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domingo, 11 de setembro de 2011

Plano da batalha do Vimeiro, publicado no periódico The National Register de 11 de Setembro de 1808






Uma relação da Batalha do Vimeiro
servindo de explicação ao plano da batalha


A Batalha do Vimeiro iniciará uma época importante na nossa História. É um daqueles acontecimentos decisivos que não só terminam uma campanha e aniquilam os recursos do inimigo naquela região, mas que produzem uma superioridade decidida nas operações posteriores dos vitoriosos. Neste aspecto, apresenta uma forte semelhança com as batalhas de Marengo, Ulm e Jena. Ela mudou completamente as características da guerra. Os franceses, que têm tido durante tantos anos o hábito de abrirem fogo e devastarem os Estados dos seus inimigos, e dos seus exércitos subsistirem às custas destes últimos, estarão agora limitados à necessidade de defenderem as suas próprias fronteiras contra uma força invasora. A relação transmitida por Sir Arthur Wellesley é tão clara e judiciosa que seria presunçoso acrescentar-lhe algo.

[Seguia-se um excerto da citada carta de Wellesley a Sir Harry Burrard]


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sancho alias Ioe Butt's entertainment on taking possession of his new Government!, caricatura de Isaac Cruikshank (30 de Agosto de 1808)




Distracções de Sancho, também conhecido por Zé Pipa, na tomada de posse do seu novo Governo!
Caricatura de Isaac Cruikshank, publicada a 30 de Agosto de 1808.



Esta caricatura alude à tomada de posse do novo governo de José Bonaparte (que abdicara do trono de Nápoles para reger a Espanha, segundo a nomeação do seu irmão Napoleão), que, ao chegar a Madrid, no dia 20 de Julho de 1808, viu-se cercado por diversas províncias rebeladas. O governo de José não foi reconhecido na maior parte dessas províncias, que bloquearam Madrid à distância, impedindo o acesso a víveres que faltavam na capital. A manutenção do exército francês tornou-se rapidamente insustentável, e, ao tomar conhecimento da derrota de Dupont em Bailén, José Bonaparte viu-se obrigado a dar ordens, logo no dia 30 de Julho, para o seu exército evacuar Madrid. Significativamente, Isaac Cruikshank chama Sancho ao monarca, aludindo assim à tomada de posse do efémero governo da ínsula da Bataria por parte de Sancho Pança, o escudeiro realista e prático do idealista D. Quixote (que seguindo a analogia, seria Napoleão*). 
O título da caricatura diz ainda que Sancho tem um outro pseudónimo, Joe Butt, sendo que butt, entre outros, tem o significado de "pipa de vinho", referência à alcunha com que o monarca ficou conhecido na Espanha, Pepe Botella ("Zé Garrafa", em português). Este sentido é reforçado pela imagem que encima o trono de José Bonaparte, no meio de parras e cachos de uvas: um pequeno Baco, de taça e garrafa nas mãos, sentado precisamente sobre uma pipa. 
Sancho, ou Zé Pipa, está sentado no centro da mesa, de babete ao peito e de faca e garfo nas mãos, mas tem o prato vazio. Como não há cadeiras para todos, parece que os espanhóis que aparecem na sala não foram convidados para a refeição, e irromperam na cena somente para esvaziar a mesa do monarca. Um bispo retira do alcance de José um prato de "galo bravo das Astúrias", e, com o braço estendido ameaçadoramente em direcção ao monarca, diz-lhe: "Não toqueis - não proveis - vil usurpador - desaparecei - ide-vos embora - ou então provareis dez mil mortes em cada prato, tudo preparado para vós e para o vosso bando de assassinos sacrilégios". O prato de "galo bravo das Astúrias" é passado a um outro espanhol, em cujo chapéu está inscrito F[ernando] VII, o qual afirma: "Por Santander! Isto será suficiente para o rei Fernando, ele adora a cozinha asturiana". José Bonaparte, nitidamente irritado, vira-se para o Bispo e diz: "Oh Diabo! Dom Bispo, não me dais um pouco? Rogo que me deis algo"**
Aproveitando a distracção momentânea do monarca, o espanhol que está imediatamente à sua direita retira da mesa um prato de "ganso de Madrid", enquanto atrás deste vê-se um outro saindo com um prato de "bife de Lisboa", o qual, virando-se para trás, diz ao monarca: "Sim, canalha, dar-vos-ei algo: viestes aqui para roubar a Coroa de Fernando - agora dar-vos-ei uma coroa [moeda britânica] para comprardes um cabresto". À esquerda deste espanhol vêm-se outros a levar mais pratos: "pudim da Catalunha", "tartes da Extremadura", um prato não identificado da Biscaia e outro de Leão, e "nozes de Barcelona". 
À frente da mesa, entre outros três espanhóis que levam pratos de "sopa da Andaluzia", "laranjas de Sevilha", e "guisado de Burgos", está uma pilha de "saques para Paris", onde  se vê uma coroa, dois crucifixos, alfaias religiosas de ouro e prata e sacos com dólares. Em cima da mesa somente resta um galheteiro com "vinagre de Bayonne", um saleiro com "sal de Minorca", um prato com "presunto de Múrcia", e outro com um "caboz de Portugal", que está prestes a ser retirado pelo personagem que está atrás do Bispo. 

