quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ofício do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto, sobre o armistício do dia 22 (25 de Agosto de 1808)



Senhor: 



Tendo cessado os motivos que me prendiam em Leiria, e que vejo com todo o reconhecimento e satisfação haverem merecido a aprovação de Vossa Alteza Real, continuei sem perda de tempo a marcha para Alcobaça e Caldas, e daqui a Óbidos, onde a falta de subsistências me obrigou a alguma demora. E como tivesse ali recebido um aviso do General Wellesley, participando-me que no caso de não poder seguir no dia 21 a marcha do Exército britânico, que se dirigia pela estrada de Mafra, esperasse então que o inimigo, como parece provável, se adiantasse na direcção para Lisboa, e que só depois verificasse a junção do nosso Exército com o de Sua Majestade Britância, por isso me demorei no Domingo [21 de Agosto] em Óbidos. Aconteceu porém que nesse mesmo dia foram os franceses atacar o Exército inglês, que [este] o não esperava, nem eu o podia presumir, estando a 4 léguas de distância, o que não impediu aos nossos aliados e à tropa portuguesa que dantes se lhe unira, que muito se distinguiu na acção, obterem uma muito assinalada vitória.
No dia seguinte marchei para este Quartel [da Lourinhã], que me tinha sido designado pelo General inglês, e apenas chegado me avisa de que era novamente atacado, e que marchasse a recair sobre a sua retaguarda. Marchei, com efeito; mas tendo mandado um oficial ao Quartel-General, quando estava a meia légua de distância, voltou este dizendo-me que o General desejava que eu ficasse junto à Lourinhã, e que os Esquadrões que tinham dado alarme eram os que acompanhavam o General Kellermann, que vinha como Parlamentário, e com quem o General ficava fechado. Por um Ajudante de Ordens meu me mandou o novo General em Chefe [Dalrymple] dizer que necessitava de conferir comigo no dia 23 no novo Quartel-General do Ramalhal, junto de Torres [Vedras], pela uma hora da tarde. Fui e me leu a cópia da Convenção que na véspera se tinha estipulado com os franceses; fiz as minhas reflexões; pedi [que] se me mandasse uma cópia, e retirei-me. 
Logo que aqui cheguei, recebi a carta e cópia da transacção de que remeto a Vossa Alteza Real as cópias juntas. Fiz passar em consequência imediatamente ao Quartel-General [britânico] o Major Aires Pinto de Sousa, para apresentar ali com toda a franqueza e dignidade as observações que me pareceram oportunas e indispensáveis nas presentes circunstâncias, para prevenir a má inteligência que se poderia dar a alguns artigos, e abrir caminho a quaisquer explicações convenientes, assim nas conferências preliminares como na definitiva, que vão tratar os chefes dos dois Exércitos em sentido puramente militar. Parece neste momento que a justiça das minhas reflexões, a habilidade do agente [Aires Pinto de Sousa], a boa fé do General Dalrymple e as rectas intenções do Ministério britânico conspiram de acordo a preparar-nos um futuro agradável; pelo menos, Senhor posso [as]segurar a Vossa Alteza Real que as respostas que já recebi do Major Aires Pinto me dão todo o motivo para assim o esperar*.
Quartel-General da Lourinhã, 25 de Agosto de 1808**.

Bernardim Freire de Andrada [sic].

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 201-202 (doc. 34). Existem pelo menos outras duas transcrições deste documento, publicados por 
Julio Firmino Judice Biker, Supplemento á Collecção dos Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Corôa de Portugal e as mais Potências desde 1640 - Tomo XVI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878, pp. 74-75; e por Simão José da Luz Soriano, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal. Compreendendo a História Diplomática, Militar e Política deste Reino, desde 1777 até 1834 – Segunda Época - Tomo V – Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1893, pp. 212-213].

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Nota: 

Ver a primeira e a segunda carta que o Major Aires Pinto de Sousa enviou ao General Bernardim Freire de Andrade no dia 24 de Agosto.


** Devemos esclarecer que este documento aparece datado de 24 de Agosto na transcrição publicada no citado volume do Boletim do Arquivo Histórico Militar, mas a sua datação correcta é 25 de Agosto, como aparece em ambas as outras duas transcrições referidas, e como se poderá ver na carta que dois dias depois Bernardim Freire de Andrade viria a escrever ao mesmo Bispo do Porto.
Este documento seria um dos vários que a Junta do Porto viria a enviar a D. Domingos de Sousa Coutinho, embaixador de Portugal em Londres, o qual por sua vez os reenviou, no dia 3 de Setembro, a George Canning, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico

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