quarta-feira, 22 de junho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (22 de Junho de 1808)



A venturosa tranquilidade de que continuamos a gozar é um dos graves objectos da inveja dos nossos inimigos, ou sejam externos, ou internos; custa-lhes muito perdoar ao povo português a grande prudência com que obedece ao seu novo Governo, enquanto o espírito de inquietação e de revolta vai lavrando em países vizinhos, produzindo neles todos os males da guerra civil e estrangeira. 
De vez em quando vêm alguns emissários tentar da banda das nossas fronteiras pôr em desassossego os seus pacíficos habitantes, trazendo-lhes escritos destinados a atormentá-los pelas fábulas as mais absurdas. As medidas porém estão tão bem tomadas em todas as partes, que vários daqueles emissários se acham já presos; e anda-se em busca de outros, que não poderão escapar por muito tempo a estas diligências. 
O Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes prescreveu aos Comandantes militares e ao Senhor Conselheiro do Governo, Intendente Geral da Polícia do Reino [Lagarde], disposições que não permitirão a emissário algum subtrair-se ao justo castigo que merece todo o agitador, seja qual for o pretexto com que se disfarce. 
Entre estas precauções, há algumas que não são de natureza de se divulgarem; outras, mas gerais, se recomendaram com grande cuidado aos Corregedores mores, Corregedores ordinários, Juízes de Fora e Juízes do Crime das províncias. Neste número podemos citar a mui exacta vigilância prescrita a respeito dos estrangeiros que não justificarem com evidência o motivo da sua viagem nos lugares por onde passarem; uma severa atenção a respeito dos passaportes, especialmente daqueles que tiverem sido entregues ou vistos nas partes de Espanha que estão agitadas; um inflexível rigor contra os distribuidores de escritos sediciosos, e contra aqueles que, sob pretexto de os terem inocentemente recebido, os comunicarem, em vez de levá-los logo à polícia; contra aqueles finalmente que, tornando-se os ecos e por conseguinte os agentes dos nossos inimigos, procuram com artifício divulgar as grosseiras imposturas por onde alimentam a louca credulidade dos seus partidistas, procurando assim aumentar o número destes. 
Neste último sentido, não estão livres de ser arguidos alguns donos de lojas de bebidas, taberneiros e outras vendas onde costuma haver ajuntamentos em Lisboa; aí se repetem muitas vezes conceitos mui desacertados e notícias extravagantes. Alguns deles foram já advertidos de prescrever mais reserva aos que frequentam as suas casas; e sabemos que a intenção do Governo é não parar aqui. 
Temos fundamento para crer que toda a loja de bebidas, taberna ou outro lugar de ajuntamento onde se houverem tolerado conversações criminosas, sem que os seus donos vão em pessoa dar parte disso à polícia, segundo a ordem que têm de o fazer, terá de ficar fechado, de um instante para outro, por um tempo proporcionado à gravidade do delito. É justo com efeito que aqueles dos donos de tais casas que deixam de impor silêncio aos malévolos que aí se atrevem a atacar e comprometer a nova ordem de coisas, sejam havidos por cúmplices do mal que tão facilmente podem impedir. 
Consta-nos que já estão presos alguns dos inventores e proclamadores das notícias falsas que a malevolência espalha na escuridão, e que a ignorância adopta e amplifica com todo o empenho. Dizem que a mesma medida talvez se aplicará àqueles que, recebendo clandestinamente cartas cheias de factos mentirosos ou de insinuações pérfidas, deixarem de comunicá-las à autoridade. É bem sabido que não se pode obstar a que alguns correspondentes faltos de prudência ponham por escrito os sonhos da sua imaginação, substituindo-os à realidade; nesse caso porém há um meio mui simples de se livrarem vitoriosamente da suspeita de conluio, qual é o ir ingenuamente dar parte à polícia de tais cartas, e provar assim que não houve intenção alguma de fazer delas abuso, para alterar a seguridade pública. 

[Fonte: Gazeta de Lisboa, n.º 25, 22 de Junho de 1808].


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