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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (18 de Junho de 1808)



Lisboa, 18 de Junho


Aqui se acaba de publicar o Decreto seguinte, que se deve considerar como um grande benefício para as nossas tropas por fixar e melhorar a sua sorte:



Precedentemente se tinha aqui afixado o Edital seguinte:



O Juiz de Fora de de Vouzela, José Ferreira de Seabra e Sousa, participou ao Administrador da Casa da Gazeta, em data de 8 do corrente, que apenas chegou àquela vila, capital do concelho de Lafões, a carta da Deputação portuguesa enviada junto a Sua Majestade o Imperador e Rei, fez ele convocar a Câmara a fim de publicar as benéficas intenções de Sua Majestade Imperial e Real, e na mesma ocasião se ordenou que se cantasse o Te Deum em acção de graças ao Altíssimo por tão feliz notícia, convocando-se por editais o Clero, Nobreza e Povo de todo o concelho. Celebrou-se a função a 7 de Junho na Igreja Paroquial da dita vila, com a maior ordem possível, assistindo a ela a maior parte das pessoas das classes mencionadas, nas quais se divisavam os mais evidentes sinais de alegria e de reconhecimento pelos benefícios que já contam como recebidos, uma vez que a sua sorte vai a ser decidida pela alta ilustração de Sua Majestade Imperial e Real; e para darem uma prova mais evidente da sua satisfação, iluminaram todos as suas casas nesse mesmo dia à noite. 


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Aviso ao Público 


Quarta-feira, 22 de Junho, no Teatro de S. Carlos representaram os actores italianos uma nova ópera séria intitulada Zaira, música do Mestre Francisco Federici; sendo a parte de Zaira representada por Eufemia Eckarty-Neri. Dividirá os seus actos um baile análogo à mesma ópera, que servirá de introdução ao segundo acto. 


[Fonte: 2.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 24, 18 de Junho de 1808]. 

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Nota: Na Gazeta de Lisboa de 22 de Junho (n.º 25) adianta-se o seguinte: “Por ter adoecido um dos actores sérios do Teatro de S. Carlos não se pôde representar a ópera séria, anunciada para o dia quarta-feita 22 de Junho, a qual se representará Sexta-feira 24 do mesmo mês.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (10 de Junho de 1808)




Lisboa, 10 de Junho


Anteontem à noite houve no Teatro de S. Carlos um festim magnífico, cujas particularidades daremos na folha seguinte*

Por cartas de França, dignas de crédito, consta que um novo exército de 60.000 homens, às ordens de Sua Excelência o Marechal Lannes, está a ponto de entrar em Espanha, a fim de defender as costas, se, por acaso, os ingleses tivessem a ideia de procurar fazer aí alguma expedição, à maneira da de Tolon; isto é, de se apresentar naquelas costas para lançar fogo a tudo, e pôr-se consecutivamente em fugida, entregando à cólera do vencedor aqueles que se deixarem cair no criminoso engano de ajudá-los. 
Esta notícia poderá muito bem aplacar a petulência de certos agentes ingleses, que, em algumas partes da Espanha, querem absolutamente, debaixo do título de Juntas, introduzir a mania dos Clubs (associações populares) com que também procuraram arruinar a França em meio da sua revolução. 
Ninguém sabe melhor que os ingleses o quão temível será para eles uma união verdadeiramente íntima entre a França e a Espanha, tal qual não pode deixar de o ser, quando a mesma família houver de ocupar ambos os tronos; e quando, segundo a sua promessa, o Imperador Napoleão tiver confiado o ceptro espanhol a outro ele mesmo. Por isso é que a Inglaterra de nada se descuida para armar os espanhóis uns contra os outros, procurando impedir que se reúnam debaixo da invencível estrela do Grande Napoleão. Os ingleses porém só poderão conseguir fazer algumas vítimas; sobejo bom senso têm os espanhóis para deixar de ver o laço que lhes armam os seus inimigos; e sobejas luzes para se tornarem, contra si mesmos, os instrumentos de uma nação que tem ocasionado a perda de todas aquelas que têm seguido os seus pérfidos conselhos; porque, assim como muitas vezes o têm proclamado os oradores do seu Parlamento, o Gabinete de S. James só quer os desastres do Continente; é bem certo de que, quando este obedecer sinceramente a uma só e mesma influência, debaixo da direcção do maior dos Monarcas, em breve ficará acabado o despotismo marítimo de uma ilha que só deve momentaneamente o seu salvamento à divisão que os seus estipendiários têm sempre tido a arte de semear entre aqueles cujo evidente interesse é coligar-se contra ela. 


