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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pastoral do Arcebispo do Évora (8 de Setembro de 1808)



Dom Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Arcebispo Metropolitano de Évora, com Jurisdição Eclesiástica nesta Diocese de Beja, etc., etc., etc. etc. 

A todos os Fiéis da mesma Diocese, Saúde e Bênção. 

Salvo dos fatais destroços da capital da minha metrópole, Évora, facilmente aproveito esta graça para repetir as observações necessárias na outra minha antiga e agora canonicamente por mim administrada capital do Bispado de Beja. Moisés temeu os destroços dos seus irmãos no Egipto, e protestou a Deus visitar e observar os que ainda viviam – Vadam et revertar ad fratres meos, ut videam si adhuc vivunt [Deixai-me voltar a meus irmãos, para ver se ainda vivem]. Esta imponderável Graça de achar os bejenses sãos e salvos da tristíssima ruína, comove a entranha para agradecer a Deus tão sensível benefício. Seus efeitos devem ser tocados em particular para animar os povos. Ainda vivemos, amados bejenses. Ainda nos resta o mesmo espírito de vida e doutrina. Ainda a Graça Divina nos fez superiores à turbulenta animosidade que se atreveu contra as nossas respirações e alento. Sim, é favor extraordinário da Providência que nos vejamos e escutemos uns aos outros, dizendo-nos: a força bruta dos Demónios, que tanto mal sugeriram aos homens e fizeram; mas achou de encontro a Dominação Celeste para nos proteger e defender, como respeitamos no Bem-aventurado Arcanjo que neste feliz território por nós intercede e nos defende, agora mais do que nunca verificou a sua denominação: Michael quis ut Deus. Sim: a Omnipotência Divina ainda foi servida conservar nestes lares as demonstrações da sua Virtude Infinita. Ainda mostra querer a continuação de seus auxílios para connosco. Ainda faz enternecer vosso Pastor à vista da vossa Religiosa Piedade; à vista da vossa resignação para com as permissões da Sua Justiça; e à vista, digo, de vossas carinhosas e constantes afeições para a vossa antiga devoção ao Senhor Sacramentado. Não é possível que vos depreendam desta filial afeição quaisquer outros cuidados temporais. Nem o necessário emprego para as coisas da Milícia, nem os cuidados económicos e domésticos, nem o estudo, nem as letras tenho conhecido serem capazes de vos desviarem e separar do Sacramento, que em boa hora penetrou vossos corações na adoração da Santíssima Eucaristia. A este Maior dos Mistérios atribuo a preservação de maiores males, a conservação da vida nas instantes angústias, sabendo entreter-se judiciosamente com as temporalidades indispensáveis nos ofícios da vida, nos empregos honrados que a distinguem, no amor da Pátria que a coonesta. Alegre com a invenção deste Tesouro, com a animação dos vossos espíritos e constância de vossos propósitos pela Religião, pela Justiça e Lei; vendo-vos interessados pelo Amado Príncipe e pela Pátria, enquanto me não repito a vós e a vossos festivos clamores de alegria, volto a outros indispensáveis ofícios, tendo presentes a minha Palavra e a vossa Fé.
Dada em Beja sob o nosso sinal e selo das nossas armas aos oito de Setembro de mil oitocentos e oito.

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls. 100-100v (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo)].

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Nota: 

No dia 13 de Agosto de 1808, Frei Manuel do Cenáculo foi preso em Évora, segundo ordens da Junta de Beja, acusado de colaboracionismo com os franceses, os quais, de facto, segundo as suas próprias palavras, tinham-lhe recomendado que governasse Évora na sua ausência (o exército francês abandonara a cidade no dia 1 de Agosto, depois de ter assassinado pelo menos 220 pessoas). Recordemos que Cenáculo já era presidente da Junta de Governo de Évora (juntamente com o General Paula Leite) antes dos franceses entrarem na cidade; não obstante, foi decretada a sua prisão, como acima dissemos. Foi transportado para Beja, onde chegou a 16 de Agosto, tendo depois a Junta de Beja declarado que lhe concederia a libertação se ele dirigisse aos povos uma pastoral "análoga às circunstâncias". A pastoral acima transcrita foi precisamente a sua resposta; contudo, não se chegou a publicar, pois, segundo as suas próprias palavras, a mesma "foi à censura, e lida no consistório disse o Presidente: Está muito escura. O Arcebispo não quer desenganar-se em falar claro a favor desta Regência?". (Por Regência entenda-se aqui a Junta de Beja, e faça-se aqui um aparte para acrescentar que estas lutas de poder e pela primazia foram nesta época bastante comuns e constantes em toda a Península Ibérica, que podia ter sido palco de várias guerras civis, se a mesma não tivesse entretida, pelo menos por enquanto, com um "inimigo comum"...). 
Como muitas outras vítimas do maniqueísmo político das auto-apelidadas Juntas (Supremas e/ou Provisórias) de Governo, na maior parte das vezes impelido pelo próprio povo, Cenáculo, ao não se pronunciar explicitamente contra os franceses, e, sobretudo, como lhe apontou o censurador, nem sequer a favor da Junta de Beja, acabaria por permanecer preso até ao início da segunda semana de Outubro do mesmo ano, já depois dos próprios Governadores da Regência terem instado à dita Junta para o libertar. Veja-se ainda, a este propósito, a segunda parte da sua memória sobre estes acontecimentos, adiante publicada.

sábado, 30 de julho de 2011

Memória de Frei Manuel do Cenáculo, Arcebispo de Évora, sobre os antecedentes e consequências dos combates de Évora



