quinta-feira, 23 de junho de 2011

Carta da Junta de Monterrei à Junta da Galiza, sobre os acontecimentos a norte do Douro (23 de Junho de 1808)




Temos a honra de comunicar a Vossas Senhorias que os portugueses de Trás-os-Montes declararam formalmente a guerra ao Imperador dos franceses. O edital adjunto que vai indicado com o número 1, e que ouvimos publicar solenemente nas ruas de Chaves, não deixa motivo para dúvidas, e tampouco é indubitável que a província de Entre-Douro-e-Minho se encontra levantada
Cumprindo com o nosso dever e com o que Vossas Senhorias nos têm encarregados, continuamos a dar razão do ocorrido ontem à tarde, que foi da maior satisfação para todos nós. Este dia acabou por nos alentar e desfez todas as dúvidas que os portugueses nos tinham feito conceber. Este território já não teme a invasão que se podia temer, e já a França deve buscar outro sítio para conduzir as suas tropas a este solo inimigo. 
Em virtude das obrigadas negociações e diligências que esta Junta tem travado em Chaves e outros pontos, e de que Vossas Senhorias já estão ao corrente, os portugueses finalmente romperam [as hostilidades]. Os nossos papéis obraram o maravilhoso efeito de excitar os seus abatidos ânimos; e se não nos excedem, pelo menos já nos igualam em valor e ardimento. 
No dia 21, às 10 horas da noite, o Corregedor de Monterrei e [o] Administrador de Verín, indivíduos desta Junta, receberam a carta de um Ajudante [de Ordens?] vindo de Chaves, na qual suplicava aos dois, da parte do Comandante actual daquelas tropas [Manuel Francisco da Silveira Pinto], que se apresentassem imediatamente naquela praça para tratar assuntos importantes. Desde logo se soube que este aviso não podia partir de inimigos. A conduta deste oficial, a nobreza e circunstâncias do Comandante e a estima com que estes dois indivíduos honram a dita vila, não podia inspirar-lhes temor algum; mas entretanto, o povo, ao sabê-lo, desconfia e quer ainda opor-se a esta viagem. Ainda que o General de Trás-os-Montes já se tinha declarado [contra os franceses], as últimas notícias de Lisboa tinham desalentado os espíritos. Conhecia-se o edital de Junot, mandando a todos os portugueses tomar as armas contra nós; suponha-se que não poderiam resistir a este imperioso preceito; já se dizia que o General queria retractar-se, e assegurava-se que os portugueses tinham preparada a desculpa de que os seus movimentos “eram só contra nós, para defender a sua pátria de uma invasão espanhola”. Nestas circunstâncias, o temor do povo era justo, e o foi muito mais quando se soube que acabava de chegar à cidade de Lamego, com intenção de passar o Douro, uma Divisão de cinco mil franceses
Que confusão não causa esta notícia no público alarmado! Os nossos inimigos já distam daqui somente 17 léguas; no dia seguinte entrarão em Chaves; sujeitarão aquela povoação, e virão a esta com a intenção de nos passarem todos à faca. Perante tal situação, deveremos ir a Chaves, para nos acontecer o mesmo? 
Vamos esclarecer-nos: a nossa pátria exige este sacrifício. Assim, pois, responde o Corregedor às três da madrugada, e de lá partiram os dois no dia seguinte. 
Os assuntos da jurisdição não lhes permitiram partir antes das duas da tarde; a esta hora, [o Corregedor] uniu-se com o Administrador, e os dois enviaram um ofício aos demais indivíduos da Junta para instruí-los desta notícia, dispondo-se a partir. Contudo, ao mesmo tempo, chega outro correio do próprio Comandante [Manuel Francisco da Silveira Pinto]. Tinha-se espalhado naquela vila [de Chaves] que os galegos desconfiavam [dos portugueses], e para desvanecer o temor destes, dirigiu-lhes a adjunta carta que vai indicada com o número 2. O condutor [do correio] diz que o dito Comandante estava detido em Chaves somente por esperá-los, devendo correr ao socorro do Douro, onde estavam as tropas francesas. [O Corregedor de Monterrei e o Administrador de Verín] já não podem, por conseguinte, deter-se. Assim, partem com o mesmo enviado e chegam a Chaves às cinco da tarde. 