[Fonte: 1.º Suplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 23, 10 de Junho de 1808].

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Nota: 

O desenrolar dos acontecimentos impediu que essas particularidades chegassem a ser publicadas na Gazeta de Lisboa. Acúrsio das Neves, por outro lado, descreve da seguinte forma (crítica) esse "notável festim": "procurava Junot suavizar os seus males, distrair a atenção dos principais cidadãos de Lisboa e intimidar o povo por meio de um espectáculo em que o luxo, a licença e a vaidade se combinavam com o terror, para os mesmos fins: uma ceia, precedida de danças e de concertos, no teatro de S. Carlos na noite de 8 para 9 de Junho. Nada lhe esqueceu para fazer este acto ao mesmo tempo majestoso e terrível; agradável somente o pôde fazer aos seus e a um pequeno número de portugueses que o seguiam. Quatro mil aguadeiros rodeavam o edifício com os seus barris cheios de água, para prevenirem qualquer incêndio; numerosas tropas, tão prontas e armadas como se estivessem para entrar em combate, guarneciam as ruas até uma grande distância; e por estes preparativos se pode julgar do resto. 
Foi grande o número dos convidados de ambos os sexos e de todas as classes, os quais, para entrarem no teatro, tinham de atravessar largo espaço por entre as fileiras destes assassinos, que, nas pontas das suas baionetas, lhes apresentavam a imagem da morte. Os homens entravam sem aparato; para receberem as senhoras, achavam-se quatro pajens no vestíbulo, que anunciavam a sua chegada a quatro Ajudantes de Ordens que ali as vinham receber e as conduziam até à porta interior do teatro, onde o General Margaron fazia as honras da casa.
A plateia tinha-se elevado a correr direita com o tabelado, e à roda dela se colocaram várias ordens de assentos, ficando livre o centro para as danças. No topo estavam três cadeiras de braços, a orquestra nas varandas das Pessoas Reais, e na frente se via, entre outras decorações, o busto de Napoleão em pintura, servindo-lhe de peanha quatro bandeiras francesas encruzadas, nas quais se liam os famosos nomes de Marengo, Austerlitz, Jena e Firedland. Por baixo delas estava a bandeira russiana [sic], de cuja humilhação neste dia foram testemunhas o Almirante Seniavin e toda a sua oficialidade.
Enquanto entravam os convidados, foram-se estes arranjando como puderam, ficando sempre vazias as três cadeiras de braços; apenas junto o concurso, anunciou-se a chegada de Junot, e tudo foi reboliço para o virem receber à entrada e o conduzirem até à cadeira do meio, que foi ocupar, dando as dos lados a duas damas que o acompanharam e sobressaíam ao resto da companhia, como novas Vénus no meio do coro das suas ninfas. Rompeu então a orquestra e começaram as danças, que levaram uma grande parte da noite. Depois delas correu-se o pano, e apareceu sobre o tabelado uma espécie de barraca de campanha, e dentro desta a mesa, que foi somente para as senhoras. Os homens, de que uma parte, principalmente dos de certa ordem, tinham subido para os camarotes, a fim de disfarçarem o desgosto em que se viam, pela mistura em que se achavam, e em que irremediavelmente tinham deixado as suas famílias, foram obrigados a descer para a ceia; por entre os bastidores, e de pé, é que foram comendo alguma coisa, de sociedade com os soldados, com os serventes, e com todo o lixo que por ali se achava. Dizem os que assistiram que não foi a mesa a que ostentou o luxo desta esplêndida função" [Fonte: José Accursio das Neves, Historia Geral da Invasão dos Francezes em Portugal, e da Restauração deste Reino - Tomo III, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, pp. 99-102].

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Avisos publicados na Gazeta de Lisboa de 27 de Maio de 1808



[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º 21, 27 de Maio de 1808].

