quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Relação da deserção de um Corpo de Cavalaria da Guarda da Polícia de Lisboa, que chegou a Coimbra no dia 4 de Agosto de 1808




Relação da deserção de um Corpo de Cavalaria da Guarda da Polícia de Lisboa, que chegou a esta Cidade no dia 4 do corrente. 


Constando-nos que na cidade de Coimbra e [nas] províncias do Norte se havia aclamado o Príncipe Regente Nosso Senhor, e organizado um considerável exército para expulsar do Lisboa e de mais partes destes Reinos os usurpadores e pérfidos franceses, nos determinámos a comunicar os nossos sentimentos patrióticos a alguns dos nossos Oficiais, que não se conformaram com os nossos projectos, talvez por falta de resolução, por temor, ou por circunstâncias urgentes e particulares; mas não esmorecendo por isso, antes cada vez mais firmes em nosso propósito, conviemos em nos ausentar de Lisboa, como com efeito o fizemos pelas 2 horas da noite [de 2 de Agosto], Elesiário de Carvalho, António Vieira, Joaquim Miguel de Andrada, Joaquim Manuel Ferreira Pratas, Tomás Pessoa, Domingos José Teixeira, José Germano, Joaquim António, António José de Castro e João Manuel, sendo as particularidades desta arriscada empresa as seguintes:
À uma hora da noite, o dito Elesiário, comandante da primeira Companhia, aquartelada às Necessidades, apresentando-se na frente dos seus Soldados, os convidou para o seguirem na gloriosa empresa do restabelecimento de Portugal, que havia sido tão vilmente usurpado ao seu legítimo Senhor, intimando-lhes ao mesmo tempo, com eficácia e energia, a crítica situação a que se veriam reduzidos quando um Exército português e resgatador se avizinhasse do Corpo a que pertenciam; que eles seriam forçados, no mais terrível e horroroso combate, a travar peleja com os seus mesmos compatriotas, assassinando-se reciprocamente; que por fim a vitória deveria infalivelmente pertencer ao furor e justa vingança dos esforçados e intrépidos portugueses; que se alguns deste Corpo sobrevivessem aos seus desgraçados camaradas, seria para sofrerem outra desgraça ainda maior, como a de verem cair na sua frente montões de cadáveres, alguns dos quais talvez seriam seus pais, suas esposas, seus filhos, seus amigos e patrícios, e que todos finalmente deviam desterrar a horrorosa ideia de favorecer a causa da perfídia e da irreligião; de acrescentar as forças do inimigo universal do género humano, de sustentar a mais insaciável ambição e despotismo, e de concorrer para elevar sobre ossadas de nossos semelhantes, e só para uma família, os tronos aleivosamente usurpados aos seus legítimos Senhores. 
Acabadas de proferir estas palavras, que fizeram nos ânimos dos Soldados a mais viva sensação, cada um quer ser o primeiro a declarar a sua vontade e desejos de partir: dá-se a primeira voz; formam-se as fileiras, e a Companhia, que despreza todos os obstáculos, dirige-se imediatamente para o Campo Grande, lugar indicado para a reunião da tropa, que foi então comandada pelo Sargento Teixeira, enquanto o mesmo Elesiário, que se havia encarregado de fazer sair a quarta Companhia, aquartelada ao Salitre, se encaminha para este sítio, e depois de fazer levantar os Soldados com o pretexto de uma diligência, lhes fala do mesmo modo que à primeira [Companhia], sendo igual o resultado, e observando em todos o mesmo entusiasmo, sem embargo de não ser seu Comandante o que lhes influía estes sentimentos, e partem como raios para o lugar aprazado. Já o sobredito Comandante, que nessa ocasião servia de Ajudante, tinha mandado ordem antecipada à segunda Companhia aquartelada em Andaluz, para partir a auxiliar o Corregedor mor em Vila Franca: o Furriel Castro, que a comandava, tinha sido prevenido, e em consequência daquela ordem estava formando um numeroso piquete, que logo parte a executá-la. A terceira Companhia foi convocada ao mesmo tempo pelo Sargento Tomás, de quem os Soldados fazem todo o bom conceito, e de acordo com o seu camarada Prata apronta-se tudo, e foi a primeira que se apresentou no Campo. 
Reunidas as Companhias, achou-se logo formado um Esquadrão de 56 filas, comandadas pelo referido Elesiário, e imediato o Andrada: marchando para o seu destino, esta coluna segurava a retaguarda por uma grande guarda na sua frente, adiantando-se a três quartos de légua de distância vedetas e exploradores, que se comunicavam com a frente da mesma coluna; e seguindo a estrada de Loures passámos ao Tojal, Sobral e Merciana, aonde se adiantou um piquete da Retaguarda com o Sargento Gamboa em sua companhia, o qual tinha recebido uma ajuda de custo, e uma ordem de Novion para o Governador francês de Santarém, do teor seguinte: 


O sobredito Sargento Gamboa, honrado e fiel português, que juntamente com todos os seus camaradas tinha servido sempre com a maior repugnância e rancor contra o Governo francês, em lugar de executar a referida ordem, veio associar-se connosco, e seguimos a nossa marcha por veredas e desfiladeiros impraticáveis e arriscados; às 10 da noite forrageámos no sítio de Alagoa, donde, sendo avisados que uma coluna francesa se dirigia para nós da parte de Óbidos, nos retirámos imediatamente, não desestimando que se nos oferecessem meios de algum encontro, contanto que não nos desviássemos da nossa direcção; ao amanhecer estávamos nos Carvalhos, e no momento do maior repouso, fomos novamente avisados que de Rio Maior ou de Alcobaça vinha tropa em nosso alcance; tomámos para a Batalha, e daí para Leiria, aonde chegámos à uma hora da tarde; observámos com o mais vivo prazer a actividade do Exército português, porque ao sair de Leiria e de Pombal a estrada oferecia a mais desvelada vigilância dos postos avançados do Campo de Pombal, aonde chegámos às 3 da manhã; às 7 da noite marchámos para Condeixa; mas qual não foi o nosso entusiasmo pela verificação das nossas esperanças, quando uma forte coluna de Infantaria desdobrava na nossa frente para nos facilitar o passo para Coimbra, aonde chegámos à uma hora da tarde! Fomos conduzidos pelo Comandante de Cavalaria, que ali se achava, e seguidos de um piquete daquela guarnição, dirigindo-nos a casa do Excelentíssimo Governador, e  daí à do Excelentíssimo General Nuno Freire de Andrade, depois de grandes aclamações e repetidos vivas de todo o Povo, que nos olhava com entusiasmo, e aplaudia a nossa fidelidade. O Comandante Elesiário dirigiu ao Senhor General a seguinte fala: 

Ilustre General: Soldados valentes, e fiéis Portugueses se apresentam diante de vós; se temos abandonado os nossos postos, foi só para unir as nossas às forças do vosso Exército, e para nos cair também alguma parte da glória de concorrer para o restabelecimento do Governo do nosso amado PRÍNCIPE REGENTE, a quem unicamente reconhecemos e respeitamos, como Legitimo Soberano de Portugal. A empresa da Restauração é heróica; a nossa fidelidade, inalterável, e debaixo do vosso comando não tememos encarar os perigos, o inimigo a morte. 

Assinado: Elesiário de Carvalho 


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