia dar assistência às minhas operações ou impedir a retirada do inimigo, se esta fosse feita pelo norte do Tejo em direcção a Almeida, ou pelo sul do Tejo em direcção a Elvas. Mas como estou convencido que se espera que o corpo do General Acland forme parte de algum outro corpo que seja provido dum comissariado, pois ele não terá nenhum consigo, e, consequentemente, que o seu corpo deverá depender do país; e como nada se pode garantido a partir dos recursos deste país, considerei que é melhor que o General dirija a sua atenção sobre a costa marítima. 
Se, contudo, o comando do exército continuar nas minhas mãos, devo certamente mandar desembarcar no Mondego o corpo que tem estado ultimamente sob o comando de Sir John Moore, movendo-o para Santarém.
Tenho a honra de incluir uma relação das tropas debaixo do meu comando, bem como a cópia duma carta que escrevi ao Capitão Malcolm, do Donegal, na qual se refere o modo de disposição dos transportes.
Tenho a honra de ser, etc.

Arthur Wellesley

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 53-57. Encontra-se outra tradução disponível na obra de Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 85-91].


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Nota: 

*  Recordemos que, de acordo com a lista definitiva das forças britânicas enviadas para a Península Ibérica, enviada a Wellesley a 15 de Julho por Lord Castlereagh, Secretário de Estado da Guerra do Governo britânico, o General Hew Dalrymple passava a ser o Comandante-em-Chefe das referidas forças, com o General Harry Burrard como segundo no comando e o General John Moore como terceiro. 
Wellesley endereçou a carta acima transcrita a Harry Burrard e não a Dalrymple (apesar de lhe ter remetido uma cópia da mesma), porque sabia que Burrard chegaria à costa portuguesa muito antes de Dalrymple. De facto, ao passo que Dalrymple só viria a partir de Gibraltar (praça que até então governava) no dia 13 de Agosto, Harry Burrard tinha embarcado em Portsmouth no dia 22 de Julho, a bordo do navio Audacious, o mesmo que trazia o General Moore. Contudo, o mau tempo atrasou a viagem destes últimos para o dia 31 de Julho, continuando a prejudicar de tal modo a trajectória do comboio que acompanhava o Audacious (onde vinham os cerca de 10.000 homens comandados por Moore na sua recente expedição à Suécia), que os transportes tardaram mais de duas semanas para se reunirem junto ao Cabo Finisterra. Sem aguardar a dita reunião, Burrard deixou Moore no dia 16 de Agosto e rumou para o Porto, onde soube que Wellesley já tinha desembarcado no Mondego, para onde partiu, e onde finalmente chegou no dia 18.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley requisitando forragens ao Juiz de Fora da Figueira da Foz (1 de Agosto de 1808)





H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 


Senhor: 

Uma parte das tropas debaixo do meu comando desembarcou e acampou perto da aldeia de Lavos; e como os seus cavalos, bem como as mulas e o gado pertencente ao povo dos arredores, têm falta de grãos e forragens, ficaria muito agradecido se os mesmos grãos e forragens pudessem ser reunidos em Lavos para o uso do gado, mulas e cavalos, cuja despesa será paga pelo Comissário. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 44-45].

Carta privada do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)



H.M.S. Donegal, 1 de Agosto de 1808 



Meu caro Senhor: 

Não tenho nada a acrescentar à minha carta pública deste dia, excepto dizer-vos que tenho razões para acreditar que a estimativa do General Spencer relativa à força francesa em Portugal é exagerada. Pretendia fazer o ataque com o meu próprio corpo ajudado pelos portugueses, se porventura Spencer não pudesse juntar-se a mim, como lhe tinha ordenado no dia 26 de Julho; mas como recebi a vossa carta do passado dia 15, na qual anunciais os reforços, marcharei logo que chegue um dos corpos. 
Pole e Burghersh deram-me a conhecer as disposições para o futuro comando deste exército; e o primeiro informou-me da vossa gentileza para comigo, a qual experienciei tantas vezes que não posso duvidar dela em caso algum. Tudo o que posso dizer sobre este assunto é que, independentemente de quem comandar o exército, darei o meu melhor para garantir o seu sucesso; e podeis estar seguro de que não irei apressar as operações, nem as executarei mais cedo do que o devido, a fim de obter os créditos pelo sucesso. 
O Governo determinar-me-á onde serei empregado posteriormente, seja aqui ou noutro lugar. A minha opinião é que a Grã-Bretanha deve levantar, organizar e pagar um exército em Portugal, consistindo em 30.000 tropas portuguesas, que facilmente se formariam nos primeiros momentos; e 20.000 tropas britânicas, incluindo 4.000 ou 5.000 de cavalaria. Este exército poderia agir nas fronteiras de Portugal na Extremadura espanhola, e serviria como conduto entre os reinos da Galiza e da Andaluzia; isto daria à Inglaterra a preponderância na orientação da guerra na Península; e qualquer que fosse o resultado das exortações espanholas, Portugal estaria a salvo do jugo francês. Sabereis melhor [do que eu] se podereis suportar as despesas, ou que parte delas seriam ou poderiam ser liquidadas pelo Governo português. Contudo, se adoptardes este plano, devereis enviar tudo da Inglaterra: armas, munições, vestuário e equipamento dos militares, artilharia, farinha, aveia, etc. Este artigos devem ser conduzidos para a fronteira, uma parte através da navegação do Douro e do Tejo, e outra parte através de outros meios. 
Acreditai em mim, etc. 

