sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta do General Dalrymple ao General Wellesley (9 de Setembro de 1808)




Quartel-General, Oeiras, 9 de Setembro de 1808.



Senhor:

Há dois dias atrás, chegou um oficial espanhol com ofícios da Corunha dirigidos a Sir Harry Burrard. Porém, tais ofícios eram quase da mesma data daqueles que me haveis dado depois da minha chegada, e incluíam uma cópia da mesma carta do Tenente-Coronel Doyle. Ainda assim, diz agora o senhor Stuart (facto que eu ignorava antes) que o General Castaños estava a marchar para Madrid, segundo as ordens dum Conselho de oficiais estabelecido em Sevilha. Também fui informado, através dum oficial que esteve em Cádis há não muito tempo, que, pouco depois da batalha de Bailén, voltara a eclodir a disputa pela primazia, ou, pelo menos, pela independência, que tinha sido levantada logo muito cedo pela Junta de Granada*, e que, consequentemente, o exército de Granada separara-se do General Castaños, e não temos mais informações sobre os seus movimentos. Esse exército é comandado pelo General Reding, e certamente combateu e derrotou Dupont na batalha acima mencionada. Os exércitos destas províncias, assim reivindicados pelas [respectivas] Juntas, tinham comandos distintos durante a monarquia, e em muitos dos casos, senão na maioria, são sustentados por pessoas nomeadas pelo Rei.
As derrotas dos franceses em Valencia, Córdoba, etc., e a concentração da sua força em Burgos, proporcionaram uma razão, senão uma necessidade absoluta, para aqueles exércitos [espanhóis] marcharem para um ponto. Se aqueles exércitos se tivessem reunido, e se os seus generais comandantes estivessem unidos, o resultado poderia ter sido o estabelecimento de um governo central pelo poder ou influência desses oficiais, e a diminuição natural e gradual e extinção final dos governos revolucionários chamados de Juntas, que governam somente segundo as opiniões populares, e talvez influenciadas pela Igreja, o que é praticamente a mesma coisa.
Infelizmente, parece que os exércitos que já se juntaram (os de Blake e Cuesta) não estão unidos, e a autoridade da Grã-Bretanha, que creio (ou pelo menos espero) que tem uma influência predominante neste momento em todas as partes da Espanha, é administrada pelo Tenente-Coronel Doyle, que parece esforçar-se apenas para recrutar cavalaria para Blake, cujo partido ademais penso que adoptou, apesar de Blake ser certamente um oficial muito mais novo que Cuesta, e que comanda a província da Galiza apenas desde que a Junta foi estabelecida.
Perante todas estas circunstâncias, sinto-me muito disposto a enviar para Madrid um oficial com uma elevada graduação militar e conexões familiares, e que, ademais, se destaque tanto como estadista como enquanto militar, para que perceba claramente o sentido destas pequenas intrigas, que num momento como este são difíceis perceber; mas principalmente para sustentar uma linguagem que possa conduzir estas pessoas à sensatez. Eu próprio já experiencei que uma linguagem firme, ainda que feita por um oficial britânico em seu próprio nome, produziu os seus efeitos; e ainda que tal tenha ocorrido numa fase inicial**, e que agora não me possa valer das minhas opiniões individuais, ainda assim sinto-me confiante que, devido aos receios do povo, esse sentimento mantém-se, e seria estimulado, no local, pelo tipo de oficial que agora descrevi. Estando a descrição dada, escuso acrescentar que é a vós que tenho em vista. Se verdes esta matéria sob a luz com que a vejo, penso que percebereis a  importância do objecto, e que dedicareis uma parte do tempo em que devemos continuar aqui inactivos a uma missão tão importante, que poderá resultar na formação de um projecto sobre as nossas operações futuras com generais sobre os quais, segundo penso, ireis exercer aquela influência que, estou contente por confessar, penso que os missionários débeis enviados ao presente na Espanha estão bem prestes a perder, tanto sobre a sua nação como sobre eles próprios.
Não posso gostar da aparição do Duque del Infantado neste momento bastante crítico. O seu carácter manteve-se de pé, mas ele conduziu o seu Soberano [Fernando VII] a Bayonne, e agora regressa. Parece que o Tenente-Coronel Doyle tomou o Duque debaixo da sua protecção.
Se o exército da Extremadura decidir ser útil, deve marchar agora, pois a guerra de Portugal chegou ao fim. Creio que o General Galluzo tem 15.000 homens.
Tenho a honra de ser, Senhor, o vosso mais humilde e obediente servidor,


H. W. Dalrymple


[Fonte: Supplementary Despatches and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington, K.G. - Vol. VI, London, John Murray, 1860, pp. 133-134].


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Notas:


* Para percebermos a disputa a que alude Dalrymple, transcrevemos o seguinte trecho da memória que o mesmo escreveu sobre a sua conduta durante este período (a qual foi publicada postumamente):
"Ainda que nos últimos dias de Maio tinham sido formadas Juntas de Governo, semelhantes à de Sevilha, em todos os sítios que não estavam debaixo do poder dos franceses, parece que nesta época as mesmas o desconheciam, pois quando o General Castaños escreveu-me a anunciar a formação do novo governo, usou a seguinte expressão: "Na cidade de Sevilha foi erigida uma Junta Suprema de Governo dos quatro reinos da Andaluzia". Pouco depois, no entanto, o General percebeu que cada um dos quatro reinos da Andaluzia - a saber, Sevilha, Granada, Jaén e Córdova - tinha uma Junta própria; e que a Junta de Granada estava tão longe de reconhecer a supremacia da de Sevilha, que somente permitiu que as suas tropas se reunissem com as de Sevilha, a fim de agirem debaixo do comando do General Castaños contra os franceses comandados por Dupont, depois dum tratado formal negociado e ratificado pela autoridade das respectivas Juntas, no qual a independência de Granada foi afirmada e reconhecida" [Fonte: Memoir, written by General Sir Hew Dalrymple, Bart., of his proceedings as connected with the affairs of Spain, and the commencement of the Peninsular War, London, Thomas and William Bone Strand., 1830, p. 25].


** Dalrymple refere-se à correspondência extra-oficial que, ainda enquanto Governador de Gibraltar, trocara com o General Castaños, antes do estabelecimento das Juntas de Governo espanholas. 

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