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Notas:

* A propósito da analogia entre D. Quixote e Napoleão (aqui aludida apenas indirectamente; ver a este propósito a caricatura A Spanish Joke!!!, publicada poucos dias depois), recordemos um trecho duma carta que o Imperador francês escreveu no dia 5 de Novembro de 1807 ao seu ministro da Guerra, mandando-lhe dizer a Junot (que então marchava em direcção a Portugal) o seguinte: "não entendo que, sob o pretexto de falta de víveres, a sua marcha seja retardada um dia; esta razão somente serve para homens que não querem fazer nada; 20.000 homens vivem em qualquer lugar, inclusive no deserto"... [Fonte: Correspondance de Napoléon Ier - Tome XVI, Paris, Imprimerie Impériale, 1864, p. 165 (n.º 13327)].


** Traduzimos por "não me dais um pouco" a expressão vont you give me von little bit, frase feita com que os ingleses (bem alimentados) gozavam com os franceses (que tinham a reputação de passar fome). Existem expressões semelhantes em diversas caricaturas, veja-se por exemplo: BM Satires 5790BM Satires 8650BM Satires 9996BM Satires 10597BM Satires 11579. Ver ainda a este respeito a caricatura que aqui introduzimos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Enseada da Maceira, segundo William Bradford




Enseada da Maceira
[actualmente conhecida como praia do Porto Novo]



A frota com as tropas comandadas pelo Tenente-General Sir Harry Burrard* ancorou em mar aberto, diante desta enseada, no dia 25 de Agosto de 1808.
Enquanto ponto de desembarque, a única vantagem que surgia deste lugar era a sua contiguidade com o campo do Ramalhal, onde o exército [britânico] tinha ocupado uma posição depois da acção do dia 21. Em relação à ancoragem dos transportes e à protecção dos barcos na aproximação à costa, [este lugar] não possuía qualquer superioridade, e, tal como toda a extensão da costa desde o Douro ao Tejo, estava exposto aos ventos de oeste e à arrebentação do Atlântico.
Pouco depois da frota surgir no horizonte, enviaram-se carros para esta enseada para serem abastecidos de provisões, os quais permaneceram durante dois dias na praia, antes de qualquer barco ter podido aventurar-se até à costa. Por fim, o tempo tornou-se mais favorável, a arrebentação diminuiu, e o desembarque começou, mas não foi concluído sem riscos consideráveis e algumas perdas.
O rio da Maceira [Alcabrichel] dá o seu nome a esta enseada, e é aqui, quando está caudaloso pelas chuvas de inverno, que encontra uma passagem para o oceano. No Verão, mal se percebe a sua corrente, e como tem pouco caudal para passar através dos bancos de areia grossa que a arrebentação formou, termina numa pequena lagoa, e desaparece gradualmente na areia.
Os primeiros exemplos de habitações portuguesas encontram-se numa aldeola [Maceira] por onde passa a estrada, a qual se encontra a uma milha e meia do mar e à mesma distância do Vimeiro. Esta [última] aldeia, que fica directamente a leste da enseada, consiste em cerca de cem casas construídas sobre uma colina, numa região parcialmente cultivada, abundante de matas de pinheiros, das quais a resina da esteva e da murta formam a vegetação rasteira e proporcionam a fragrância mais agradável.

[Fonte da gravura e do texto: Sketches of the Country, Character and Costume in Portugal and Spain, made during the Campaign, and on the Route of the British Army in 1808 and 1809. Engraved and Coloured from the drawings by the Rev. William Bradford, A.B. of St. John's College, Oxford, Chaplain of Brigade to the Expedition. With incidental illustration, and appropriate descriptions of each subject, London, Printed by William Savage, 1809, p. 1. Existe uma outra edição, de 1810, que pode ser descarregada a partir daqui].


