segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Continuação da memória sobre a viagem do Núncio Apostólico Lorenzo Caleppi, desde a Inglaterra até à sua chegada ao Rio de Janeiro, a 8 de Setembro de 1808







Chegado à cidade de Plymouth [no dia 11 de Maio], Monsenhor Núncio foi aí acolhido do melhor modo pelo Major ou chefe da Polícia, e dali se dirigiu à vizinha cidade de Plymouth-Dock, para hospedar-se numa casa particular bastante decente, na qual noutros tempos tinha morado o Marquês de Niza, almirante português. Pouco depois da sua chegada, veio visitá-lo um sacerdote francês, Mr. Guilbert, que era pároco dos católicos naquele distrito, e o Almirante que o comandava, Mr. W. Young, mandou o seu capitão cumprimentá-lo e anunciar-lhe que o Almirante viria fazer-lhe uma visita, o que de facto fez, dando-lhe as maiores demonstrações de respeito, e convidando-o com insistência a ir na mesma manhã almoçar com algumas pessoas em sua casa. Nesse almoço, o Almirante convidou as pessoas presentes a beberem à saúde do Santo Padre, e Monsenhor Núncio, sensiblizado por essa especial atenção, correspondeu a esse gesto bebendo à saúde do Rei da Inglaterra e da Nação inglesa. Durante todo o tempo que permaneceu nessa cidade, Monsenhor Núncio recebeu as maiores demonstrações de acatamento, e as maiores atenções por parte de todas as pessoas de distinção, e particularmente da sua parte desse mesmo Almirante, que deu vários banquetes em sua honra, e no terceiro ou quarto dia depois da sua chegada a Plymouth foi à casa de Monsenhor Núncio, para declarar-lhe francamente que dali por diante todas as atenções que para com ele tivesse devia Monsenhor Núncio considerá-las a ele feitas por ordem do governo britânico, que, informado da sua chegada, acabava de mandar-lhe ordem expressa nesse sentido, por meio do telégrafo. Não omitiu Monsenhor Núncio, na manhã do dia 15, que era domingo, de ir à capela católica havia pouco construída pelo citado pároco, num lugar chamado Stonehouse, que se acha à igual distância das duas cidades de Plymouth e de Plymouth-Dock, e ali celebrou a Santa Missa, com assistência, além de católicos, de muitos protestantes, e ali assistiu depois, em hábito prelatício, à missa e ao sermão pronunciado pelo mesmo pároco. É digna de nota a observação que no mesmo dia fez à mesa o Almirante Young, já informado da missa celebrada por Monsenhor Núncio, que era ele o primeiro Núncio Pontifício que, depois das desgraças religiosas da Inglaterra, isto é, desde mais de dois séculos e meio, nela houvesse celebrado a Santa Missa, e que a havia celebrado precisamente no mesmo lugar em que os huguenotes foragidos da França tinham procurado asilo, portanto, no próprio sítio que foi o berço do protestantismo. No dia 15 desse mês de Maio, Monsenhor Núncio recebeu também uma especial distinção por parte do Lord Visconde de Strangford, que depois de ter estado em Lisboa como encarregado de negócios da Inglaterra, e que devia partir no dia seguinte para o Brasil por haver sido nomeado por Sua Majestade Britânica seu enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto ao Príncipe Regente, veio a cavalo a Plymouth-Dock, com dois adidos à Legação inglesa, de Forbay, distante cerca de cinquenta milhas, com o único fim de fazer a Monsenhor Núncio uma visita de cortesia. Tal, porém, foi a surpresa que causaram a Lord Strangford a magreza e o estado em que encontrou Monsenhor Núncio, em consequência dos incómodos que sofrera, como já dissemos, que o aconselhou a ficar algum tempo na Inglaterra para recuperar as forças; chegado ao Brasil, não fez dúvida em dizer que receava que Monsenhor Núncio não tivesse podido prosseguir sua viagem. A sua saúde, entretanto, foi visivelmente melhorando de dia a dia, o que lhe permitiu sem maior incómodo empreender no dia 20 de Maio a viagem por terra a Londres, a convite do Ministro Plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, para celebrar na Capela Real de sua casa [um] solene Te Deum pela notícia que havia recebido nesses dias da feliz chegada da Família Real ao Brasil, e ainda para obter embarque conveniente para o Rio de Janeiro, esperançado também de que não resultasse aos católicos da Irlanda inútil