Mostrar mensagens com a etiqueta Napoleão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Napoleão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Spanish Joke!!!, caricatura de George Cruickshank (5 de Setembro de 1808)




Uma brincadeira espanhola!!!
Caricatura de George Cruickshank publicada a 5 de Setembro de 1808.


Tal como tinha feito o seu pai poucos dias antes (ver Sancho alias Ioe Butts...), George Cruickshank concebeu esta caricatura baseando-se num episódio da obra O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, segundo o qual D. Quixote, depois duma breve discussão com o dono da estalagem onde repousara, foge no seu cavalo Rocinante sem pagar a sua conta, e sem se aperceber que o seu escudeiro Sancho Pança não o seguia. Segundo Cervantes,
Quis a desventura que entre a gente que se achava na estalagem estivessem quatro tosadores de Segóvia, três fabricantes de agulhas de Córdova, e dois vizinhos da feira de Sevilha, gente alegre, bem intencionada, corrompedora e brincalhona, os quais, como instigados e movidos de um mesmo espírito, chegaram-se a Sancho, e apeando-o do burro, um deles foi buscar uma manta; e deitando-o todos nela, levantaram os olhos, e viram que o tecto era alguma coisa mais baixo do que se necessitava para a sua obra, e determinaram sair para o pátio, onde tinham altura de mais. Aí, deitado Sancho no cobertor, entraram a atirar com ele ao alto, e a brincar com o pobre como quem brinca com um cão. Os gritos que dava o miserável manteado foram tais que chegaram às orelhas do seu Amo; o qual, parando para escutar atentamente, julgou que nova aventura se lhe oferecia, até que claramente conheceu que seu Escudeiro era o que gritava. Mete logo o seu Rocinante a todo o galope para a estalagem, e achando-a fechada, dá volta para ver se achava por onde entrar. Mas como as paredes do pátio não eram muito altas, viu o brinco que faziam com seu Escudeiro, o qual subia e descia pelo ar com tanta graça e ligeireza que, a não estar tão irado como estava, não deixaria de rir. Uma e muitas vezes fez toda a diligência para ver se podia subir de cima do cavalo ao muro, mas estava tão moído e quebrantado que nem apear-se pôde; e assim, em pé como estava sobre o cavalo, entrou a dizer tantas injúrias aos que jogavam com o pobre Sancho, e a desafiá-los por tal maneira, que não é possível explicá-lo. Mas nem por isso deixavam eles de continuar a rir e jogar o seu jogo, e o triste Sancho a voar e a queixar-se, já ameaçando, já pedindo que o deixassem; mas de nada lhe valiam seus ameaços e rogos [...].
[Fonte: Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha - Tomo I, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1794, pp. 212-213 (cap. XVII)]. 

Servindo-se assim deste episódio, George Cruickshank representa Napoleão, qual D. Quixote, do outro lado do muro (alusão aos Pirenéus), vendo o seu irmão José Bonaparte, qual Sancho Pança, a ser lançado para o ar pelos espanhóis, aos quais injuria e ameaça: Vis cobardes, como ousais tratar o meu escudeiro desse modo tão descortês? Sabei que se for desafiado a pular o muro, eu o farei; sim, o farei. Um dos espanhóis vira-se para Napoleão e replica-lhe: Não damos a mínima para vós ou para semelhantes vilões. Declara outro: Isto é por roubardes a estalagem e fugirdes sem pagardes a vossa conta. Do outro lado, diz uma freira: Um arremesso pelo nosso FernandoEm pleno ar, José perde a sua coroa e roga para acabarem com tal brincadeira: Ah! Misericórdia [pelo] Rei Zé [King Jo]este é um mau momento para brincadeiras [Jo-King]John Bull, ou melhor, Don Bull, é representado como o dono da estalagem, à porta da qual aparece exibindo uma gazeta com o título Rendição de Junot e incentivando os espanhóis: Essa é a vossa qualidade, meus camaradas, para cima com ele, minhas galinhas de caça! Urra! Eis mais navios, colónias e comércio, mas não para o irmão de Napoleão!!! 
Finalmente, repare-se que à esquerda da gravura encontra-se a sacola de Sanchocarregada de ouro e prata: trata-se de mais uma alusão à obra de Cervantes, o qual conclui este episódio com a fuga de Sancho deixando para trás os seus alforges, ficando o estalajadeiro em sua posse como forma de pagamento do que se lhe devia...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Long faces at Bayonne or King Nap and King Joe in the dumps, caricatura publicada por Walker (Agosto de 1808)



Rostos descontentes em Bayonne ou o Rei Nap' e o Rei Zé carrancudos.
Caricatura publicada por Walker em Agosto de 1808.