Primeiro fólio da memória
Julgo ser do meu ofício conservar uma memória exacta e individual dos acontecimentos nesta cidade de Évora, principalmente relativos à minha pessoa, que sucederam desde a intrusão dos franceses neste reino; e tomo por época o dia 13 de Julho do ano [...] passado [de] 1808.
Tendo-se recebido neste dia uma carta oficial, escrita de Juromenha pelo comandante das forças espanholas naquela praça, D. Federico Moretti, dirigida à Câmara e Povo de Évora, propondo-lhe uma declaração contra o intruso governo, foi necessário proceder ao convocamento [sic] das três ordens, Nobreza, Clero e Povo, a que eu presidi; e foi o meu voto que, visto o estado da cidade, sem tropa, nem munições, não estava em estado de aceitar proposta alguma, no que todos concordaram, e se fez [um] termo, em virtude do qual foi a resposta de que se junta cópia debaixo do n.º 1; e dela se julgaram os magistrados obrigados a dar conta ao General Junot para evitar algum rompimento violento, e me foi participado pelos mesmos ministros a boa aceitação com que foi recebido este novo arbítrio.
Continuou esta cidade a sofrer pacificamente, obedecendo às ordens do governo intruso, sujeitando-se a executar as disposições dos ministros que administravam as secretarias e tribunais na Corte, e as expediam com cominações, para evitar as quais entretinha eu com respostas que acautelassem a esta minha diocese as cruéis hostilidades que sofreram tantos povos desta perseguida nação, e até me preparei com uma Pastoral que fiz imprimir, e é a que vai junta [com o] n.º 2; a qual cuidadosissímamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808*.
Assim permanecemos, até que não sei porque clandestina diligência se convocou o mesmo Coronel [Moretti] com alguma pequena escolta a vir a esta cidade incorporar-se com o General da província [do Alentejo, Francisco de Paula Leite], para se repetir a gloriosa aclamação do nosso Amável Príncipe, tornando a governar-nos na sua feliz obediência pelas Leis Pátrias, o que com efeito se praticou, apresentando-se ao Povo na varanda das casas da Câmara o retrato do mesmo Senhor pelos dois chefes português e espanhol, sendo inexplicável a alegria de todo o Povo, com que repetia vivas, repicando-se todos os sinos e desafogando todos os seus prazeres em mil demonstrações. Fiz eu logo que na Sé se cantasse [um] soleníssimo Te Deum, se celebrasse grande festa em acção de graças, renovando eu e todos nas minhas mãos o juramento de Fidelidade ao nosso Legítimo e Saudoso Soberano.
Recebi e hospedei no Palácio Arquiepiscopal o Coronel espanhol e grande número de oficiais e tropa que com ele concorriam. Estabelecemos um Governo de Regência, do qual eu era o Presidente com o General da província. Continuámos por poucos dias neste feliz estado, deliberando quanto nos pareceu a bem da nossa segurança e comodidade pública, quando no dia fatal de 29 de Julho fomos atacados pelo numeroso exército de nove para dez mil homens franceses, comandados pelo General em Chefe, Conde do Império Loison, e por dois outros Generais de Divisão, Solignac, e Margaron; o qual exército deixava já saqueada a vila de Montemor[-o-Novo] e feita grande mortandade, apesar da vanguarda de oitocentos homens e quatro bocas de fogo que ali tínhamos para defender o passo, a qual, à vista da desproporção com o inimigo, se retirou sem alguma operação de defesa.
Chegado este exército inimigo às vizinhanças da cidade, saíram ao campo os dois chefes com o Regimento de Estremoz, o de Voluntários Estrangeiros de Moretti, os artilheiros que serviam as quatro peças espanholas, alguma Cavalaria [espanhola] de Maria Luisa, e alguma outra do dispersado Regimento desta mesma cidade [de Évora], a que juntos os Caçadores da Ordenança, formaria um total de mil e oitocentos homens. Não há palavras para explicar o valor, a intrepidez, o patriotismo e o amor do seu Príncipe com que esta desproporcionadíssima tropa, principalmente os paisanos, arrostou o inimigo, distinguindo-se muito o Regimento de Estremoz, que investia com tanta intrepidez que o mesmo General Loison me disse que eram bravos soldados; e foi tanto o estrago feito no inimigo que, passadas duas horas de combate, à vista de terem feito a mortandade de três para quatro mil homens inimigos, mandaram os comandantes vários oficiais ao Palácio de minha residência participar-me que a vitória era nossa; o que foi por mim celebrado com graças particulares dadas ao Deus dos Exércitos, que tão visivelmente nos favorecia, e cuidei em prontamente acudir com refeição aos que julgava debilitados com o trabalho da nossa defensa. 
Quando isto celebrava vejo voltarem os mesmos e mais oficiais numa fuga debandada, e passados poucos momentos chega Moretti e me diz: Está a acção perdida; se Vossa Excelência não quer morrer às mãos dos franceses, fuja e esconda-se. Eu, que tenho em meu coração as minhas ovelhas, não julguei desampará-las em perigo tão evidente: corri para a minha Catedral, e no meio do confuso alarido do estrondo dos canhões mandei propor [a] capitulação; mas já em hora que estava entrada a cidade, desamparada de defensores, pois que toda a tropa tinha fugido em desordem, e quando já entravam pela Sé disparando tiros que mataram o meu Capelão da Cruz, que com ela e com a pequena comunidade que a mim se agregou, tinha mandado para a porta da Igreja; rebentando sobre a abóbada granadas que também mataram e feriram algumas pessoas, e fizeram cair aos meus pés estilhaços e pedaços de pedra; e quando já os oficiais vencedores e soldados, apontando-me baionetas ao peito, gritavam por dinheiro, ameaçando de morte e saque violento, eu desci do sólio, suplicando-lhes humildemente pela vida deste pobre povo. Então foi que eles à vista das minhas humilhações e súplicas deram indícios de que mudavam o parecer em que vinham de que eu era o cabeça da que eles chamavam revolução desta cidade; pois que eu era o Presidente do Governo estabelecido em nome de Sua Alteza Real. 
Eu não tinha feito acto algum positivo em obséquio da sua nação, e nem sendo insinuado tinha feito a publicação de uma só pastoral, e tanto deram disto indício que o General Loison, tendo dado ordem de entrar o exército na cidade a ferro e fogo, o que foi observado de sorte que a primeira casa em que entraram saqueando foi o Palácio Arquiepiscopal; para ele disparam muitos tiros, acometendo entretanto a casa e matando o meu Bispo Provisor, e penetrando o Convento de Santa Mónica, da jurisdição ordinária, no qual entrou o mesmo General e ordenou que dentro nele seria o seu quartel, dispondo-se as aflitas religiosas com cama e mesa, até que, informado do meu comportamento humilde e pastoral, me mandou dizer à Sé pelo seu ajudante e língua[=tradutor], o português Freitas, que se queria aquartelar no meu Palácio.
