sexta-feira, 20 de maio de 2011

Pastoral do Arcebispo do Évora (20 de Maio de 1808)













Nota: 

Tal como a pastoral do Bispo do Algarve datada de 21 de Maio de 1808, parece que esta pastoral do Arcebispo de Évora, Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas, foi composta devido à pressão do Governo de Junot, na sequência da publicação da carta da chamada deputação portuguesa. Segundo as próprias palavras de Cenáculo, "preparei [...] uma Pastoral que fiz imprimir, [...] a qual cuidadosissimamente não publiquei, sem embargo dos exemplos de muitos outros Prelados que as publicaram, ainda que eu me visse instado e como [que] obrigado a fazê-lo pela insinuação expressa do chamado Secretário de Estado do Interior, Francisco António Herman [sic], em aviso seu e em nome do intruso Junot, datado de 13 de Maio de 1808".
De acordo com uma nota manuscrita apensa ao raríssimo exemplar impresso acima publicado, da autoria de Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, antigo director da Biblioteca Pública de Évora (fundada pelo próprio Cenáculo), os 500 exemplares impressos ficaram assim conservados fechados e empacotados até à expulsão definitiva dos franceses, quando Cenáculo decidiu mandar queimá-los. 
Ainda segundo Cunha Rivara, para além do exemplar acima publicado, que se encontra compilado no 5.º códice (fls. 101-105v) do chamado Diário manuscrito de Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas (disponível para consulta on-line na Biblioteca Digital do Alentejo), somente escaparam às chamas outros dois exemplares impressos: um que Cenáculo enviou ao Príncipe Regente, em anexo a uma relação acerca da brutal repressão dos franceses sobre Évora no final de Julho de 1808, que teremos ocasião de publicar mais adiante (e da qual extraímos o excerto acima citado); e um "que o Padre José Agostinho de Macedo pôde subtrair da tipografia". 


Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (20 de Maio de 1808)


Por notícias de Bordéus consta que a deputação portuguesa tinha chegado àquela cidade, aonde devia residir por algum tempo para esperar as ordens de Sua Majestade o Imperador e Rei.

Entre Madrid e Lisboa continuam a ser livres e frequentes as comunicações; e sem dificuldade chegam os correios: o que anuncia que o interior da Espanha está agora tão tranquilo e tão submisso como a própria vila de Madrid.

As peças seguintes que recebemos daquela capital anunciam que os efeitos da revolução de Aranjuez ficam anulados; que El-Rei Carlos IV tornou a subir ao Trono; e dão a conhecer o modo actual de organização do Governo espanhol.

[seguiam-se, entre outros textos, um manifesto de Carlos IV (4 de Maio), uma carta de Carlos IV a Murat e um decreto do mesmo monarca à Junta de Governo de Madrid (4 de Maio), e uma carta de D. Fernando a seu tio o Infante D. António (6 de Maio)]

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 20 de Maio de 1808].

Notícia publicada na Gazeta de Lisboa sobre a homenagem que vários ilustres portugueses deram a Junot no dia 17 de Maio, depois da recepção em Lisboa da carta da Deputação portuguesa em Bayone, de 27 de Abril (20 de Maio de 1808)


Lisboa, 20 de Maio.


O dia 17 do corrente [mês] será memorável para este país e entrará no número das suas memórias históricas as mais honoríficas. O entusiasmo que se manifestara entre os habitantes da capital e das províncias, ao anúncio das disposições tão benévolas de Sua Majestade o Imperador e Rei para com Portugal, parece ser ainda mais vivo nos corpos do Estado; porquanto todos conheceram que era preciso renovar, nesta circunstância venturosa, a sua admiração ao grande Monarca, a quem assim os Reis como os Povos consideram hoje como seu árbitro e regulador dos seus destinos.
Conseguintemente, os principais corpos do reino pediram ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, General em Chefe do Exército, permissão para irem render-lhe a homenagem do seu reconhecimento para com o Imperador, rogando a Sua Excelência que quisesse ser o veículo por onde transmitissem os seus votos a Sua Majestade Imperial e Real.
Sua Excelência, rodeado dos membros do Conselho do Governo e do seu Estado-Maior, recebeu, naquele dia, à uma hora da tarde, não deputações dos ditos corpos, mas sim os próprios corpos, que desejavam apresentar-se todos juntos no seu Palácio.
Havendo os ditos corpos, em trajo de cerimónia e com as suas insígnias distintivas, tido a honra de ser introduzidos ante Sua Excelência, o Excelentíssimo Principal Miranda, Deão da Santa Igreja Patriarcal, foi o primeiro que falou em nome do Clero, e disse* que sendo um dos deveres mais santos imposto pela Religião a submissão aos Soberanos da terra, era para o Clero de Portugal uma bem grata satisfação o ver a sorte deste Reino nas mãos dum Monarca que entre os seus numerosos títulos de glória tem o de Restaurador da Religião Católica em França, e de seu Protector nos países onde faz chegar sucessivamente as suas armas triunfantes. Sabemos, acrescentou ele, que, pois que Napoleão o Grande destina um Rei para Portugal, esse Rei manterá neste país a antiga pureza da fé e os princípios religiosos, pelos quais a nossa nação se tem distinguido sempre entre os fiéis.