Esta caricatura retoma as circunstâncias da resistência espanhola e da retirada de José Bonaparte de Madrid após a derrota de Dupont em Bailén. Transportado para Bayonne (embora na realidade continuasse na Espanha), José Bonaparte é representando com as vestes e coroa dos monarcas espanhóis, portando um colar da ordem do Tosão de Ouro e tendo ao seus pés um ceptro com uma faixa com a inscrição latina Servata Fides Cineri (fiel às cinzas dos antepassados). Ao seu lado, também sentado e com uma expressão igualmente mal humorada, encontra-se o seu irmão Napoleão, que lhe diz: Um belo pedaço de negócio foi o que fizemos, mano Zé. Ao que este lhe replica: Sempre te disse o que ocorreria por seres tão liberal com os espanhóis... 
Note-se que a caricatura é rica em trocadilhos que nos remetem para o tema já abordado da evacuação de Murat. Tanto Napoleão como o seu irmão parecem estar em posição para defecar, acção essa que é precisamente um dos vários significados do termo "dumps". Por outro lado, note-se a quase homofonia entre "long faces" (expressões carrancudas) e "long faeces/feces" (fezes longas), pelo que outra tradução livre para esta caricatura poderia ser: Grandes excrementos em Bayonne ou a cagada do Rei Nap' e do Rei Zé.

_____________________________________________

Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d, caricatura de Charles Williams (Agosto de 1808)






Em Outubro de 1806, Ansell (pseudónimo de Charles Williams) compôs a caricatura acima publicada, na qual dispunha dois grupos de figuras entretidas a jogar uma partida de quadrilha, antigo jogo de cartas a quatro mãos (curiosamente, de origem espanhola). À volta da mesa da esquerda aparecia Jorge III da Grã-Bretanha, Carlos IV da Espanha, Frederico III da Prússia e Alexandre I da Rússia, enquanto na noutra mesa estava Napoleão, Francisco I da Áustria, um burguês gordo representando a Holanda, e o Papa Pio VII, cuja tiara e cruz estavam no chão, sendo esta última pisada por Napoleão. Note-se que Carlos IV, com ar desconsolado, referia que tinha sido obrigado a jogar uma carta do naipe de espadas, já que fora traído pela sua rainha, embora acrescentasse que mesmo que tivesse perdido todos os seus dólares não podia abdicar dos seus Ases [Aires, literalmente em espanhol], em alusão à primeira invasão britânica a Buenos Aires.

Menos de dois anos depois, a irrupção da Espanha na luta anti-napoleónica levou o mesmo autor a publicar a sequela que apresentamos de seguida. Aparte do tom satírico, trata-se de uma interpretação brilhante - e em alguns casos profética - das consequências dos levantamentos populares espanhóis no cenário da política europeia:



Quadrilha política - O fim do jogo. (Gravura 2.ª)
Caricatura de Charles Williams, publicada em Agosto de 1808