Recebi este aviso com demonstrações de satisfação e até de agradecimento, e com permissão da tropa feroz que nos tinha como prisioneiros na Sé, e com o pretexto de ir preparar a hospedagem, que logo me foi recomendada que devia ser decente e abundante para um General e quarenta oficiais; isto quando a minha família estava toda dispersa, não havendo na casa provisões algumas, e até sendo já morto por eles o meu cozinheiro. Fui neste aperto para casa acompanhado de alguns eclesiásticos e diocesanos que, por carinho, por medo e para refugiarem-se me acompanharam. Entrei em casa rodeado de militares destemidos, animados com a glória do triunfo e com o arrojo de inimigos cruéis, trazendo as espadas nuas, espingardas e pistolas empunhadas, vendo-me na necessidade de os hospedar sem faltas; para o que nunca podia estar provido, e naquela ocasião muito menos. Então entra, penetrando o interior das casas, o General Loison, com a carranca de triunfador, com a soberba de tirano, e, confrontando-se comigo, me disse, com gesto feroz e ameaçador: Monsenhor Arcebispo é réu de morte; assinou um decreto contra a França; é réu de morte. Ao que eu (graças a Deus) sem o mais pequeno soçobro, e apesar do alarido com que todos os oficiais circunstantes repetiam é verdade que é réu de morte, correspondi abaixando humildemente a cabeça, e o General continuou, apartando-se de mim com gesto e passos furiosos: Ao menos devia ter dado parte.
Comecei a dispor a hospedagem e a sofrer os insultos mais humilhantes de se deitarem sobre a minha mesma cama, de penetrarem e esquadrinharem os quartos particulares; de quererem ser servidos das coisas mais esquisitas e com a maior prontidão, até obrigando alguns criados que foram aparecendo, os clérigos e frades, como também alguns senhores que se refugiaram no Palácio, o qual tive aberto e franco para refúgio dos meus diocesanos, obrigando, digo, a que os servissem de pronto, e isto com pontapés, bofetões e ameaços de espadas e pistolas.
Foram com efeito hospedados à sua vontade com tudo quanto indiscretamente pediram, e eu lhes assistia à mesa, sem embargo do perigo a que me arriscava, pois o General ia para ela com um grande punhal que punha junto a si, e os oficiais que estavam a ela e os muitos que tumultuosamente saíam e entravam, todos armados de espadas e pistolas, ameaçando todos à mais pequena falta de prontidão. À vista de todos estes sofrimentos com paciência e humildade, se resolveu o General a dizer-me que a minha casa era livre de saque, e começou a tratar-me ele e mais alguns poucos oficiais maiores com menos desprezo e tirania; mas não foi a sua palavra observada, porque por ele mesmo General foi a minha casa saqueada excessivamente; não ficou quase nada da prata de que o meu antecessor se tinha provido; fiquei sem anel episcopal; todo o copioso monetário que a tanto custo tinha juntado para deixar, juntamente com a grande livraria que tenho edificado (a qual por si só dá tanto a ver a grande despesa que tenho feito para a instrução do Clero e Fiéis deste Rebanho, que um dos oficiais de grande patente, Mr. Pillet, disse ao vê-la: eis aqui porque o Arcebispo não tem dinheiro; pois o tem gastado nisto)**Tudo quanto era ouro e prata foi saqueado, como também rasgados os livros e feitos em pedaços os manuscritos, quebrando as mais pequenas e delicadas peças do museu natural e artificial, unicamente para levarem alguns pequenos remates de prata e oiro, fazendo em pedaços imagens de Cristo e Santos, enfim, reduzindo tudo a um estado de fazer lástima ainda a quem não é curioso.
Entretanto era aturdida toda a cidade com repetidos tiros, [e] alaridos dos desenfreados saqueadores e dos miseráveis que eram feridos e mortos e que presenciavam os desacatos feitos nos templos, o forçamento das donzelas, a entrada nos conventos dos Frades e Freiras, porque quase não houve Igreja onde não obrassem o insolentíssimo sacrilégio de arrombar o Santo Tabernáculo, espalharem pelo pavimento o Sacrossanto Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado, para roubarem os vasos sagrados, até chegando a levar alguns com o mesmo Santíssimo Sacramento que derramaram no campo; profanando os mesmos Templos com homicídios e forçamentos a mulheres de todo o estado e idade.
Passada assim a tarde e noite de sexta-feira 29, fui na madrugada de Sábado rodeado pelo General e mais oficiais, mandando-me que fizesse uma exortação ao meu povo para que obedecesse à autoridade francesa, e que ordenasse o desarmamento do clero. Não tive mais remédio do que pegar na pena e com o socorro do Espírito Santo fazer as duas pequenas pastorais de que junto cópias (n.os 3 e 4); as quais, sendo por eles lidas, me ordenaram que prontamente lhe apresentasse vinte cópias delas; como também que mandasse logo cuidar em enterrar os muitos mortos de que estavam juncadas as ruas e cheias as casas; acrescentando que queriam estabelecer um Governo francês do qual seria eu o Presidente, e que lhe indicasse os membros de que se havia compor a Junta; tudo isso com sinais de que a minha vida responderia pela falta de sujeição, quando não havia na cidade pessoas de quem me lembrasse, as quais não estivessem mortas, como era o meu saudoso Bispo Provisor, os Desembargadores Manuel Simões e Fernando Silveira, e outros dispersos e fugidos. Tudo fiz auxiliado do meu clero exemplar, que com todo o fervor me ajudaram num tal aperto e aflição.
Então se seguiu que o General me tratasse com mais benignidade, protestando-me respeito, e que por mim perdoava as mortes que se haviam de seguir, como também dava a liberdade a inumeráveis prisioneiros que tinha dentro da Sé e nas cadeias, entre os quais eram muitos Frades e Clérigos, duzentos homens do Regimento de Estremoz e muitos paisanos; levando-me para isso à Igreja, e fazendo dizer pelo seu língua [=tradutor] a todos que em obséquio e respeito ao seu Prelado lhes perdoava a morte e dava a liberdade, do que resultou que esta aflitíssima cidade rompesse nos clamores de que era a mim que eles deviam a vida e o resto dos bens que lhes ficaram (veja-se a cópia junta n.º 5***). Gozava eu desta pequena respiração, quando ouço rodar quatro peças, e postarem-se na frente da minha casa, e um alvoroço e tumulto dentro nela, entrando de repente no meu quarto o general, e deixando-se cair com todo o peso num canapé, me diz: Monsenhor, eu não posso com os franceses; eu não posso conter os soldados. Ao que lhe respondi que não havendo subordinação na tropa nada se conseguia. Era o caso que acabando os oficiais de fazer uma resenha (posto que inexacta) da sua tropa e achando que os mortos lhe passavam de três mil, instavam a ele General que fosse queimada e arrasada a cidade, principiando pelo Palácio Arquiepiscopal. Acudiu Deus, e passada meia hora mandou retirar as peças, repetindo a fineza de que por mim perdoava tudo.
Passado o Sábado e o Domingo entre estas angústias e perigos próximos e evidentes de vida, é incrível quanto sofri por mim e pelos meus; choviam as ordens para desarmar (veja-se a cópia n.º 6), para aprontar rações, para arrasar muros, para franquear cofres, para mandar vir Cónegos que lhes abrissem as suas oficinas, de onde tiraram que havia de prata e dinheiro; como também de todos os depósitos públicos e particulares até que na madrugada de segunda-feira mandou o General dizer-me pelo seu Secretário, estando eu ainda na cama, que ele com o exército fazia uma digressão que duraria quatro dias; que me recomendava o governo da cidade, intimando-me mil ordens impossíveis de praticar-se, das quais ele viria saber a execução.
Dei graças a Deus por esta respiração que me concedia, e continuei com a Junta a cuidar no sossego e cómodo dos desolados habitantes desta triste cidade. Dei ordens para haver provisão de mantimentos e para que os dispersos e fugitivos se restituíssem às suas casas, e isto fiz unicamente para que o Povo deixado a si não se desordenasse e se acrescentassem os males uns aos outros.