Qual foi a satisfação e surpresa deles quando, ao entrarem, encontram mais de cem carros carregados de espingardas, escoltados por um imenso número de tropa que vai tomar os montes. Toda a vila está em armas. Uma gente imensa corre pelas ruas, e ao ver estes galegos, exclamam todos Viva a Espanha e Portugal. Os soldados concorrem em tropel para tomar os seus uniformes; os instrumentos bélicos são postos em ordem, e o ardor propaga-se por todos. Parecia esta vila uma cidade assolada, onde, exterminado o inimigo, concorrem de todas as partes a reedificá-la. 
Antes de chegar, já tinham sabido que o inimigo passara o Douro, e que ia acercando-se a Chaves. Esta notícia foi confirmada, e ainda que parecia regular e amedrontar os habitantes, servia pelo contrário para excitar o seu valor. Jamais se viu igual confiança, e deve notar-se que no mesmo momento em que os franceses vêm sobre eles, é quando lhes declaram a guerra. Os dois referidos foram testemunhas desta declaração e viram com entusiasmo publicar em todas as praças com rufos de tambores e imensa tropa formada, o edital que se envia. Os parabéns são mútuos. Todos se abraçam apertadamente e viram-se correr várias lágrimas de regozijo. Que perspectiva esta para o orgulho do Omnipotente Napoleão! 
Finalmente, os nossos dois espanhóis apresentaram-se na casa do Comandante [Manuel Francisco da Silveira Pinto]. Tendo descido a recebê-los na escadaria, ao abraçar-se competiram à porfia com mútuas aclamações do nosso Fernando VII e de D. João VI, o seu actual soberano. Conduzidos depois a uma grande sala, trataram acerca dos assuntos presentes. Os nossos cumpriram com o seu dever, manifestando-lhe a situação da Espanha e quanto deve contar Portugal com os nossos auxílios, e ele correspondeu pela sua parte assegurando a boa disposição de todos os próprios portugueses a abraçar a nossa causa. 
Numa palavra, à excepção de Lisboa, que deve contemplar-se num estado de cativeiro, todo Portugal já se acha em fermentação; e, do Douro para cá, em estado formal de guerra contra os franceses. A Regência do Reino reestabeleceu-se no Porto, cujo Governador [interino das Armas, Luís de Oliveira], suspeito de traição, escapou-se precipitadamente. O mesmo sucedeu a outros vários ministros e magistrados, e contam-se naquela cidade até uns 30.000 homens sobre as armas. 
O herói principal deste levantamento é indubitavelmente o próprio Comandante de quem se fala, D. Francisco Silveira, a quem devem os espanhóis tributar elogios. Este insigne patriota, pronto a sacrificar-se em obséquio da nossa causa, é o que pôs a mais velha metade de Portugal em nosso poder. A sua intenção e a de todos os portugueses que representa não é outra mais que a recuperação do seu Rei, como a nossa a de Fernando VII, e não unir-se à Espanha para sempre, formando com ela uma província. Este Comandante, pois, vivia retirado em Vila Real, chorando sozinho pela sorte da sua pátria. Soube dos acontecimentos da Espanha; chegaram ao seu conhecimento as funções e actos de alegria com que expressámos o nosso júbilo; leu os papéis que nós enviámos; inflamou-se, persuadiu-se e manejou a coisa de tal modo que, em poucos dias, comunicando o seu fogo a toda a província, conseguiu que todos sacudissem o jugo que os oprimia. 