O Excelentíssimo Conde da Ega, em nome da Nobreza, falou nos termos seguintes:
A maior parte da Nobreza que tem hoje, Senhor, a honra de vir em corpo à presença de Vossa Excelência, havendo-me conferindo a distinção de ser o intérprete dos sentimentos e dos votos que desejam manifestar ao representante do maior dos Soberanos, procurarei tanto quanto possa exprimir o reconhecimento que nos tem suscitado a comunicação que por Vossa Excelência nos foi transmitida da certeza da benevolência de Sua Majestade Imperial e Real para com esta nação, e das benéficas intenções com que prepara a nossa felicidade; e achando-nos na justa convicção de haver sido Vossa Excelência a quem devemos as esperanças lisonjeiras que nos enchem do maior prazer, tem Vossa Excelência o primeiro direito a receber deste corpo os mais sinceros agradecimentos por um benefício sem igual.
Uma parte deste mesmo corpo, a deputação portuguesa que teve a honra de chegar junto do Augusto Trono de Napoleão o Grande, possuída da voz unânime de uma nação que há quase sete séculos tem entre as da Europa ocupado um lugar assaz distinto, levando o seu nome às regiões remotas, aonde até o presente conserva o direito de possessões ricas, que descobriu pela animosidade e ciência dos seus passados, e sustentou com o seu braço e à custa do seu sangue; quando esta nação consegue a promessa augusta de não ser confundida com aquela cuja posição se aproxima de nós, e da qual soube separar-se e sustentar a dinastia que então confirmou sobre o seu trono e de que hoje lastima ver abandonados vassalos fiéis que seguiam constantes as disposições de seus maiores. A Nobreza de Portugal vai com o resto da nação acolher-se debaixo da protecção do Árbitro da Europa, do ditador**; e a grandes gritos arrancados do fundo da sua alma, aclamam por seu Protector Soberano a Napoleão o Grande: vemos desde agora raiar os nossos dias felizes; esta Nação receber[á] os benefícios de que se tem feito digna, e desvanecer-se[-ão], à proporção que as circunstâncias o permitem, os males que nestes últimos tempos temos experimentado.
Confiados pois no Génio poderoso e regenerador do maior dos Soberanos, que jamais teve outro que o igualasse e que nos oferece tão generosamente a sua augusta protecção e benevolência; se nos for permitido, e Vossa Excelência assim o dispuser e ordenar, teremos a honra de dirigir por Vossa Excelência estes mesmos votos sinceros e puros à presença de Sua Majestade Imperial e Real num acto que firmemos com as nossas assinaturas: este meio será um testemunho irrevogável da nossa deliberação, livre e espontânea, e nela a primeira base de uma grande Monarquia regenerada, que sendo firmada pela mão augusta do Grande Napoleão, veremos conservada, e só por este único modo sustentada a constituição que no princípio desta Monarquia formalizaram [os] nossos maiores, e que elevando à dignidade de Rei a um Príncipe, filho de outro, francês de origem, o Conde D. Henrique, tivemos a felicidade de que esta dinastia nos desse até o último Henrique uma série de 18 Reis todos dignos, por diversos títulos, de ocupar o trono para que haviam nascido.
Digne-se pois Vossa Excelência continuar na presença augusta do nosso Soberano aqueles bons ofícios com que dispôs o seu benéfico e grande ânimo a considerar esta nação digna de ser acolhida debaixo da sua poderosa protecção; sendo pois Vossa Excelência a quem a Nobreza de Portugal reconhece ser o instrumento do prazer com que vem patentear os sinceros sentimentos da sua gratidão: haja Vossa Excelência por benefício de uma nação que assim como lhe deve o sossego público, que tem sabido pelas suas luzes manter, sem opressão nem violência, estudando o carácter português que muito bem conhece, igualmente como primeiro entre os grandes titulares deste Reino pela graça e dignidade que lhe foi conferida de Duque de Abrantes, à testa desta Nobreza, unindo-se a nós, querer que vamos juntos aos pés do Trono Augusto de Napoleão, e peçamos-lhe que nos confira aquela distinção que recebe o seu Reino de Itália: o seu poder não encontra obstáculos, nem a distância o faz ser menos activo; o seu génio não tem limites; sejamos pois com a França, e do modo que Sua Majestade Imperial e Real o decidir, uma mesma família; são idênticos os nossos interesses, sejam os mesmos os princípios que nos liguem e unam: faça Vossa Excelência conhecer que a Nobreza de Portugal há de conservar constante aquela fidelidade para com os seus Príncipes que sempre distinguiu; que há de sustentar, como sempre o fez, no Campo [de guerra] e nos Gabinetes, a dignidade dos seus Soberanos; que há de seguir com igual adesão o sistema que Sua Majestade Imperial e Real lhe prescrever, pois está convencida de que só assim se fará merecedora da grande felicidade de entrar no número dos fiéis vassalos de Napoleão, ou como seu Soberano imediato, ou como Protector de uma nação federativa que jamais se há de separar das suas augustas intenções.

Ao orador da nobreza sucedeu o Desembargador João José de Faria Abreu Guião, primeiro deputado do Senado de Lisboa, e que faz as vezes de presidente, o qual se exprimiu desta sorte:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, o Senado da Câmara de Lisboa, na parte em que representa os seus concidadãos, e o Juiz do Povo, na que diz respeito aos Grémios dos ofícios a que preside, vêm testemunhar a Vossa Excelência que a fidelidade e respeito aos Soberanos foram sempre as qualidades mais características que enobreceram os portugueses: lisonjeados deste carácter, e de que Vossa Excelência o tenha conhecido, vêm gostosos agradecer a Vossa Excelência o resultado das benéficas intenções de que Vossa Excelência fez nascer no magnânimo coração de Sua Majestade Imperial e Real, que vêm transmitidas no anúncio da deputação de Portugal, que, em consequência das ordens de Vossa Excelência nos foram comunicadas; e não havendo ninguém que com mais energia, consideração e piedade possa de novo levar ao coração de Sua Majestade Imperial e Real as puras, respeitosas e necessárias intenções dos portugueses do que Vossa Excelência por que as conhece, auxilia e protege, animados deste poderoso socorro nos esperançamos de que Sua Majestade Imperial e Real, que do seu respeitoso Trono conhece o estado da Europa, e quanto a nossa situação precisa que as reja com sabedoria, proteja a Religião, faça reinar a Justiça, respeitar as Leis, animar as Artes e as Ciências, procure a abundância e conserve a paz. O mesmo Senhor seja quem faça esta escolha, que só nos pode ser vantajosa sendo regulada pelos heróicos sentimentos de um Monarca tão iluminado, tão generoso e pio como Sua Majestade Imperial e Real, de quem pende a conservação da energia portuguesa.

