terça-feira, 6 de setembro de 2011

Carta de José de Abreu Campos, Juiz do Povo de Lisboa, ao General Beresford e ao Almirante Charles Cotton (6 de Setembro de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

O ofício de Juiz do Povo, que bem fora do meu merecimento ocupo nesta capital, põe-me na necessidade de importunar a Vossa Excelência. Eu já representei ao Excelentíssimo General em Chefe do Exército da Grã-Bretanha neste Reino, numa representação, que inclusa ponho na presença de Vossa Excelência por cópia. 
Agora, não só por obrigação de me apresentar a Vossa Excelência, mas também para suplicar a sua protecção ao mesmo fim, é que trago pessoalmente este ofício. Excelentíssimo Senhor, se o Exército britânico veio gloriosamente quebrar os grilhões que arrastava o povo português; se umas tropas de aleivosos roubadores já vai sentindo a força dos generosos vencedores do Vimeiro, fazendo restituir os roubos que se lhe reclamam; eu, em nome do povo deste Reino, reclamo perante Vossa Excelência tudo quanto estes ladrões têm, além do que trouxeram; porque tudo é roubado em Portugal; além do que já mandaram [para a França], que também exige consideração, para entrar em contas com a satisfação que a religião, o trono e a nação inteira exigem muito clamorosamente. Tudo, Excelentíssimo Senhor, se deve restituir. O miserável órfão, a viúva dos [con]fins de Portugal, não podem vir reclamar. Eu reclamo por eles. O direito deles sobre o seu pouco, não é menos que o dos grandes, sobre o seu muito. O público pois ainda deve merecer, mais que qualquer particular. É pelo público de todo o povo que o meu ofício exige que eu reclame. Tire-se tudo o que têm, e não escape o que escondem até nas marcas dos botões; e o público, vendo tudo restituído no Régio Erário (dono de tudo o que não tem outro) cantará vivas a Vossa Excelência, de quem sou o mais atento servo. 
Lisboa, 6 de Setembro de 1808. 

O Juiz do Povo 

[Fonte: Correio Braziliense, Londres, Abril de 1809, pp. 303-304; Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 129-130].

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