Arthur Wellesley 


P.S.: O fundamento em que me baseio para acreditar que Castaños derrotou Dupont é uma cópia dum ofício do primeiro à Junta de Sevilha, publicado na Gazeta de Coimbra [Minerva Lusitana, n.º 14, 29 de Julho de 1808]. O seu teor é aproximadamente aquele que declarei no meu ofício, exceptuando somente que Dupont pode ter-se rendido com o seu exército, e que a força francesa na Sierra Morena, que não participou na acção do dia 20, pode ter capitulado, sob a condição de ser enviada para a França pelo mar; não entendo suficientemente o português para dizer se é este o caso ou não, e alguém levou a Gazeta. 

A. W. 


P.S. 2: Observareis que excedi a minha autoridade ao ordenar a Spencer para extrair 100.000 libras à Inglaterra e adiantar essa soma à Junta de Sevilha; espero que vejais a justeza deste acto, e que me envieis a sua aprovação. Devo mencionar, contudo, que desde que o dispus, ouvi dizer que Sir Hew Dalrymple se recusou a adiantar aos membros da Junta qualquer dinheiro, apesar dele ter autoridade para o fazer. 

A. W.

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 43-44].

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)




H.M.S. Donegal, na foz do rio Mondego, 1 de Agosto de 1808 



Meu Senhor: 