O Desembargador do Paço Manuel Nicolau Esteves Negrão, Chanceler-mor do Reino, nomeado para falar em nome da Magistratura, disse:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, a carta dos membros da deputação portuguesa enviada junto a Sua Majestade o Imperador dos franceses, Rei de Itália, Protector da Confederação do Reno, aos seus compatriotas, a qual Vossa Excelência mandou publicar, enche da maior satisfação e tranquilidade a todo este Reino; ela contém e descobre um inexaurível, precioso tesouro de graças que a poderosa mão de Sua Majestade Imperial e Real derrama, e continuamente há de derramar sobre este país.
O voto uniforme dos portugueses, de reconhecimento, gratidão, respeito e obediência a tão grande Monarca, assim o assegura: e por sua Real vigilência e sabedoria, esperam os portugueses, com confiança, unir-se ao grande Sistema Continental.
A Mesa do Desembargo do Paço, com todo o corpo da Magistratura, a quem Vossa Excelência, anuindo aos seus desejos, benignamente concedeu esta audiência, vem comigo protestar [=declarar] os mesmos sinceros votos da nação; e o mais exacto cumprimento às Reais ordens de Napoleão o Grande, segundo as quais Vossa Excelência cada dia, com interesse público, tão sabiamente decreta.
A Vossa Excelência, Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, particularmente rendemos o nosso mais puro agradecimento pela grande influência que terá tido nestes benefícios, pelas informações que terá dado a nosso respeito; e desejando os tribunais fazerem chegar à sua presença por mão do Ministro do Interior [Hermann].

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, depois de ter acolhido estes diversos discursos com a afabilidade que o caracteriza, respondeu nestes termos às deputações reunidas na sua presença***:

Senhores, tenho ouvido com verdadeiro prazer os votos que se me acabam de expressar da parte de todas as classes do Reino relativamente à importante questão indicada na memória dos senhores da deputação portuguesa aos seus concidadãos. A unanimidade que reina nos vossos votos é um presságio certo de que sabereis unir-vos para sustentar os direitos do Príncipe que o Grande Napoleão designar para vos reger.
Sustido pela protecção daquele grande Monarca, o Rei de Portugal tornará a pôr esta nação na ordem a que pelas conquistas a elevaram os Vascos da Gama e os Joões de Castro, e pela política os Luíses da Cunha e o ilustre Pombal.
Senhores, de boa vontade me incombirei de transmitir ao Imperador e Rei, nosso Soberano, a representação que deveis fazer em nome de todas as classes reunidas do Reino. Dir-lhe-eis que os portugueses têm merecido a sua protecção pelo muito que nele confiam e pela submissão com que obedecem a todas as ordens que têm emanado da sua vontade imperial. Dir-lhe-eis que nas crises que acabam de suceder, perto de nós, têm os portugueses mantido uma tranquilidade perfeita, e que esta só podia proceder duma tal confiança.
Convido-vos pois, Senhores do Clero, Senhores do Tribunal do Desembargo do Paço, Senhores do Senado da Câmara de Lisboa, a que vos unais com os Senhores da Junta dos Três Estados a fim de coordenar a representação que deve exprimir o voto de todas as classes de cidadãos. Este voto será, como me persuado, digno da nação, digno da grandeza de alma do Monarca a quem a haveis de dirigir. Posto entre ele e vós, bem grato me será pensar que haverá podido contribuir para a vossa felicidade, dando a conhecer ao Grande Napoleão que os portugueses merecem a sua bondade, e são dignos da poderosa protecção e da aliança da grande nação.


Este discurso, pronunciado num tom tão firme como nobre, numa assembleia de 300 para 400 pessoas, escolhidas entre o que há de mais ilustre neste Reino, não produziu aumento algum na afeição que os portugueses professam a Sua Excelência o General em Chefe; acabou porém de electrizar os corações e os ânimos, mostrando aberto aos olhos da nossa nação um futuro brilhante. O Duque de Abrantes, decorrendo consecutivamente entre esta numerosa e respeitável reunião de pessoas, parecia um pai em meio duma família a quem acabava de prometer uma grande felicidade. Todo aquele luzidio concurso se retirou convencido de que as nossas esperanças se hão de realizar, pois que têm de chegar aos pés do trono de Sua Majestade o Imperador e Rei, apadrinhados pelos sufrágios daquele que, nos campos da vitória como bem na carreira política e no Governo da capital da Europa, sempre soube tão bem servir a tão grande Amo; e justificar a mais alta confiança que lhe tem merecido.

[Fonte: 1.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 20 de Maio de 1808].

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Notas:

* Deve aqui expor-se a seguinte nota, publicada na Gazeta de Lisboa, n.º 35, de 1 de Outubro de 1808 (ou seja, já depois da expulsão dos franceses):




** Deve notar-se que o termo «ditador» não tinha, na época, a conotação autoritária e despótica normalmente atribuída nos nossos dias, significando antes o "magistrado extraordinário entre os Romanos, revestido do supremo poder". Cf. Novo Diccionario da Lingua Portugueza: composto sobre os que até o presente se tem dado ao prelo, e accrescentado de varios vocabulos extrahidos dos classicos antigos, e dos modernos de melhor nota, que se achaõ universalmente recebidos, Lisboa, Typografia Rollandiana, 1806.