[...]


Frei Manuel, Arcebispo de Évora

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls 82-95 (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo). Esta memória manuscrita (bem como os documentos citados) foi publicada originalmente por António Francisco Barata, com o título Memoria Descriptiva do Assalto, Entrada e Saque da Cidade de Évora pelos Francezes, em 1808, impressa a expensas do municipio em gratidão e lembrança do Arcebispo D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Évora, Minerva Eborense, 1887. Existe uma edição mais recente, cópia da anterior, com apresentação de Celso Mangucci, publicada in Cenáculo (Boletim on line do Museu de Évora), n.º 3, Setembro de 2008, pp. 3-22].


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Notas:


* Ou seja, precisamente um dia depois de se ter mandado publicar a carta da chamada deputação portuguesa. Apesar de não conhecermos cópia alguma do citado aviso de Hermann, sabemos que nesse mesmo dia 13 de Maio Lagarde enviou um ofício ao Juiz de Fora de Vila de Franca de Xira (ofício esse que possivelmente seria uma carta-circular destinada a todas as autoridades camarárias do país), no qual também se recomendava que fossem dadas ordens para que os párocos locais lessem a referida carta da deputação portuguesa na missa do "domingo seguinte ao dia da sua recepção". Nos dias seguintes, alguns bispos publicaram inclusiva cartas pastorais com agradecimentos a Napoleão por ter permitido que Portugal continuasse a ser um país independente... Já atrás inserimos duas pastorais compostas na sequência da publicação da carta da deputação portuguesa: uma do bispo do Algarve, de 21 de Maio (um mês antes de ser "eleito" vice-presidente da Junta do Algarve); e outra do próprio Frei Manuel do Cenáculo, datada de 20 de Maio (devendo-se notar, repetimos aqui, que esta última não se mandou publicar).



*"Para Frei Manuel, a Biblioteca de Évora  surge como corolário de toda uma vida em que a colecção e aquisição de livros, raridades, obras de arte e peças naturais foi uma constante, tendo sempre em vista criar bibliotecas e museus para instruir o maior número possível de pessoas, através da leitura e da observação de obras de arte ou da natureza. A criação de uma biblioteca pública era, portanto, o ponto mais alto de toda a sua actividade e gosto pelas colecções, tanto mais que vinha dotar a cidade de Évora, com uma instituição onde queria reunir o que considerava importante para o progresso do saber. Por isso, foi uma dos primeiros actividades em que se envolveu logo após a chegada. O seu Diário dá conta que os trabalhos de instalação iam a bom ritmo, sobretudo a partir de 1805. Para a biblioteca escolheu a ala ocidental do palácio episcopal, que tinha sido destinada por um dos seus antecessores para Colégio dos Meninos do Coro da Sé e que estava ligado por um passadiço ao resto do edifício, onde instalou o Gabinete, que posteriormente seria o Museu Regional. 
Os fundos bibliográficos  eram, nesta primeira fase, provenientes dos livros deixados pelo seu antecessor, Frei Joaquim Xavier Botelho de Lima e dos muitos milhares que o próprio Cenáculo trouxera de Beja que, de acordo com o inventário feito após a sua morte em 1814, seriam 50.000 volumes. As invasões e o saque de que foi alvo a cidade, pelos franceses em 1808, bem como a prisão do Arcebispo pela Junta Revolucionária, atrasaram todo o processo e a perda de parte do valioso espólio". 
[Fonte: Francisco António Lourenço Vaz, "As Bibliotecas e os Livros na obra de D. Frei Manuel do Cenáculo", in La Memoria de los Libros. Estudios sobre la historia del escrito y de la lectura en Europa y America, Salamanca, Instituto de Historia del Libro y de la Lectura- Fundacion Duques de Soria, 2004, t. II, p. 483-498].



*** (Documento n.º 5):

Nós, as pessoas da Nobreza e Povo desta cidade de Évora, fazemos saber por esta nossa atestação, a todos os senhores a quem ela for apresentada que é ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, nosso Arcebispo Metropolitano, a quem devemos as vidas que temos e as casas que habitamos; pois que sendo entrada à escala esta cidade no dia 29 de Julho passado pelos franceses e recebendo a tropa do seu General Loison a ordem de entrar a ferro e fogo, começou a executá-la disparando peças de metralha pelas ruas, matando a tiro de fuzil e à espada quantas pessoas encontravam, sem distinção de sexo, estado e idade, até entrando pela Santa Sé atirando tiros de bala, dos quais houveram vários mortos e feridos, sendo um deles o Sacerdote Capelão que estava com a Santa Cruz alçada, junto à porta, e foi morto pelo estrago dos tiros; e seria total a mortandade se o nosso Santo Prelado com virtuosa intrepidez (depois de amedrontado com baionetas apontadas ao seu peito, com alfanges desembainhados, e com o estrago de uma bomba que rebentou no tecto da Capela mor sobre a sua cabeça e arrojou próximo a ele porções de metralha e pedaços de pedras) não se prostrasse humildemente ante os Oficiais Generais, pedindo o perdão para as suas aflitas ovelhas, hospedando na sua casa o General e quarenta Oficiais, doentes uns, importunos e absolutos todos; sujeitando-se a quantas extravagantes hostilidades lhe faziam, roubando-lhe o seu copioso e rico monetário, levando-lhe todas as cavalgaduras do serviço de sua pessoa e casa, e roubando-lhe até o seu anel episcopal; pretendendo dele ordens, Pastorais, até que se sujeitasse a ser Governador da cidade; e tudo isso com pistolas na mão e espadas nuas, dando toda a certeza de que qualquer repugnância seria causa da sua morte e do estrago e ruína total desta nossa cidade, o que o mesmo General Loison manifestou publicamente na igreja, quando publicou o perdão que dava por sua intercessão não só à cidade senão ainda a duzentos prisioneiros que tinha dentro na mesma Sé; pelo que é geral a confissão que todos os que ficámos com a vida fazemos de que é ao nosso Prelado que a devemos. Isto sabemos porque o presenciámos e outros porque achámos esta notoriedade quando nos recolhemos da fuga em que andámos desterrados, por isso em obséquio da verdade e [em] sinal do nosso agradecimento o atestamos com todas as asseverações de honra e Religião.
Évora, 30 de Setembro de 1809.
Seguem-se as assinaturas da Nobreza e Povo, com o reconhecimento em forma.


