sábado, 27 de agosto de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (27 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

A importância e a multiplicidade de objectos que têm fixado a minha atenção desde que me pus em marcha para estes sítios, não permitiram até agora a organização do Boletim do Exército, chegando o tempo, quanto muito, para se tomarem os precisos apontamentos e se participar a Vossa Excelência, juntamente com os negócios da maior urgência, a notícia das nossas marchas e posições. Hoje que houve um momento à minha disposição, pôde-se arranjar a cópia das notícias que a Vossa Excelência remeto e que continuarei segundo me for possível*. Queira Vossa Excelência persuadir-se que eu estimaria bem estar em tão curta distância de Vossa Excelência, ou ter um tão grande número de empregados, que pudesse não dar um só passo nem tomar a mais indiferente resolução sem a consultar com Vossa Excelência; e eis aqui porém o que distâncias e uma indispensável economia tornam impraticável; quando mesmo a necessidade de tratar negócios sumamente importantes em circunstâncias imperiosas, quase sempre imprevistas, e a cada instante variáveis, e como o inimigo à vista, não me obrigassem a resoluções prontas e decisivas, sem que sobeje tempo para outros assuntos. Anteontem escrevi a Vossa Excelência sobre quanto se havia passado de importante até então. Acrescentarei agora que a evacuação de Santarém é certa, e que os povos daquele distrito tomaram o nosso partido, e se vão preparando para a sua defesa; sendo muito para estimar que as nossas tropas do comando do Brigadeiro Bacelar, que mandara parar em razão do Armistício, se tivessem avançado até aquela vila, onde estão com grande prazer do povo da Borda d'água, que me [as]seguram [que] vai desenvolvendo uma energia maior do que em nenhuma outra parte, e que nos seria bem útil. Eu já hoje fiz dirigir ofícios de agradecimento aos Magistrados e outras pessoas, e cuido de excitar naquela gente o maior entusiasmo. A guarnição francesa que ali estava se havia já dirigido para lá de Vila Franca [de Xira]; mas diz-se e não é certo que ou estes ou alguns outros se passaram para o Alentejo.
Dos que ocupavam as nossas posições actuais, parte caminhou para Lisboa, e a outra parte, que será de 4 a 5 mil homens, tomou a cabeça de Montachique, posto importante, e que vão fortificando, segundo consta.
Também se fala de revolução em Lisboa, projectada, ou já em parte desenvolvida, e que em razão da distância em que estamos e do Armistício pode ser abafada com grande desgraça daquela capital.
As posições do Exército francês, o modo triunfante com que entraram em Lisboa, o que imprimiram com tanta falsidade a respeito das suas imaginárias vitórias e sobre os Exércitos Aliados**, as barbaridades e roubos que continuam a perpetrar nos lugares da sua dominação, os reforços que o Exército inglês recebe continuamente, e aqui mesmo, tendo desembarcado de novo 14.000 homens, tudo isto parece dispor e fazer necessária a renovação das hostilidades para se pôr termo a esta luta, com a vantagem que nos promete a superioridade de forças. Ao nosso Exército se vai unindo bastante gente, e nem toda da maior utilidade; mas não sendo possível deixar de admitir a ele militares que se apresentam com patriotismo verdadeiro ou forçado, limitei-me a dar-lhe alimento, e é quanto se pode fazer por ora num país [=região] devastado por franceses, e posto em requisição de víveres pelos ingleses, e agora por nós. [As]seguro a Vossa Excelência que as subsistências me devem grande cuidado, e que por isso reputaria um grande benefício da Providência proporcionarem-se os negócios a sairmos todos para posições mais abundantes, pois que esta da Lourinhã até de água carece. A província do Alentejo está em maior desarranjo; como a Junta de Évora se dissolveu, e o Governador se ausentou para Olivença, ficou todo o corpo militar numa espécie de anarquia, e pelo que me dizem com grave prejuízo do público. Fui requerido para providenciar esta desordem, ao que me recusei por não me considerar com autoridade para o fazer. Entretanto rogo a Vossa Excelência se digne nomear Governador para aquela província, porque será de absoluta necessidade a reunião e disciplina daquela tropa, ou seja para defesa própria, ou para a da margem do Tejo, se os franceses o passarem no projecto de voltando a sua marcha sobre Abrantes ou mais adiante, se dirigirem contra as províncias do norte. Por cautela recomendo ao Brigadeiro Bacelar, que reúne do outro lado do Tejo a tropa portuguesa que lhe ficar mais à mão, e a que diz esperar-se ali de Espanha para obstarem de acordo a alguma incursão do inimigo. Tem havido um considerável número de denúncias de polícia, e fui obrigado a mandar prender algumas pessoas denunciadas, e outras contra quem haviam factos e indícios veementes de espionagem e traição. Agora mandei um Magistrado visitar as cadeias de Leiria, Caldas, Óbidos e Lourinhã, e os presos que ali se achassem em razão de desconfiança sobre a sua opinião e conduta política, ordenando-lhe [que] soltasse os que lhe parecessem inocentes ou de nenhuma importância, [mas que] conservasse porém em prisão e inquirisse formalmente sobre os que o merecessem, e à vista dos indícios que houver contra eles, enviando-me relação de todos e os sumários com os réus para Coimbra e Porto, segundo o pedisse a justiça. O assassinato premeditado e aleivoso do Corregedor mor de Abrantes, em que ultimamente falava a Vossa Excelência, foi um acontecimento desgraçado, e que não pode ter a aprovação da justiça. Pelos papéis inclusos verá Vossa Excelência o que se me representou, e o partido que tomei. Agora me consta que hoje vieram ao Quartel-General inglês dois emissários franceses que, chegando às 9 da manhã, saíram às duas da tarde; e ali se rompeu que eles tinham moderado as suas pretensões, em consequência da repulsa que encontrou o Tratado assinado a 22, da parte do Almirante Cotton, e que tudo parecia ajustado; apesar porém desta notícia, pode ser que dentro em bem pouco tempo marchemos.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Quartel-General da Lourinhã, 27 de Agosto de 1808.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 212-214 (doc. 41)].

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Nota: 


* Tratava-se provavelmente do Diário do Exército de Operações da Estremadura que apareceu publicado na Minerva Lusitana de 29 de Agosto.

** Ver em particular a carta de Junot a Lagarde (datada de 19 de Agosto) e a carta do mesmo ao General Travot (de 21 de Agosto), ambas publicadas a 24 de Agosto em Lisboa, e inseridas no mesmo dia na Gazeta de Lisboa, no último número em que este periódico esteve debaixo do poder do Governo francês em Portugal. 

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