*** A Gazeta de Lisboa inseria também o discurso original em francês. Só copiámos a tradução portuguesa.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (19 de Maio de 1808)





Lisboa, 19 de Maio de 1808.


Meus respeitáveis e caros colegas:

Acabei de visitar as colecções de história natural da Ajuda, e o que vi ultrapassou todas as minhas expectativas. Não vos arrependereis nada por terdes expedido um comissário, pois o vosso comissário desfruta de toda a liberdade que exigem as suas operações.
Metade da colecção é composta por animais brasileiros, e toda essa metade falta-vos [ao Museu de História Natural de Paris, entenda-se]. A principal riqueza das colecções da Ajuda é formada por mamíferos, aves e insectos. Como já tive a honra de vos contar, meus caros colegas, vi alguns animais novos nos gabinetes de Madrid, e [agora] reencontrei-os nos da Ajuda. Temos grandes motivos de satisfação, sobretudo porque todos estes animais estão perfeitamente conservados. Disseram-me o motivo: quase todos provêem duma remessa que foi feita há dois anos atrás*.
Vi estas colecções como um simples amador, pois ainda não recebi uma autorização formal para agir em vosso nome e em nome do Ministro. Desta forma, não conheci senão o que está exposto. Fiz algumas perguntas, e informaram-me que tinham muitas outras coisas em depósito, mas que a falta de espaço e de preparação era o motivo pelo qual não se expunham ao público.
A colecção que mais vos interessará será sobretudo a dos macacos: é bastante considerável. Exceptuando quatro ou cinco, os restantes são novos. Levar-vos-ei finalmente o verdadeiro Simia belzebuth [segundo a denominação de Lineu] ou Guaribu de Marcgrave**; ou melhor, erro ao particularizar, pois levar-vos-ei todos os animais que este antigo naturalista nos deu notícias curtas e até agora insuficientes.
Deixei o gabinete da Ajuda com a maior satisfação: ter-me-ia sido bastante penoso empreender uma viagem tão longa e tão fatigante se não tivesse chegado a um resultado importante, e ao resultado que havíeis prometido a vós mesmos.
Uma sala considerável é consagrada à mineralogia. Peço perdão ao sr. Haüy por não ter nada para lhe dizer hoje, porém, fosse pela minha ignorância sobre esse assunto, fosse por me entreter bastante com os objectos que estão ligados mais directamente aos meus estudos, passei ao de leve pela [sala da] mineralogia; tudo o que percebi é que todas as amostras são muito pequenas.
Ainda não vi as colecções botânicas. Na minha próxima carta informarei os senhores Desfontaines, Jussieu e Thouin [acerca deste assunto], pois hei-de conseguir saber alguma coisa daqui a dois dias.
Vou jantar hoje à casa do General em Chefe [Junot]; espero determinar com ele a maneira como me apropriarei de tantas riquezas.
É essencial para a minha missão que não faltem os objectos que vos devem ser levados. Espero, ademais, que o poder [dos franceses] prevalecerá sobre o querer [dos portugueses].
O General em Chefe aprecia as ciências e tudo o que possa engrandecer o domínio do espírito humano; tenho muita confiança no que ele achará adequado ordenar.
Assim que os meus [próximos] passos estejam traçados, escreverei a Sua Excelência o Ministro do Interior para lhe prestar contas; e para que sejais, meus caros colegas, mantidos perfeitamente ao corrente das minhas operações, enviar-vos-ei cópias dos meus ofícios a Sua Excelência.
Aceitai, caros e respeitáveis colegas, os meus ternos sentimentos e saudações respeituosas.

Geoffroy St-Hilaire.

[P.S.] Lalande apresenta-vos os seus respeitos; vamos separar-nos. Ele continuará junto das colecções da Ajuda, a fim de não perder nenhum tempo. No que me diz respeito, ocupo um magnífico aposento na casa dum escanção da Inquisição, um ex-negociante condecorado com a Ordem de Cristo. É o melhor dos Inquisidores, dado que tem para comigo uma bondade e uma complacência infinita.

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 43-44].

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Notas:

* Segundo o autor do artigo onde foi publicada originalmente esta carta, Geoffory Saint-Hilaire alude aqui muito provavelmente às colecções de animais, plantas e minerais recolhidas pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, que tinha estado durante quase dez anos no Brasil. [Cf. Manuel José Maria da Costa e Sá, "Elogio do Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Tomo V. Parte II, Lisboa, Na Typografia da mesma Academia, 1818, pp. LVI-LXXX, sobretudo a partir da p. LXV; "Notícia dos Escritos do Senhor Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira", in id., ib., pp. LXXXI-LXXXIX].
Algumas das caixas que Alexandre Rodrigues Ferreira tinha remetido para Portugal continuavam em 1808 por abrir, facto que muito impressionou Geoffroy Saint-Hilaire, quando finalmente lhe foi concedido o acesso aos depósitos do "gabinete" da Ajuda. Em cartas que posteriormente viria a escrever aos seus colegas do Museu de História Natural de Paris, anotou a este respeito que muitos herbários com plantas do Brasil, de África ou da Índia estavam ainda virgens, precisamente porque ninguém se tinha dado ao trabalho de os abrir. Um deles, feito em 1785, foi encontrado por Geoffroy Saint-Hilaire bastante devorado por insectos. Tal desleixo impressionou tanto Saint-Hilaire que, já depois da Convenção chamada de Sintra, pressionado pelos ingleses para devolver as caixas com os materiais que entretanto tinha recolhido em Portugal, viria a apelar ao naturalista Sir Joseph Banks, presidente da Royal Society, escrevendo-lhe uma carta onde dizia preferir entregar-lhe as ditas caixas do que deixar que o seu conteúdo permanecesse assim desprezado e ignorado pela ciência, pois tinha a convicção de que "depois de mim, estas caixas não serão abertas"... 
Curiosamente, e fazendo justiça às palavras de Geoffroy Saint-Hilaire, algumas das caixas que em 1808 continuavam virgens, assim permaneceriam por mais  200 anos, como foi o caso da recente "descoberta", na Universidade de Coimbra, de uma colecção de peixes do Brasil, recolhida nos finais do século XVIII pelo citado Alexandre Rodrigues Ferreira. [Cf. André Jegundo, "Colecção raríssima do séc. XVIII de peixes do Brasil encontrada na Universidade de Coimbra", in Público, 17 de Janeiro de 2011; "Colecção rara de peixes do século XVIII descoberta na UC", Ciência Hoje, 18 de Janeiro de 2011; "Colecção de peixes do século XVIII encontrada em Coimbra", in Super Interessante].