Edital do Bispo de Évora favorável aos franceses (30 de Julho de 1808)



Enquanto o meu género de vida não me facilita para um longo discurso sobre a matéria que devo tratar, contudo sua qualidade importante e os seus abusos, que se devem evitar, penhoram-me para enunciar do modo possível até que melhorados dias dêem ócio e frase. O objecto não é menos que a reprovação de um abuso pernicioso ao estado moral e eclesiástico. É a reprovação, digo, de se armarem os eclesiásticos, militarmente, segundo lhes inspirar a sua imaginação indisciplinada, e extravagante sistema é este oposto ao Evangelho que professamos. Este manda ser o eclesiástico manso e humilde: ele veda o fogo e ferro manejado pelo eclesiástico; ele nos proíbe ser guerreiros e gente armada; nossa milícia é para contender com os vícios e propagar a virtude. Quanto é dissonante destes exercícios uma vida guerreira, mal animada e mal comportada! O braço que sustenta a Arca do Testamento seria torpemente distraído para empunhar o ferro e o aço. Seria introduzir no Santuário o abuso e o vício. Não há engenho nem arte que façam concordar a doçura evangélica e o estrondo das armas. Aquela é a nossa vocação legítima. O contrário seria viver exposto à sanha militar para descrédito e demonstrações tristes. Para estas ideias deve o eclesiástico regular sua vida para nem desagradar à Divindade, que o quer humilde, nem às Potências temporais, que tiram escândalo de semelhante abuso. O alvoroço militar que lhe recomendamos é a pronta obediência às vozes da sabedoria, quando chama para a sua fortaleza e para guarnecer as muralhas da cidade, com a valentia da doutrina e virtude; quando os interessa na vigia contra os assaltos dos inimigos da alma, e põem em alerta para a preservar dos insultos. Ocupados os eclesiásticos destas obrigações, jamais se deixarão enganar pelo atractivo da armadura que lhes é incompetente. A armadura doutrinal para que a sabedoria nos convida é o que a mesma sabedoria encarnada ostentou entre os homens, e dela deu mostras no Tabor, onde ensinou a ocupação sacerdotal, servindo aos ministros e sacramentos da Lei, dos Profetas e do Evangelho. Confiamos que pelo arbítrio de inspirar aos professores do nosso estado os argumentos por que se devem dirigir nos actos da sua vida, haverão de conformar-se todos ao Clero escolhido e modesto e ao espírito das Santas Escrituras. Contudo, para o fazerem meritoriamente, mandamos ao Clero de um e outro estado, secular e regular, [que] não tenham em seu poder nem usem de armas que lhe são defesas, e [que] as deponham no depósito público, aonde o governo desta cidade as tem mandado fechar. Este nosso edital será lido nas Igrejas desta cidade.
Dado em Évora sob nosso sinal, aos 30 de Julho de 1808

Frei Manuel, Arcebispo de Évora


[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls. 108-109 (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo)].

Exortação do Bispo de Évora favorável aos franceses (30 de Julho de 1808)



Da Pacem Domine in diebus nostris. 
Dai-nos, Senhor, paz em nossos dias.

Dom Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo Metropolitano de Évora, etc.
A todos os fiéis desta nossa diocese, saúde e bênção em Jesus Cristo. 

Acudir às urgências do povo com as instruções necessárias e avisos oportunos é da nossa obrigação pastoral. Nesta inquietação conseguinte às adopções do Governo é necessário fazer ver aos fiéis o perigo de um arbítrio que nem seja saudável nem útil. Quis a Providencia Divina que a nossa obediência a sujeição fosse dirigida e determinada pelo Governo do Invencível Napoleão. É necessário assentar em vaso firme, para a segurança dos nossos passos. A instrução apostólica não se ocupa de questões; o que de direito se nos apresenta é o que lemos nas Sagradas Escrituras: obedecer a quem nos preside. Isto assim observado vem a tranquilidade com todos os bens consecutivos. A este desempenho vos exorto e aconselho; certos em que esta obediência é acção cristã. Não há lugar para questões. Sempre delas se tira moléstia e desassossego. Por outra parte, nos bens negativos o bom cristão deve obrar em virtudes positivas: acreditar o melhor e obrar com aprovação meritória e decisiva. Isto assim entendido e tomado em justa resolução cumpramos, obedecendo aos Superiores da actual situação e do Império do Invencível Imperador e Rei Napoleão, e entremos em sossego no governo das nossas vidas, cada um na sorte que Deus nos dispensar. Viveremos contentes e em tranquilidade.
Dado em Évora, sob o nosso sinal, aos 30 de Julho de 1808.

Frei Manuel, Arcebispo de Évora

[Fonte: Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, Diário - 5.º Códice, fls. 107-107v (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo)].


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (4 de Julho de 1808)



Lisboa, 4 de Julho

Por ordem do Colégio Patriarcal se acaba de publicar a peça seguinte, bem própria para produzir a mais viva impressão nos ânimos verdadeiramente religiosos: aponta ela ao Clero de todo o Reino o comportamento prudente e moderado que deve seguir em meio das paixões furiosas que se procuram atiçar para fazer a desgraça de Portugal. O meio de honrar a nossa santa Religião e de assegurar-lhe novas homenagens é opor assim uma linguagem celeste aos ímpetos da ambição e da raiva, que estão unidos para chamar a parte do povo, sempre fácil de seduzir, à revolta e à morte, que é o seu castigo inevitável.


Tendo o Senhor Principal Castro, Conselheiro do Governo encarregado dos negócios da Justiça e dos Cultos, representado, havia muito tempo, ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que o mau estado da sua saúde não lhe permitia ficar incumbido, simultaneamente, de ambas as pastas da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos; e tendo recentemente insistido de novo em ser aliviado da pasta da Justiça, Sua Excelência se prestou a aceitar-lha, não sem bastante sentimento, por causa das virtudes que distinguem aquele digno Prelado.
Conseguintemente, querendo o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes que os negócios concernentes à Justiça não padeçam retardamento algum, nomeou, por Decreto do 1.º do corrente [mês], o Senhor Conde da Ega, Conselheiro de Governo, para ficar encarregado da pasta da Justiça, devendo trabalhar directamente com Sua Excelência, como os Secretários de Estado.


