quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A passagem das tropas de Junot pela Espanha



As tropas de Junot começaram a entrar na Península Ibérica a 18 de Outubro, ou seja, alguns dias antes do Tratado de Fontainebleau ter sido assinado. Recordemos que a convenção secreta anexa ao referido tratado previa, entre outros termos, que "as tropas francesas serão sustentadas e mantidas por Espanha". 
Pois bem, logo no dia 3 de Novembro, Junot escrevia a Napoleão, em Vitoria, dizendo que algumas ligeiras discussões que resultavam da diferença das moedas francesa e espanhola "teriam sido evitadas se o Príncipe da Paz nos tivesse querido ajudar com todo o seu poder, mas parece que o seu zelo tem abrandado bastante de há tempo a esta parte; apesar disso, tudo correrá bem". 
Tudo correrá bem... bem cedo perceberia Junot o quanto estava enganado... Nessa mesma carta, como que prenunciando o que viria a acontecer, dizia ele que "tivemos alguns dias maus à partida, mas agora estamos na planície, e espero que haja melhor tempo; faltam-nos capotes na maioria dos Regimentos das 2.ª e 3.ª divisões; é de certo um erro dos majores, que os não mandaram dar aos seus Regimentos na ocasião da partida para Bayonne ". Ainda assim, rematava: "Não é possível ver soldados mais bem dispostos nem oficiais mais ávidos de merecer a confiança que receberam de Vossa Majestade Imperial e Real". 
No dia 6 de Novembro, em Pancorbo, Junot recebia uma carta do imperador, que lhe ordenava que estivesse em Alcántara, junto à fronteira portuguesa, no dia 20 do mesmo mês. Na resposta a Napoleão, Junot diz que "ouso assegurar-vos que ela [i.e., a primeira divisão do exército] lá estará e que toda a segunda [divisão] se lhe terá reunido, quando muito, no dia 23 e que não perderei um minuto para entrar em Portugal. Sinto muito bem a importância que há em me apoderar de Lisboa para descuidar o que quer que seja que Vossa Majestade se digna dar-me, seriam precisos acontecimentos imprevisíveis, e que me não fosse possível evitar, para que eu falhasse o objectivo que V.M. se propõe. Estamos agora na estação das chuvas, e desde a nossa partida elas não nos deixaram nem por um instante, mas os soldados marcham com coragem e em boa ordem".



Percurso das tropas francesas no território espanhol (a azul).
A vermelho indicam-se os pontos de aquartelamento das tropas espanholas antes de invadirem Portugal.



Na cidade espanhola de Irun (fronteiriça com a França), publicou-se no dia 8 de Novembro a seguinte lista, referente à entrada das tropas de Junot na Espanha: 







Regressando à correspondência de Junot para Napoleão, entre os dias 6 e 19 de Novembro, verifica-se um novo hiato. (Seria a chuva que empapava o papel?)... 
Nesse dia 19, junto à fronteira portuguesa (mais precisamente em Alcántara), Junot confessava a Napoleão os sofrimentos que tinham decorrido dessa árdua viagem. Pelo seu conteúdo ser bastante esclarecedor, transcrevemos um grande excerto dela: 
"A 3.ª divisão e a cavalaria, bem como a artilharia das 2.ª e 3.ª divisões [isto é, grande parte do seu corpo, e talvez a mais importante, em caso de resistência dos portugueses] e todos os trens do exército, foram detidas a 2 dias daqui pelo súbito engrossamento de várias torrentes; na travessia de uma delas, afogaram-se-me 5 homens da 1.ª brigada da 2.ª divisão que nela se meteram muito imprudentemente. Apesar destes atrasos, espero que a 3.ª divisão chegue ao Rosmaninhal no dia 22 ao meio-dia, o mais tardar, e que a cavalaria, que tem ordens para forçar a marcha, esteja na mesma data em Idanha-a-Nova e possa chegar ao Zêzere ao mesmo tempo que as duas primeiras divisões; quanto aos trens e aos transportes militares, seguirão como puderem. Morreu parte dos cavalos e partiu-se grande número de caixões.
A artilharia da 2.ª divisão está neste momento praticamente toda sem condições para marchar. O estado de ruína em que ela se encontra resulta de ter sido conduzida por bois e gente do campo, por de outra maneira não ter sido possível; por isso agreguei a esta divisão 6 peças pertences à primeira [divisão], cuja artilharia, conduzida por cavalos do trem e dirigida pelo infatigável e excelente capitão Hulos, do 6.º Regimento de artilharia apeada, não sofreu praticamente quaisquer danos. 
Soube agora mesmo que toda esta artilharia atravessou as torrentes, com a única excepção de 9 caixões e carroças de munições, o que dará à minha primeira divisão 3 peças de 8 lb. e 3 peças de 4 lb. com munições e me permitirá acrescentar 2 peças de 4 lb. à minha vanguarda.
Vossa Majestade não pode fazer uma ideia da estrada que o meu exército teve de percorrer de Ciudad Rodrigo até aqui; não passa de uma sucessão de rochedos empilhados uns sobre os outros, que a minha artilharia teve de transpor; esta má estrada é cortada em vários locais por torrentes que em uma hora crescem três pés e, além de tudo isto, uma neve espantosa no alto da serra e uma chuva que nos fustiga continuamente quando chegamos ao lado que dá para a Extremadura. No entanto, Sire, o meu exército não se queixava destas dificuldades; mas, depois de percorrer 15 léguas por dia [± 60 km/dia, valor certamente exagerado] nestes horríveis caminhos, chegava a aldeias sem recursos onde não lhe tinham preparado qualquer subsistência.
Não devo deixar no desconhecimento de Vossa Majestade que desde Salamanca até aqui não tinha sido dada qualquer ordem para a nossa passagem e que em nenhum lado estava pronta qualquer ração de pão. Estou em Alcántara há dois dias, mandei reunir todos os meios de subsistência e, apesar disso, as tropas não puderam receber mais que a sua meia-ração. O Governador de Alcántara escreveu-me, dizendo positivamente que não tinha recebido da sua corte, nem também de Ciudad Rodrigo, nenhum aviso sobre a nossa passagem; que não tinham recebido nem um soldo, e eu fui testemunha de o Capitão General Carrafa, que deve comandar as tropas espanholas sob as minhas ordens, se ter visto obrigado a pedir emprestado à custa do seu próprio crédito para poder mandar fazer em Alcántara o pouco pão que ali tivemos.
Nenhum dos empregados do Governo espanhol acredita na nossa entrada em Portugal, e o próprio Carrafa (criatura do Príncipe da Paz) tinha ordens para reunir a sua divisão em ValladolidSalamanca. Felizmente, eu previra que isto ia acontecer e tinha-lhe enviado com antecedência um dos meus ajudantes de campo para que ele mandasse parar nos arredores de Alcántara as tropas que trazia e que me deram