** Geoffroy Saint-Hilaire viria a descrever este e outros símios do Brasil no seu artigo "Tableau des quadrumanes, ou des Animaux composant le premier Ordre de la Classe des Mammifères", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome dix-neuvième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1812, pp. 85-122, p. 108.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Boletim de Lagarde sobre uma carta do Corregedor de Tavira de 18 de Maio de 1808




Boletim n.º 20


Lisboa, 26 de Maio de 1808


Algarves - O Corregedor de Tavira, 18 de Maio


Dez indivíduos desta zona fugiram, numa das noites passadas, numa embarcação espanhola, para passarem à Esquadra inglesa. Esta saída livrou toda a região de sujeitos malvados que não tinham nada de bom.

[Fonte: António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 29 (tradução nossa do texto original em francês)].



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Nota: 

Seria este grupo de fugitivos parte daqueles “malévolos” que o Corregedor mor do Algarve, mr. Goguet, mencionara a Lagarde a 11 de Maio? 
Este documento foi publicado originalmente por António Ferrão, que comentou a seu respeito o seguinte: "Vê-se que Lagarde, encontrando-se impotente para evitar a fuga dos mais audaciosos para a esquadra inglesa, apesar da determinação das mais severas medidas repressivas, desdenha dos que zombavam das suas ordens. É uma simples variante da fábula da raposa e das uvas!" [António Ferrão, A 1ª invasão francesa : a invasão de Junot vista através dos documentos da Intendência Geral da Polícia, 1807-1808: estudo politico e social, Coimbra: imprensa da Universidade, 1923, p. 363].


Carta do General Kellermann, em Elvas, ao Comandante General da província espanhola da Extremadura (18 de Maio de 1808)




Não posso já ver por mais tempo com uma indiferença que manifestaria debilidade, o procedimento dos habitantes de Badajoz em relação aos franceses que os seus negócios ou ordens conduzem a essa cidade. É inadmissível que estejam continuamente expostos aos insultos dum povo ofuscado que não conhece o respeito, nem a consideração, nem os direitos da sociedade; e que a protecção vigilante que eu concedo a todos os espanhóis que passam a Elvas ou a esta província não possa produzir sobre os espíritos o sentimento de uma justa reciprocidade. Cumpre a vós, como aos demais depositários da autoridade, que finalmente se acalmem estes excessos por muito tempo continuados, que voltem a trazer esse povo a ideias mais liberais e que lhes façam sentir a injustiça e, sobretudo, os perigos dessa conduta, que não sofrerei por mais tempo. Isto é o que vos insisto expressamente a fazer conhecer, publicando a minha carta.
Tenho a honra de vos renovar a segurança da minha alta consideração.

Elvas, 18 de Maio de 1808.

O General Kellermann


[Fonte: Correspondencia del general Kellerman con el Capitán General de Extremadura, Conde de la Torre del Fresno, sobre el restablecimiento del correo entre ambos, sobre la liberación de un carretero francés, preso en Badajoz y sobre la actitud levantisca de la población de esta ciudad, in Archivo Histórico Nacional, DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.36].

Carta da Câmara de Leiria relativa à recepção das notícias da deputação portuguesa (18 de Maio de 1808)




Ilustríssimos e Excelentíssimos Senhores:

O notório zelo e patriotismo com que Vossas Excelências têm desempenhado o importante carácter de representantes da nação portuguesa junto a Sua Majestade o Imperador e Rei, nos faz esperar que, por intervenção de Vossas Excelências, as sinceras e submissas expressões do nosso reconhecimento chegarão aos pés do Trono do nosso Augusto Protector.
A interessante carta em que Vossas Excelências se dignaram anunciar-nos as benévolas intenções de Sua Majestade Imperial e Real, tem excitado o mais vivo entusiasmo e admiração pelas virtudes daquele Grande Monarca: o nome de Napoleão o Grande, sempre pronunciado entre nós com veneração e respeito, agora voa de boca em boca misturado com o de Pai e Benfeitor.
Nem o exemplo dos Magistrados, nem a influência de pessoas autorizadas se tem feito necessários (e com que satisfação nossa!) para formar e fixar o espírito público: surdos à intriga e pérfidas insinuações dos nossos inimigos, em todos os corações se acha desenvolvido aquele antigo gérmen de afeição e simpatia, que sempre subsistiu entre as duas nações.
Em toda a parte as tropas francesas têm sido recebidas com o acolhimento devido à sua boa conduta e exacta disciplina. A posição de Leiria na estrada militar nos tem felizmente dado ocasiões de nos distinguirmos (como é constante) na cordialidade com que se devem agasalhar estes nossos irmãos primogénitos.
Ditosos os portugueses, se tornando à pureza e elevação de seus primitivos costumes, se fizerem dignos de ser vassalos de Sua Majestade Imperial e Real, e de ocupar depois da Grande Nação o primeiro lugar nos seus desvelos paternais! Se pela nossa situação geográfica não podemos lograr esta fortuna, um Príncipe da escolha do Grande Napoleão não pode deixar de fazer-nos felizes, e realizar as nossas esperanças.
Então regeneradas e restituídas a uma verdadeira existência política, devemos erigir em nossos corações e transmitir aos nossos descendentes um monumento de gratidão, eterno, e digno do Grande Restaurador da Nação Portuguesa!
Deus guarde a Vossas Excelências.
Leiria, em Câmara de 18 de Maio de 1808.

