segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Capitão William Warre aos seus pais (22 de Agosto de 1808)




Vimeiro, 22 de Agosto de 1808


Meus amados pais:

Desde que vos escrevi há alguns dias atrás, através do Coronel Brown, tivemos um dia bastante glorioso e memorável para a Inglaterra. Os franceses atacaram-nos ontem na nossa posição com toda a sua força, perto de 15.000 homens. Esperava-se que o ataque fosse de madrugada, e teria-o sido, se eles não se tivessem atrasado devido ao [mau estado dos] caminhos. Repousamos as nossas armas cerca de 2 horas, depois de termos descansado antes da madrugada, como habitualmente, quando chegaram os piquetes do Regimento n.º 40, que faz parte da brigada do General Ferguson, e foram dadas ordens para se prepararem as armas.  
O nosso nobre General, sobre cuja bravura e conduta é quase impossível dar-se uma ideia, foi logo para a montanha, estando os nossos postos a cerca de meia milha de distância duma pequena aldeia, Vimeiro. Conseguimos aí perceber que o inimigo avançava para atacar o centro do exército, e uma forte coluna estava marchando para circundar a colina sobre a qual estava a brigada do General, com Cavalaria e Artilharia; mas como tiveram que dar uma volta considerável, tivemos todo o tempo para nos prepararmos. 
Sir Arthur Wellesley (que foi o comandante, pois Sir Harry Burrard ainda não tinha desembarcado) deu ordens a várias brigadas, e tomou as disposições mais magistrais. O centro do exército, do qual estávamos separados por um vale fundo, foi logo atacado vigorosamente, mas [os franceses] receberam um tal revés, que rapidamente tivemos a glória de ver os franceses a vacilar e depois a afrouxar o seu ataque. Nesta ocasião, a brigada do General Ferguson e a do General Spencer, que comandava esta ala, foi vivamente atacada, mas o nosso nobre General, cerca de meia-hora depois do fogo ter começado, ordenou à sua brigada para carregar, conduzindo-a ele próprio de uma maneira que fica além de todo o louvor (basta também dizer que o Comandante em Chefe [Dalrymple]* considera que ele contribuiu bastante para a vitória mais completa que se poderia ter obtido sem cavalaria para o seguir). Os franceses cederam, e seguiram-se três vivas exclamados por toda a brigada. Uma parte reagrupou-se, mas os Regimentos n.os 36 e 71 carregaram sobre eles com uma impetuosidade irresistível, conduzidos pelo nosso bravo General, e forçaram-os a abandonar as suas armas, das quais foram tomadas quatro [peças de artilharia], juntamente com tantos atrelados. A vitória era agora certa, apesar deles se terem reunido uma vez mais, e foram novamente dispersos pelo Regimento n.º 71. A nossa artilharia completou o triunfo deste dia glorioso. Pareceria presunçoso falar da conduta de qualquer corpo. Cada soldado parecia um herói. Em algumas vezes o fogo era tremendo, e o campo encheu-se com os nossos bravos camaradas carregando as armas. O meu cavalo, uma criatura bonita e agradável que tinha recebido poucos dias antes no Porto, a troco de 38 moidores [sic], foi atingido em diferentes parte e caiu morto. Obtive um outro que pertencia a um Dragão, mas tão cansado que não se podia mexer; e quando um tiro raspou a minha capa, pensei que seria melhor desmontar a juntar-me ao Regimento n.º 36, que estava avançando, e tive a honra de ficar com ele durante o resto da acção. As baixas dos franceses são muito grandes, para cima de 1.200 mortos e feridos deixados no campo, para além dos prisioneiros. O nosso exército perdeu cerca de 500, entre mortos e feridos, e um bom número de Oficiais. O único que conheceis é o pequeno Ewart, atingido na perna, mas espero que não seja muito grave. O exército francês era comandado por Junot, Laborde, Loison, Chalot, Brennier. Os dois últimos foram aprisionados com um grande número de Oficiais, e foram tomadas treze peças de canhão.
Podemos louvar Ferguson pela sua bravura, perícia e calma sobre um fogo como granizo. Os seus homens, uma boa tropa do 20.º Drns. [sic], foram atingidos perto de mim, e receei morrer. O meu pobre amigo Stuart do Regimento n.º9 morreu há dois dias atrás, depois da batalha na Roliça, e todos o lamentam - para mim foi uma perda da qual ainda não me recuperei. Estava muito ligado a ele. Não tenho tempo para escrever mais particularidades. Estou muito fatigado, por ter estado ontem até depois das 5 da tarde recolhendo os feridos ingleses e franceses, e conduzindo-os a um lugar em segurança dos cobardes portugueses, que não lutam um décimo dum francês com armas, mas que roubam e matam os pobres e miseráveis feridos. Se tivesse tempo poderia dizer-vos tais coisas sobre estes meus compatriotas**, que não vos admiraríeis pelo meu despeito sobre eles, e por ter desagradavelmente mudado a minha opinião sobre o seu carácter.
Estou muito contente por vos dizer que nenhum membro do nosso Estado-Maior foi morto. Sofri um bom bocado durante toda a noite e o dia de hoje devido a uma dor de intestinos, mas agora estou melhor. Desejava termos avançado hoje para continuarmos a nossa vitória, sem lhes darmos tempo para se reunirem depois de um revés a que estão pouco habituados.
Adeus; Deus vos abençoe a todos. Com o melhor amor, do vosso filho mais afeiçoado,

William Warre


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Nota: 

* O General Dalrymple tinha sido nomeado General em Chefe do exército britânico destinado à Península Ibérica, mas apenas conseguiu desembarcar na praia do Porto Novo (a 4 quilómetros do Vimeiro) no dia 22 de Agosto, ou seja, um dia depois da batalha do Vimeiro.

** Como já atrás dissemos, William Warre nasceu em Portugal. 

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