                 1500 homens (Regimento de Maiorca)
                   400 homens (Dragões da Rainha)
                   150 mineiros
                        2 companhias de artilharia ligeira com 12 peças


O Capitão General Carrafa seguirá pessoalmente o meu quartel-general e deixa ordens para que os Regimentos constitutivos da sua Divisão que aqui deverão chegar o sigam imediatamente. 
O caminho que vamos percorrer até Abrantes é extremamente mau e as estradas são pouco menos que impraticáveis, já pelo pelo próprio terreno já pelas torrentes, que nesta estação engrossam tão depressa; vamos encontrar grandes dificuldades para aqui viver, mas isso será mais um motivo para que nos apressemos a entrar em melhor região. Cheguei aqui sem chefe de estado-maior, sem ordenador e sem pagador, pois nenhum deles me pôde acompanhar, mas tenho, pelo menos, a felicidade de ter conseguido activar todas as coisas e serei recompensado disso se assim tiver realizado as intenções de Vossa Majestade. Seriam precisos grandes obstáculos que eu não pudesse prever para não estar em Lisboa a 1 de Dezembro; teria, ao menos, feito para isso tudo o que humanamente era possível. Posso assegurar a Vossa Majestade que de Salamanca a Alcántara são 55 léguas de caminhos horrorosos e um tempo assustador, mas as minhas tropas percorreram percorrem esse trajecto em cinco dias [a uma velocidade média de 44 km/dia].
Não tive possibilidade de obter aqui a mínima informação sobre Portugal. O Governador de Alcántara nem sequer sabe de que lado está a fronteira, apesar de estar a apenas uma légua dela [1 légua francesa = ± 4 km]; não há aqui um único homem que fale português, e eu não consegui arranjar um guia que fosse à primeira aldeia; enviei ontem um reconhecimento até ao Rosmaninhal. Para lá chegar daqui, são precisas 8 horas; o melhor mapa é muito inexacto. Os habitantes das diversas aldeias que o meu destacamento atravessou receberam-no bem e disseram ter ouvido falar de um exército francês, mas ainda o supunham muito longe; também se tinha falado da guerra com os ingleses, mas nada mais sabiam acerca disso. São extremamente miseráveis e a sua região não oferece, praticamente, quaisquer recursos".


Se a corte portuguesa soubesse do estado destas tropas que começavam a passar a fronteira, talvez tivesse ordenado a defesa do país. Mas como se pensava na época, as tropas napoleónicas eram invencíveis...
 Seriam?

Cf. Jean-Andoche JUNOT (intr. António Ventura), Diário da I Invasão Francesa, Livros Horizonte, 2008 [tradução portuguesa do copiador da correspondência de Junot a Napoleão, entre 26 de Julho de 1806 e 7 de Junho de 1808, apreendido pelos portugueses na sequência da batalha do Vimeiro].


Ver também: Sargento-Ajudante José Luís ASSIS, Reunião do Corps D’Observation de La Gironde em Bayonne e Marcha Sobre a Espanha: Análise dos Relatos do Tenente-General Thiébault



Vincent BERNARD, Situation du 1er corps d’observation de la Gironde (Corps d’invasion du Portugal) 1er novembre 1807

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