Política


Em alguns actos autênticos das pretendidas Juntas espanholas se confessa que os bandos dos rebeldes foram já batidos, cinco vezes, em Espanha, assim pelo General Dupont, como pelo General Lefevre, que aí comanda outra divisão francesa. Verdade é que por não deixar em total desalento aqueles corpos de cidadãos e de camponeses que se ajuntaram ao acaso, e que já estão nimiamente cansados do penoso emprego a que os constrangem alguns cabeças de motim, procuram as Juntas corar os sobreditos desbaratos com diversos pretextos que não impedem de ver que, como era de esperar, está já exausto o primeiro fogo da insurreição espanhola, sem ter alcançado nem sequer uma só vantagem dos franceses, que ainda estão dispersos e sem ter recebido os reforços de todas as legiões que diariamente lhes chegam dos diversos pontos do seu imenso Império!
Que novo género de delírio e de extravagância não é na verdade o que agora corre certas províncias de Espanha e que também se estende a um mui pequeno número de povoações de Portugal? Em que se poderia fundar, entre aqueles insensatos, a louca esperança de resistir ao Grande Imperador e à sua grande Nação? Onde estão os Chefes? Onde estão os meios? Onde estão os próprios Príncipes por amor de cujos fantasmas quer essa gente expor-se à morte? Ainda quando a Espanha detivesse, por mais alguns dias, a marcha de alguns corpos isolados, como pode ela deixar de ver que será invadida, quando preciso for, daquelas mesmas tropas que venceram a Europa, e que infalivelmente será vítima do seu ridículo fanatismo por amor dum Príncipe que nem sequer está em seu poder, nem que jamais o estará? Irão pois as suas Juntas buscar Fernando a Paris, e conquistar a França em seu nome?
Em Portugal, pelo menos, ou antes nas partes que momentaneamente estão agitadas no Norte e Sul deste país, não se alimentam tais despropósitos: o único que aí se observa é o de se terem deixado atemorizar por alguns pequenos bandos de celerados que entraram em 3 ou 4 povoações, gritando que vinham seguidos de exércitos que não existiam; e o terem, tanto contra sua vontade como contra os seus interesses, feito pegar em armas a pessoas que a isso não se inclinavam de modo algum, e ainda assim só a mais vil canalha é que se sublevou, para entregar-se à pilhagem, se lho consentirem.
É mais que tempo de deporem as armas os que nelas pegaram, sejam quem forem; de pedirem perdão, e de fazerem ceder um vão receio a um terror muito mais racionável, porque uma parte do exército francês está em marcha, e vai a fulminar vingança contra tudo o que não se tiver submetido antes da sua chegada. Desgraçadas das povoações a quem seja preciso forçar de mão armada! A sua sentença está proferida na última Proclamação tão enérgica e ao mesmo tempo tão paternal do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes! Não é debalde que ameaça, depois de ter generosamente oferecido o perdão! Disto apresenta uma prova a sorte de Vila Viçosa, que hoje está em grande sossego; e mais modernamente ainda a justa punição da cidade de Beja, que depois de haver tido a criminosa audácia de assassinar dentro do seu recinto vários soldados franceses, foi militarmente executada. Agora porém a sua população decimada está deitada aos pés do General em Chefe, para chorar o seu crime e implorar o perdão por meio do seu estimável Pároco, que se viu reduzido a enterrar os que no dia precedente não quiseram dar ouvidos às suas exortações pacíficas. Desgraçados! Sirva o seu exemplo ao menos àqueles dos seus concidadãos que correm, como eles, à sua perdição! Porque razão se hão de fazer necessárias peças de artilharia, chamas e a morte, para ensinar-lhes os seus deveres, sendo que só se lhes pede que fiquem sossegados, sem que se deixem iludir de quimeras de invasões estrangeiras e de desembarques ingleses, que não existem nem podem existir em parte alguma?

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 26, 4 de Julho de 1808].

sábado, 2 de julho de 2011

Pastoral do Colégio Patriarcal de Lisboa (2 de Julho de 1808)


Nos Primarii, Presbyteri, et Diaconi, Sanctae Lisbonensis Ecclesiae, Sede Patriarchali Vacante, a todas as Pessoas Eclesiásticas e Seculares deste Patriarcado, saúde e paz!

Ministros do Santuário, Sacerdotes do Altíssimo, porção escolhida do Rebanho de Jesus Cristo, Doutores e Mestres da Sua Santa Lei, que apascentais connosco o dos Fiéis de todo este Patriarcado, vinde com todos eles ajudar-nos a chorar na presença do Senhor os terríveis e lamentáveis estragos que desolam a nossa Pátria: os exemplos inauditos de crueza e de perfídia recentemente praticados em diversas províncias deste Reino contra as tropas francesas que pacificamente o ocupavam, e que o guardam e defendem da direcção Sábia e Vigilante de um Chefe guerreiro, experimentado e nosso amigo, que o possui e o governa em nome do grande Imperador, do invencível Napoleão. Ah! E qual será o vosso espanto quando souberdes que semelhantes desatinos foram desgraçadamente cometidos por homens que professam, como nós, a Santa Religião de Jesus Cristo, Divino Autor e único Exemplar Perfeito da Caridade do Amor do próximo, e da sujeição e obediência aos Imperadores da terra. Desmaiareis por certo, veneráveis Irmãos muito amados em Jesus Cristo, e estremecerão de horror os vossos corações, quando ouvirdes (e com quanta amargura o dizemos!) que os próprios Ministros da Religião do Crucificado, os Ungidos do Senhor, mancharam suas mãos no sangue de seus Irmãos, que também a professavam! Ah! Não permita o Senhor nosso Deus que em tempo algum vos deixeis arrastar de exemplos tão abomináveis e tão contrários aos verdadeiros e bem entendidos interesses da vossa Pátria. Mas quando, por cúmulo de nossos males e desgraças, e por efeitos da justa e bem merecida ira do mesmo Senhor contra nós, aconteça que o fogo do contágio de tão perigoso mal se ateie e lavre em vossos corações, contai decerto com os prontos e temerosos castigos que vos esperam, e que pelo vosso próprio bem e pelo comum e geral da vossa Pátria, seremos vigilantíssimos em fazer executar. Desembainharemos contra vós a espada Espiritual da Igreja, e descarregaremos sobre vossas desatinadas cabeças os terríveis golpes das Excomunhões e dos Anátemas. A doutrina que vemos publicamente atacada e ofendida, e que por este meio pretendemos vindicar, não é nossa, Fiéis, é de Jesus Cristo. É a que o seu zeloso Discípulo, o grande Apóstolo das Nações deixou escrita no capítulo 13 da sua Carta aos Romanos. Defendemos portanto a todos os Fiéis deste Patriarcado nossos Súbditos de qualquer Estado ou condição que sejam, debaixo das penas de Excomunhão maior, perdimento dos Cargos e Ofícios que de nós tiverem, e de inabilidade perpétua para os tornar a haver; que por nenhum modo ou maneira, directa ou indirectamente, em público ou em particular, com escritos, com factos ou com discursos pretendam inficionar o espírito dos seus Concidadãos, e conduzi-los a eles e à sua Pátria ao cúmulo da desgraça; e da mesma maneira proibimos muito especialmente a conservação e detenção das armas, que a Autoridade Civil tem já vigorosamente defendido, e de que o uso é tão perigoso, e quase inevitável o abuso; havendo outrossim por muito recomendado aos Reverendos Párocos deste Patriarcado e Prelados das Religiões nele existentes, que ponham o seu especial cuidado e vigilância em persuadir com o exemplo, e ensinar com a Doutrina a todos os seus Súbditos os verdadeiros princípios políticos e religiosos em tão importante matéria; capacitando-os e fazendo-lhes bem conhecer quanto é conveniente e necessário que todos se conservem tranquilos e sossegados; os Seculares nas suas casas e nos centros das suas famílias, que em tais circunstâncias não devem desamparar, e os Eclesiásticos nos exercícios próprios da perfeição do seu estado, no silêncio, na oração, no retiro e na prática de todas as virtudes.
E para que esta nossa Carta Pastoral venha à notícia de todos, mandamos que seja publicada à estação das Missas Conventuais em todas as Igrejas deste Patriarcado, e afixada nos lugares do costume.
Datum Lisbonae sub Signis Trium Nostrum in Ordine Priorom, & sub Sigillo Sanctae Lisbonensis Ecclesiae, die 2 Julii, anni 1808.

