quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Carta do Major Aires Pinto de Sousa, Ajudante do General Bernardim Freire de Andrade, ao General Dalrymple (1 de Setembro 1808)





Senhor: 

De acordo com as ordens de Vossa Excelência, o Coronel Murray mostrou-me ontem os artigos da Capitulação concluída entre os exércitos britânico e francês, e ontem mesmo dei parte ao General em Chefe do Exército português; e em consequência das minhas instruções, considerando, por uma parte, que a capitulação entre os dois exércitos inglês e francês está definitivamente concordada; e que, por outra parte, o General Bernardim Freire de Andrade seria de alguma forma responsável, perante o Governo Provisório de Portugal [=Junta do Porto], se não conseguisse obter para os habitantes do Reino de Portugal tudo quanto lhes poderia ser útil, e honroso ao Estado; e reflectindo ainda que, na capitulação que Vossa Senhoria quis por bem fazer-me ver, não há um só artigo em que o exército português seja considerado, e que, não obstante, encontra-se um artigo que garante aos franceses a restituição dos oficiais civis que o exército português aprisionou, creio ter o dever, em virtude das instruções que recebi, de apresentar a Vossa Excelência as seguintes questões: 

1.ª Até que ponto se estende a garantia oferecida aos franceses, em relação à restituição dos oficiais civis que estão em nosso poder? 

2.ª Se o Governo provisório de Portugal, aprovando a conduta do General Freire por não ter tomado parte nos ajustes feitos com os franceses, ordenar [que o exército português] se mova para diante, em combinação com o exército espanhol do Alentejo, o exército inglês opor-se-á a este movimento? 

3.ª Se suceder que, devido aos acordos feitos entre o exército britânico e francês, a honra e a dignidade da nação portuguesa e a autoridade de Sua Alteza Real o Príncipe pareçam ter sido de alguma forma comprometidas, os Generais ingleses responderão [pela responsabilidade que nisto tiveram]? 

Espero que Vossa Excelência convencer-se-á de que nenhum interesse particular guia a minha pena, que faço justiça aos sentimentos de amizade e lealdade da nação britânica, e que, pela parte que me toca, confesso a Vossa Excelência que me sinto bastante honrado pelo acolhimento amigável com que Vossa Excelência me recebeu; mas Vossa Excelência deve sentir muito bem que o público não julgará nada segundo a nossa conduta particular, mas sim a partir do que terá um carácter autêntico; e não haverá nenhum meio de evitar a malevolência do público, a não ser obtendo uma tal resposta de Vossa Excelência, através da qual todo o povo português possa saber que o General a quem ele confiou a direcção das suas forças não cedeu senão à urgência das circunstâncias e à necessidade absoluta de não comprometer o exército debaixo do seu comando.
Tenho a honra de ser, com o mais profundo respeito, o mais devoto e respeitador servidor de Vossa Excelência. 

Aires Pinto de Sousa 


Torres Vedras, 1 de Setembro de 1808.


[Fonte: Parece que esta carta foi escrita originalmente em francês, sendo nesta língua que se conservam as transcrições publicadas nas seguintes obras: Copy of the Proceedings upon the Inquiry relative to the Armistice and Convention, &c. made and conclued in Portugal, in August 1808, between The Commanders of the British and French Armies, London, House of Commons Papers, 31st Jannuary 1809, p. 202 (doc. 99). Foi publicada uma tradução em português no Correio Braziliense, Londres, Maio de 1809, pp. 426-427; Luís Henrique Pacheco Simões (org.), "Serie chronologica da correspondencia diplomatica militar mais importante do General Bernardim Freire de Andrade, Commandante em Chefe do Exercito Portuguez destinado ao resgate de Lisboa com a Junta Provisional do Governo Supremo estabelecido na cidade do Porto e o Quartel General do Exercito Auxiliar de S. Magestade Britanica em Portugal", in Boletim do Arquivo Histórico Militar - Vol. I, Lisboa, 1930, pp. 153-227, pp. 226-227 (incluída no doc. 59)].

Sem comentários:

Enviar um comentário