quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley a Charles Stuart (25 de Agosto de 1808)




Ramalhal, 25 de Agosto de 1808.


Meu caro Senhor:

Desde que vos escrevi pela última vez, estivemos ocupados muito activamente nesta parte, e com algum sucesso.
No passado dia 17, ataquei e derrotei o corpo de Laborde, que consistia em cerca de 6.000 homens, nos arredores da Roliça, a cerca de seis ou sete milhas a sul de Óbidos. No dia seguinte, as tropas francesas comandadas pelo General Junot, pelo General Loison e pelo General Laborde, reuniram-se nos arredores de Torres Vedras, chegando ao número de 12.000 a 14.000 homens. Marchei no mesmo dia em direcção à Lourinhã, para proteger o desembarque duma brigada de infantaria comandada pelo General Anstruther, brigada esta que se reuniu a mim no dia 20 no Vimeiro, perto de Maceira; e reuniu-se-me também outra brigada de infantaria debaixo das ordens do General Acland, bem cedo na manhã do dia 21, brigada esta que tinha desembarcado durante aquela noite.
O exército francês atacou-me na minha posição no Vimeiro, por volta das oito horas da manhã do dia 21; e foi completamente derrotado, com a perda de treze peças de canhão e um vasto número de mortos, feridos e prisioneiros. Sir Harry Burrard, que chegou ao ancoradouro da Maceira [= praia do Porto Novo] na noite do dia 20, desembarcou durante a acção na manhã do dia 21; e se eu não tivesse sido impedido, teria perseguido o inimigo até Torres Vedras naquela noite, e, com toda a probabilidade, a sua totalidade teria sido destruída.
Na manhã do dia 22 chegou Sir Hew Dalrymple; e na tarde veio o General Kellermann com uma proposição para suspender as hostilidades, tendo em vista fazer uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses.
No acordo que Sir Hew entrou nesta ocasião, existe um artigo que estipula que os russos poderão usar o porto de Lisboa como um porto neutro, artigo este que alude ao Almirante [Cotton], que recusou consenti-lo; e o General [Dalrymple] escreveu hoje a Junot que a suspensão de armas chegaria ao fim no dia 27 ao meio-dia, a não ser que uma se concordasse, antes desse dia, uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses, por mar. 
Este é o aspecto geral do estado das circunstâncias aqui. O corpo de Sir John Moore está no ancoradouro da Maceira [=praia do Porto Novo], e penso que está prestes a desembarcar. Para além disto, temos 6.000 tropas portuguesas na Lourinhã; e creio que um destacamento de tropas espanholas e portuguesas está à volta de Santarém e Abrantes.
Contudo, a retirada dos franceses está aberta em direcção a Elvas; e tenho poucas dúvidas que, a não ser que os retiremos de Portugal pelo mar, eles defender-se-ão em Elvas e Almeida, e teremos o prazer de atacar estas praças regularmente, ou de bloqueá-las no Outono. Se conseguirmos afastá-los por mar, será possível levar as nossas tropas para a Espanha sem demora. 
Rogo-vos para fornecerdes ao Coronel Doyle aquelas informações desta carta que achardes que lhe serão úteis.
As tropas francesas estão agora reunidos no Cabeço de Montachique, e estendem-se para Mafra. Nós estamos atrás [=a norte] de Torres Vedras, cuja cidade não está ocupada por nenhuma das partes.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley




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Nota: 


O destinatário desta carta, Sir Charles Stuart, futuro embaixador da Grã-Bretanha no Brasil, estava então na Espanha, na qualidade de agente secreto do Governo britânico (como para o Porto tinha sido enviado o barão von Decken). Aparentemente, Stuart teria desembarcado pouco antes na Galiza, onde chegou a entrar em conversações com a Junta local, dirigindo-se depois para Madrid, onde se encontrará em meados de Setembro.

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