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Baile de 6 de Janeiro na casa do Barão de Quintela

Tal como tinha ocorrido no dia 13 de Dezembro de 1807, "no dia 6 de Janeiro [de 1808] deu o General Mr. Junot um pomposo e magnífico baile no mesmo Palácio do Quintela e Quartel da sua residência. Foram convidados os membros do Governo da Regência, toda a grandeza do Reino, muitos tribunalistas e o Almirante russo, menos o Intendente Geral da Polícia [Lucas de Seabra da Silva]. Todo o preparo para o mesmo baile, armação, música e ucharia, sem excepção da menor despesa, foi feita à custa do Barão de Quintela, que, sem embargo desta bizarria, foi convidado por um bilhete do mesmo modo que o foram os demais convidados estranhos; não sendo também convidada a irmã do mesmo Barão, que se achava residindo na Quinta das Laranjeiras, ao mesmo tempo que o foi a Condessa da Cunha, que se acha com ela morando na mesma Quinta.

Os bilhetes gerais que se distribuíram para os convites foram pela forma e modo que se segue, que é a cópia de dois bilhetes originais de que me fizeram presente uma família da minha amizade, que também foram convidados.


1.º Bilhete para o Pai de Família

O Governador de Paris, Primeiro Ajudante de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, General em Chefe dos Exército francês, espanhol e português

Convida ao Sr. Duarte Joyce para lhe fazer a honra de vir passar a tarde em sua casa no dia quarta-feira 6 de Janeiro pelas oito horas da noite. 
Há de haver dança. 

Em 3 de Janeiro. 
Pede-se resposta.



2.º Bilhete dirigido à Família

O Governador de Paris, Primeiro Ajudante de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, General em Chefe dos Exército francês, espanhol e português

Convida a Sr.ª Duarte Joyce e as suas filhas para lhe fazer a honra de vir passar a tarde em sua casa no dia quarta-feira 6 de Janeiro pelas oito horas da noite. 
Há de haver dança. 

Em 3 de Janeiro. 
Pede-se resposta.



É notável o que se lê na cabeça destes bilhetes, não só pelo seu estilo e exótico formulário, mas pelo peso dos títulos, muito mais carregado do que mesmo nos Decretos que fazia expedir, onde nunca declarou ser General em Chefe dos Exércitos espanhol e português.
Um semelhante estilo decorrente mostra que aquele General se entusiasma em extremo com os títulos dos seus cargos; visto que nem nestes casos os dispensa, assemelhando-se a um cavalheiro espanhol de quem se conta blasonar tanto dos seus brasões, que até nos palitos mandava pôr as suas armas".

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[Nota: Todo o texto que acima se publica é uma cópia de Domingos Alves Branco Muniz, Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa..., fls. 47-48]

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Os primeiros motins na capital e as reações de Junot


Nota: O texto que abaixo se transcreve provém da obra manuscrita de Domingos Alves Branco Muniz, Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa..., fls. 32-35. A nota com a letra é do autor, as restantes (numeradas) são nossas.



"Quando o povo de Lisboa estava persuadido de que o Exército francês e o seu General em Chefe tinha entrado no Reino de Portugal para o proteger, como tinha proclamado debaixo das ordens do Governo provisional que V.A.R. [Vossa Alteza Real] deixou, pelo contrário se viu no dia 13 de Dezembro, logo ao romper do dia, içar-se [a] bandeira francesa no castelo de Lisboa, firmada com uma salva de 21 tiros, o que imitaram as torres e fortalezas, e igualmente todos os navios de guerra portugueses correspondendo com iguais salvas.
Amotinou-se o povo, como era de  [se]  esperar com este inesperado sucesso1, e por todos foi inteiramente desaprovado.
Já no dia antecedente tinha determinado o General em Chefe que se juntasse no dia seguinte de manhã toda a tropa francesa, tando de Cavalaria como de Infantaria, para se lhe passar revista no largo do Rossio, para onde se encaminhou o mesmo General em Chefe pelas onze horas da manhã, vestido de grande e rico uniforme, e acompanhado por todos os Generais seus imediatos; pelos Generais de Divisão, e Oficiais maiores, e pelo Conde de Novion, que era inseparável do lado do General em Chefe.
A guarda que nesta ocasião o acompanhou era composta de um Esquadrão de Cavalaria francesa e outro Esquadrão do Corpo da Polícia. Eu fui assistir a esta revista pela curiosidade de orçar o número de tropa de que ela se compunha, e achei ser de oito mil homens pouco mais ou menos, inclusive o Corpo de Artilhariaa.
Logo que o General em Chefe chegou ao largo do Rossio, depois de receber as continências que lhes eram devidas, ordenou ao General Delaborde que mandasse formar um quadrado, o que, executando com toda a destreza, se foi o mesmo General postar no seu centro com todo o seu Estado Maior, e aí, em nome do Imperador e Rei, fez à mesma tropa a fala seguinte:




Gravura representando Junot 
a passar revista às suas tropas no Rossio




Fala

Soldados franceses, bravo Exército de Gironda:
Da parte do Grande Napoleão vos agradeço a constância com que tendes sofrido todos os trabalhos e fadigas da nossa marcha. O céu protege o fim a que nos propusemos, de salvar a mais bela cidade da opressão dos ingleses e da desordem; finalmente temos a glória de vermos arvorada a bandeira francesa neste posto. Soldados, oficiais e Generais, eu estou contente do vosso comportamento. O Grande Imperador Napoleão 1.º saberá compensar os vossos trabalhos e conduta, e por isso é preciso que digamos todos:
Viva o Imperador Napoleão.



Assim se executou porque logo que o General em Chefe finalizou aquela fala, tirou o chapéu, e levantando-o muito acima, foi ele o primeiro que deu três vivas ao Imperador e Rei, ao que todo o Exército correspondeu com iguais vivas, concluído o que tornando à forma de batalha, se retiraram os Corpos para os seus quartéis, e igualmente o General para o da sua residência, acompanhado com a mesma pompa, a esperar as pessoas que no dia antecendente tinham sido convidadas para nesse dia jantar com ele, e para o que se preparou uma mesa de cem talheres, com muita profusão e delicadeza; e aonde jantaram os membros do Governo da Regência, o Núncio2o Almirante russo, a maior parte da grandeza do Reino e alguns tribunalistas, menos o Intendente da Polícia, que não foi convidado.
É digno de notar-se que sendo o General em Chefe hóspede do Barão de Quintela, e sendo este o que fez toda a despesa deste jantar, assim como fazia a diária dos demais dias, foi convidado por uma carta para jantar com o General Mr. Junot na sua casa. Assim o dizia a carta.

Acabando de jantar às oito horas da noite, se encaminharam alguns Generais franceses para o Teatro de S. Carlos [gravura à direita], que nessa noite estava ricamente adornado, e com grande iluminação. A tribuna de V.A.R. foi prostituída aos Generais que tiveram o desacordo de nela se assentarem. Logo que na mesma tribuna apareceu o General em Chefe, deram os franceses três vivas ao Imperador e Rei, outros três ao General em Chefe, que retumbaram porquanto o sobredito General tinha com antecipação disposto tudo, mandando comprar 400 bilhetes de plateia e 60 de camarotes, que foi tudo distribuído pelos Generais, Oficiais maiores e Oficiais subalternos do Exército.

Findo o primeiro acto da ópera, e antes de se dar princípio à dança, mandou o General em Chefe subir a [banda de] música do Regimento de que ele é Coronel ao anfiteatro que se acha por cima da real tribuna, a qual, rompendo uma sinfonia harmoníaca e análogo ao lugar, ao mesmo tempo se viu tremular por cima das Armas Reais de V.A. uma grande bandeira francesa, repetindo todos os Oficiais franceses nesta ocasião três vivas ao Imperador e Rei, e outros três ao General em Chefe, conservando-se a mesma bandeira até finalizar a ópera.
O comportamento que nesta ocasião tiveram os portugueses que desgraçadamente ali se achavam foi qual se podia esperar de uma nação sempre fiel aos seus soberanos. Não houve uma só pessoa que acompanhasse aquela vozaria, e nem que tirasse o chapéu da cabeça, ou se pusesse de pé, estando sentado, mostrando de improviso nos seus tristes semblantes a mágua que lhe ocupava o coração e os desejos de despicar semelhante afronta, contentando-se então por desabafo em saírem como sairam para fora do Teatro, deixando ficar unicamente nele aos mesmos franceses.
Se por todos aqueles anteriores acontecimentos se achava o povo indiposto e descontente, em ponto tão visível que até as prostitutas mais corruptas não lhes abriam a porta, muito mais se aumentou a indisposição pelo inesperado acontecimento de arvorarem a bandeira francesa, produzindo isto um grande ajuntamento no Terreiro do Paço e Rossio, a que se uniram muitos rapazes que gritavam em alta voz: Viva o Príncipe Regente. E como acudisse a guarda francesa a sossegar o tumulto, foram de tal modo apedrejados pelos rapazes que, deixando armas, desamparam a guarda.
Tocou-se a rebate e acudiram todas as tropas francesas a esta desordem, desfilando pelas ruas e por todas as entradas das ruas da cidade baixa um piquete de Cavalaria, e o Corpo da polícia foi encarregado de sossegar o povo, que de novo se mostrou inquieto, quando o Conde de Novion apareceu no Terreiro do Paço, o qual sofreu muitos e justos impropérios do povo, que a uma vós bradavam: Fora traidor3.