E. Principalis Silva
A. Principalis Decanus
F. Principalis Castro

De mandado do Excelentíssimo Colégio,
Francisco Xavier da Cunha Florel

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 26, 4 de Julho de 1808].

sábado, 25 de junho de 2011

Aviso de Francisco Xavier da Cunha Tourel, secretário do Colégio Patriarcal de Lisboa, ao Arcebispo de Lacedemónia, recomendando a observação da Pastoral do Patriarca de Lisboa (25 de Junho de 1808)




O Excelentíssimo Colégio Sede Patriarcal Vacante, pelos justos motivos que se verificaram na sua respeitável presença, mandou dirigir pela sua Secretaria ao Excelentíssimo Senhor Arcebispo de Lacedemónia o aviso seguinte:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor:
Considerando o Excelentíssimo Colégio Sede Vacante serem passados muitos meses depois da exortação pastoral do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca Mendonça, de saudosa memória, de 8 de Dezembro de 1807, e não lembrar a muitos indivíduos desta capital e patriarcado o que nela o mesmo Eminentíssimo Prelado pedia e exortava às suas ovelhas, e ser muito conveniente para o sossego público a inteira observância dela, recomenda muito a Vossa Excelência [para quequeira sem perda de tempo mandar a todos os Prelados Regulares e Seculares desta cidade e Patriarcado, [para que] façam lembrar a todos os seus súbditos tão santos e prudentes conselhos, como nela se contém.
Deus Guarde a Vossa Excelência muitos anos.
Secretaria do Excelentíssimo Colégio Sede Vacante, em 25 de Junho de 1808.

Francisco Xavier da Cunha Tourel


[Fonte: Discursos do Imortal Guilherme Pitt..., p. 371].

sábado, 21 de maio de 2011

Pastoral do Bispo do Algarve (21 de Maio de 1808)





Dom Francisco Gomes, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo desta Diocese e Bispado do Reino do Algarve, etc.: 

A todos os Nossos amados Filhos em Cristo, saúde, paz e benção do Senhor, que de todos é verdadeiro remédio, luz e salvação. Haveis de saber que a Eterna Sabedoria, que tudo rege, há disposto que a nossa Deputação, que se foi apresentar ao Augusto Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno, tivesse a felicidade de ser benignamente recebida por Sua Majestade Imperial e Real, com promessa de usar com todos nós, os portugueses, dos efeitos da Sua cordial beneficência. Todos pois nos devemos unir em dar a Deus as devidas graças por ter movido a piedade a um tão grande Monarca. E para que esta Acção de Graças seja bem aceite a Deus, vos exortamos a que vos lembreis que a Nossa Santa Lei e Religião nos manda que procuremos sempre viver em paz com todos, e sujeitarmos a quem governa com uma perfeita sujeição e obediência; e tratar a todos os nossos próximos, e as tropas que ao presente se acham entre nós, com afável caridade, para merecermos a Protecção do Senhor, que é Deus de paz; e deste modo mostraremos ao Augusto Imperador e Rei, que satisfazemos às suas Boas Intenções. 
Igualmente exortamos a todos os soldados nossos diocesanos que tiverem desertado, que sem demora recolham para onde são chamados pelo Decreto que sobre isto se publicou, para evitarem o perigo gravíssimo a que estão expostos, e a que expomos interesses verdadeiros de todos nós; e assim esperamos que os Pais e parentes dos mesmos desertores os obriguem e persuadam a que cumpram o que lhes é mandado, para não causarem dano tão notável a si e a todo o Reino. Damos a todos vós, amados Filhos em Cristo, a nossa Bênção, em nome do Senhor. 
Dado em Faro, sob nosso sinal e selo das nossas Armas, aos 21 de Maio de 1808. E eu, Joaquim Manuel Rasquinho, Secretário de Sua Ex.a R.ma que a fiz escrever. 

Francisco, Bispo do Algarve. 

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 344-345 (doc. 12)].


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Nota:

Ano e meio depois (mais precisamente a 4 de Janeiro de 1810), o mesmo Bipo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, em carta a João António Salter de Mendonça (Secretário de Estado dos Negócios do Reino do governo regente), parece de algum modo justificar a posição que tomou com a pastoral acima transcrita: “Ocupados (de facto) os Reinos de Portugal e Algarve pela prepotência francesa; abolida a regência dos mesmos reinos; dada por extinta a Real Casa de Bragança; e sujeito tudo ao poder do Imperador Napoleão, a cujo arbítrio estava o dar um rei aos portugueses; desde logo ficou à vontade destes, ou sujeitarem-se ao duro e estranho Império, ou a reassumirem os seus direitos primitivos para reinvindicação de sua legítima monarquia, liberdade e independência: entre estes dois extremos, não havia meio” [Fonte: op. cit., pp. 395-397, p. 395 (Doc. 94)].


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Pastoral do Arcebispo do Évora (20 de Maio de 1808)













Nota: 

Tal como a pastoral do Bispo do Algarve datada de 21 de Maio de 1808, parece que esta pastoral do Arcebispo de Évora, Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boasfoi composta devido à pressão do Governo de Junot, na sequência da publicação da carta da chamada deputação portuguesa. Segundo as próprias palavras de Cenáculo, "preparei [...] uma Pastoral que fiz imprimir, [...] a qual cuidadosissimamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808".
De acordo com uma nota manuscrita apensa ao raríssimo exemplar impresso acima publicado, da autoria de Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, antigo director da Biblioteca Pública de Évora (fundada pelo próprio Cenáculo), os 500 exemplares impressos ficaram assim conservados fechados e empacotados até à expulsão definitiva dos franceses, quando Cenáculo decidiu mandar queimá-los. 
Ainda segundo Cunha Rivara, para além do exemplar acima publicado, que se encontra compilado no 5.º códice (fls. 101-105v) do chamado Diário manuscrito de Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo), somente escaparam às chamas outros dois exemplares impressos: um que Cenáculo enviou ao Príncipe Regente, em anexo a uma relação acerca da brutal repressão dos franceses sobre Évora no final de Julho de 1808, que teremos ocasião de publicar mais adiante (e da qual extraímos o excerto acima citado); e um "que o Padre José Agostinho de Macedo pôde subtrair da tipografia". 


