quarta-feira, 9 de março de 2011

Ofício de Lagarde a Junot relativo a dois incidentes ocorridos em Lagos (9 de Março de 1808)





O Corregedor de Lagos participa, na data de 24 do corrente [seria Fevereiro], que naquela cidade houveram nos dias 11 e 12 de Fevereiro dois motins contra o Governador daquela Praça, e outro contra o Coronel do Regimento n.º 2. 

Procedeu o primeiro de proibir o Governador que os pescadores saíssem ao largo: então, privados do meio da sua subsistência, levantaram-se em massa, fazendo alaridos, aos quais o Governador pôs termo facultando-lhes licenças. 

Procedeu o segundo de querer o Coronel do dito Regimento que, nas guias passadas aos soldados a quem deu baixa, se declarasse que iam satisfeitos do soldo, pão, e fardamento, quando não era assim. E porque o coronel mandou prender um soldado que fez esta representação, outros soldados dispersaram a patrulha que conduzia o preso e o puseram em liberdade, formando depois corpo de delito o Coronel. Este lhe mandou então entregar as fardas vencidas, e se dissipou o tumulto. Não houve em uma e outra desordem mais do que o facto insubordinado. 


[Fonte: Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular), Lisboa, Tip. Inácio Pereira Rosa, 1941, p. 12-13 (apud António Ferrão, A I.ª Invasão Francesa, p. 256)].


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Nota: 

Em Milão, pouco depois de ser informado da entrada das tropas de Junot em Lisboa, Napoleão tinha escrito a Junot, no dia 23 de Dezembro de 1807, que o Ministro da Polícia lhe enviaria um "agente para colocar à testa da vossa polícia". Este agente era Pierre Lagarde, que então exercia as funções de Director Geral da Polícia do Estado de Veneza, o que talvez justifique o motivo pelo qual tardou tanto tempo para chegar a Portugal. De facto, a sua partida de Paris somente foi anunciada no dia 29 de Janeiro [Cf. Gazeta de Madrid, n.º 13, 12 de febrero de 1808, p. 152], ainda que seja possível que tenha partido antes. O que é certo é que no dia 14 de Fevereiro, como Junot indicou a Napoleão, Lagarde ainda não tinha chegado a Lisboa. 
Confrontando esta última informação com o documento acima transcrito, deduzimos que Lagarde teria chegado a Lisboa na segunda quinzena de Fevereiro, começando desde logo a exercer as funções que Napoleão lhe tinha ordenado, apesar de, oficialmente, só vir a ser nomeado Intendente Geral da Polícia do Reino de Portugal no dia 25 de Março. Juntamente com este cargo, Lagarde viria a acumular o de Conselheiro do novo Governo e o de redactor da coluna sobre Lisboa publicada na Gazeta de Lisboa (facto que se torna evidente a partir do número do dia 5 de Abril). Em Lisboa, Lagarde assentou os seus aposentos no Palácio da Inquisição de Lisboa, onde antes se congregavam, como já referimos, os membros do Governo da Regência instituído pelo Príncipe regente D. João, até à sua dissolução por Junot, no dia 1 de Fevereiro. 


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