quinta-feira, 16 de junho de 2011

Décimas ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus em Lisboa







Tenho um conto que contar,                                                                               
Mas não o quero dizer,   
Porque não me hão de crer    
Se eu o for publicar:   
Eu fui sem dar nem tomar  
À rua da procissão,  
Vi do exército cagão  
O soldado e o tambor  
Fugir com todo o valor, Fugirem com todo o valor
Sendo de Napoleão. Os oficiais de Napoleão.


Se isto é verdade, ou não,   
Eu não estava a dormir; Eu não estive a dormir,
Vi os soldados fugir Eu vi os soldados fugir
Largando as armas da mão;  
Vi os generais então E vi os Generais então
Saírem à desfilada, Saindo à desfilada,
Julgando que a pancada   
Lhes caía de improviso,  
E que antes do final juízo  
Davam todos a ossada.  


A cavalaria sentada  
Não esperou capitão, Não esperou por Capitão:
Fugindo à discrição,  
Corriam pela calçada;  
Largando armas e espada,  
Julguei que a Infantaria  
Da mesma forma corria  
Com medo dos portugueses,  
E que doze mil ingleses E que dez mil ingleses
Os tragavam neste dia.  


Que disseres e que diria [?] Ora quem tal diria
Que o exército de Marengo  
Fugia como podengo  
De uma coisa que não via!  
Largavam a artilharia, Largando a artilharia,
Que empresa mais gloriosa!  
Fugir à morte aleivosa  
De um valor iracundo: É um valor iracundo.
Assim venceu todo o mundo Assim vence todo o mundo
Esta tropa valorosa. Esta tropa valorosa?




Mas nesta função ditosa  
Foi São Jorge desprezado,  
Roubam-lhe o seu estado,  
Que a fazia mais lustrosa:  
Houve uma voz poderosa  
Que a todos intimidou;  
O mesmo Junot ficou  
Mais mirrado que uma corda,  
Até o mesmo Laborda [sic]  
Os calções todos borrou. Os calções todos cagou.


Mas eu a dizer já vou  
O que entendo piamente:  
Que a toda esta fraca gente  
De vida pouco lhe dou;  
Esta tropa aqui entrou  
Com fé de nos ajudar;  
Entraram logo a furtar,  
Saqueando em geral   
Ao reino de Portugal O reino de Portugal
Sem os templos lhe escapar. Sem o Divino escapar.


Que podemos nós esperar Que poderemos esperar
De gente sem religião?  
Não tenham compaixão, Não tenhamos compaixão:
Devem todos acabar:  
Nem um só deve escapar,  
Da ira dos portugueses,  
Morram todos os franceses,  
O Maneta e o Junot, O Intendente e o Junot;
Não esteja vivo um só  
Quando entrarem os ingleses.  


Levantem-se os holandeses,  
A Itália e a Turquia,  
Tenham juízo um dia  
Renanos e genoveses;  
Acabem-se os franceses, Acabem com os franceses,
Declarem-se os russianos,  
Alemanha e a Toscana Alemanha e toscanos
Sejam com eles cruéis, Sejam com eles cruel,
Não lhes prestem quartéis, Não lhe dêem mais quartel
Façam como os castelhanos. Como fazem os castelhanos.





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Observações:

Para uma melhor compreensão do assunto tratado nestes versos, ver o relato de José Acúrsio das Neves sobre o aludido dia do Corpo de Deus em Lisboa.

Encontrámos estas décimas em dois manuscritos, respectivamente intitulados: 

1. "A procissão do corpo de Deus em 1808", disponível no site da Biblioteca Nacional Digital do Brasil.

2. "Ao terror pânico que se apossou dos vencedores da Europa no dia 16 de Junho, no acto da procissão do Corpo de Deus", in Antonio Joaquim Moreira (org.), Colecção de sentenças que julgarão os réos dos crimes mais graves e attrozes commetidos em Portugal e seus dominios - Vol. 4, 1863, fls. 93-93v.

A versão transcrita à esquerda é a assinalada com o número 1 e é a mesma donde extraímos a imagem da primeira folha, acima inserida. Da segunda versão extraímos as variantes assinaladas à direita.

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