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Nota: 


* Por "tropas comandadas pelo Tenente-General Sir Harry Burrard" deve-se entender o corpo de John Moore. Como já trás referimos, Sir Harry Burrard tinha-se destacado da frota que transportava este corpo à altura do cabo Finisterra, chegando na noite de 20 de Agosto à enseada da Maceira ou praia do Porto Novo, embora só tivesse desembarcado na tarde seguinte. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego, segundo Henry L'Evêque







The landing of the british Army at Mondego Bay

O desembarque do Exército britânico na baía do Mondego


Nesta gravura, Henry L'Êveque representou o desembarque do exército britânico comandado por Wellesley em Lavos, na margem sul do Mondego, perto da Figueira da Foz (que se vê na outra margem). Deveu-se ao Capitão Pulteney Malcolm (comandante do Donegala boa execução do desembarque, que se prolongou durante os cinco primeiros dias de Agosto de 1808, devido sobretudo à arrebentação das ondas naquela parte da costa portuguesa, que dificultou as manobras. Como a gravura assinala, este exército recebeu logo a ajuda dos portugueses da zona, através do fornecimento de botes para o desembarque, cavalos, mulas e burros, carros de bois, e provisões diversas. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Caricatura alusiva à incapacidade de Murat desbaratar os bandos de insurgentes espanhóis



Ainda que não esteja datada, julgamos que esta gravura foi concebida na sequência das notícias sobre a enfermidade de Murat, que começaram a circular em meados de Julho de 1808.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

6 Soldados Portugueses afugentam, aprisionam e ferem 20 Heróis de Marengo e de Austerlitz (gravura de autoria de Constantino Frias)





Esta gravura representa um confronto entre seis soldados portugueses e um grupo de soldados de cavalaria franceses (embora se vejam também três soldados de linha com o uniforme francês) que supostamente ocorreu nos arredores de Leiria, no dia 30 de Junho de 1808, de acordo com o relato de Vitorino de Barros Carvalhais intitulado Relação da marcha e do sucesso da expedição do Destacamento que de Coimbra se dirigiu a Pombal e Leiria, nomeadamente o seguinte excerto:

Perto de Leiria mandámos dois camaradas nossos a descobrir campo. Imediatamente foram cercados pelo inimigo e atacados, mas estes dois bravos portugueses dispararam suas pistolas e fizeram recuar vinte e dois franceses. Informados por eles, e temendo [que] nos escapasse a presa, deixámos as Ordenanças de Pombal, que nos seguiam, e partimos a todo o galope para Leiria. Estavam os franceses postados em linha na ponte desta cidade com ânimo de resistir. Nós os vemos, voamos a eles, e tudo foge. Metemos à estrada real em seu seguimento, mas os cavalos cansam[-se] e não podem avançar. Seis camaradas somente puderam seguir vinte franceses fugitivos; seus nomes devem passar à mais remota idade: José Joaquim de Sá, João Pedro Correia, Gonçalo Velêz Zuzarte, Joaquim Monge, Manuel José Soares da Cunha Paixão, Caetano Rodrigues de Macedo afugentam com terror vinte soldados velhos e aguerridos. Seis moços sem experiência fazem tremer vinte heróis de Marengo e de Jena! Quatro Dragões franceses de Cavalaria foram aprisionados. Um, por irmos já quatro somente, foi desarmado e dando sua palavra de honra de não arredar pé, não a cumpriu, escapando-se. Não é de admirar em tais soldados um tal procedimento!
Dos quatro camaradas, dois se demoraram com um francês que resistia; e dois partiram até os Carvalhos, perseguindo o resto. Estes dois bravos homens devem ser imortais na História. Seus nomes são José Joaquim de Sá e João Pedro Correia. O primeiro, arrebentando o seu cavalo nas alturas da Batalha, correu animosamente a pé com a espada numa mão, e a pistola na outra, em seguimento do inimigo; o segundo encarou só com três inimigos, dos quais feriu perigosamente um Gens d'armes [sic]. Os resultados deste brilhante combate foram quatro prisioneiros, cinco cavalos, três doentes que se achavam no Hospital, e quatro feridos, que ainda puderam fugir. Da nossa parte não houve o mais pequeno perigo.

[Fonte: Minerva Lusitana, Coimbra, n.º 11, 26 de Julho de 1808]


terça-feira, 21 de junho de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Gravura sobre os fuzilamentos da madrugada de 3 de Maio de 1808 em Madrid


Fonte: Europeana
Gravura de Juan Carrafa intitulada Horrível sacrifício de inocentes vítimas com que a aleivosa ferocidade francesa empenhada em sufocar o heroísmo dos madrilenos, imortalizou as glórias da Espanha no Prado de Madrid no dia 2 de Maio de 1808


Pormenor da gravura anterior



Fonte: Europeana
Outra versão colorida da mesma gravura.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Gravura sobre os fuzilamentos de 2 de Maio de 1808



Fonte: Europeana

Dia 2 de Maio de 1808 na Montanha do Príncipe Pio.
Gravura de Arturo Eusebi Valladares e A. Sagardoy

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Núncio Lorenzo Caleppi e a sua evasão de Lisboa, na noite de 18 de Abril de 1808


Lorenzo Caleppi (1741- 1817)

