quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Carta do General Wellesley a Charles Stuart (1 de Setembro de 1808)




Sobral [de Monte Agraço], 1 de Setembro de 1808.


Meu caro Senhor:

Creio que na última carta que vos escrevi informei-vos das nossas acções dos dias 17 e 21 de Agosto; e que o Comandante em Chefe [Dalrymple] tinha acordado uma suspensão de hostilidades com os franceses, a fim de ser negociada uma Convenção para a sua retirada completa de Portugal. 
Depois de ter escrito tal carta, recebi a vossa, segundo penso, no dia 19 de Agosto, que dei a Sir Hew Dalrymple, e ele certamente ter-vos-á escrito. Somente vos incomodo agora porque a partida de Sir Robert Wilson oferece uma oportunidade favorável para enviar uma carta, e porque considero que é desejável que sejais informado do estado das circunstâncias aqui.
O acordo para a suspensão de hostilidades, concluído na noite de 22 de Agosto, culminou com uma Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses, assinada no dia 30 daquele mês. Tanto quanto fui informado, a Convenção não contém nada de grande importância, exceptuando que os franceses serão levados para um porto na França; que até embarcarem ficarão em posse de Lisboa, e de duas léguas à sua volta; e que devemos ter o forte de São Julião, em Cascais, e todos os fortes da costa e no interior, depois da ratificação da Convenção.
Eles libertarão os prisioneiros espanhóis perante o comprometimento do General [Dalrymple] em usar os seus bons ofícios para que sejam igualmente libertados os franceses que foram aprisionados na Espanha, e que não se tenham envolvido em hostilidades.
Segundo fui informado, não existe nada mais na Convenção que tenha qualquer importância. Os russos, dinamarqueses, etc., ficam à nossa mercê.
Por aquilo que pude conhecer destes acordos, tenho muitas objecção tanto em relação ao Acordo para a suspensão de hostilidade como à Convenção para a evacuação de Portugal pelos franceses. Aprovo, contudo, o principal ponto da última, a saber, que se permita a sua evacuação; e é inútil incomodar-vos com as minhas objecções sobre o modo como se decidiu executar tal ponto.
As razões que tenho para pensar que fizemos o que era certo ao permitirmos a sua evacuação são as seguintes:
Primeira: Sir Harry Burrard e Sir Hew Dalrymple, ao determinarem que levariam o corpo de Sir John Moore para Lisboa, em vez de o colocarem numa posição onde teria meios para cortar a retirada do inimigo através do Tejo, permitiram que o inimigo se pudesse defender em Elvas e Almeida, e a campanha teria sido gasta no cerco ou bloqueio de tais praças. Admitindo que o exército que evacuará Lisboa passaria imediatamente às fronteiras da Espanha, concebo que era melhor ter tal exército nessa posição, e o nosso exército agindo na Espanha, em cooperação com as tropas espanholas, do que ter as tropas francesas ocupando praças-fortes em Portugal, e o nosso exército ocupado com o seu cerco ou bloqueio.
Segunda: O Comandante em Chefe [Dalrymple] e aqueles que o rodeiam pareceram muito relutantes em avançar para Lisboa, mesmo depois da nossa vitória de 21 de Agosto, sem a assistência do corpo de Sir John Moore; e como era muito incerto o momento da sua chegada à Maceira [=praia do Porto Novo], que era o lugar de desembarque, e como os atrasos nesta estação do ano eram muito perigosos, e já tinha havido bastante mau tempo no dia 22 de Agosto, que se esperava que se prolongasse no início deste mês, tendo que abandonar a costa a frota de transportes, cuja comunicação nos era também tão necessária naqueles dias, considerei que a única chance de alcançar Lisboa seria através duma negociação.
Se não tivéssemos negociado, não poderíamos ter avançado antes do dia 30, pois o corpo de Sir John Moore somente ficou pronto naquele dia. Os franceses teriam ao mesmo tempo fortificado as suas posições perto de Lisboa, o que possivelmente impediria que estivéssemos em situação de atacá-los antes do fim da primeira semana deste mês. Assim, tendo em conta a hipótese do mau tempo nos privar de comunicarmos com a frota de transportes e provisões, atrasando e tornando mais difíceis e precárias as nossas operações terrestres, que depois de tudo acabariam por não conseguir cortar a retirada dos franceses através do Tejo para o Alentejo, fui claramente da opinião que a melhor coisa a fazer era consentir uma Convenção e permitir que evacuassem Portugal.
Os detalhes desta Convenção, bem como os do acordo para suspensão de hostilidades, são questões doutro tipo, sobre as quais escuso de vos incomodar; e escrevi o que acima ficou escrito apenas para que estejais consciente das bases gerais pelas quais aquiescei com a Convenção, em virtude do seu ponto principal, parte do qual, segundo penso, induziu o próprio General [Dalrymple] a consenti-la.
Não sei o que é que Sir Hew Dalrymple está disposto a fazer, ou como foi instruído, mas se eu estivesse na sua posição teria 20.000 homens em Madrid dentro de menos de um mês.
Tenciono recomendar-lhe a armar e a vestir as tropas espanholas, e a enviá-las para a Espanha.
Nós, ou seja, o meu corpo, estamos apenas a vinte e quatro milhas de Lisboa, e creio que o exército está à mesma existência, no lado de Mafra.
Acreditai em mim, etc.,

Arthur Wellesley


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