Apesar da confusão ilustrada nesta segunda caricatura, os personagens encontram-se mais ou menos nos mesmos sítios que ocupavam na primeira, exceptuando Carlos IV, que desapareceu da sala de jogo (estando supostamente encarcerado por Napoleão), vendo-se apenas a sua cadeira, vazia, com o brasão da Espanha. Em compensação, aparece um novo personagem representando a Espanha, o qual parece que acaba de descobrir a batota que Napoleão estava a fazer, provocando em consequência um enorme tumulto. Agarrando Bonaparte pelo colarinho, faz-lhe a seguinte ameaça: Digo-vos que sois um canalha, e que se não restaurais o meu Rei, o qual roubastes da outra mesa, e que se não restabeleceis o Ás [alusão à carta e ao Papa, derrubado no chão], pela honra dum patriota espanhol, estrangular-vos-ei! Napoleão, apanhado de surpresa perante a irrupção deste espanhol, perdeu o chapéu e está numa posição bastante complicada, apenas com um pé no chão, podendo cair com um simples empurrão. Ainda assim, dá ao espanhol uma resposta que não convence: Não sejas tão turbulento, tomei-o emprestado apenas para completar o baralho [a quadrilha era jogada com 40 cartas]. Interrompidas ambas as partidas perante esta confusão, os restantes personagens observam atentamente a cena, fazendo alguns comentários. Jorge III da Grã-Bretanha, na extrema esquerda, levanta-se para observar a briga com o seu monóculo, e parece admirado: O quê! Mas que confusão, não? Melhor ainda. Bonaparte ficou com o pior do jogo, devo dar uma mão. Note-se que a sua posição é a mesma como foi representado por James Gillray na caricatura The Spanish Bull-Fight... (por sua vez inspirada numa outra intitulada The King of Brobdingnag and Gulliver, do mesmo Gillray), com a excepção que, em vez do tridente, Jorge III sustenta agora uma clava com a inscrição Heart of Oak (literalmente, Coração de Carvalho), nome da marcha oficial da marinha real britânica. O Imperador Alexandre da Rússia, sentado entre o monarca britânico e Napoleão, parece reavaliar a aliança que formara em Tilsit com este último: Agora é a hora de raspar a ferrugem de Tilsit. Frederico III da Prússia, talvez a maior vítima da dita aliança, levanta-se para ver a bulha, e parece determinado a tirar proveito da desordem: Se não aproveitar a oportunidade presente, serei realmente um bolo prussiano (já na primeira das caricaturas acima inseridas o mesmo monarca usava esta expressão, a qual voltara a ser utilizada pelo mesmo autor em 1807, na caricatura intitulada The Imperial embrace - on the- raft - or Boneys new drop). Francisco I da Áustria, atrás do espanhol, levanta-se também e agarra no seu chapéu e na sua espada: Ah! Ah! O jogo tomou um rumo diferente do que esperava, não devo ficar parado. O burguês holandês, na extrema direita da gravura, apesar de sentado, afirma que também chegou a sua hora de abandonar o jogo e de se levantar: Raios e trovões! Estou bastante farto do jogo. Uau, uau, agora  ​é tempo de me levantar. Abaixo deste último encontra-se o Papa Pio VII, derrubado no chão, em aparente alusão à ocupação napoleónica de Roma desde Fevereiro de 1808
Concluindo, note-se que o subtítulo desta caricatura (The Game Up) tanto pode significar o fim do jogo ou o jogo terminado, como o jogo exaltado/agitado/revoltoso, sendo que o termo up, no sentido de movimento ascendente, também alude aos "levantamentos" ilustrados na caricatura. Por outro lado, a expressão the game is up (ou the game's up), para além do seu sentido literal de o jogo terminou, também é usada na língua inglesa para se dar a entender a alguém que as suas actividades ou planos secretos estão ao descoberto, e que por isso não podem continuar: precisamente o sentido daquilo que o espanhol diz a Napoleão...


Outras digitalizações:

1. Political Quadrille (1806):
    b) British Museum.

2. Political Quadrille - the Game Up. Plate 2d (1808):
    b) British Museum.


Little Nap. The Great in a Hobble; or Unwelcome Messengers, alias Job's Comforters, caricatura de T. P. (Agosto de 1808)




Pequena distracção. O Grande em dificuldades; ou mensageiros importunos, aliás consoladores de Job. 
Caricatura de T. P., publicada por Walker em Agosto de 1808.