Lorenzo Caleppi, filhos dos Condes Caleppi, nasceu a 29 de Abril de 1741, na cidade de Cervia, nos antigos Estados PontifíciosPouco depois de ser ordenado sacerdote e alcançar o grau de doutor em lei civil e canónica, entrou para a carreira diplomática, onde começou por fazer algumas comissões secundárias. Posteriormente, foi nomeado Auditor da Nunciatura Apostólica em Varsóvia, e depois em Viena de Áustria, onde permaneceu vários anos. Em 1785 regressou a Roma e no ano seguinte foi para Nápoles, tendo o Papa Pio VI encarregado-o de tratar com aquela Corte os negócios da Igreja. Depois foi incumbido da presidência dos emigrados franceses eclesiásticos e seculares que foram recebidos nos Estados Pontifícios ao tempo da Revolução Francesa. 

Em 1796, durante as guerras revolucionárias, Napoleão é enviado ao comando de 30.000 homens para a chamada a primeira campanha da Itália. O Papa envia então Caleppi a Florença, onde consegue acordar os termos preliminares para a paz com os comissários franceses Saliceti e GarrauNo ano seguinte, Caleppi parte para Tolentino, onde assina com Napoleão  (entre outros) um tratado de paz entre a França e os Estados Pontifícios [sobre este período consultar a obra do Vicomte de Richemont, Bonaparte et Caleppi a Tolentino, Paris, de Soye et fils Imprimeurs, 1897].


Pormenor do Tratado (ou Paz) de Tolentino, concluído a 19 de Fevereiro de 1797,
onde se salientam as assinaturas de Caleppi e Bonaparte.



A paz durou pouco, pois em Dezembro de 1797, o General Duphot é morto em Roma por um soldado do Papa, facto que teve como represália a consequente tomada da mesma cidade pelas tropas francesas. Lorenzo Caleppi foge então para Nápoles, onde ainda se encontrava em 1799, quando os franceses ocuparam a cidade, não sem antes ter salvado muitos cardeais que aí se encontravam refugiados, conseguindo passá-los para bordo da esquadra portuguesa que estava ancorada naquele porto sob o comando do Marquês de Niza. Participou no conclave que sucedeu à morte de Papa Pio VI, em 1800, e no ano seguinte foi comissionado para tentar impedir uma nova ocupação do Reino de Nápoles, entrando em conversações com o General Murat. EFevereiro de 1801, o novo Papa Pio VII nomeou-o Arcebispo de Nisibi e Núncio Apostólico junto da Corte portuguesa. Antes de Caleppi se dirigir para Portugal, o Papa enviou-o para Parma, a fim de cumprimentar, na qualidade de Núncio Extraordinário, D. Luís de Borbón-Parma e D. María Luísa de Borbón, monarcas do novo Reino da Etrúriacriado apenas em Março desse ano). [Cf. Rodolfo Garcia, "Explicação", in Anais da Biblioteca Nacional - Vol. LXIRio de Janeiro, 1939, pp. 5-11]

Lorenzo Caleppi chegou a Lisboa a 21 de Maio de 1802, onde permaneceria durante os próximos seis anos. Entre 1805 e 1806, durante a estadia de Junot como embaixador da França junto da Corte portuguesa, Caleppi conviveu bastante com a esposa do General francês, Laure Junot, se é verdade o que narrou a mesma na sua obra Souvenir d'une Ambassade et d'un séjour en Espagne et en Portugal:






De facto, como conta Madame Junot no último parágrafo, Caleppi ainda se encontrava em Lisboa quando os franceses entraram na cidade, no final de Novembro de 1807; mas no entanto, ao contrário do que a Duchesse d'Abrantès refere, não foi por vontade sua que tinha permanecido em Portugal. Na verdade, apesar do próprio Príncipe Regente o ter convidado pessoalmente para partir para o Brasil, Caleppi viu-se impedido, naqueles momentos de confusão, de conseguir embarcar na esquadra portuguesa, dado que quando o tentou fazer já as embarcações estavam completamente abarrotadas. Ainda assim, o Núncio nunca se demoveu de continuar a tentar partir para o Brasil, como inclusive teve a oportunidade de comunicá-lo a Junot logo que este chegou a Lisboa. 
Depois de quatro meses vendo-se impedido por Junot para conseguir levar a cabo a sua ideia, Caleppi seguiu o exemplo de muitos outros (como por exemplo o Bispo do Rio de Janeiro, que o tinha feito a 4 de Março) e embarcou na noite de 18 de Abril a bordo duma pequena embarcação de pescadores que o conduziram para fora da barra de Lisboa, onde o esperava um navio português que tinha fretado para o conduzir ao Brasil. 
Pelo mau estado em que este navio português ficou ao fim de poucos dias de viagem, Caleppi viu-se obrigado a passar para uma fragata inglesa que escoltava o referido navio, acabando por ir parar à Inglaterra. Este facto atrasou muito a sua chegada ao Rio de Janeiro, que só ocorrerá a 8 de Setembro do mesmo ano, depois de ser conduzido num navio inglês. Caleppi permanecerá nessa cidade até à sua morte, em 1817, sendo por isso considerado o primeiro Núncio do Brasil. 