Neste tempo, o Governador [das Armas] do Porto, de quem acima se falou, preparava quartéis para os franceses. Tinha espalhado que esperava 4.000 soldados espanhóis, e sob esta salvaguarda todos se prestavam a lhe obedecer. Uns quantos franceses disfarçados trabalhavam nesta obra, mas uma irritação acabou por vendê-los: a cólera obrigou um a usar do seu idioma, e foi descoberto imediatamente. O próprio Governador escreveu a certo magistrado do caminho de Almeida que lhe avisasse logo que passassem por ali tropas; e estas não podiam ser espanholas. Acabando-se de conhecer a traição, e para preveni-la, o referido Silveira, nunca bem ponderado, envia vinte moços com proclamações iguais às nossas, em que se lê a inscrição de Vencer o morrer por D. João VI, os quais entram pelo Porto proclamando o seu Rei e gritando contra o Tirano da Europa. Estas vozes desceram do céu. Imediatamente, unem-se todos os portuenses. Acrescenta-se o número dos tumultuários; correm aos armazéns; facilita-se armas; fazem fugir vergonhosamente o Governador, e de repente fica restabelecida a liberdade daquela província. 
Deixa-se conhecer por tudo o que foi dito, que a Divisão francesa que passou o Douro era a destinada para a cidade do Porto. Ao passar o rio, em barcas e com muito trabalho, encontrou já os paisanos alarmados; houve uma pequena refrega, na qual morreram vários; um religioso lançou-se ao rio, onde cortou quatro ou cinco gargantas; mas o mesmo teve a desgraça de se afogar. Tomou-se-lhes um obus e perderam um oficial. 
Entretanto, a artilharia de Chaves deve ir chegando. Os montes acham-se cobertos de tropa; todos os chefes e oficiais subalternos esmeram-se à porfia a ser os primeiros nesta acção, e dá-se como suposto que não restará um francês entre aquelas brenhas, cheias por todas as partes de instrumentos da morte. 
Em conclusão, os nossos dois enviados trataram largamente com o Comandante e acordaram em propor ao Reino [da Galiza] as proposições que constam do papel adjunto número 3. Crê-se como uma coisa precisa o desembarco dos ingleses perto de Lisboa, os quais seriam ajudados pelos naturais, e entrando naquela Corte, inflamariam os habitantes, dando-lhes forças para sair da sua opressão. Os espanhóis que se acham ali ficaram desarmados pela inaudita perfídia de Carrafa, segundo voz comum de Portugal
Igualmente se tratou de enviar um correio constante entre estes dois Reinos [de Portugal e da Galiza], cujo arranjo deve expor de palavra o enviado. É absolutamente necessário este correio; pois sendo uns mesmos os nossos interesses e os deles, e influenciando uns nos outros, sem esta correspondência se atrasariam os negócios de ambos os Reinos. Este estável assunto deverá publicar-se para que todos o saibam. Quando se trata do bem da pátria, toda a precaução é pequena, e devemos esperar que a Junta não desapreciará um projecto tão importante. 
Por último, representamos à Junta que são indispensáveis alguns meios para estas negociações. A cada passo oferecem-se desembolsos; a correspondência de Portugal traz consigo muitos gastos, mas no entanto esta correspondência é necessária para a segurança da Galiza. Devemos lisonjear-nos por termos felizmente contribuído para ela, e esperamos que não desapreciando os nossos serviços se digne a dita Junta a proporcionar-nos os meios de os continuar. O enviado poderá dizer de palavra tudo quanto omitimos nesta carta. 
A brevidade do tempo não permite dizer mais, ainda que quiséssemos. Concluímos expondo a Vossas Senhorias a necessidade de publicar no Reino tudo o que ficou dito. Para este efeito é muito conveniente que o mesmo enviado vá a Corunha com todos estes papéis e informe verbalmente o Governo, se necessário. Vossas Senhorias determinarão, como costumam, o mais acertado, contando sempre com o nosso patriotismo e filial obediência. 
Deus guarde a Vossas Senhorias muitos anos. 
Monterrei, 23 de Junho de 1808.

[seguem-se seis assinaturas



[Fonte: Archivo Histórico Nacional de España, "Estados de Fuerza de las tropas españolas en Portugal. Documentación relativa a los ejercitos de la provincia de Tras-os Montes, así como a subsistencias y pasaportes de ciudadanos", ES.28079.AHN/5.1.145.4.1.1.57.3//DIVERSOS-COLECCIONES,87,N.27].


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