Tenho a honra de vos informar que no dia 26 de Julho, quando ia até à esquadra na boca do Tejo, passei pelo H.M.S. Plantagenet, no qual estava embarcado o Capitão Cooke, do regimento dos Guardas de Coldstream, que me entregou os ofícios do General Spencer cujas cópias vão inclusas, através dos quais fui informado que este oficial tinha desembarcado no Puerto de Santa María, determinado a continuar na província da Andaluzia. Depois de consultar Sir Charles Cotton sobre as actuais circunstâncias de Portugal e da Espanha, pensei que era mais apropriado enviar ordens ao General Spencer para reembarcar todo o seu corpo e juntar-se a mim, a não ser que estivesse ocupado em alguma operação activa, cujo abandono poderia prejudicar a causa dos espanhóis. 
Como o General Spencer referiu na sua carta, e mais particularmente numa mensagem verbal ao Capitão Cooke, que a Junta de Sevilha sente uma grande carência de dinheiro, determinei que ele extraísse 100.000 libras à Inglaterra, para pagar essa soma à pessoa que os membros da Junta nomearem para recebê-la. 
Tenho a honra de juntar as cópias das cartas que escrevi ao General Spencer nessa ocasião, nas quais estão suficientemente detalhadas as razões que me levaram a dar essas ordens; e as ditas razões justificarão, como espero, as ordens que dei, sem estar na necessidade de preocupar Vossa Senhoria com as razões que eu tinha para pensar que era provável que Dupont não seria suficientemente forte em relação ao General Castaños; que o corpo do General Spencer era inútil em Cádis, enquanto as minhas operações em Portugal estavam limitadas pela falta da sua assistência; que uma reunião dos dois corpos era necessária para permitir a execução eficaz de qualquer serviço; e que no quadro geral dos acontecimentos em Espanha, bem como em Portugal, era mais importante expulsar os franceses de Portugal. 
As ordens que dei pareceram-me estar em total conformidade com as intenções e objectivos do Governo de Sua Majestade, e ser consistentes com aquelas que Vossa Senhoria deu ao General [Spencer] na vossa carta de 30 de Junho; e apesar do ofício de Vossa Senhoria datado de 15 de Julho, que eu recebi aqui no dia 30 através de Lord Burghersh, referir que era da intenção de Sua Majestade dar assistência à nação espanhola com um corpo das suas tropas na Andaluzia, não achei adequado revogar aquelas ordens que tinha enviado ao General Spencer no dia 26. As segundas ordens não o alcançariam antes do dia 3 ou 4 de Agosto, quando ele já deveria estar executando a primeira, e provavelmente adiantado na sua viagem; e no mesmo dia que cheguei aqui recebi notícias, às quais dei crédito, de que o General Castaños tinha derrotado o General Dupont no passado dia 20, e assim não haveria mais nenhuma necessidade imediata da assistência dos corpos britânicos naquela parte da Espanha. Estas notícias confirmaram-se depois por outras que chegaram hoje, segundo as quais se refere que o General Dupont e todas as tropas francesas a sul da Sierra Morena se renderam, sob a condição de serem enviados para a França por mar. 
A informação do estado da força do inimigo em Portugal que me foi comunicada pelo General Spencer (que merece atenção, ainda que ele talvez tenha exagerado a conta que recebera) e a expectativa de Vossa Senhoria em que chegará aqui um reforço num período próximo, levaram-me necessariamente a atrasar o início das operações das tropas debaixo do meu comando até à chegada do corpo vindo da Inglaterra, ou o do General Spencer. Este General terá recebido a minha carta do dia 26, como espero, no dia 28, e suponho que ele estivesse pronto a navegar no dia 31. A duração da sua viagem até ao Tejo e até este lugar, dependerá então dos ventos, que sopram de sul desde o dia 28. 
A posição do inimigo à volta do Tejo parece ser tão forte que não se considera praticável um desembarque naquela parte, sem primeiro se fazer uma manobra de diversão que afaste a sua atenção, através dum ataque mais a norte. Os planos para atacar sobre a baía de Cascais falhariam, porque estamos informados que é impossível fazer uma aproximação suficiente à costa com os grandes navios para calar o forte de Cascais e os outros erigidos para defesa da baía; e mesmo que os navios de guerra fossem capazes de passar o forte de S. Julião, o forte do Bugio e as outras construções que defendem a entrada do Tejo, não é imaginável que o seu fogo pudesse calar estes fortes, a fim de permitir o desembarque das tropas em Paço d'Arcos, como estava proposto. Entre Cascais e o cabo da Roca, e a norte deste cabo, existem pequenas baías, nas quais pequenos corpos de homens podiam desembarcar com o tempo razoável. Contudo, a arrebentação é grande na totalidade da costa de Portugal, e o desembarque das últimas divisões das tropas e dos seus necessários abastecimentos e provisões nestas baías seria precário, mesmo que se tivesse achado um momento favorável para o desembarque das primeiras. A vizinhança do inimigo, bem como a falta de recursos no território à volta do cabo da Roca para o transporte dos abastecimentos e provisões necessárias para o exército, aumentariam o embaraço dum desembarque naquela parte. 
Todas estas considerações, combinadas com a devida percepção das vantagens que derivariam duma cooperação com as tropas portuguesas, levaram-me a decidir a favor dum desembarque mais a norte. 
Não existe lugar algum a norte que seja mais favorável para um desembarque perto de Lisboa do que [a foz do] Mondego, exceptuando talvez Peniche. Contudo, o forte sobre esta península é resistente, está ocupado pelo inimigo com uma guarnição suficiente, e não poderia ser tomado sem artilharia pesada; e a artilharia e munições que Vossa Senhoria me informou no vosso ofício do dia 30 de Junho que partia do rio [Thames] nesse dia, ainda não chegaram. 
Considero que a posse do porto e da cidade de Lisboa é o objectivo imediato das nossas operações, que deve ser consumado ocupando os fortes que guardam a entrada do Tejo. É provável que seja necessário atacar com artilharia pesada dois destes fortes, o de Cascais e o de S. Julião; e é óbvio que o inimigo não nos permitirá levarmos a cabo estas operações até que seja afastado do campo. 
As posições que o inimigo tomará para defender estes postos devem ficar nas elevações viradas para o norte de Lisboa; e é indubitável que, a não ser que seja obstado pela nossa posse dessas mesmas elevações, o inimigo as terá em seu poder para renovar a disputa em diferentes posições, até que se dirija para dentro de Lisboa ou se retire. A retirada será difícil, se não mesmo impossível, salvo em barcos através do Tejo, pela adopção de uma linha de ataque nas elevações viradas para o norte, o que eu também prefiro, por ser mais apropriado levar a contenda a um desenlace numa batalha no campo. 
Comecei hoje o desembarque no rio Mondego, porque tinha receio que qualquer atraso a mais podia desencorajar o país, e porque experienciei maiores facilidades para combinar o movimento e suprimento do exército quando ele estava na costa do que quando continuava em alto mar. Até aqui tem sido necessário ter cuidado com algumas dificuldades para o desembarque, que seria quase impossível se não tivéssemos a cordial assistência do país, apesar do zelo e das habilidades dos oficiais da marinha; e é quase certo que o General Spencer e os reforços da Inglaterra chegarão antes que as tropas que actualmente aqui se encontram estejam em terra; se um dos dois chegar, tenciono começar a minha marcha. 
Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que expedi 5.000 conjuntos de armas a fim de armar as tropas regulares portuguesas, com a intenção destas cooperarem com o exército britânico no ataque aos franceses neste país. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 39-43].

