quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O primeiro dia em Lisboa

Apesar de chegar a Lisboa sob uma chuva copiosa e um vento rijo, Junot não perde tempo na cidade, indo logo à bateria do Bom Sucesso, ao lado da Torre de Belém, "desenganar-se com os seus próprios olhos de que a esquadra portuguesa tinha saído e a inglesa não entrara, limitando-se somente ao bloqueio do porto". Em seguida expediu parte do Regimento n.º 70 para o forte de S. Julião, regressando a Lisboa. Foi então "aquartelar-se em casa do Barão de Quintela, uma das mais ricas e opulentas da capital. Não entrarei, como outros fizeram, na indagação dos motivos que o decidiram nesta escolha, objecto de que nenhum interesse resultaria à posterioridade; direi somente que Junot melhorou muito em hospedar-se numa casa tal, onde foi tratado e assistido esplendidamente enquanto residiu em Lisboa, não só do preciso, mas até dos objectos do seu grande luxo, sem lhe custar um real, não obstante o receber do Senado da Câmara para o seu tratamento uma contribuição mensal de doze mil cruzados" (in José Accursio das NEVESHistória Geral da Invasão dos Franceses em Portugal, e da Restauração deste Reino – Tomo I, 1809, Lisboa, pp. 215-217). 


Também não se vai aqui indagar os motivos pelos quais Junot se instalou naquela casa. Não obstante, inserem-se aqui as ordens do Marquês de Vagos a José Carcome Lobo acerca das tropas que deveriam escoltar a casa do Barão de Quintela: 

O Sr. General Marquês de Vagos ordena que V.S. se ponha à frente do Batalhão de Granadeiros e de dois Esquadrões de Cavalaria que devem marchar para o cruzeiro de Arroios para os comandar, e igualmente que mande já marchar uma guarda de Capitães, Tenentes, Alferes inferiores e 80 soldados para as casas do Barão de Quintela, aonde vai residir o General Junot.
Deus Guarde a Vossa Senhoria.
Quartel-General da Junqueira, 30 de Novembro de 1807.

Fonte: Arquivo Histórico Militar (cota: AHM/DIV/1/14/002/15)


Nesse mesmo dia expediram-se outras ordens relativas à evacuação de tropas portuguesas dos seus quartéis para darem lugar às tropas francesas, que deviam ser acolhidas com tranquilidade e harmonia (cf. AHM/DIV/1/14/002/15).



Fonte: BND

Barra de Lisboa, onde se assinalaram o forte ou torre de S. Julião da Barra, a bateria de Belém (ou forte do Bom Sucesso) e a Junqueira




Finalmente, segundo Domingos Alves Branco Muniz [sic] Barreto, na sua  Memoria dos Successos acontecidos na Cidade de Lisboa, desde vinte e nove de Novembro de mil oito centos e sete athe trez de Fevereiro de mil oito centos e oito [sic], (fl. 6), "nesse mesmo dia apareceu afixado nas esquinas e lugares públicos de Lisboa o Edital seguinte, promulgado pelo Intendente Geral da Polícia, para que nas compras não se recusassem a moeda francesa e espanhola":


 Edital


Faço saber a todos os moradores desta capital e seu termo, que ninguém deve recusar a moeda francesa e espanhola com que as tropas de Sua Majestade o Imperador e Rei se oferecem a comprar os géneros de que precisam: quem assim o não praticar será punido com graves penas a arbítrio da polícia. E para que assim indefectivelmente se observe, enquanto o Governo não dá mais circunstanciadas providências, mandei lavrar e afixar o presente Edital.
Lisboa, 30 de Novembro de 1807


Lucas de Seabra da Silva




[nota: segundo o mesmo Muniz Barreto, "para evitar todas as dúvidas se mandou estampar todas as moedas francesas e espanholas"]

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