E eu, Izidoro Ignacio Vieira da Silva, escrivão da Câmara, a fiz escrever.
L. S.
António Duarte da Fonseca Lobo
Álvaro Soares da Silva Macedo
João Baptista Coutinho e Faro
Joaquim Manuel Tavares de Brito
Pedro Francisco Nattario


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Esta carta, publicada na Gazeta de Lisboa (n.º 22, 31 de Maio de 1808), era antecedida pela seguinte nota, provavelmente da autoria do Intendente Geral da Polícia, Pierre Lagarde: "Entre as numerosas cartas de congratulação chegadas de diversas partes do Reino, por ocasião da memória da deputação portuguesa, havemos notado a seguinte, da cidade de Leiria, província da Estremadura, a qual é, em certo modo, uma análise, muito bem feita, dos votos que ressoam por todas as partes em Portugal".



Carta circular do Conselho de Madrid (18 de Maio de 1808)





[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 22, 31 de Maio de 1808].

terça-feira, 17 de maio de 2011

Três cartas do Comandante General da Extremadura sobre um incidente em Talavera de la Reina envolvendo um Coronel francês (17 de Maio de 1808)





À vila de Talavera, em 17 de Maio.

Um Coronel francês que acaba de chegar numa diligência de correio declarou-me que nessa vila, enquanto se ocupava dos cavalos, disse um paisano a um criado seu que por três ou quatro dias aguentavam mas que, depois, o primeiro que passasse pagaria tudo. Já sabe você as ordens tão rigorosas do Governo, que lhe comuniquei, encarregando a maior harmonia e bom trato com a tropa e passageiros da nação francesa, e agora novamente lhe encarrego, debaixo da responsabilidade da sua pessoa e dos seus bens, do seu cumprimento; e para evitar estes e semelhantes insultos, se valerá de patrulhas de homens honrados[?] e do Sargento e tropa que tem nessa vila, fazendo que se ache expedido o trânsito por essa vila e no sítio onde se encontra a casa da posta, pois de modo contrário darei parte à Junta Superior do Governo. 
Deus &tc. 


***



Ao Sargento Comandante da Partida em Talavera.


Badajoz, 17 de Maio de 1808 


Chegou ao meu conhecimento, por um Coronel francês que veio em diligência postal, que alguns paisanos dessa povoação provocaram o seu criado com palavras nada conformes ao bom tratamento que tenho ordenado que se dê a toda a tropa e passageiros da nação francesa; e para que não volte a notar-se semelhante desordem, contribuirá você com os meios possíveis às disposições dessa justiça, postando alguns dos Hussardos da sua partida na rua do trânsito e especialmente nas imediações da casa onde se encontram os cavalos da posta, para impedir que os paisanos se aproximem dos passageiros, e não omitindo você quanto saiba para contribuir a que se guarde a melhor harmonia com os daquela nação, apresentando-lhes quantos auxílios sejam possíveis, como está avisado. 
Deus &tc.


***


[Aos Comandantes das Partidas]


Badajoz, 17 de Maio de 1808


A fim de que as tropas e transeuntes da nação francesa experimentem os auxílios e boa harmonia que tão repetidamente me encarregam os superiores, vós contribuireis com os meios possíveis à disposição dessa justiça, postando nas ruas do trânsito e especialmente nas imediações da casa da posta (se existir) alguma tropa da que esteja a vosso cargo, com o fim de impedir que os paisanos se aproximem dos passageiros franceses e evitar por este meio algumas palavras ou acções que se oponham ao bom tratamento que se lhes deve dar, pois a menor falta que a este respeito se experimente será a vós imputada.
Deus &tc.

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[Fonte: Correspondencia del Comandante General de Extremadura, sobre la entrada de tropas españolas en Portugal a finales d e 1807, la llegada del Ejército francés a la región, su aprovisionamiento y colaboración con él de las autoridades españolas de Extremadura a comienzos de la guerra, in Archivo Histórico Nacional de España, ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.2//DIVERSOS-COLECCIONES,136,N.31]. 

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio. 


As notícias que nos chegam de Espanha continuam a ser satisfatórias. Alguns rebeldes quiseram induzir o povo espanhol à revolta; mas não conseguiram o seu fim; e assim, na capital como nas províncias, reina a tranquilidade. 

Segundo algumas cartas de Bayonne, parece que a mediação de Sua Majestade o Imperador e Rei teve um feliz resultado: que El-Rei Carlos IV torna a subir ao trono de Espanha, de que tentara removê-lo um partido inglês, escolhendo por instrumento e vítima da trama a seu próprio filho, o Príncipe de Astúrias; e que enquanto o pai e o filho vão a buscar momentaneamente um asilo e algum repouso em França, para dar aos partidos tempo de serenar e de aplacar as animosidades recíprocas, Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg exercerá grandes poderes em Espanha como Lugar-Tenente Geral do Reino. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal houve por bem mandar remeter à Mesa do Desembargo do Paço o original da carta da deputação portuguesa, datada de 27 de Abril […] passado, para se ver e registar na mesma Mesa e passar a ser guardado no Real Arquivo da Torre do Tombo. 