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (8 de Julho de 1808)


Lisboa, 8 de Julho

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe, acompanhado do seu Estado-Maior e do General de Laborde, Comandante-Superior de Lisboa e dos fortes em torno, visitou ontem o castelo, os diferentes parques de artilharia, o arsenal, os quartéis e os estabelecimentos militares nesta capital. Sua Excelência, sem embargo de não ser esperado, achou tudo na melhor ordem; e só teve que dar louvor àqueles que precedentemente incumbira dos trabalhos e disposições relativas às circunstâncias, dando em especial indícios de aplaudir os aditamentos feitos às fortificações do castelo, exprimindo ao mesmo tempo assim o voto como a esperança de não ter que servir-se disso, porque a cidade de Lisboa, onde se acaba de completar o desarmamento com o melhor sucesso, nunca esteve mais tranquila, nem mais longe de toda a ideia de agitação e de movimento.
Nos postos militares que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes sucessivamente decorreu, por espaço de várias horas, foi acolhido, tanto pelo oficiais como pelos soldados, com aquele entusiasmo que tão bem justificam as gloriosas memórias que o rodeiam, e com aquela ingénua afeição e cordial confiança que seriam um penhor seguro da vitória, se alguns inimigos quaisquer que fossem reduzissem um exército numeroso, aguerrido e contente da sua sorte, à necessidade de pelejar e de vencer.

[seguiam-se os boletins n.º 1n.º 2 e n.º 3 do exército francês em Portugal]

Havendo-se manifestado em Tomar um princípio de insurreição, os frades e a mais vil canalha foram os únicos que tomaram parte nesta revolta. Os habitantes honrados daquela vila porém se deram pressa a dirigir ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes a carta seguinte:  


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 
Motins populares excitados pelo fanatismo, que em todos os tempos se tem servido da ignorância para os seus malvados fins, obrigaram a nobreza e povo de Tomar a fazerem actos contrários ao governo estabelecido por Sua Majestade Imperial e Real. Mas actos feitos por força são nulos; e logo que cessa a força, há obrigação de assim o declarar. Isto é o que fazemos, suplicando a clemência de Vossa Excelência para com aqueles que foram alucinados com opiniões falsas, segundo as determinações de Vossa Excelência, pois que os que foram forçados diante da justiça de Vossa Excelência estão livres; e se do agrado de Vossa Excelência for que a este respeito e para instrução do povo se afixe alguma proclamação, fá-lo-emos em cumprimento das ordens de Vossa Excelência, de quem temos a honra e glória de ser, etc.
Súbditos reverentes,
Fr. Teotónio Cláudio da Costa Pereira, Ouvidor Eclesiástico – O Padre José Antunes da Silva – O Beneficiado Fr. Miguel Eduardo Azevedo Sampaio – O Padre Joaquim Roberto da Silva – O Padre Francisco Delgado da Gama – O Padre João Freire Gameiro – O Provedor da Comarca, Bartolomeu de Faria Pimentel Cabral Maldonado – Custódio Jacome Raimundo de Moura – O Vereador segundo, que serve de Juiz de Fora, Gaspar de Seixas da Costa Nogueira de Velasco – Francisco Valentim de Castro Araújo – José António Ferreira dos Reis – Manuel de Sousa Fernandes – António Pedro da Maia – Silvério António da Graça e Silva – Feliciano Lopes dos Santos – José Urbano da Costa – António Joaquim de Moraes Albuquerque – José Teixeira Madureira – José Lopes Canhaos – Tomé da Silva – O Juiz do Povo, em nome do mesmo, António de Évora
Sua Excelência ordenou ao General [Margaron] que marcha para Tomar, que distinguisse aquela vila da cidade de Leiria, que quis persistir no seu criminoso delírio, e que por isso recebeu o castigo merecido, como igualmente Beja e Vila Viçosa. A mesma sorte está reservada a todas as povoações que ousarem revoltar-se.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 8 de Julho de 1808].

