segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Notícias publicadas na Minerva Lusitana sobre o combate da Roliça (22 de Agosto de 1808)



22 de Agosto

Recebeu-se ontem de pessoa fidedigna e testemunha presencial a seguinte relação da marcha do Exército combinado [luso-britânico], que se dirigiu pela estrada de Alcobaça em direitura ao inimigo, o qual se achava acampado junto a S. Mamede, ao pé da Roliça; e da acção do dia 17 do corrente, que começou às 8 horas da manhã e que acabou às 5 da tarde. 

Domingo [dia 14] pela manhã marchou o Exército inglês em direitura ao inimigo, que se achava acampado em número de 2.000 homens para lá de Cela, em distância de Alcobaça coisa de meia légua. O inimigo levantou imediatamente o campo com a notícia da marcha das nossas tropas, e se retirou para o campo de S. Mamede, junto ao lugar da Roliça, meia légua para lá de Óbidos, aonde se fez forte com a demais tropa que aí havia deixado, ganhando uma posição muito vantajosa, e de mui difícil tomada.
O Exército que seguia a estrada de Alcobaça parecia ser de 10.000 homens ingleses, além de uma divisão de portugueses de batalhão e meio de Valença, outro de Chaves, e dois esquadrões de Cavalaria. 
As tropas inglesas chegaram na Segunda-feira a Alcobaça, acampando-se uma légua para diante, junto à Calvaria; mas logo depois continuaram no caminho para as Caldas. Na noite desse mesmo dia continuou-se a marcha até Salir do Mato, distante meia-légua das Caldas.
Na Terça-feira partiu a tropa aliada para o campo das Caldas, aonde chegou a divisão portuguesa pelo meio da tarde, ficando acampada na vanguarda da coluna esquerda. Na noite de Terça para Quarta-feira se deram as ordens necessárias para a acção do outro dia, e todos mostraram estarem animados dos mais briosos sentimentos.
A tropa aliada prosseguiu a marcha até a saída de Óbidos, aonde o Exército se dividiu em três colunas, marchando uma pelo centro, outra pela direita, e outra pela esquerda. A pouca distância de Óbidos começou a fazer-se o cerco das montanhas, enquanto a coluna do centro marchava direito ao inimigo, e daí a pouco principiou o fogo dos caçadores sobre os franceses. O inimigo pôs-se em fugida para o sítio aonde tinha a artilharia, que era um monte que descobria todos os campos circunvizinhos, tendo ao mesmo tempo todas as vantagens da posição. Mas os caçadores da tropa aliada apossaram-se de um outro monte, donde fizeram sobre o inimigo um fogo tão vivo e tão bem dirigido que os caçadores do inimigo se puseram em retirada.
Os ingleses avançaram-se ao monte a peito descoberto e com a maior valentia; e o General, vendo que a posição favorecia muito o inimigo, mandou que uma coluna subisse pela direitura a cortá-lo; ao que ele não deu lugar pela precipitada fugida em que se pôs, deixando 2 canhões de grosso calibre. Perderam por fim a posição; mas foram ganhar outra, que apesar de ser inferior à primeira, era contudo muito boa.
Começou aqui o forte da acção, com o fogo dos caçadores; e durou desde as 7 para as 8 horas da manhã até às 5 da tarde. É superior a todo o elogio o valor com que a tropa inglesa se portou, metendo-se por meio dum fogo vivíssimo. Os franceses disputaram por muito tempo o campo, fazendo diferentes movimentos, e voltando por vezes à frente a atacar a coluna; mas viram-se por fim obrigados a uma desordenada fugida, que era protegida por um corpo de caçadores, e deixando o campo de batalha. Fizeram um último esforço para retirar os mortos e feridos, o que não conseguiram tão completamente que não ficassem os campos cobertos deles e de espingardas, espadas, mochilas, etc., etc.
O inimigo atacou o flanco esquerdo da coluna da esquerda; mas os caçadores lhe caíram em cima tão fortemente, que ele desistiu logo, tendo antes despedido três descargas; mas inutilmente, porque nem a um só desta coluna feriu.
A perda dos ingleses não se sabe ao certo; mas é bem pequena, sem dúvida, comparada com o modo descoberto e denodado com que combateram. A coluna do centro foi a única que entrou na acção, a qual descansou neste dia, enquanto o resto continuou a perseguir o inimigo. É tão grande a perda dos inimigos em feridos e prisioneiros, que se destinou um batalhão para os conduzir ao Hospital e às prisões.
Por outras notícias da mesma acção consta chegar a 2.000 homens a perda do inimigo, entre mortos, feridos e prisioneiros; mas esperamos dizer mais circunstanciadamente as particularidades desta acção, e com certeza a perda de ambas as partes.

Por notícias hoje recebidas sabemos ter sido de 150 a 200 homens a perda dos ingleses, e de 1.500 a dos franceses; esperamos um boletim do Exército, que publicaremos logo que chegue.
Consta decerto terem desembarcado em S. Martinho 6.000 ingleses, que tinham chegado à Figueira no comboio que já anunciámos; e neste último porto começaram a desembarcar Sexta-feira 15.000 ingleses, que se vão acampando em Lavos.
Agora mesmo recebemos por uma carta a notícia de que houvera Sábado uma nova acção muito porfiada, mas dedicada a favor do Exército combinado.


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