Ao saber da fuga do Núncio através de uma carta que o próprio lhe escrevera e que mandara que lhe fosse entregue no dia seguinte ao da sua partida, Junot ficou bastante irritado, dando a Vicenzo Macchi, Auditor da Nunciatura que tinha permanecido em Lisboa, o prazo de 24 horas para sair da cidade e de 4 dias para sair do país, declarando que o Núncio tinha praticado uma conduta astuciosa e que tinha faltado à sua palavra de honra, ao passar para a esquadra inglesa (crime condenado à pena de morte, segundo um decreto de Junot de 5 de Abril). 
Tendo conhecimento deste facto somente no início de 1809, Caleppi escreveu então uma réplica a Junot, justificando a sua conduta e tentando demonstrar que afinal tinha sido o próprio General francês quem tinha faltado à sua palavra de honra. Este documento teve alguma publicidade, tendo sido mandado publicar, em português e francês, pelo Príncipe Regente.

Já em 1811, o Secretário da Nunciatura, Camillo Luigi de Rossi, que acompanhou o Núncio nessa viagem, escreveu no Rio de Janeiro uma memória sobre a atribulada evasão de Caleppi, bem como sobre a sua conduta durante os quatro meses  tempo que viveu em Lisboa, fundamentando-a com diversas cartas relacionadas com os acontecimentos narrados, inclusive a acima mencionada. Este documento permaneceu inédito até 1939, data em que foi publicado nos Anais da Biblioteca Nacional (do Brasil), depois de ter sido descoberto no Arquivo Secreto do Vaticano e traduzido do original italiano por Jerônimo de Avelar Figueira de Melo, então embaixador do Brasil junto da Santa Sé. Adiante transcrevemos este  texto, bem como os seus documentos anexos

Para além deste texto, Camillo Rossi escreveu uma outra obra, publicada em português com o título de Diário dos acontecimentos de Lisboa, por ocasião da entrada das tropas de Junot, escrito por uma testemunha presencia, Camillo Luiz de Rossi [1.ª ed.: Lisboa, Casa Portuguesa, 1938; 2.ª ed.: Lisboa, ed. de Ângelo Pereira, 1944].

Finalmente, deve dizer-se que Rossi também escreveu uma biografia sobre Caleppi, onde o episódio da sua evasão de Lisboa também aparece largamente descrito: Memorie intorno alla vita del Card. Lorenzo Caleppi e ad alcuni avvenimenti che lo riguardano, scritte dal commendatore Camillo Luigi de Rossi, Roma, Tipografia della S. Congregazione di Propaganda Fide, 1843.





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Ver ainda, a respeito da evasão do Núncio:




sábado, 9 de abril de 2011

Caricatura sobre a morte dos cães vadios ordenada por Lagarde


Seguramente já depois da saída dos franceses em Setembro de 1808, foi publicada a seguinte caricatura, intitulada Protecção dos Cães e nitidamente alusiva ao edital de Lagarde de 9 de Abril do mesmo ano. Nela se vê o novo Intendente Geral da Polícia, o careca Pierre Lagarde, em primeiro plano, enxotando um cão com a perna esquerda, enquanto outro cão urina-lhe para a perna direita, ao mesmo tempo que entrega uma arma a um guarda da polícia de Lisboa (conforme o 3.º artigo do referido edital), dizendo-lhe "matai-os com esta pistola" (tuez-les avec ce pistolet). Ao fundo vêem-se dois homens ocupados a matar outros cães, enquanto um terceiro leva um já morto para a carreta.
Note-se que os cães vadios já acompanhavam os franceses numa outra caricatura sobre a entrada dos protectores em Portugalaparentemente do mesmo autor.



Pergunta: Que traria a Portugal 
a Francesa protecção?
Resposta: Trouxe aos Cães tirana morte,
Aos Homens fome de cão.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

A ode Napoleão o Grande (1808) e outros poemas laudatórios de Luís Rafael Soyé (apontamento bio-bliográfico)