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Notícias de Badajoz relativas a Portugal (7 de Julho de 1808)


Badajoz, 7 de Julho


As praças de Campo Maior e Ouguela entregaram-se às armas do nosso augusto Soberano o sr. D. Fernando VII pelos portugueses que vieram implorar o nosso auxílio. Por este motivo o Capitão-General da Extremadura mandou que se celebrasse uma missa solene de acção de graças a Nosso Senhor, que se executou a 4 de Julho. Foi um espectáculo tão terno como terrível, ver as duas nações prostradas ao pé dos altares, na presença do Nosso Senhor Sacramentado e à vista dos Reais estandartes, a prestar o juramento mútuo de se socorrem e auxiliarem-se com todas as suas forças contra o inimigo comum, correspondendo o povo com vivas e aclamações a este solene juramento.
As povoações do Alentejo, como Évora e suas imediações, Mourão, Monsaraz, e outras, enviaram comissionados a Badajoz para pedir armas, munições e tropas. As ditas povoações desejam com vivas ânsias ser ocupadas pelos nossos exércitos.
D. Andrés Alvarez Guerra, habilitado por esta Suprema Junta para formar um batalhão de infantaria ligeira com o nome de Caçadores da Extremadura, manifestou que pagaria todo o valor do armamento inteiro dos soldados do exército inimigo que passassem para o nosso, bem como uma gratificação de 160 reales; e metade para aqueles que só trouxessem o seu novo armamento.  Dar-se-á farda completa aos que sejam admitidos no seu Regimento. Já vieram de Portugal 166 soldados, que se incorporam no dito corpo.
O exército francês de Lisboa não passa de 16.000 homens. Os seus Generais reuniram-se para tratar dos meios de se escaparem. Nesta reunião houve muitas altercações, das quais resultou ferido o Intendente [Lagarde].


[Fonte: Gazeta Ministerial de Sevilla, n.º 14, 16 de julio de 1808, p. 110-111].

terça-feira, 28 de junho de 2011

Relação da marcha e do sucesso da expedição do Destacamento que de Coimbra se dirigiu a Pombal e Leiria (de 28 de Junho a 6 de Julho de 1808)



Itinerário da expedição do Destacamento de Voluntários de Coimbra 



Julgando-se conveniente fazer aprisionar as Brigadas francesas que se achavam em Pombal e Leiria, e fazer ali aclamar o nome do nosso Augusto Príncipe, se expediu para esse fim o nosso Destacamento composto de um Furriel e 15 companheiros Estudantes e soldados de Cavalo, o qual saindo de Coimbra no dia 28 de Junho, entrou às 7 horas em Condeixa, onde fomos recebidos pelo Povo com todos os aplausos e demonstrações de alegria e do maior valor, repicando os sinos, pondo à noite luminárias e lançando foguetes ao ar. Entre todos se distinguiu muito o Padre Regente do Hospício de S. António, pegando logo em armas, e acompanhando-nos a algumas diligências de que íamos incumbidos pelo nosso Excelentíssimo Governador
No dia 29 de manhã continuámos a nossa marcha, cujos incómodos e fadigas eram suavizados com a briosa e agradável lembrança de sermos os primeiros a aclamar em todas as terras, por onde passávamos, o nome do nosso amado Príncipe; e chegando à Ega, aí foram despedaçados alguns editais do Governo intruso, descobertas as Armas Portuguesas entre vivas do Povo, e dadas ordens para o seu governo e segurança ao Capitão das Ordenanças desta vila, Manuel Moniz de Gouveia Rangel, honrado e fiel Patriota. No mesmo dia entrámos em Soure, e esta vila nos encheu da maior satisfação pela sua fidelidade. Nós conhecemos então que a memória dos Príncipes justos, como o nosso, não se extingue jamais, e que ele por isso, ainda que ausente, reinava nos corações de todos os bons portugueses. Músicas, descargas de mosquetaria e contínuos vivas inflamaram extraordinariamente nossos corações. Lágrimas de prazer banharam nossas faces, e as de todo aquele fiel e honrado povo, ouvindo a exortação que o zelo pelo bem da Pátria inspirou e fez publicamente sem meditação alguma pronunciar na praça daquela vila ao M. R. P. M. [Muito Reverendo Padre Mestre] Frei José de Santa Marta, Religioso de S. Francisco, o qual desde Coimbra nos havia acompanhado, e depois nos seguiu sempre. Ela é:

VALOROSOS PORTUGUESES 

Quis finalmente a Providência libertar-nos do mais áspero e infame cativeiro. A Pátria dos Fenelons e dos Racines, inteiramente desfigurada, tem lançado o terror e o estrago em toda a Europa. Vítimas da sua perfídia, nós gememos há longo tempo, curvados debaixo do peso enorme do mais violento Despotismo. Abusando dos nomes os mais sagrados, dos Direitos mais caros ao nosso coração, sem natureza, sem humanidade, estes Godos do século décimo nono têm vindo proteger-nos, saqueando os nossos templos, profanando as nossas casas, atacando a nossa propriedade e a nossa independência. Nos dias de seu furor, o Inferno não tem jamais vomitado monstros iguais a estes monstros. Porém, graças aos Céus! já podemos respirar. Um Astro benigno parte do Norte, ponto da sua Aurora, para espalhar em todo o Portugal seu clarão brilhante. Coragem, bravos compatriotas. Nós temos à vista os filhos da Pátria, os verdadeiros heróis, encarregados de defender nossos mais prezados interesses. Marchemos a seu lado, Ah! Deus o manda, corramos a vingar a Pátria ofendida. A causa é da Religião, do Estado, do Género Humano. Caia em pedaços pelo nosso valor esse Colosso formidável que esmaga a liberdade de todos os Povos da terra. Vencer ou morrer seja a nossa divisa. Viva o Príncipe Regente Nosso Senhor. Vivam a Pátria, a Liberdade, a Honra. Viva o bravo Corpo Académico. Vivam os Leais Habitantes de Soure.