a sua presença ali, pois tratava-se nessa ocasião, no Parlamento, da grande questão que lhes dizia respeito, da devolução dos seus privilégios e admissão a todos os empregos públicos, sem excepão, do mesmo modo que os outros súbditos ingleses protestantes. Mesmo antes de partir de Plymouth-Dock, Monsenhor Núncio recebeu do mesmo Almirante Young [uma] nova e inequívoca prova de sua estima e do seu afecto para com ele, pois não só por ocasião da visita de despedida chegou a prorromper em pranto, mas ainda, depois de tudo haver disposto para essa viagem até Londres, quis ele mesmo levá-lo à sua carruagem, dizendo ao mesmo tempo que essa atenção de sua parte obrigava também outros a prestarem-lhe todas as deferências no correr da viagem.
Seria longo enumerar com pormenores as homenagens, as provas de veneração e as atenções que Monsenhor Núncio recebeu em Londres (aonde chegou no dia 22 de Maio, e onde permaneceu até 30 de Junho), por parte dos Ministros de Sua Majestade Britânica, do corpo diplomático, dos senhores e damas da primeira sociedade,e de toda classe de pessoas, destacando-se entre outras o ministro plenipotenciário do Príncipe Regente de Portugal, o Sr. Cavaleiro D. Domingos de Sousa Coutinho. Bastará assinalar somente de modo particular que o Duque de Portland, chefe do ministério britânico, lhe ofereceu um lautíssimo banquete oficial, com convite prévio de vinte e tantos dias, que Sua Majestade Britância, por intermédio de Mr. Canning, seu alto Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, o presenteou com uma caixa com seu retrato rodeado de grandes brilhantes, a qual foi avaliada em cerca de 1.200 guinéus (ou sejam cinco mil e quatrocentos escudos romanos); e que o mesmo monarca se dignou de ordenar que se aprestasse um navio de guerra da sua Marinha Real, e que abastecido esse navio abundantemente com as mais delicadas provisões de boca, fosse posto à disposição de Monsenhor Núncio para transportá-lo ao Brasil. A sua estada em Londres e a alta estima que com seu procedimento e suas palavras tinha grangeado de todos os partidos, contribuiram muitíssimo para a mudança, salientada pelas próprias gazetas inglesas*, que se efectou relativamente à oposição que os católicos tinham encontrado até então, devida ao seu zelo e às esperanças concebidas pelos parlamentares amigos dos católicos a respeito dessas suas pretensões; e se a causa destes não foi no momento decidida em seu favor de modo absoluto, mas somente diferida, pôde-se, entretanto, conceber a mais fundada esperança de feliz êxito, por ocasião de ser proposta novamente mais tarde. Pondo-se nos melhores termos com Monsenhor Bispo de Cantuária, Vigário Apostólico de Londres, com Monsenhor Milner, Bispo de Castabula, Vigário Apostólico do distrito dos Middlands da Inglaterra (o qual com autorização apostólica se achava em Londres para tratar dos negócios do clero e dos católicos da Irlanda), teve a satisfação de ver por esse tempo impressa em Londres uma pastoral deles, que incitava os católicos seus subordinados a fazerem orações especiais pelo Sumo Pontífice, por motivo da perseguição que lhe fazia o Imperador dos franceses, Napoleão; esse exemplo aproveitou-o mais tarde Monsenhor Núncio para animar ainda mais o zelo dos bispos da América portuguesa, espanhola e setentrional e da Ásia a seguirem esse proceder**.
Não satisfeito com tudo isso, quis, embora lhe faltassem instruções, fazer uma tentativa para alcançar, no modo que lhe era possível, a segurança da pessoa de Sua Santidade e dos Cardeais (cuja infeliz situação era denunciada pelas gazetas públicas) e para beneficiar a Roma e ao Estado Pontifíco; e para esse fim expediu uma nota, dirigida a Mr. Canning, Secretário de Estado dos Negócios estrangeiros, a fim de induzir o governo britânico a agir nesse sentido, nas ocasiões que se apresentassem. Finalmente, após haver assistido, em 31 de Maio, missa solene cantada na Real Capela portuguesa, entoando o Te Deum a que acima aludimos; depois de haver procurado edificar os católicos, comparecendo a todas as festividades, e de celebrar a Santa Missa nessa mesma capela, onde administrou um dia o crisma; depois de ter visitado para consolação espiritual delas vários mosteiros