Segundo Inocêncio da Silva, Luís Rafael Soyé "nasceu em Madrid a 15 de Abril de 1760, filho de pais estrangeiros, sem contudo constar precisamente a que nação pertencessem. [...] Seja o que for, é certo que Soyé veio para Lisboa trazido ainda na primeira infância por seus pais, que em breve faleceram, correndo a sua educação, ao que posso julgar, por conta do morgado da Oliveira João de Saldanha Oliveira e Sousa, depois primeiro conde de Rio Maior, que parece haver sido o seu protector durante muitos anos. Consta que fizera os estudos de humanidades no seminário de Rilhafoles, dos padres da congregação de S. Vicente de Paulo, e que aprendera também as artes da pintura e gravura a buril, do que nos deixou documento em algumas estampas das suas Noites Josefinas.
Aos 29 de Outubro de 1777 professou a regra franciscana no convento de Nosso Senhor de Jesus da terceira Ordem da Penitência, e passando a seguir os estudos maiores na Universidade de Coimbra, aí fez alguns actos em teologia, com desembaraço e aceitação de seus mestres, que muito o distinguiram. Mas tenho para mim que não chegou a graduar-se naquela faculdade, embora pelo tempo adiante ele se inculcasse como «doutor» nos rostos de alguns opúsculos que em França deu à luz. Ou porque tivesse abraçado constragido a vida monástica, ou porque a sua vocação para ela se desvanecesse, é facto que resolveu voltar para o século, impetrando de Roma um breve pelo qual lhe foram anulados os votos claustrais, e passou ao estado de clérigo secular em 1791. Já anteriormente, a contar de 1786, havia publicado algumas obras poéticas, composições dos seus primeiros anos, as quais foram muito aplaudidas por uns e censuradas por outros, como acontece quase sempre. 
Pelos anos de 1802, saiu de Portugal para França, incumbido (segundo dizem) pelo ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, de escolher e comprar livros para a Biblioteca Pública de Lisboa, então recentemente organizada. Terminada esta comissão, resolveu ficar em Paris, onde parece [que] se estabeleceu com loja de livreiro" [Fonte: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Quinto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1860, p. 316].


Seis anos depois de se estabelecer em Paris, Soyé chamou a atenção do Imperador da França ao publicar uma ode intitulada Napoleão o Grande. Emperador dos Francezes, Rei D'Itália - Ode Pindarica, na qual se podia ler, entre outras passagens laudatórias:

D'Hércules, de Jasão, de Grécia e Roma
Que são os vãos triunfos,
Comparados c'os feitos espantosos,
Que dos Galos intrépidos à frente
Dá meu Herói à Fama:
Qual homem nunca obteve
Arrebato ser à glória tanta
[Fonte: Luis Rafael Soyé, Napoleão o Grande. Emperador dos Francezes, Rei D'Itália - Ode Pindarica, Paris, Imprensa de P. Didot Primo Genito, 1808, p. 37].



Esta ode saiu à estampa em edição bilingue, cuja tradução foi elaborada por Simon de Troyes, um médico, bibliotecário, escritor e membro da Academia dos Árcades de Roma (que curiosamente era pai do General Édouard-François Simon, que viria a ser ferido e capturado na batalha do Buçaco, a 27 de Setembro de 1810).



Frontispício da primeira e única edição da ode Napoleão o Grande de Luís Rafael Soyé.


O conteúdo desta ode, praticamente "inédita" até aos nossos dias, é resumido pelo próprio autor da seguinte maneira:






Ainda que no frontispício desta obra conste, como acima se pode ver, que a mesma podia ser comprada (para além de na própria cidade de Paris) em Lisboa, na casa de Borel, uma das várias famílias de livreiros franceses estabelecidas em Portugal desde a primeira metade do século XVIII, julgamos que este texto não chegou a ser posto à venda na capital portuguesa durante o tempo que Junot governou o país. De facto, se esta ode chegou a ser vendida em Portugal, é no mínimo bastante estranho que o Intendente da Polícia do Reino e redactor da Gazeta de Lisboa, o próprio Lagarde, não tenha aproveitado a ocasião para fazer no dito periódico qualquer tipo de alusão a este poema, que certamente mereceria o "brilhantismo" da sua pena, pois enquadrava-se completamente naquele tipo de discurso vanglorioso e elogiador de Napoleão, tão habitual nas páginas do referido órgão de imprensa, durante o tempo em que este esteve debaixo da alçada do Governo francês (veja-se a este respeito, entre muitos outros números, o de 22 de Abril de 1808). Por outro lado, a obra parece ter sido publicada por volta de início de Abril de 1808, pois uma das primeiras referências da publicação desta ode aparece estampada, precisamente a 18 de Abril, na secção das novidades bibliográficas do Journal Typographique et Bibliographique, publicado, como a ode, em Paris (11.º ano, n.º XVI, pp. 116-117). Logo em Maio surgem também referências a esta obra em pelo menos dois periódicos alemães (Politisches Journal nebst Anzeige von gelehrten und andern Sachen, Hamburg, n.º5, Mai 1808, p. 519; Morgenblatt für gebildete Stände, Tübingen, n.º 122, 21 Mai 1808, p. 488). Ora, é sabido que as comunicações marítimas entre Portugal e a França estavam sujeitas a um rigoroso bloqueio das frotas britânicas à costa portuguesa (o que impediria a distribuição dos livros por mar), enquanto que as comunicações terrestres começaram a ser embargadas e cortadas pelos rebeldes espanhóis a partir de Maio de 1808. Estes factos podem talvez ter contribuído (se não foram mesmo a causa) para que os exemplares da ode destinados à livraria de Borel nunca tivessem alcançado o seu destino. 
Seja como for, mesmo que alguns exemplares tenham realmente chegado a Lisboa ainda durante o tempo em que Junot governava o país, a sua venda teria sido obviamente censurada e proibida logo depois da retirada do exército francês, em Setembro de 1808 (como já referimos em relação ao poema O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva). Não será assim por acaso que o referido Inocêncio da Silva, apesar de afirmar (em 1860) que possuía um exemplar desta ode, anotava que a mesma era "opúsculo muito raro em Portugal" [Fonte: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Quinto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1860, p. 318]. De facto, pode-se comprovar através duma consulta no catálogo da Porbase (Base Nacional de Dados Bibliográficos) que não existe qualquer exemplar desta ode de Luís Rafael Soyé nas bibliotecas públicas portuguesas (bem como dos outros dois poemas que se referirão de seguida). Contudo, os interessados poderão ter acesso a uma digitalização disponível on-line de um exemplar proveniente da Biblioteca Pública do Estado da Baviera.