Nesta ocasião manifestaram o maior interesse pela causa comum o Dr. Juiz de Fora e o Juiz do Povo, assim como todos os outros moradores da dita vila; muitos dos quais nos acompanharam a Leiria e Nazaré.
Partindo quase à noite para Pombal com o desígnio de atacarmos as Brigadas francesas de Condeixa e Pombal, as quais se dizia [que] estavam ali reunidas, nós tivemos a mágoa de não ver ainda realizados nossos vivos desejos, pois que aquela vil tropa de insolentes espiões se pôs em fugida logo que chegámos àquela terra, onde depois de termos novamente aclamado o nosso Augusto Príncipe, descobrimos as suas Reais Armas e restabelecemos o Governo Português. Marchámos depois a cumprir as ordens do nosso Excelentíssimo Governador, pondo em cautela e segurança os pérfidos e vis partidistas franceses, que tanto ofuscam a glória da Nação Portuguesa, cujo nome desmerecem pelo enormíssimo crime de traidores à Pátria: monstros! Seduzidos por um falso e sórdido interesse, eles sacrificam à mais horrível tirania a sua Religião, o seu Príncipe e os seus Concidadãos. Por impedimento da autoridade legítima e vontade do Povo, nós entregámos o Governo Civil ao Vereador mais velho, o Dr. Luís António, e o [Governo] Militar ao Capitão de Milícias de Leiria, Francisco Peregrino de Meneses, para que guarnecesse a vila, examinasse os passageiros e prendesse os suspeitos. Cantou-se com toda a solenidade pelo Clero Secular e Regular o Te Deum em acção de graças pelo grande benefício de termos sacudido o jugo dos Usurpadores, que tanto nos oprimia; e no meio de tantos cuidados não esqueceu mandarmos espiar a estrada por onde devíamos marchar, procurando sempre ter notícias do inimigo; e sabendo que ele estava em Leiria, partimos a procurá-lo.
Perto de Leiria mandámos dois camaradas nossos a descobrir campo. Imediatamente foram cercados pelo inimigo e atacados, mas estes dois bravos portugueses dispararam suas pistolas e fizeram recuar vinte e dois franceses. Informados por eles, e temendo [que] nos escapasse a presa, deixámos as Ordenanças de Pombal, que nos seguiam, e partimos a todo o galope para Leiria. Estavam os franceses postados em linha na ponte desta cidade com ânimo de resistir. Nós os vemos, voamos a eles, e tudo foge. Metemos à estrada real em seu seguimento, mas os cavalos cansam[-se] e não podem avançar. Seis camaradas somente puderam seguir vinte franceses fugitivos; seus nomes devem passar à mais remota idade: José Joaquim de Sá, João Pedro Correia, Gonçalo Velêz Zuzarte, Joaquim Monge, Manuel José Soares da Cunha Paixão, Caetano Rodrigues de Macedo afugentam com terror vinte soldados velhos e aguerridos. Seis moços sem experiência fazem tremer vinte heróis de Marengo e de Jena! Quatro Dragões franceses de Cavalaria foram aprisionados. Um, por irmos já quatro somente, foi desarmado e dando sua palavra de honra de não arredar pé, não a cumpriu, escapando-se. Não é de admirar em tais soldados um tal procedimento!
Dos quatro camaradas, dois se demoraram com um francês que resistia; e dois partiram até os Carvalhos, perseguindo o resto. Estes dois bravos homens devem ser imortais na História. Seus nomes são José Joaquim de Sá e João Pedro Correia. O primeiro, arrebentando o seu cavalo nas alturas da Batalha, correu animosamente a pé com a espada numa mão, e a pistola na outra, em seguimento do inimigo; o segundo encarou só com três inimigos, dos quais feriu perigosamente um Gens d'armes [sic]. Os resultados deste brilhante combate foram quatro prisioneiros, cinco cavalos, três doentes que se achavam no Hospital, e quatro feridos, que ainda puderam fugir. Da nossa parte não houve o mais pequeno perigo.
Voltámos para Leiria recebendo os maiores aplausos de todo aquele Povo, que tinha sido testemunha da nossa coragem, e dirigindo-nos à praça, onde se achavam já postados os nossos camaradas e a Ordenança de Pombal, aí com o maior gosto pela vitória e risco que corremos, tivemos a honra e a satisfação de aclamar o nosso Príncipe; e partindo à Casa da Câmara um dos camaradas Gonçalo Veléz Zuzarte a buscar o Estandarte Real, a Bandeira Portuguesa foi arvorada em todas as ruas da cidade, manifestando-se em toda ela um regozijo universal.