de religiosas, e outros lugares de devoção existentes nos arredores de Londres, partiu dali para o porto de Portsmouth, onde já se achava pronto o navio de guerra de que falámos acima, chamado Stork, que devia levá-lo ao Brasil, e onde recebidas que foram ali muitas atenções de parte dos católicos e das principais autoridades inglesas, partiu ele no dia 5 de Julho para Plymouth, onde tinha ficado um fâmulo com alguns caixões. Aí chegámos no dia 7 desse mês, e depois de renovadas aí as mesmas homenagens que já haviam tributado anteriormente a Monsenhor Núncio, na noite de 10 do dito mês, após haver celebrado na manhã novamente a santa missa na capela católica de Stonehouse, de que acima falámos, tornou a embarcar, acompanhado pelo ministro de Portugal já nomeado, que lhe fez a gentileza de deixar Londres para encontrar-se com ele em Plymouth; e na manhã do seguinte, 11 do [mesmo] mês, prosseguiu a bordo do Stork a viagem em direcção à Ilha da Madeira.
Nada aconteceu que merecesse particular menção até chegar-se ao Funchal, Ilha da Madeira, o que se deu na manhã de 25 de Julho, festa de São João Apóstolo. Estava ancorada no porto uma fragata inglesa, e o capitão dela, tendo sabido pelos sinais que a bordo do mesmo navio estava o Núncio Apostólico, avisou disso na noite anterior ao governador e capitão general português da ilha, em consequência do que este na manhã seguinte mandou os seus três ajudantes de ordens, numa magnífica falua (a que chamam os portugueses escaler) a cumprimentá-lo em seu nome e para conduzi-lo à terra, assim como também vieram cumprimentá-lo três cónegos da Catedral, entre os quais o vigário geral, juntamente com o reitor do seminário, oferecendo-lhe para sua morada o palácio episcopal, de acordo com as ordens que por precaução havia Monsenhor Bispo mandado de Lisboa, de onde não tivera ainda podido partir. Ao aproximar-se Monsenhor Núncio do desembarcadouro, oito fortalezas da cidade (entre elas também a que estava ocupada pelas tropas inglesas, que em número de cerca de 2.000 homens ali se mantinham como auxiliares das tropas portuguesas) o saudaram com tiros de canhão, e chegando a esse lugar, aí encontrou uma liteira (chamada cadeirinha), mandada pelo próprio governador e levada por seus criados, uma vez que nessa ilha não se faz uso de carruagens, por motivo de sua configuração montanhosa. Monsenhor Núncio, depois de haver sido saudado sob o rufo dos tambores pelas tropas ali enfileiradas, vendo a enorme quantidade de povo que se apinhava e se prostrava à sua passagem para receber a sua benção, desceu da liteira e se dignou, apesar do calor de um sol muito ardente, de satisfazer o afecto do povo, pois todos, grandes e pequenos, sacerdotes e religiosos, queriam beijar a sua mão sagrada. Também veio ao seu encontro o deão da catedral, que governava nesse tempo a diocese por encargo de Monsenhor Bispo, apesar de, pela sua idade provecta e seus incómodos de saúde, não ter podido acompanhar as outras pessoas até a bordo do navio inglês. Dirigindo-se Monsenhor Núncio à igreja catedral, para ali dizer a santa missa, e passando na vizinhança da fortaleza em que reside o governador, quis proporcionar-lhe a surpresa de sua visita, vindo ao seu encontro o mesmo governador fora da porta da casa, e nas escadarias, com alguns fidalgos e seus ajudantes de ordens. À porta da catedral veio recebê-lo o capítulo com suas vestes, o qual o acompanhou à capela do Santíssimo Sacramento, onde o pároco celebrou a Santa Missa, ficando a igreja, apesar de bastante grande, com as suas três naves repletas de gente, que continuou sem cessar durante o tempo de sua permanência no Funchal, a acorrer para beijar-lhe a mão e receber sua benção. Não só o governador português, mas também o general das tropas inglesas, Mr. Beresford, os quais foram visitar Monsenhor Núncio no palácio episcopal, lhe ofereceram uma escolta de honra, que ele recusou aceitar, e tanto um, como outro, caprichavam em dar-lhe as maiores demonstrações de homenagem e de estima, ofertando-lhe também lautos jantares em sua honra.