Esta caricatura é uma sequela de Thieves robbing ready furnished lodgings..., e é inspirada numa caricatura que James Gillray publicou em 1806, intitulada News from Calabria! Capture of Buenos Ayres!... (cujo motivo central já antes tinha servido de inspiração a Isaac Cruikshank para uma sátira sobre a entrada das tropas napoleónicas em Lisboa). 
Vários mensageiros com feições grotescas correm em direcção a Napoleão, trazendo consigo más notícias. Na frente do Imperador, na extrema direita da gravura, um dos mensageiros anuncia que os austríacos têm 3.000.000 homens prontos para a acção debaixo das ordens do Arquiduque Carlos. Outro exibe papéis com os seguintes títulos: Suecos e russos pacificam-se10.000 espanhóis abrem caminho entre franceses na Dinamarca - Com armas, munições, canhões, etc. [alusão às tropas do Marquês de la Romana]; Levantamento em Westfália. Napoleão, irritadíssimo com estas notícias, perde o chapéu, desembainha a espada e dá um pontapé nas nádegas dum destes mensageiros, enquanto grita Fora, escravos ordinários!! Sois todos mentirosos!!! E o Moniteur irá prová-lo. Negando os factos que lhe são comunicados, Napoleão pisa um papel dizendo Liberdade de Imprensa, enquanto sustenta um número do Moniteur que anuncia que o Rei José [foirecebido em Madrid com regozijo e iluminações e que garante que não existe nenhuma guerra com a Áustria. Contudo, pelo sim, pelo não, Napoleão é escoltado por um hussardo, em cujo chapéu está desenhada uma caveira sobre dois ossos cruzados, como que indicando o futuro próximo do Imperador, cercado de perigos. 
De facto, Napoleão não só quer ignorar aquelas notícias (algumas reais, outras apenas rumores e boatos), como parece não aperceber-se do que se passa atrás de si. Um mensageiro, vindo da Espanha, está prestes a alcançá-lo com mais notícias desfavoráveis, a julgar pelos títulos que ostenta:  Dupont, Bessieres, Moncey e Exércitos aniquilados. Nenhum francês permanece na Espanha. Tomados 3000 cavalos! 10.000 mosquetes! 75 carros. Um pouco mais atrás, aparece também correndo um outro mensageiro que indica que o Rei Zé fugiu de Madrid e despojou-a de todos os bens. Atrás destes mensageiros vê-se o Exército francês fugido de Madrid, carregado com as suas pilhagens, e um pouco mais à frente José Bonaparte, que segura uma mitra, um cobertor, um saco e um crucifixo (como na caricatura Thieves robbing ready furnished lodgings...), e que exclama, preocupado: Como enfrentarei Napoleão? Ai de mim, pobre Zé! 
Finalmente, no canto superior direito surge um demónio, que chama Napoleão: Vinde, Boney. Serei o único amigo que vos restará.


Outra digitalização:


Spanish flies or Boney takeing an imoderate dose, caricatura atribuída a Charles Williams (Agosto de 1808)



Moscas-espanholas ou Boney tomando uma dose imoderada.
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Agosto de 1808.


Aludindo à retirada do exército francês de Madrid, esta caricatura representa um enxame enorme de moscas-espanholas (Lytta vesicatoria), que cobrindo o céu desde a capital da Espanha (à direita), persegue e provoca a debandada do exército francês pela passagem do caminho dos Pirenéus para Bayonne (à esquerda). Em primeiro plano, Napoleão, a cujos pés encontra-se (ao lado duma bandeira e de espadas destroçadas) um papel parcialmente rasgado, onde se pode ler Decretos da Junta em Bayonne e Joseph Bonaparte Rex Espagnol [sic], tenta livrar-se  destes insectos, que o envolvem e assediam. O seu esforço é infrutífero, pelo motivos que o próprio afirma: "Morbleu - quão fraco e tonto estou, estas moscas costumavam ter uma grande utilidade para mim, mas receio que este seu uso descuidado vai causar uma mortificação, a menos que Doutor Tall[e]y[and] possa aliviar-me". De facto, o subtítulo da caricatura revela que Napoleão foi imprudente em abusar dos espanhóis, representados aqui como insectos que eram utilizados como uma espécie de viagra da época, visto que "uma dose muito grande de Cantáridas, ou moscas espanholas, provoca desmaios, delírios, tonturas, loucura e morte. Vide [The NewDispensatory de Lewis". 



Pormenor 


Outras digitalizações:

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

The oven on fire - or Boneys last Batch entirly spoiled!!!, caricatura de Isaac Cruikshank (24 Agosto de 1808)




O forno em chamas - ou a última fornada de Boney completamente estragada!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 24 Agosto de 1808.