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pastoral do Bispo do Porto favorável à ocupação espanhola e francesa









Depois do Cardeal Patriarca de Lisboa e do Inquisidor Geral terem feito as suas pastorais favoráveis aos franceses, foi a vez do Bispo do Porto se dirigir ao seu rebanho com idêntico fim. O documento que abaixo se transcreve é obra, segundo as palavras de Simão Luz Soriano, de um "homem hipócrita e sanguinário, porque ou dizia o que não sentia, quando proclamava a favor dos franceses, ou quando mais tarde proclamou também contra eles"... [in História da Guerra Civil... - Segunda Epocha. Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1870, pp. 40-41].
No momento oportuno serão aqui publicados alguns dos documentos que originaram aquele juízo de Luz Soriano. Por agora, fiquemos com a pastoral de D. António de S. José de Castro datada de 18 de Janeiro de 1808:









Dom António de S. José de Castro, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, 
Bispo do Porto, do Conselho de Sua Majestade.

A todos os nossos amados Diocesanos, saúde e paz em Jesus Cristo Nosso Senhor.

Se o Ofício Pastoral nos obriga a vigiar sobre a guarda e sossego das ovelhas que nos foram confiadas pela Divina Providência, quanto mais nas actuais circunstâncias, em que as consideramos tímidas e vacilantes, deveremos ser em sua companhia ao menos por meio desta Carta Pastoral, para excitarmos no íntimo dos seu corações sentimentos de paz e de tranquilidade, a fim de se conservarem quietas e pacíficas?
Sim, amados diocesanos: nós vos consideramos assustados e solícitos, vendo entrar no vosso país numerosos Exércitos, não sabendo o seu destino. Talvez aumente os vossos receios a recordação do que praticaram noutro tempo, nesta nossa pátria, os bárbaros do norte e os cruéis africanos, quando vieram arrasar os nossos templos, violar os direitos mais sagrados, e derramar sobre a terra o sangue de inocentes vítimas. Não, amados filhos, não é esta a nossa sorte. Estas tropas, que aqui vedes entrar, são nossas aliadas e pacíficas; e quem as manda entrar tem sido prevenido, armado por Deus de poder e de sabedoria para as fazer entrar, e para as saber dirigir ao fim da nossa felicidade; e devemos seguramente confiar no mesmo Senhor, que não seja outro o seu destino. 
Sim: o Imperador dos franceses e Rei de Itália, o Grande Napoleãonão poderia de outro modo servir-se de nós para aumentar a sua verdadeira glória, senão fazendo-nos felizes. Nem é crível que na grandeza sem igual do seu coração, no ardente desejo de sua glória, pudesse entrar em Portugal para outro fim. Este grande Imperador elevado sobre o Trono dos seus Triunfos tem unido a eles a glória de fazer dominar a nossa Sagrada Religião nos seus Estados. Sua Majestade Católica [o rei espanhol D. Carlos IV], ao mesmo tempo, que no constante desempenho deste título tem feito a sua glória imortal, igualmente nos dá também toda a segurança da permanência do Sagrado Culto em que fomos educados. Os poderosos Exércitos destes grandes monarcas são precedidos de proclamações de segurança, de paz e de justiça; e a experiência nos está mostrando estas mesmas proclamações realizadas todos os dias. Nós estamos vendo esta grande cidade cheia de tropas estrangeiras em tanto sossego e boa disciplina que mais não se poderia esperar das nossas tropas nacionais. A segurança e o sossego nesta cidade são iguais em todas as horas do dia e da noite. O Il.mo e Ex.mo General D. Francisco de Taranco, digníssimo Chefe do Exército espanhol, a quem se deve toda a boa ordem e sossego desta cidade, além do ensino que lhes dá com o bom exemplo das suas relevantes virtudes, é ao mesmo tempo um observador vigilante sobre as mais ligeiras faltas de disciplina dos seus súbditos; e estes, debaixo das suas sábias providências, toleram com edificação os incómodos que andam anexos a semelhantes conflitos. Os templos estão cheios destes militares que edificam e que por tudo isto nos põem interiormente na necessidade de os amarmos como próprios filhos; e exteriormente, na obrigação de darmos este testemunho público da nossa satisfação e do seu merecimento. E esperamos que este testemunho, fundado já na experiência e conhecimento destas tropas religiosas, pacíficas e bem disciplinadas, vá servir não só para desvanecer nos vossos ânimos qualquer receio que vos pudesse causar a sua entrada; mas também para mostrar a obrigação em que estamos todos de praticar com elas todos os bons ofícios de caridade e de hospitalidade, como se fossem nossas próprias, e ainda mais por se acharem fora do seu país.
Por outra parte, nossos amados filhos, nós não somos insensíveis aos vossos indispensáveis incómodos, e não podemos deixar de louvar o exemplo edificante que nas actuais circunstâncias tendes dado no desempenho de todas as obrigações da honra e da virtude; a actividade, o zelo e a prudência das pessoas encarregadas de prevenir e aprontar tudo quanto podia ser necessário para o bom aquartelamento das tropas aliadas; a religião, a resignação e a hospitalidade de todas as corporações religiosas, que sem faltarem a uma só obrigação dos seus institutos, ao mesmo tempo cederam prontamente dos seus cómodos e dos seus pobres aposentos para hospedagem destas tropas estrangeiras; a prontíssima vontade com que todos os nossos diocesanos se têm prestado a concorrer com que todos os nossos diocesanos se têm prestado a concorrer com tudo quanto lhes foi pedido para o aquartelamento das mesmas tropas; tudo isto conhecemos, tudo isto louvamos e agradecemos; e assim resta só pedir-vos que continueis como tendes principiado, e exortar-vos a quem com o maior desvelo procureis obedecer aos sublimes poderes instituídos e ordenados por Deus para nos regerem e governarem, na certeza de que todos aqueles que lhes não obedecem, resistem à Ordenação Divina. E finalmente, sendo certo que os trabalhos são inseparáveis da vida presente e que poucos duram, pois com ela se acabam, procurai fazer deles um uso digno da vossa piedade, para merecerdes assim a bênção do Altíssimo, a qual venha sobre vós, e permaneça convosco para sempre.
E para que esta nossa Carta Pastoral possa chegar à notícia de todos os nossos diocesanos, mandamos que esta seja remetida a todos os reverendos párocos deste Bispado, para que a leiam à estação da missa conventual; e assim aos mesmos reverendos párocos, como a todos os mais ministros do santuário, mandamos que no exercício dos ministérios sagrados inspirem nos ânimos dos povos estes nossos sentimentos, como já lhes insinuámos na primeira exortação que lhes fizemos dirigir a este respeito, em data de cinco de Dezembro do ano [...] passado.
Dada nesta cidade do Porto, no Paço da nossa residência, sob o nosso sinal e selo das nossas armas, aos 18 de Janeiro de 1808.


A. Bispo do Porto



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[Fonte do texto: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 252, doc. 36, fls. 1-4;
Fonte da gravura: René Chartrand / Bill Younghusband, The Portuguese Army of the Napoleonic Wars (I), Osprey Publishing, Oxford, 2000, p. 8].