sábado, 21 de maio de 2011

Pastoral do Bispo do Algarve (21 de Maio de 1808)





Dom Francisco Gomes, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo desta Diocese e Bispado do Reino do Algarve, etc.: 

A todos os Nossos amados Filhos em Cristo, saúde, paz e benção do Senhor, que de todos é verdadeiro remédio, luz e salvação. Haveis de saber que a Eterna Sabedoria, que tudo rege, há disposto que a nossa Deputação, que se foi apresentar ao Augusto Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno, tivesse a felicidade de ser benignamente recebida por Sua Majestade Imperial e Real, com promessa de usar com todos nós, os portugueses, dos efeitos da Sua cordial beneficência. Todos pois nos devemos unir em dar a Deus as devidas graças por ter movido a piedade a um tão grande Monarca. E para que esta Acção de Graças seja bem aceite a Deus, vos exortamos a que vos lembreis que a Nossa Santa Lei e Religião nos manda que procuremos sempre viver em paz com todos, e sujeitarmos a quem governa com uma perfeita sujeição e obediência; e tratar a todos os nossos próximos, e as tropas que ao presente se acham entre nós, com afável caridade, para merecermos a Protecção do Senhor, que é Deus de paz; e deste modo mostraremos ao Augusto Imperador e Rei, que satisfazemos às suas Boas Intenções. 
Igualmente exortamos a todos os soldados nossos diocesanos que tiverem desertado, que sem demora recolham para onde são chamados pelo Decreto que sobre isto se publicou, para evitarem o perigo gravíssimo a que estão expostos, e a que expomos interesses verdadeiros de todos nós; e assim esperamos que os Pais e parentes dos mesmos desertores os obriguem e persuadam a que cumpram o que lhes é mandado, para não causarem dano tão notável a si e a todo o Reino. Damos a todos vós, amados Filhos em Cristo, a nossa Bênção, em nome do Senhor. 
Dado em Faro, sob nosso sinal e selo das nossas Armas, aos 21 de Maio de 1808. E eu, Joaquim Manuel Rasquinho, Secretário de Sua Ex.a R.ma que a fiz escrever. 

Francisco, Bispo do Algarve. 

[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, pp. 344-345 (doc. 12)].


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Nota:

Ano e meio depois (mais precisamente a 4 de Janeiro de 1810), o mesmo Bipo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, em carta a João António Salter de Mendonça (Secretário de Estado dos Negócios do Reino do governo regente), parece de algum modo justificar a posição que tomou com a pastoral acima transcrita: “Ocupados (de facto) os Reinos de Portugal e Algarve pela prepotência francesa; abolida a regência dos mesmos reinos; dada por extinta a Real Casa de Bragança; e sujeito tudo ao poder do Imperador Napoleão, a cujo arbítrio estava o dar um rei aos portugueses; desde logo ficou à vontade destes, ou sujeitarem-se ao duro e estranho Império, ou a reassumirem os seus direitos primitivos para reinvindicação de sua legítima monarquia, liberdade e independência: entre estes dois extremos, não havia meio” [Fonte: op. cit., pp. 395-397, p. 395 (Doc. 94)].


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