A fim de representar as dificuldades que Napoleão começou a sentir perante o alastramento das revoltas anti-francesas na Península Ibérica, Isaac Cruikshank concebeu uma espécie de sequela duma das caricaturas mais conhecidas de James Gillray, na qual o Imperador era representado como um padeiro a fazer fornadas de monarcas*. Contudo, dois anos e meio depois da primeira ter sido executada, o cenário alterou-se. Napoleão aparece agora vergado, de braços no ar, surpreendido pelas labaredas que irromperam do forno da Espanha e Portugal (este último nome mal se deixa ver devido ao fogo). Da boca do forno, também tapada pelas chamas, surge a expressão Um povo unido jamais pode ser conquistado, enquanto nas labaredas aparecem outras inscrições, a saber (no sentido dos ponteiros do relógio): Legiões das Astúrias, Exército de Portugal, Biscaia, Exército catalão, Exército da Galiza, Exército andaluz, Exército de Castela Velha e Nova, Exército e frota britânicaExército da Extremadura, Leão, Exército de ValenciaMúrciaExército de Granada. Perante estas chamas, Napoleão largou a pá com a qual queria meter o seu irmão José Bonaparte dentro do forno. Desequilibrado e prestes a cair como já caiu o seu ceptro, José grita ao seu irmão: "Oh Nap, Nap! O que é isto! Em vez de me tornardes um Rei, apenas me enganastes"**. Significativamente, também já caída sobre o chão debaixo de José, encontra-se uma pá em cujo cabo está inscrito o nome do General francês DupontNapoleão, que usa um avental de padeiro por cima do seu uniforme militar, bem como um chapéu bicorne exageradamente grande, exclama: "Raios, serei dominado por estas malditas chamas patrióticas; pensava que não restava uma única, mas acho que há ali mais chamas do que as que podem ser extintas por todos os meios da França". 
Na direita da imagem aparece Tayllerand, representado como assistente de padeiro, de mangas arregaçadas e avental. Observando o cenário, declara ironicamente a Napoleão: "Ai Ai! Eu disse-vos que queimaríeis os dedos nessa fornada de bolo de gengibre. Mas não tenho nada a ver com isso. Sou apenas um carcereiro, por isso toda a minha glória chegou ao fim". Tayllerand está encostado a um móvel que ostenta a inscrição Prisão do Estado, sobre o qual aparecem as cabeças de Carlos IV, da sua esposa, de Fernando VII e seus irmãos***

Outras digitalizações:

British Museum (a cores)

British Museum (a preto e branco)

__________________________________________________________________

Notas: 

* Aludimos à caricatura intitulada Tiddy-Doll, the great French-Gingerbread-Baker; drawing out a new Batch of Kings, publicada originalmente a 28 de Janeiro de 1806:



** " [...] Instead of a King you've only made me a Dup - ont", no original. Trata-se de um trocadilho difícil de traduzir, entre o nome do General Dupont (que fora derrotado na batalha de Bailén), e a palavra inglesa dupe, sinónimo dos termos "ingénuo", "crédulo", "incauto" (e por extensão, "otário", "tolo", "parvo"), e dos verbos "enganar, ludibriar, lograr, iludir", sendo que a expressão be the dupe of someone significa "deixar-se enganar por alguém", enquanto que make a dupe of someone, tem o sentido de "trapacear ou enganar alguém".

*** O autor da caricatura alude ao facto de Fernando VII, o seu irmão D. Carlos, o seu tio D. António e diversas outras personalidades da alta nobreza e do alto clero espanhol terem ido viver, depois das chamadas abdicações de Bayona (e durante os 5 anos seguintes), para o Château de Valençay, propriedade do próprio Tayllerand. (Carlos IV e a sua esposa, por outro lado, foram primeiro para Compiègne, depois para Marselha, e finalmente para a Itália, acabando ambos por morrer em Roma, com poucos dias de diferença, em Janeiro de 1819). 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Horrid Visions or Nappy Napp'd at Last, caricatura de Thomas Rowlandson (23 de Agosto de 1808)






Visões horríveis ou Napoleão apanhado finalmente desprevenido. 
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 23 de Agosto de 1808.



No centro da caricatura aparece Napoleão com o cabelo eriçado, fustigado pelos trovões britânicos e ameaçado por todos os lados. Espantado, exclama com preocupação: O que é tudo isto que vejo e ouço? Atrás de mim o trovão britânico e um furacão espanhol! Diante de mim a Águia austríaca saindo da sua gaiola, e o urso do norte despertando da sua letargia! Ao fundo está uma nuvem de males! E escuto os sapos coaxando nos pântanos holandeses. O que será de mim?




Pormenor representando o Rei José Bonaparte apanhado no meio do furacão espanhol.




Outra digitalização:




domingo, 21 de agosto de 2011

King Joes Retreat from Madrid, caricatura de Thomas Rowlandson (21 de Agosto de 1808)



A retirada do Rei Zé de Madrid.
Caricatura gravada por Thomas Rowlandson, segundo desenho de George Moutard Woodward, publicada a 21 de Agosto de 1808.


