segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta do Comendador Joaquim Pais de Sá, enviado ao Quartel-General britânico, ao General Bernardim Freire de Andrade (22 de Agosto de 1808)



Vimeiro, pelas 6 da manhã, 22 de Agosto de 1808.


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: 

Chegou Sir Harry Burrard, e com o maior sentimento vejo que Sir Arthur Wellesley, que com bastante sangue frio comandou a acção de ontem, em que os franceses atacando em duas colunas perderam 21 peças (julgo que os carros manchegos são incluídos neste número) de 23 que tinham; 2 Generais, vendo eu [que] Brenier e outros muitos oficiais e soldados, talvez em número de 400 a 500, foram feitos prisioneiros; a mortandade foi grande da parte dos franceses, pois que certamente tiveram 800. Os ingleses só tiveram um oficial de consideração ferido gravemente, o Coronel dos Dragões. Eu achei-me sempre no meio do fogo e das balas, e uma ainda tocou o meu cavalo e outra matou um soldado ao pé de mim. Os franceses ainda são bastantes, mas Junot não chegou ao pé das balas, e se conservou sempre em distância, reunindo-se às suas tropas depois da fugida no caminho daqui para Torres, como eu vi. Os nossos cavalos entraram na acção, morrendo o Comandante Elesiário da Polícia, um Cadete e outros feridos, mas devo dizer que de todos quem merece maior elogio foi o Tenente António Pinto. Creio que ainda hoje aqui se fica, não obstante aqui nada haver, mas penso [que os ingleses] querem desembarcar muita mais tropa, contudo aqui nada já há, nem vinho,  nem pão, nem coisa alguma. Se Vossa Excelência quiser dirigir-me a carta que há de escrever ao General novo [Sir Harry Burrard], eu lha entregarei. Esse soldado* me acompanhou sempre ontem, e poderá contar alguma coisa, mas não lhe acho inteligência para o fazer bem. Rogo-lhe [que] queira mandar logo essa carta ao seu destino.
Sou de Vossa Excelência amigo obrigado e atento criado.

Joaquim Pais de Sá

[P.S.] Agora mesmo recebo a sua carta**, mas como o General não está em casa, não lha posso entregar; logo que ele chegue o farei. Vejo o que o primo D. Miguel diz ao Huett a respeito dos mantimentos; aqui é totalmente impossível havê-los, o que será mais fácil na Lourinhã e nos povos circunvizinhos. 

[Fonte: Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 197-198 (doc. 30)].
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Nota: 

* Alusão ao portador desta carta a Bernardim Freire de Andrade.


** A referida carta de Bernardim Freire de Andrade a Wellesley não se encontra publicada.

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