terça-feira, 17 de maio de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (17 de Maio de 1808)



Lisboa, 17 de Maio. 


As notícias que nos chegam de Espanha continuam a ser satisfatórias. Alguns rebeldes quiseram induzir o povo espanhol à revolta; mas não conseguiram o seu fim; e assim, na capital como nas províncias, reina a tranquilidade. 

Segundo algumas cartas de Bayonne, parece que a mediação de Sua Majestade o Imperador e Rei teve um feliz resultado: que El-Rei Carlos IV torna a subir ao trono de Espanha, de que tentara removê-lo um partido inglês, escolhendo por instrumento e vítima da trama a seu próprio filho, o Príncipe de Astúrias; e que enquanto o pai e o filho vão a buscar momentaneamente um asilo e algum repouso em França, para dar aos partidos tempo de serenar e de aplacar as animosidades recíprocas, Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg exercerá grandes poderes em Espanha como Lugar-Tenente Geral do Reino. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe do Exército de Portugal houve por bem mandar remeter à Mesa do Desembargo do Paço o original da carta da deputação portuguesa, datada de 27 de Abril […] passado, para se ver e registar na mesma Mesa e passar a ser guardado no Real Arquivo da Torre do Tombo. 

Das províncias vizinhas de Lisboa consta que a memória da deputação portuguesa a respeito dos intuitos benéficos de Sua Majestade o Imperador e Rei a favor deste país, vai aí excitando o mesmo entusiasmo que em Lisboa. Nela acham os portugueses a certeza de ficarem sendo uma nação independente, visto que uma tal vantagem deve ser a recompensa da sua tranquilidade e do bom espírito que manifestam. 

As tropas portuguesas que se encaminharam para Espanha há alguns meses vão, segundo se diz, a ser postas de guarnição em Pau, no Bearn e em Auch. É esta a melhor resposta que se possa dar aos boatos da malevolência que as fazia marchar para o norte, como se aliás o primeiro dever dos militares não fosse o ir com gosto a toda a parte onde possa ser útil a sua presença. Cumpre, tanto a este como a muitos outros respeitos, seguir o exemplo das próprias tropas francesas, de cuja glória está hoje em dia cheio o Universo. 

O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes fez executar anteontem, à vista dos seus olhos, uma grande parada na bela praça do Rossio. Este espectáculo fez acudir aí uma estranha multidão de habitantes, que receberam a Sua Excelência com o contentamento que a sua presença excita por toda a parte. Para este efeito se achavam as tropas espanholas reunidas com as francesas, procurando todas à porfia merecer a aprovação de Sua Excelência, que se mostrou mui satisfeito da sua boa disciplina e da exacção das suas manobras. 

Sua Majestade a Imperatriz-Rainha saiu de Bordeaux, e ao tempo da partida dos últimos correios, tinha já ido ter a Bayonne com o seu augusto esposo. 

Uma ordem do dia, recentemente publicada em Roma pelo General Miollis, que é quem ali comanda as tropas francesas, diz que ele está incumbido de expressar às tropas romanas a satisfação de Sua Majestade o Imperador e Rei, e de anunciar-lhes que soldados valerosos só devem ser comandados na Europa por chefes de valor, e não mais por clérigos nem por mulheres. 

[Fonte: Suplemento Extraordinário à Gazeta de Lisboa, n.º 20, 17 de Maio de 1808].


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