Esta sátira alude, como o título indica, à retirada do Rei José Bonaparte de Madrid, e é uma espécie de sequela da caricatura King Joes Reception at Madrid, publicada no mesmo dia e com o mesmo número de chapa, e desenhada e gravada pelos mesmos artistas. 
À esquerda da gravura, no topo duma "montanha", encontra-se um grupo de granadeiros e religiosos espanhóis que grita aos franceses Parem, ladrões! Parem ladrões! Roubaram a prata do Palácio!, ao mesmo tempo que dispara à queima-roupa sobre as suas costas. Os franceses, ao fundo, tentam trepar a "montanha" que está à direita, enquanto em primeiro plano vê-se José Bonaparte (que na fuga perde a coroa) e alguns oficiais franceses carregados com sacos de despojos, um dos quais cheio de prata. Cansado, José Bonaparte implora ao seu irmão para parar: Mano Nap - mano Nap! Porque não paras? Os filisteus estão a perseguir-nos! Napoleão,  dentro do coche que ascende a "montanha" da direita, responde-lhe: Não posso, mano Zé! Estou com muita pressa

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Soneto ao festejo que fez Junot em Lisboa pelos anos de Bonaparte





Soneto de Ópio


De Soléques, Meliques, Trapalóques,
Sulfúrios, sulfurantes, sulfurados,
Rotundos, salitrosos, carvonados,
Bum, bum, bum, bum, ressoam címbaloques;

Espaventos flamantes, trapiquoques, 
Imbeles, infecundos, insolados,
Xenofes, Xenofontes, Xenofados,
Tripudiam berliques e berloques,

Strangurio, scalponio, figurato, 
Gerivásio de gimbo, que gambeia
No Zimbório de Boreas, boreato.

Eis aqui o primor com que se arreia
O dia natalício celebrato 
De um tal Napoleão em terra alheia.


Aviso sobre a celebração do aniversário de Napoleão no Teatro de S. Carlos em Lisboa (15 de Agosto de 1808)





[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 30, 15 de Agosto de 1808].

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Brobdignags of Bayonne peeping over the Pyrenean Mountains at the Lilliputian Spanish Army, caricatura de Isaac Cruikshank (3 de Agosto de 1808)




Brobdingnagianos de Bayonne espreitando sobre as montanhas dos Pirenéus o exército liliputiano da Espanha.
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 3 de Agosto de 1808



Isaac Cruikshank recorreu ao mundo imaginado por Jonathan Swift, na sua famosa obra Viagens de Gulliver, para representar nesta caricatura uma sátira sobre as primeiras derrotas de Napoleão na Espanha. 
Entre Brobdingnag, terra dos gigantes, "transportada" aqui para Bayonne (à direita) e os Pirenéus (ao centro) encontram-se dois gigantes, Napoleão e José Bonaparte, que observam com preocupação o cenário à esquerda, na Espanha-Liliput, em cujo horizonte se vêem várias bandeiras espanholas, arvoradas nos picos das montanhas. 
Depois de abandonarem o seu enorme acampamento, diversas linhas de infantaria espanhola perfeitamente formadas avançam sobre as tropas francesas, que lutam desordenadamente e começam a ser desbaratadas. No lado francês do campo da batalha (ver pormenor abaixo), vêem-se vários militares mortos, bem como um cavalo, em cuja sela aparecem as letras NB (iniciais de Napoleão Bonaparte e da expressão latina nota bene). Entre os que fogem precipitadamente, vê-se ainda um francês sem chapéu, que reza ajoelhado
Perante este cenário, Napoleão, com o chapéu depenado, exclama: Misericórdia de mim! Quem poderia ter pensado isto de um conjunto de tais liliputianos? Porque estão eles arruinando o nosso exército brobdingnagiano?! José Bonaparte, ostentando a coroa espanhola, replica ao seu irmão: Nap, digo-te que podes colocar também a minha coroa no teu bolso, para que não me surpreendam tais camaradas com rostos de assassinos.



____________________________________________________________


Outra digitalização: The British Museum

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Apotheosis of the Corsican-Phœnix, caricatura de James Gillray (2 de Agosto de 1808)



Fonte: British Museum


 Apoteose da Fénix-Corsa.
Caricatura de James Gillray, publicada a 2 de Agosto de 1808.