A 20 de Março de 1811, nascia Napoléon François Joseph Charles Bonaparte (intitulado Príncipe Imperial e Rei de Itália à nascença, embora viesse a ficar mais conhecido como Napoleão II), filho do Imperador da França e da sua segunda esposa, Maria Luísa da Áustria. Luís Rafael Soyé não perdeu a oportunidade para compor uma nova homenagem, intitulada Hino ao Ser Supremo, por ocasião do feliz nascimento do Rei de Roma, traduzido para francês pelo mesmo Simon de Troyes com o título Hymne à l'Etre Suprême, à l'occasion de l'heureuse naissance du Roi de Rome (ed. bilingue, Paris, Impr. de Moreau, 1811, 7 pp.). 

Um ano depois, Soyé publicou ainda umas Profesias de Proteo no primeiro aniversario d'el Rey de Roma, traduzidas para francês por J. P. de Plombières (membro, como Soyé, do antigo Ateneu de Paris), com o título Prédictions de Protée à l'occasion du premier anniversaire de la naissance du Roi de Rome (Paris, D. Colas, 1812, 15 pp.). Tanto os versos originais como a sua tradução tiveram a honra de ser apresentados no Mercure de France, n.º DLXI, 18 Avril 1812, pp. 98-107.


Segundo Inocêncio da Silva, parece que todos estes versos "agradaram ao Imperador e foram por ele remunerados generosamente" [Fonte: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Quinto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1860, p. 316].

Contudo, tudo se alteraria em breve: em Abril de 1814, com os exército aliados da sexta coligação a penetrar por vários pontos do Império francês, Napoleão vê-se obrigado a abdicar nos termos estipulados pelo tratado de Fontainebleau, pouco mais de um mês depois de ter assinado a paz no tratado de Paris. Menos de um ano depois, Napoleão atraiçoa os tratados que tinha assinado, deixando a ilha de Elba, onde estava exilado, para regressar a Paris em Março de 1815. A resposta dos aliados ao chamado Governo dos 100 dias não se fez esperar: começa então uma nova campanha que acaba com a definitiva derrota do Imperador da França a 18 de Junho do mesmo ano, na batalha de Waterloo. Um mês depois, Napoleão é levado a bordo dum navio britânico para a remota ilha de Santa Helena, onde viria a morrer cinco anos depois. 


Perante este cenário, Luís Rafael Soyé, possivelmente logo depois da paz geral e da restauração dos Bourbons, mandou publicar trinta e nove Oitavas oferecidas ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Pedro de Sousa e Holstein, Conde de Palmela. D. Pedro de Sousa e Holstein era nada mais que o principal membro da embaixada de plenipotenciários portugueses que participara nas negociações do chamado Congresso de Viena (cuja acta final redefiniu as fronteiras dos países europeus que tinham sido alteradas directa ou indirectamente pelas guerras napoleónicas, prevendo-se, entre muitos outros pontos, a restituição de Olivença a Portugal, o que nunca se chegou a cumprir). Tentando, através da benevolência do conde, obter permissão régia para regressar a Portugal, Soyé, desiludido, anunciava então que


Com ele [=Napoleão] m'enganei, como iludidas
As colossais Coroas s'enganaram;
Na lista está dos monstros cujas vidas 
No começo esperanças derramaram;
Das convulsões cruentas, homicidas,
O remédio os Anciãos lhe confiaram;
Mas ébrio co'a ambição, que o cega e engoda,
Gargantua engolir quis a Europa toda.
[...]

