quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Três cartas do Arcebispo de Évora às autoridades de Serpa, Moura e Portel, com avisos para não resistirem ao exército francês (4 de Agosto de 1808)



Ilustríssimo Senhor Juiz de Fora de Serpa:

O meu amor antigo a essa vila insta-me para eu lhe fazer este aviso. Creio que já haverá constado nessa vila a situação funesta desta cidade de Évora. Resistiu ao Exército francês persuadida de ter forças; achou-se enganada, e foi assaltada pelo mesmo Exército, saqueada, e graças a Deus que não ficou de todo consumida.
Se aí se deseja Salvação, podem fazer o que praticou Estremoz: abriu-lhe as portas e foi a vila bem tratada. Vossa Senhoria tome o seu parecer, e desejo que seja o que é conveniente. 
Deus guarde a Vossa Senhoria muitos anos.
Évora, em quatro de Agosto de mil oitocentos e oito.

De Vossa Senhoria muito obrigado servo,
Frei Manuel, Arcebispo de Évora


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Ilustríssimo Senhor Doutor Juiz de Fora de Moura:

Obriga-me a experiência triste a fazer a Vossa Senhoria este aviso para seu governo. Bem sabe, digo, bem notório é o caso funesto de Évora, porque resistiu ao Exército francês. Évora resistiu; o Exército ficou vencedor, assaltou a cidade, e fez nela um saque muito circunstanciado. Se aí houver alguma resistência lhe sucederá o mesmo. Pelo que Estremoz tomou bom conselho, abriu as portas e recebeu em paz os franceses, e evitou o destino. Eu dirijo a Vossa Senhoria este exemplo saudável de Estremoz, e a catástrofe de Évora. Vossa Senhoria tomará o seu parecer. 
Deus guarde a Vossa Senhoria muitos anos.
Évora, em quatro de Agosto de mil oitocentos e oito.

De Vossa Senhoria servo muito obrigado,
Frei Manuel, Arcebispo de Évora


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Aos do Governo de Portel.

Habitantes de Portel:

À vossa testa tendes Magistrados reconhecidos pelo nosso Governo legítimo do Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes, e organizados debaixo dos auspícios de Sua Excelência o Senhor General Conde do Império Loison. A Junta criada pelo punhal dos espanhóis já não existe; entrou na razão, e na boa ordem. Deponde as vossas armas, trazei-as aos pés dos vossos Magistrados, os quais as entregarão a Sua Excelência o Conde do Império e tudo será perdoado. Os soldados franceses, que vos tratam ainda como inimigos, porque muitos dentre vós estão ainda em armas, virão a ser vossos protectores e vossos amigos. Vós não tendes tempo a perder: deponde as vossas armas; infeliz será o habitante que daqui a duas horas estiver ainda armado. Sua Excelência tem pronunciado sua sentença, e o habitante será morto.

Frei Manuel Arcebispo de Évora
O Coronel Lercado[?] Andersen
O Doutor João Limpo Pimentel
O Cónego Francisco Teles de Mira[?]
O Vigário Geral António José de Oliveira


[Fonte dos três documentos: Arquivo Histórico Militar, 1.ª div., 14.ª sec., cx. 2, doc. 49].

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