O sentido desta caricatura é explicado pelo seu subtítulo, que cita um trecho imaginário duma obra supostamente editada em 1808 e intitulada A Nova Enciclopédia Espanhola (The New Spanish Encyclopaedia): "Ao cansar-se de viver, a Fénix constrói um ninho sobre as montanhas, incendiando-o através do bater das suas asas e consumindo-se ela própria nas chamas! E do fumo das suas cinzas renasce uma nova Fénix para iluminar o Mundo!!!"
Napoleão é assim representado como a Fénix-corsa auto-imolando-se no topo duma escarpa das Montanhas dos Pirenéus, as quais estão envoltas por densas nuvens de fumo negro, como que aludindo às revoltas anti-francesas na Península Ibérica. O seu ninho é formado por mosquetes e baionetas, sobre as quais está um globo terrestre, em forma de ovo, com toda a Europa continental em chamas, bem como a Sicília e a Algéria. Com as asas já pegando fogo, a Fénix-corsa (adornada com um cordão de honra tricolor e um colar militar franjado com pequenos punhais) está prestes a sucumbir perante as chamas que a envolvem, tendo já saltado da sua cabeça a coroa e das suas garras o ceptro e o orbe (símbolos, respectivamente, do poder temporal e espiritual). Por cima do fumo provocado por esta combustão, surge uma pomba da paz, irradiando luz e com um ramo de oliveira no seu bico, podendo ler-se nas suas asas abertas a inscrição Paz sobre a Terra.


Outras digitalizações:



domingo, 31 de julho de 2011

The Ghosts of the Old Kings of Spain appearing to their Degenerate Posterity, caricatura atribuída a Charles Williams (Julho de 1808)




Os fantasmas dos velhos Reis da Espanha aparecendo à sua posteridade degenerada
Caricatura atribuída a Charles Williams, publicada em Julho de 1808.



Quatro fantasmas irados de antigos Reis da Espanha surgem no meio de fumo para condenar a família real espanhola. Um dos fantasmas, ao centro da gravura, vira-se para Carlos IV e declara-lhe: Desgraça dos vossos antepassados, tremereis pela vingança! O velho monarca, horrorizado, implora pela misericórdia do fantasma: Oh, não olheis com essa carranca para um pobre, miserável e velho rei. À esquerda da imagem, Fernando volta-se para o fantasma que está atrás de si, declarando-lhe, enquanto aponta um dedo acusador a Godoy:  Eis a causa da nossa desgraça. Contudo, o fantasma recorda a Fernando que também ele é responsável pelo destino da sua família: Relembrai que sois um Príncipe. Godoy, cujo chapéu está tombado no chão, enterra a sua cabeça no colo da rainha, como que buscando protecção, e do seu bolso caem papéis da Correspondência entre Godoy e Bonaparte e outros Para o Príncipe [da] Paz. Incapaz de assistir à horrífica cena, a própria rainha tapa a cara. Napoleão, no lado direito da gravura, é indiferente às aparições. Com um sorriso no rosto, remove a coroa de Carlos IV, e declara-lhe: Não vos alarmeis, meu bom amigo, tomarei conta da vossa Coroa, a qual não poderia estar em melhores mãos; penso que servirá no mano Zézinho. Vendo isto, John Bull, atrás de Napoleão, ordena-lhe que pare: Parai, meu pequeno senhor. Vereis que aí está uma pessoa chamada Fernando; essa coroa servir-lhe-á muito melhor do que em Zézinho



Outras digitalizações:

British Museum (a cores).

British Museum (a preto e branco).

Brown University Library (a preto e branco).


sábado, 30 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (30 de Julho de 1808)



Lisboa, 30 de Julho

Até aqui não se pôde haver notícia dos primeiros golpes descarregados pelo numeroso corpo de exército que partiu de Lisboa e seus arredores para ir destruir a cabeça da rebelião em Portugal. Só nos dá cuidado um objecto, qual é que os verdadeiros rebeldes e os seus chefes não se atrevem nem sequer a esperar as sobreditas tropas para com elas se arrostarem; e que não lhes deixam que punir mais que os indivíduos por eles seduzidos, em cujo número há alguns que por causa do vergonhoso medo que os tornou culpados, são talvez ainda mais dignos de compaixão que da cólera dos vencedores da Europa.
Desgraçados daqueles porém que persistirem no seu delírio à chegada dos seus libertadores, e que se abalançarem a fazer uso das suas armas contra os que vão a despedaçar o jugo ignominioso a que estão submetidos por alguns pequenos corpos de espanhóis! Para com esses é que não haverá indulgência nem perdão.