Continuou esta desordem toda a noite e parte da manhã do dia seguinte, e o povo cada vez mais cheio de entusiasmo, não era nada equívoco o que eles pretendiam: que era o sinal dum chefe que os dirigisse. E suposto que o General Mr. Junot afectou que semelhante sucesso não lhe dera cuidado, e que nem tinha merecido o trabalho dele calçar as botas; contudo, isto se desmente, porque quem não tem receio não manda dobrar as guardas; nem destaca patrulhas de Cavalaria por todas as ruas; e menos manda guarnecer a entrada do palácio da sua residência com duas peças de artilharia do calibre de 8, com destacamento de artilheiros, e com morrões efectivamente acesos, como ele pôs em prática, e por muitos dias.







Fonte: BND
Guarda da Cavalaria da Polícia de Lisboa,
comandada pelo Conde de Novion





Foram mortos nesta pequena insurreição sete pessoas, a saber: três franceses e quatro portugueses, o que tudo deu motivo à seguinte proclamação do General em Chefe:



Proclamação


O Governador de Paris, Primeiro Ajudante de Campo de S. M. o Imperador e Rei, General em Chefe:

O maior de todos os crimes é a Rebelião

Vós vos deixastes arrastar ontem por alguns maus indivíduos que para vos comprometer se atreveram a atirar às minhas tropas, estando entre vós. Eu os conheço; eles pagarão com a sua cabeça o insulto que se atreveram fazer à bandeira francesa; mas eu não confundo entre os maus os honrados habitantes de Lisboa; e pela segurança dos bons cidadãos é que eu determino o que se segue:
Todo o ajuntamento de qualquer natureza que ele seja, é proibido.
Todo o indivíduo que se encontrar armado num ajuntamento será conduzido à Comissão Militar criada pelo meu decreto da data de hoje, para ser julgado, e sentenciado a três meses de prisão, se ele se não serviu das suas armas, e no caso de ter feito uso delas, contra quem quer que for, será condenado à morte.
Todo o indivíduo que for preso num ajuntamento, convencido de ser um dos chefes, ou cabeça de motim, sofrerá a pena de morte.
Dado no Palácio do Quartel-General em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1807.
Junot






Como em todo o tempo daquele movimento tumultuoso não tinha aparecido o Intendente Geral da Polícia [Lucas de Seabra da Silva], foi chamado à presença do General em Chefe, que depois de o fazer esperar na sala vaga perto de três horas, lhe apareceu perguntando-lhe, sem lhe fazer cortejo algum, o que tinha sucedido nos dois dias antecedentes e aonde se tinha ele achado; ao que respondeu o Intendente que «não sabia»; e Mr. Junot lhe replicou: «Logo vós sois um mau Intendente da Polícia». «Não duvido», respondeu Lucas de Seabra, «e tão mau que quanto Sua Alteza Real me quis conferir este cargo, eu lhe apresentei a minha insuficiência; e agora que o Sr. General em Chefe a reconheceu, eu peço a minha demissão». «Não aceito», respondeu Mr. Junot, «pode continuar».
Tendo o General em Chefe, havia dias, mandado chamar o Marquês de Vagos4, que por muito doente não pôde cumprir a ordem, no dia 15 de Dezembro, porém, em que se achava melhor, apresentou-se ao referido General. Foi recebido com muita atenção e benevolência, sistema que adoptam os franceses do crocodilo, que afaga quando quer engolir, e lhe propor que era melhor reunir a tropa portuguesa com a francesa, para fazerem um só corpo, e mesmo usando todos do mesmo laço do Imperador no chapéu. Ouviu o Marquês de Vagos esta proposição sisudamente e sem interromper ao General francês; ao que respondeu: que ele não considerava o Reino de Portugal conquistado, mas que se o estava, então ele e todos os militares portugueses eram prisioneiros de guerra; mas que se não era conquista, como estava claro, e sem embargo disso Sua Excelência quisesse teimar na sua proposição e constrangê-lo, que ele lembrava que o mês de Janeiro era em Portugal o mais funesto para os velhos, e que nesta consideração lhe era indiferente morrer no mês de Dezembro em que se achava, ou no outro que se lhe seguia, e com esta resposta se despediu de Mr. Junot".