Cansado já de tanto desvario,
Pelos dentes dos anos maltratado;
Quero tornar ao Tejo, augusto rio;
Qual torna à choça o lavrador cansado:
Da existência sentindo o débil fio
Desatar-se; qual cisne desasado
Quero aos meus em lugar de mortal pranto
Grato morrendo tributar meu canto.
[...]

Ilustre Conde, já que seu desvelo
À pátria conseguiu abandonadas
Ameias [=Olivença]; já que seu sapiente zelo
Intrigas destruiu já sancionadas:
De Vulcano co' rígido martelo
Quebre as duras cadeias, que obstinadas
Me separam da pátria, e grato Apolo
Por mim vos cantará de pólo a pólo.

Quando assanhada a destruição ruinosa
Armando o seu furor de fogo, e ferro;
De Atenas a Deidade pavorosa
Deixa os Liceus pelo deserto cerro:
Só a alma dum Mecenas vigorosa
Das Musas evitar pode o desterro:
Desde o Olimpo, Senhor, Jove potente
Os olhos em vós fita providente.
[Fonte: Luís Rafael Soyé, Oitavas oferecidas ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Pedro de Sousa e Holstein, Conde de Palmela, Paris, Impr. de Lefebvre, 1815 (16 pp.), apud Andreia Amaral, «A Josefinada» de Manuel Rodrigues Maia: Um poema joco-sério sobre um caso de plágio no final de Setecentos, Porto, 2007, pp. 91-92 (Dissertação de Doutoramento em Literatura apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto)].


Apesar de ter ficado malquisto em Portugal pelos poemas que dedicou a Napoleão e ao seu filho, parece que o engano de Luís Rafael Soyé foi desculpado pelo Príncipe Regente, que inclusive lhe atribuiu uma renda de 240 contos de réis, segundo se percebe duma lista das pensões atribuídas por Sua Alteza Real até ao ano de 1819 [Fonte: A. J. de Mello Moraes, Corographia Historica, Chronographica, Genealogica, Nobiliaria e Politica do Imperio do Brasil - Tomo I. Segunda Parte, Rio de Janeiro, Typographia Brasileira, 1863, pp. 88-92, p.89].


Em data incerta, partiu para o Brasil, e segundo Inocêncio da Silva, "ali conseguiu enfim que por ele se interessassem algumas pessoas influentes, e obteve [a 23 de Novembro de 1820] a nomeação de Secretário da Academia das Belas Artes, lugar que pouco tempo desfrutou" [Fonte: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Quinto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1860, p. 316]


No final dessa década, já após a independência do Brasil, Soyé volta a cair em desgraça, sendo condenado a três anos de degredo na ilha de Santa Catarina "por excessos de liberdade da imprensa cometidos contra a Câmara de Deputados". Depois de ter feito um requerimento ao Conselho de Estado, os membros deste, unanimemente, perdoaram-lhe  o degredo, a 11 de Abril de 1829, "em atenção à sua idade de mais de setenta anos, e outras circunstâncias que o tornavam digno da Imperial Comiseração [...], subsistindo todavia a multa pecuniária que devia satisfazer", na quantia de 400 mil réis [Fonte: Sessão 26.ª do Conselho de Estado (11 de Abril de 1829), in Segundo Livro de Atas do Conselho de Estado (1822-1834)]

Dois anos depois, Luís Rafael Soyé tem uma morte trágica: "atacado de paralisia [...], e fugindo-lhe de casa um preto, única pessoa que consigo tinha, permaneceu assim em total abandono durante alguns dias, até perecer miseravelmente de fome, como se reconheceu pela achada do cadáver já putrefacto, quando a falta de notícias suas despertou nos vizinhos a curiosidade de se informarem do acontecido!" [Fonte: Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez - Tomo Quinto, Lisboa, Imprensa Nacional, 1860, p. 317]. Teixeira de Mello aclara que foi no dia 12 de Novembro de 1831 que o cadáver de Soyé foi encontrado, sendo no mesmo dia "sepultado no convento de Santo António, na corte [do Rio de Janeiro], na capela de Nossa Senhora da Conceição, na sepultura n.º 9" [Fonte: J. A. Teixeira de Mello, Ephemerides Nacionaes - Tomo II (Julho - Dezembro), Rio de Janeiro, Typographia da Gazeta de Noticias, 1881, p. 241]


Como escrevera o próprio Soyé quatro décadas antes:

Quanto é vário o Destino! Quão volúvel
Dos homens distribui as várias sortes!
A uns castiga com eternos loiros,
Premeia a outros com infaustas mortes.
[Fonte: Luís Rafael Soyé, Noites Jozephinas de Mirtilo sobre a Infausta Morte do Sereníssimo Senhor D. Joze Principe do Brazil, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1790, p. 214].