Um espia-aliciador e portador de proclamações sediciosas e de convites para a revolta foi preso, os dias passados, em Setúbal, com os documentos de convicção que se lhe acharam; foi conduzido ante uma Comissão Militar, a 28 deste mês, e condenado a ser espingardeado. No mesmo dia padeceu ele a execução da sua sentença*.

Lembrou-se a malevolência de fazer circular os mais falsos boatos a respeito de Abrantes e da sua posição. Por cartas porém do Corregedor mor da Estremadura e do Juiz de Fora Bivar, escritas da própria vila de Abrantes a 26 deste mês, se confirma que tudo tem ali sempre estado e está em perfeito sossego. Os habitantes, ensoberbecidos de ver que o nome da sua vila é o de que usa e a que dá honra um dos mais ilustres guerreiros do Império francês, jamais tem pensado em afastar-se dos seus deveres, apesar das insinuações de alguns mal intencionados que se acham presos, com grande satisfação dos mesmos habitantes.
O General Charcot ficava em Abrantes com um corpo de tropas bem capaz de infundir ali respeito.

O corpo do General Dupont, que os novelistas de Sevilha e os seus ecos tantas vezes deram por aniquilado, nem por isso deixa de ficar intacto, fazendo face por todos os lados como uma coluna inacessível. Deve ele agora haver-se unido com uma divisão comandada pelo Marechal Moncey, e que se enviou pelas costas para a parte meridional da Espanha, a fim de restabelecer aí a ordem e a submissão à autoridade legítima. Segundo as cartas de Madrid, o corpo que dali partira com o dito Marechal era de 16 a 18 mil homens.

Parece que a desconfiança continua a fazer progressos nas Juntas revolucionárias; e que a multidão, que acaba sempre por ser iludida em tais circunstâncias e sacrificada às especulações de alguns ambiciosos, espera ver-se brevemente abandonada por alguns dos seus chefes militares e civis. Tem ela já grandes suspeitas de que vários dentre eles  vão negociando clandestinamente, para contarem decerto com um futuro político.
A fim de que a canalha possa capacitar-se daquelas mudanças mui naturais que ela divisa, sem que se descubra os seus verdadeiros motivos, dizem-lhe, nas próprias folhas de Espanha, que chegaram de Bayonne 20 milhões de pesetas para comprar os seus Generais e para que eles se deixem bater; fábula absurda, destinada para consolar de antemão a vaidade do povo dos reveses que os rebeldes do norte têm já experimentado e que em breve recairão igualmente sobre os mais.
A verdade é que a gente sensata de Espanha, ainda mesmo entre os rebeldes, reconhece que não se deve já pensar no Príncipe das Astúrias, pois que seria necessário ir buscá-lo à própria cidade de Paris, jornada algum tanto extensa e bastantemente laboriosa para cidadãos mal armados e camponeses com lanças. Portanto, falam uns de um Príncipe da extinta Casa de Nápoles; outros do Cardeal Borbón, autómato ambulante bem como o resto da sua família; e outros finalmente até chegam a representar na fantasia o Arquiduque Carlos! Cada um declara o seu candidato e a sua quimera: prova evidente de que estão em vésperas de não se entenderem uns aos outros! E modo adequado de indicar ao povo que, concitando-o até aqui em nome de um pretendido Fernando VII, se tem feito dele zombaria; que é tempo de que o povo abra os olhos; e que para evitar toda a casta de flagelos deve dirigir a sua atenção e homenagem ao único Rei que possa salvar a Monarquia espanhola e reuni-la à unidade; àquele José Napoleão, cuja extrema bondade e virtudes foram destinadas pela Providência e pelo GRANDE NAPOLEÃO, seu augusto irmão, para fechar as chagas da Espanha e deter as torrentes de sangue que, a não ser ele, deverão inundar aquele belo Reino.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 29, 30 de Julho de 1808].


________________________________________________________________

Nota: 

 Tratava-se de "Custódio Dias da Costa, solteiro, filho de José Dias da Costa e de Maria da Costa, natural de S. Martinho de Rogado, bispado do porto, desertor de um dos Regimentos da Corte, o qual se prendeu em Setúbal, de ordem do General Graindorge, por uma escolta de franceses, e conduzido à cadeia no dia 28 de Julho de 1808, e nesse mesmo dia conhecido à pressa o delito de conduzir cartas insidiosas e sentenciado, o levaram ao cais novo, onde o fuzilaram. Confessou-o e assistiu-lhe espiritualmente o padre Carlos. [Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., p. 349].