sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Carta do General Bernardim Freire de Andrade ao Bispo do Porto (1 de Setembro de 1808)


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor:

Neste momento venho de receber a notícia que consta da carta que remeto inclusa, que é sem dúvida bem extraordinária, depois das diligências que eu tinha procurado fazer para que este tão grave negócio fosse tratado com mais vantagens nossas; porque como não se atendesse senão ao fim que os ingleses principalmente se propunham, conseguido este, tudo o mais pospuseram; a única utilidade que dele retiramos é a expulsão das tropas francesas, mas quantos franceses não ficarão entre nós debaixo da protecção de Inglaterra! Logo que os artigos me forem comunicados oficialmente, mando fazer uso da Protestação que pára na mão de Aires Pinto, e depois sucederá o que suceder. Bem desejava eu poder com mais brevidade consultar a Vossa Excelência; mas a distância é tal que não permite este recurso. Entretanto, eu teria muita necessidade de novas instruções para o caso presente, que me parece delicado demasiadamente para mim; não sei que partido tomar; lembra-me passar a Ribatejo, e unindo-me com as tropas de Bacelar, esperar as ordens de Vossa Excelência, mas também me ocorre que mesmo por política não devo deixar entrar os ingleses em Lisboa sem serem por mim acompanhados. Enfim, instrua-me Vossa Excelência com a brevidade que preciso. Creia Vossa Excelência que ver-se cada um julgar assim, sem ser ouvido, não poder resistir, não lhe permitirem as circunstâncias mais que protestos, é coisa bem triste. Dê-me Vossa Excelência as suas ordens, com que muito alegrará quem se confessa e reconhece [o] mais obsequioso amigo e respeitoso criado.

Bernardim Freire d'Andrade [sic].

Quartel-General da Encarnação, 1.º de Setembro de 1808, pelas 2 horas da madrugada.

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. II, 1931, pp. 3-77, p. 5 (doc. 61)].

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