segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carta de William Warre à sua mãe (8 de Agosto de 1808)



Campo de Lavos, perto da Figueira, 8 de Agosto de 1808.


Minha queridíssima Mãe:

Aproveito algum tempo livre para lhe escrever algumas linhas, apenas para lhe dizer que estou muito bem, embora bastante fatigado e queimado por estar constantemente exposto ao sol, devido às actividades que o meu conhecimento da língua [portuguesa] e da nossa situação tornam indispensáveis; contudo, sinto o prazer mais sincero por ser de qualquer modo útil ao meu país ou ao serviço, e por isso sinto-me recompensado por cada fadiga.
Desembarcámos no primeiro dia deste mês. O desembarque de todo o exército demorou três dias, e, se tivéssemos sido contrariados por alguma resistência na costa, estou seguro que nunca o conseguiríamos ter efectuado, tão grande é a arrebentação na costa e na barra. Contudo, graças a Deus, todo o exército desembarcou sem mais baixas que um ou dois cavalos, e ocupamos por agora uma posição neste lugar, mais precisamente com a aldeia [de Lavos] à nossa esquerda e o mar à direita, onde esperámos pela chegada do General Spencer e do seu corpo, que acabou por desembarcar ontem e hoje, penso que sem baixas, apesar da arrebentação estar muito forte.
Iremos avançar para atacar Monsieur Junot depois de amanhã; a guarda avançada sob o comando do General Fane partirá amanhã. Serão vários dias de marcha. A parte mais severa deste desígnio está nestas estradas infames e no sol abrasador, que, juntamente com o enorme trem de artilharia e da bagagem, irão obrigar-nos a mover-mo-nos muito devagar. Junot tem um total de cerca de 14.000 homens, mas não poderá resistir durante muito tempo, estando prestes a ser rodeado por nós, que totalizamos cerca de 13.000 a 15.000, vindos do norte, e por um corpo de cerca de 6.000 portugueses; e ainda, na margem norte do Tejo, pelo lado de Badajoz, por um corpo de 10.000 homens do exército do General Castaños na Espanha, que se ouve dizer que são os melhores camaradas possíveis, tal como o seu General, e certamente como a totalidade dos espanhóis em armas. Nada pode exceder a sua coragem e animosidade em relação aos franceses. Até agora a sua conduta tem sido bastante notável, e todas as bocas os elogiam. A Andaluzia está livre de franceses. Dupont e o seu exército capitularam para serem enviados para a França com as suas armas, concessão curiosa da parte dos espanhóis, visto estarem muito necessitados de armas. Três exércitos dos franceses foram aprisionados ou destruídos, e Castaños está a marchar rapidamente para Madrid, e todos esperam celebrar o seu sucesso. Entre os franceses que se renderam, 8.000 foram massacrados pelos paisanos espanhóis, tão grande é a sua animosidade. Todas estas informações são certas. Castaños tem 45.000 homens, entre os quais 4.000 de uma excelente cavalaria, e 23.000 de infantaria regular. Ele é um homem muito brando, mas sempre foi um excelente camarada; a sua conduta é a mais nobre, sendo louvado por todo o exército. Nomearam-no como Coronel ao serviço da Espanha, como prova da estima que sustenta. O exército português tem cerca de 28.000 homens em todo o reino, em todos os ramos [infantaria, cavalaria e artilharia], mas todos estão muito mal armados, e receio que não estejam tão entusiasmados (embora se vangloriem muito) como os seus vizinhos espanhóis. Assim, não acredites em nenhuma palavra dos jornais ingleses. Nunca li tantos disparates. 
O Estado-Maior do General Ferguson ocupa aqui a casa de um velho camarada, onde estamos bastante confortáveis, devido à atenção da senhora William Archer da Figueira, que nos enviou tudo o que podemos necessitar. De outra forma não sei o que deveríamos ter feito, estando a Figueira a quatro milhas e meia de distância, e sem encontramos nada para comer ou para beber (aparte das rações) mais perto. Levantamo-nos às 3 da manhã, e, depois de termos visitado os postos avançados, a linha ou os guardas, montados num cavalo ou numa mula durante 7 ou 8 horas por dia, estamos prontos para nos deitarmos 3 num pequeno quarto (cujo luxo não invejamos), às nove da noite, e dormir como se estivéssemos nas melhores camas do mundo; embora às vezes tenha de me levantar durante a noite, para traduzir ou para fazer alguma outra ninharia, porque à excepção de mim, ninguém fala português na Brigada; esta consiste agora nos Regimentos 66.º, 40.º, 71.º Highlanders, todos eles com experiência no serviço, e ansiosos por se encontrarem com estes franceses tão gabarolas.
Do vosso filho sempre mais afeiçoado,

William Warre

[P.S.] O General envia-lhe as melhores saudações.
Ele é o melhor homem que alguma vez conheci.


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