Nas quatro noites da permanência de Monsenhor Núncio, houve iluminação na catedral e noutras igrejas, conventos e lugares de devoção da cidade, que Monsenhor Núncio foi em pessoa visitar, recomendando em toda parte, de modo particular, que dirigissem a Deus preces fervorosas pelo Santo Padre. Suas vestes, quando andava na cidade, foram sempre o hábito prelatício de viagem, recebendo em todas as ocasiões as honras da continência com rufos de tambores, não só da parte das tropas portuguesas, mas também por parte das tropas inglesas. Mas, em vez de proporcionarem a Monsenhor Núncio esses poucos dias algum repouso dos incómodos que sofrera na viagem por mar, e para preparar-se ele à viagem mais longa que lhe restava fazer, não podiam senão torná-los ainda mais penosos por motivo das contínuas visitas e da expedição de muitos requerimentos que lhe eram apresentados por gente que queria aproveitar a sua passagem por essa ilha. Também foi muito instado para conferir ordens sacras, dado o longo tempo decorrido desde que Monsenhor Bispo se ausentara da diocese; mas ele, apesar de possuir para isso o consentimento desse mesmo Bispo, pelas palavras que este lhe dirigira em Lisboa, dado o caso que ele tocasse na Madeira, não quis, em vista da escassez do tempo, senão dar na capela do palácio episcopal a tonsura e as ordens menores a muitos eclesiásticos e a alguns franciscanos, administrando também o crisma aos ordinandos, que não o haviam recebido. Finalmente, feitos pelo capitão da nau inglesa Stork os novos abastecimentos necessários, na tarde de 29 do mês de Julho, depois de ter celebrado a santa missa na igreja catedral, à qual assistiu o capítulo dela, tornou Monsenhor Núncio a embarcar pela tarde, ao repique dos sinos da cidade, as tropas formadas diante da mesma catedral, e com um séquito de grande número de eclesiásticos, religiosos e imenso concurso de povo, ao qual, após ter-se embarcado no escaler régio, juntamente com o governador das fortalezas, e com os ajudantes de ordens do governador da cidade, deu a sua bênção. Salvaram novamente em sua honra as fortalezas da cidade e a nau inglesa Stork, a qual na manhã seguinte, 30 do mês de Julho, retomou a sua viagem em direitura ao Brasil. Quarenta dias durou essa viagem, que, embora feliz, por não ter acontecido desgraça alguma durante o seu curso, e em vista do excelente tratamento, assim das atenções recebidas do capitão e de todos os oficiais do navio, transcorreu com os muitos incómodos e com vários perigos e receios que acompanham sempre tão longas travessias por mar.
No dia da festa da Natividade da Beatíssima Virgem, que com visível protecção nos tinha sempre ajudado de modo particular, entrámos no belíssimo porto do Rio de Janeiro, capital do Brasil; reportando-me a respeito de tudo quanto aconteceu depois do navio ter ancorado, ao Diário, que à parte escrevi para dar conta de tudo quanto em coisas políticas diz respeito a Monsenhor Núncio, a partir do mesmo dia 8 de Setembro de 1808, até que praza ao Altíssimo deva durar a minha permanência no Rio de Janeiro, e até que possa quem escreve estas linhas continuar esta obra, que ele julgou não desprovida de valor, para escrever a memória daquilo que pode referir-se à honra da Santa Sé e dos seus representantes.


Rio de Janeiro, 23 de Março de 1811.




[Fonte: Anais da Biblioteca Nacional - Vol. LXI, Rio de Janeiro, 1939, pp. 15-58].

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Notas: 

* Cf. "Political Events of the Week", in The National Register, n.º 21, May 22, 1808, pp. 331-332; "State of Public Affairs", in The Universal Magazine, n.º LIV - Vol. IX, May, 1808pp. 444-445; "Monthly Retrospect of Public Affair's; or, the Chrisian's Survey of the Political World", in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXIX - Vol. III, May, 1808, p. 274 e in The Monthly Repository of Theology and General Literature, n.º XXX - Vol. III, June, 1808, p. 339 e ss; "Pope's Nuncio in London", in The Literary Panorama, July, 1808, p. 799.


** Cf. Carta do Núncio Apostólico aos Excellentíssimos e Reverendíssimos Prelados dos Estados Hespanhoes, com algumas peças relativas, entre ellas: Notificação que o SS. Padre mandou publicar no dia em que entrárão as Tropas francesas em Roma, Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1808.

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