No dia seguinte falámos a Sua Excelência Reverendíssima, e lhe rogámos [que] quisesse aceitar o Governo Civil da cidade  o que ele por justas razões recusou, oferecendo-se como leal português para tudo, excepto para mandar. Consultámos também a vontade do Povo para a eleição do Governador militar, e unanimemente elegeram a Miguel Luís de Ataíde e Silva, o qual, vendo a absoluta falta que havia de pólvora e bala, e que mesmo os paisanos estavam mal armados, partiu para Coimbra a pedir socorro e alcançar inteligências[=informações].
Enquanto esperávamos novas ordens, chegou um ofício levado pelo Juiz do Povo de Tomar, para que lhe prestássemos o pequeno auxílio que estava em nosso poder. Tratando de pôr esta ordem em execução, o Juiz dos Povos da Pederneira e Nazaré nos veio representar a urgente necessidade que havia de os socorrer; que aqueles povos já tinham sofrido um saque de víveres, que os franceses levaram para o Forte; que actualmente andavam já em combate com eles, porque queriam prender os principais daquelas terras, e levá-los para o Forte, onde seriam os primeiros que morressem, se eles franceses tivessem algum perigo. Estas apertadas circunstâncias juntas às vozes do povo de Leiria, que nos instava a dar o socorro pedido, nos determinaram a marchar pelas 2 da tarde, levando connosco 60 homens da Ordenança de Leiria ou Pombal, e outros tantos de Pataias, e às 9 da noite chegámos a Nazaré. No Forte deste nome, no de S. Gião e S. Martinho, que ficam vizinhos, havia 150 soldados franceses, e era além disso muito fácil chegar socorro do corpo aquartelado em Peniche. Tantas dificuldades não bastaram a enfrear o nosso ardente espírito. Fizemos a 80 passos de distância um reduto de areia e faxina, de altura de um homem, e por cima lhe pusemos algum mato, que nos encobrisse da pontaria do inimigo, e aí assentámos as nossas quinze espingardas. O reduto ficava muito superior ao Forte, e como os franceses tinham posto a sua artilharia sobre o terraço, era preciso descobrirem-se para lhe darem fogo, o que não podiam fazer sem grande risco, e morte quase certa. E por isso se serviam do estratagema de porem as barretinas sobre paus, para ver se se nos acabaria a pólvora, o que certamente sucederia, a não ser o seguinte.
Nestas circunstâncias nos chega a notícia de terem os franceses do Forte de S. Gião fugido vergonhosamente, sem verem de quê, desamparando-o e deixando a artilharia encravada. Corremos ao Forte com o intento de desencravar as peças, o que conseguimos, tão mal encravadas estavam! E um rapaz que assistira à sua fugida nos certificou que tinham enterrado dois barris de pólvora, muita bala e metralha; e procedendo a desenterrar este tesouro, achámos tudo verdadeiro.
Levámos duas peças, e assentámos uma em lugar vantajoso, sem que fossemos percebidos pelo inimigo. Começamos a fazer fogo com o intento de arrasar o Forte, o que o povo nos pedia com muita instância, para que os franceses não se tornassem lá a estabelecer. Então nos veio a notícia de ter chegado a Olidos (vila que só dista 4 léguas) o General Thomiers com parte da guarnição de Peniche. O povo se intimidou, mas nós não soçobrámos; cortámos as duas pontes por onde o inimigo havia de passar, e assestamos uma peça de 18 carregada de metralha na direcção da estrada. Entretanto, o dito General perguntou ao Juiz de Fora de Óbidos que força seria a do corpo inimigo, e dizendo-lhe este que o ignorava, mas que se dizia ser um Exército composto de portugueses e espanhóis, e que traziam artilharia; esta última asserção se achou confirmada porque o mesmo Thomiers ouviu os tiros que disparávamos  não foi preciso mais para ele fugir para Peniche, temendo ser cortado, e tivemos notícia verídica de ter mandado apear a artilharia e embarcar a pólvora. Talvez seus receios se realizassem, e que o fossemos atacar, se os inimigos vindos de Lisboa não tivessem ocupado Leiria por traição, segundo se afirma, de pessoas da mesma cidade. Até se diz que mandaram o plano da nossa marcha, número e intentos, para que pudéssemos ser presos e remetidos para Lisboa. Porém, uma favorável estrela nos acompanhava, e tínhamos de fazer aquela conquista.