Das províncias vizinhas de Lisboa consta que a memória da deputação portuguesa a respeito dos intuitos benéficos de Sua Majestade o Imperador e Rei a favor deste país, vai aí excitando o mesmo entusiasmo que em Lisboa. Nela acham os portugueses a certeza de ficarem sendo uma nação independente, visto que uma tal vantagem deve ser a recompensa da sua tranquilidade e do bom espírito que manifestam. 

As tropas portuguesas que se encaminharam para Espanha há alguns meses vão, segundo se diz, a ser postas de guarnição em Pau, no Bearn e em Auch. É esta a melhor resposta que se possa dar aos boatos da malevolência que as fazia marchar para o norte, como se aliás o primeiro dever dos militares não fosse o ir com gosto a toda a parte onde possa ser útil a sua presença. Cumpre, tanto a este como a muitos outros respeitos, seguir o exemplo das próprias tropas francesas, de cuja glória está hoje em dia cheio o Universo. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes fez executar anteontem, à vista dos seus olhos, uma grande parada na bela praça do Rossio. Este espectáculo fez acudir aí uma estranha multidão de habitantes, que receberam a Sua Excelência com o contentamento que a sua presença excita por toda a parte. Para este efeito se achavam as tropas espanholas reunidas com as francesas, procurando todas à porfia merecer a aprovação de Sua Excelência, que se mostrou mui satisfeito da sua boa disciplina e da exacção das suas manobras. 

Sua Majestade a Imperatriz-Rainha saiu de Bordeaux, e ao tempo da partida dos últimos correios, tinha já ido ter a Bayonne com o seu augusto esposo. 

Uma ordem do dia, recentemente publicada em Roma pelo General Miollis, que é quem ali comanda as tropas francesas, diz que ele está incumbido de expressar às tropas romanas a satisfação de Sua Majestade o Imperador e Rei, e de anunciar-lhes que soldados valerosos só devem ser comandados na Europa por chefes de valor, e não mais por clérigos nem por mulheres. 

[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 17 de Maio de 1808].


Carta de Geoffroy Saint-Hilaire a Georges Cuvier, Director do Museu de História Natural de Paris (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio*.




Meu digno amigo:


Ia informar-vos da minha chegada a este país quando recebi a carta que me haveis dado o prazer de me escreverdes para Madrid. Os conselhos que me nela me dais sobre as dificuldades que teria nesta última cidade permitir-me-iam conhecer, se não tivesse já milhares de outras provas, toda a previdência do vosso espírito e toda a vossa amizade para comigo. Dado que estou em Lisboa, devo dizer-vos que tinha considerado perfeitamente o meu terreno.  
Já estive aqui com o Excelentíssimo Governador-Geral [Junot], que me recebeu da forma mais gentil. Ainda não sei se vos poderei servir relativamente à relação das massas**; tenho exactamente as mesmas ideias que vós e podeis estar seguro que farei o meu melhor.
Ainda não tive tempo para ver as colecções; assim, não tenho nada para vos dizer sobre este ponto.
Encontrei aqui um dos meus amigos, o General Loison, que desempenha o papel de segunda personalidade do exército; ele está intimamente ligado ao General Comandante em Chefe [Junot]. Quando saí da casa deste último, Loison foi visitar um amigo seu que estava doente, em cuja casa me encontrava. A conversa tornou-se mais íntima, e aproveitei algumas disposições que eu via que eram favoráveis para o nosso caro Correia, a fim de lhe preparar o restabelecimento da sua pensão; pedi-lhe que cresse que tem aqui um correspondente cheio de zelo e devoção, e pedi-lhe a graça de não ser parcimonioso comigo. 
Haveis-me dado um grande prazer ao me anunciardes um trabalho sobre as aves da colecção: tentarei retribuir [com um trabalho sobre os] moluscos o que haveis feito sobre aquela parte da minha administração.
Não foi sem trabalhos, meu caro amigo, que aqui cheguei: o que bem vejo pelos termos da vossa carta, que haveis receado por mim, acabou por me acontecer!
No dia 2 de Maio, foi dado um correctivo à populaça em Madrid. Um alcaide, a três léguas, exagerando esses acontecimentos, espalhou falsas notícias, alarmes e gritos de vingança por todo o reino (parte oeste e sul), através de mensageiros enviados por todas as estradas: num instante, o reino sublevou-se. Eu estava então a meio caminho entre Madrid e Lisboa. Ao receber tais notícias, vi-me rodeado, assim como o meu companheiro Lalande, por uma populaça em efervescência. Pronto para fugir à noite por caminhos desviados, a fim de evitar um grupo que vinha ao nosso encontro para nos desfazer aos bocados, fui preso pelos magistrados de Mérida, os quais tinham destacado cavaleiros que nos alcançaram em San Pedro. O povo esperava-nos às sete horas da tarde, porém foi enganado pelo nosso plano de fugir mais tarde: chegámos perto da uma da madrugada, mas encontrámos ainda bastante povo para provarmos todas as angústias e os combates mais penosos. Apedrejado por duas vezes, foi um milagre que tenha podido escapar [com vida] nessa ocasião. Entrei por fim num asilo que se tornou para mim num porto de salvação: era a prisão dos criminosos de Mérida. Fomos aí misturados com eles. Fomos severamente revistados e despojados. Encontrámos-nos na situação de invejar os miseráveis cujo alojamento partilhávamos, os farrapos sobre os quais repousavam a sua cabeça; os grilhões de um deles foram a minha almofada. 
Para cúmulo da desgraça, esses prisioneiros partilhavam o patriotismo dos homens livres; tínhamos assim inimigos nesse lugar, embora depressa os tenhamos conquistado pela nossa liberalidade. Ainda que seguros no interior [da prisão], estávamos bastante preocupados em relação ao seu exterior. No dia seguinte, um grupo mais numeroso de populares tentou por duas vezes assaltar a prisão, para invadi-la ou para nos extrair dela. Por fim, o objectivo foi tentado através dum incêndio. A guarda repeliu com bastante energia os nossos inimigos, mas um só homem fez mais do que todos, o alguazil mayor [sic] (chefe dos oficiais de justiça), homem extremamente forte, o qual nos tinha também maltratado enquanto o pôde fazer dentro [da prisão], mas que ainda que estivesse confiante de ter bem servido a causa dos espanhóis nesse ponto, defendeu-nos corajosamente no exterior. O seu bastão, que golpeava a cada momento, teve mais efeito que as baionetas.
Assim que soube da nossa aventura, o General de Badajoz ordenou que fossemos libertados. Essa ordem chegou no quarto dia [cerca de 8 de Maio]. O que ganhámos com isso foi irmos ocupar a cela das mulheres ou o primeiro andar da prisão, cuja porta era vigiada pelo povo, bem como as estradas por onde poderíamos fugir: foi preciso continuarmos presos mais quatro dias.
Toda esta efervescência derivava duma notícia falsa, e tudo cessou quando se soube melhor o que tinha acontecido. O receio sucede hoje ao furor; a vergonha está em todos os espíritos. Lança-se sobre o alcaide, autor da notícia, a causa de tantas desgraças; ele é acusado pelos seus com um encarniçamento que demonstra o seu arrependimento. Como o que aconteceu não voltará certamente a acontecer, pude contar-vos a nossa aventura.
O pior foi o rombo na minha carteira; foi preciso pagar todos os serviços que me foram prestados, os guardas, os carcereiros, os prisioneiros, as notícias verdadeiras ou falsas que nos vinham trazer, as mulas da carruagem que havíamos alugado a 100 francos por dia, outras mulas que se mantinham prontas para fugir por caminhos desviados, e os nossos víveres a preços 20 vezes superiores ao seu valor habitual. Encontrei-me assim na situação de ter que pedir emprestado a Lalande o seu pouco dinheiro e depois a dois outros companheiros*** que, como iam na nossa viatura, partilharam a nossa detenção.
Aqui [em Lisboa] não passo necessidades. As bolsas de Loison e Margaron abriram-se para mim, e Loison acaba de pôr à minha disposição os bens dum homem que teria uma fortuna de 40 milhões. Ou seja, vou viver em casa dum banqueiro que  dispôs toda a casa ao serviço do seu hóspede.
Contudo, caro amigo, peço-vos que queirais pedir ao Sr. Thouin para continuar a reembolsar as minhas despesas de viagem, que são contabilizadas na base de 308 postos a partir de Paris, dado que cada légua do país conta como um posto no serviço militar. Enviei de Madrid um pedido para [pagamento das despesas] de Paris a Madrid visado pelo Inspector dos Correios e pelo Intendente-Geral sob o ponto de vista da distância; vou enviar um outro para o resto do caminho.
O General Margaron empenhou-se para ter perto dele o vosso enteado, a título de Ajudante de Campo****; ele fez diligências nesse sentido que devem ter sido seguidas pelo nosso amigo o Sr. Lebreton. Se ele estava prestes a partir, que venha até aqui sem receio. A Espanha e Portugal estão na mais profunda paz: um homem sozinho pode atravessar sem riscos agora esses dois países. Ademais, ambos países estão perfeitamente observados. 
Como receio que não haveis recebido os pedidos do General Margaron, vou fazer com ele faça um duplicado, que vos remeterei sem demora. 
[Espero que] queirais, meu caro amigo, continuar a dar-me notícias vossas; não podeis ter uma ideia do prazer que elas me deram.
Apresentai os meus respeitos às vossas senhoras e recordai-me também à lembrança dos nossos colegas, tanto do Museu de História Natural [de Paris] como da sociedade do chá*****.
O vosso todo dedicado e eterno amigo,

Geoffroy Saint-Hilaire


[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 41-43].

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Notas:


* Esta carta foi lida a 15 de Junho de 1808 em sessão do Museu de História Natural de Paris.


** O termo francês masses (em itálico no texto original), que traduzimos literalmente, é demasiado ambíguo (tanto em francês como em português) para podermos determinar com precisão a que se referia Geoffroy Saint-Hilaire.


*** Alusão aos dois soldados franceses que tinham passado (aparentemente em Madrid) a acompanhar Geoffroy Saint-Hilaire e o seu assistente Lalande na sua viagem até Portugal. Ver a este respeito a carta de Saint-Hilaire ao seu sogro, datada de 29 de Abril de1808.


**** Tratava-se de Thélème Duvaucel, um dos quatro filhos das primeiras núpcias de Madame Duvacel, a qual enviuvara e casara por segunda vez em 1804 com Georges Cuvier, que naturalmente adoptara os seus filhos. Depois de regressar à França na sequência da Convenção chamada de Sintra, Thélème voltaria a Portugal e aí acabaria por morrer, em 1809, durante a retirada do exército francês do norte do país. Curiosamente, um dos irmãos de Thélème era Alfred Duvaucel, que além de naturalista como o seu padrasto, foi também um reconhecido explorador. [Cf. Mrs. R. Lee, Memoirs of Baron Cuvier, London, Printed for Longman et al., 1833, pp. 29-30; trad. francesa: Mémoires du Baron Georges Cuvier, Paris, H. Fournier Libraire, 1833, p. 31].


***** Denominação duma sociedade, promovida por Georges Cuvier, que se reunia aos Sábados.