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a. [Nota do autor] "O Exército francês de Portugal compunha-se de 8 mil homens em Lisboa; e 5 mil guarnecendo Mafra e seus distritos na borda d'água; as torres, fortalezas e navios".

1. O autor deste texto diz que tal acontecimento foi inesperado; mas deve estar referindo-se ao hastear da bandeira no castelo de São Jorge. De facto, Junot tinha escrito a Napoleão, no dia 2 de Dezembro, referindo-lhe que "o Pavilhão francês flutua sobre o porto de Lisboa há dois dias [ou seja, desde o dia 30 de Novembro]; foi saudado por cem tiros de canhão, e ninguém o retirará sem antes passar sobre os corpos do exército de Vossa Majestade e do seu General em Chefe" [JUNOT, Diário da I Invasão Francesa, p. 109].


2. Referência ao Arcebispo de Nisibi (actual cidade turca de Nusaybin), D. Lourenço de Caleppi (ou Callepi), que se encontrava em Lisboa na qualidade de Núncio Apostólico (cargo para o qual tinha sido nomeado em 1801). Apesar do príncipe regente tê-lo convidado para o acompanhar na viagem para o Brasil, o Núncio foi obrigado a ficar em Lisboa, pois chegando ao cais no dia do embarque, com a pressa e confusão já descritas, ninguém lhe tinha guardado um lugar nas embarcações... Mais adiante daremos algum destaque à sua atribulada evasão de Lisboa.

3. O Conde de Novion era um oficial francês que fugira à revolução francesa. Exilando-se em Portugal, o príncipe regente confiara-lhe desde 1801 o cargo de Comandante da Guarda Real da Polícia. Daí que o povo lhe chamasse traidor, por agora aparentemente estar a servir a Junot.


4. D. Nuno da Silva Telo e Menezes Côrte-Real (1746--1813). Era o  Comandante das Armas da província da Estremadura, como já baixo foi referido.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Momentos de ócio

Apesar  da invasão a Portugal ir contando com algumas barreiras, Junot ia aproveitando todos os pretextos para ocupar-se com outros assuntos menos preocupantes e mais agradáveis.


No dia 11 de Dezembro, depois de embarcar no cais do Sodré para ir cumprimentar o Almirante da esquadra russa ancorada no Tejo, Junot encaminhou-se "para a Quinta das Laranjeiras [cuja entrada se pode ver na fotografia à direita], aonde o esperava o Barão de Quintela com um grande baile, em obséquio do aniversário do filho primogénito do mesmo Barão. Durou a função até às três horas da noite, que foi quando o General se recolheu para a casa da sua residência" [Domingos Alves Branco Muniz Barreto, Memoria dos Successos acontecidos na cidade de Lisboafl. 31v].
No dia seguinte, era a vez do Marquês de Abrantes regalar Junot com um convite para uma caçada em sua honra. Ainda "neste mesmo dia chegou de Paris um correio com a notícia de que a esposa do General em Chefe tinha dado à luz uma menina [na verdade, era um menino, que nascera a 25 de Setembro], e não tardando em se divulgar por Lisboa semelhante notícia, se dirigiram logo a cumprimentar ao mesmo General os Governadores do Reino, a grandeza[=nobreza] e outras pessoas; e neste mesmo dia foi também que se deu princípio à partida do jogo do Whist, de que é extremamente apaixonado o General Mr. Junot, e por preço muito caro e com grandes apostas, que dobram segundo o excesso das vazas. Até à minha partida de Lisboa, eram parceiros certos o comendador Barreto, Manuel José Sarmento, o provedor do seguro Francisco Manuel Calvete e o Barão de Quintela" [id., fl. 32].