Verificada a marcha retrógrada do inimigo, apertámos o cerco do Forte, e temendo que ele nos fugisse de noite, dispusemos sentinelas de 20 em 20 passos, dando vozes para se vigiar toda a noite; mandámos fazer diferentes fogos pelo campo, e o piquete andou a correr pelos outeiros de um para outro lado, para fingirmos ordens de um Corpo principal. Na madrugada os inimigos intentaram sair, fazendo um ataque de baioneta calada (como ao depois afirmaram); mas como nós o esperávamos e tínhamos dado as providências para o repelir, recolheram-se com mais pressa do que saíram. Ao amanhecer disparam dois tiros de peça, a que nós respondemos com outros dois; o primeiro tiro nosso levou a porta do Forte; o segundo, entrando pela mesma porta, derribou a abóbada da casa onde dormia o Comandante Miron; continuou o fogo, até que das onze para o meio-dia nos fizeram sinal para que o parássemos, e que descesse lá alguém. Mandámos um homem que foi conduzido com um lenço nos olhos para dentro do Forte, e levado à presença do Governador; este lhe perguntou de que nação éramos, e por ordem de quem combatíamos; respondemos que éramos portugueses e que combatíamos por ordem de Sua Alteza Real o Príncipe Nosso Senhor. E como víssemos que pretendia ganhar tempo com frívolas negociações, intimámos à guarnição que, a não se entregar logo, a passaríamos à espada; a que o dito Miron respondeu que fizessem os portugueses o que quisessem, que ele faria igualmente o que lhe parecesse. Continuámos o fogo, mas logo depois arrearam a bandeira, ficando prisioneiros de guerra, e custou-nos muito a livrá-los, principalmente ao Governador, das iras do povo, ao qual ele tinha tratado com suma insolência. Durante o certo tínhamos morto cinco franceses.
Inventariámos o que havia no Forte, e deixámos ao povo coisa de 100 armas e o cartuchame, porque as pedia, e com razão, em altas vozes, para estarem em defesa contra o insulto, ao menos de algum Destacamento inimigo. Determinámos que a artilharia e dois mil e tantos arráteis de pólvora se pusessem em caminho para fortificar Leiria.
Depois nos reunimos aos nossos camaradas, e com 50 prisioneiros marchámos para Leiria na tarde do dia 5 de Julho, por ignorarmos que nesse mesmo dia tinham os franceses entrado naquela cidade. Porém, pelo caminho fomos ouvindo rumores vagos a este respeito, até que em Pataias achámos o facto mais verificado; mandámos dois camaradas fazer de tudo um rigoroso exame, e este na distância de légua e meia de Leiria nos aclararam toda a verdade. Então um militar de Pombal, prático naquelas estradas, nos fez marchar em direitura à Marinha[-Grande]; porém, universalmente se asseverava que estávamos cortados e que o inimigo nos procurava. Chegando à Marinha, achámos tudo fechado, e a muito custo um homem, vendo que falávamos português, nos disse que já alguns franceses tinham passado adiante. Vendo-nos em tanto risco, separámo-nos, e fizemos marchar os prisioneiros para a praia do mar, com 20 Ordenanças, e a maior parte da Cavalaria se meteu ao Pinhal Real, onde em partes o mato nos impedia os passos; os prisioneiros, para mais desembaraço da marcha, vinham soltos. Tantos incómodos foram bem compensados por chegarmos à Figueira [da Foz] sãos e salvos, com todos os prisioneiros e a bandeira inimiga  depois de marcharmos treze léguas por toda a noite, sem descansar.
Nós omitimos muitas pequenas circunstâncias, que tornavam sumamente extensa esta relação; mas não podemos deixar de admirar a grande intrepidez e presença de espírito destes Voluntários no meio de tantos riscos, sempre renascente. Os valorosos guerreiros do Forte de S. Gião fizeram uma fugida tão fora de propósito, que a todos causa espanto, e nos deixaram artilharia e muitas munições de guerra, sem as quais era impossível continuar o cerco. A fugida de Thomiers, que trazia 300 homens, é ainda mais extraordinária. A nossa boa retirada, enfim, não pode ser devida senão ao susto do inimigo, que se fiou em vozes vagas da nossa suposta força, e não teve ânimo para nos mandar reconhecer. A mesma acção da Figueira mostra grande cobardia da parte dos franceses, porque cem homens muito bem providos de pólvora e bala, ainda não usando da artilharia, se saíssem do Forte e atacassem os nossos 30 Voluntários, e um pouco de povo mal armado, tornariam pelo menos muito incerta a vitória. Porém nada fizeram; deixaram-se ficar e entregaram-se como cordeiros.

Assinado: o Comandante Vitorino de Barros Carvalhais.