sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Chegada dos invasores a Abrantes



Mapa de Abrantes e arredores (1801)


No dia 24 de Outubro a vanguarda do exército de Junot entrava em Abrantes. Um dia depois, nessa mesma cidade, o General em Chefe francês escreve a Napoleão (Jean-Andoche JUNOT, Diário da I Invasão Francesa, pp. 98-100): 
"Depois de marchas excessivamente penosas em regiões sem quaisquer recursos e por caminhos horrorosos, atravessados a cada passo por torrentes, e sem ter recebido uma ração de pão desde que saíram de Alcántara, as minhas duas primeiras divisões chegaram, finalmente, a Abrantes, mas deixando para trás cerca de 1200 homens que serão recolhidos pelos diversos destacamentos que deixei para esse efeito; a tropa está tão estafada que não pode seguir adiante sem repouso, e estou decidido a dar-lhe aqui uma paragem. Esta cidade apresenta-me menos recursos que os que eu pensava, mas ainda assim poderei dar-lhes carne, legumes, vinho e algum pão com que eles recuperarão um pouco das suas forças. A 3.ª divisão e a minha cavalaria, que ficaram retidas por um dia em Espanha por causa de uma torrente, só poderão chegar aqui a 27 ou 28, pelo menos. Perderei alguns homens por causa da fadiga e mais alguns outros, retardatários e pilhantes, terão sido assassinados pelos habitantes, aos quais, segundo o seu louvável costume, tudo terão roubado e queimado na retaguarda das colunas a pretexto de ir procurar pão e não poder acompanhá-las. [...] Vossa Majestade sabe que só tenho comigo um Regimento espanhol; prouvera a Deus que não tivesse nenhum; é impossível ver algo mais mal comportado, mais indisciplinado e de maior atrevimento. O General [espanhol] Carrafa, que comanda a Divisão, é um valente homem, mas os oficiais não valem nada e não tratam das suas obrigações. Também não devo ocultar a Vossa Majestade que é ao Governo espanhol que devemos a miséria em que nos encontramos.

De Salamanca até Alcántara, nada estava preparado, e no trajecto, já de si tão penoso, a minha tropa mal recebeu meia ração por dia; embrenhámo-nos nas serras de Portugal sem saber como lá poderíamos viver. [...] Como não trazíamos nada connosco, tivemos falta de tudo, a não ser de vinho, o que causou muito mal, pois, sem ter nada para comer e bebendo vinho forte, os soldados foram vitimados por uma terrível embriaguez que matou vários deles. Mas enfim, Sire, abrem-se-nos agora as planícies de Portugal, e a 30 de Novembro flutuarão sobre o magnífico porto de Lisboa as bandeiras de Vossa Majestade. As privações e as fadigas do meu exército, tudo será esquecido, Sire, se tivermos conseguido executar as ordens de Vossa Majestade. 
Está em Lisboa uma esquadra russa que dizem ter vindo de Corfu; dizem também que Sidney-Smith cruza com a sua esquadra em frente do porto, mas não se fala de tropas de desembarque; também não ouço falar do exército português. [...] Em Lisboa, não esperavam ver-me tão depressa, e ainda há 4 dias me suponham nas bandas de Salamanca; também ainda não vi ninguém da parte do Governo. O Príncipe ainda estava em Lisboa no sábado passado, e não se falava lá da sua partida; ignoro o que ele decidiu depois disso. [...] A artilharia das 2.ª e 3.ª Divisões, todas as bagagens e todos os transportes militares estão na retaguarda e levarão muito tempo para chegar junto de nós; dei ordens para tudo isso, mas há grandes dificuldades para a passagem dos furgões pelos caminhos por onde nós viemos; dei ordens para a sua reparação, sem a qual isso seria impossível. [...] As duas Divisões espanholas, que segundo a convenção [assinada juntamente com o Tratado de Fontainebleau] deviam entrar em Portugal ao mesmo tempo que eu, uma pelo Alentejo e a outra pela Galiza, ainda não fizeram qualquer movimento, o que necessariamente me causará dificuldades para a ocupação dos portos da margem esquerda do Tejo e também para a do Porto; se de outro modo o não puder fazer, empregarei para isso os poucos espanhóis que tenho comigo e muito feliz me sentirei por assim me livrar deles".
Gravura da época, onde se vê o estado do exército que entrou em Portugal






Ainda no mesmo dia 24 de Novembro, Junot publica o seguinte decreto:




Decreto ordenando a requisição de sapatos para os miitares franceses


Ordena-se ao Corregedor de Tomar, ou a quem seu cargo servir de intimar a todos os Juízes de Fora das vilas e aldeias do seu distrito, de fazer entregar ao portador desta ordem, que é Manuel Álvares, todos os sapatos que houver nas terras aonde este se apresentar, para o que vai autorizado e munido das competentes ordens. 
Quartel-General de Abrantes, 24 de Novembro de 1807


Junot


PS: Os particulares são todos compreendidos nesta requisição.






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