domingo, 17 de julho de 2011

Carta do Comandante do Exército da Andaluzia, General Castaños, à Junta de Sevilha, sobre os prolegómenos da batalha de Bailén (17 de Julho de 1808)



No dia onze deste mês, manifestei a Vossa Alteza ter sido aprovado o plano de operações na reunião [dos Generais do exército espanhol], cujos detalhes omitia para não importunar, oferecendo-me para dar parte a Vossa Alteza dos seus resultados, anunciando ao mesmo tempo que começava a realizá-lo na noite do mesmo dia. 
Para o devido conhecimento de Vossa Alteza e melhor se inteirar do estado actual, é necessário fazer algumas indicações sobre as circunstâncias antecedentes. O General Reding, com uma divisão de nove mil homens de boas tropas, devia dirigir-se por Mengíbar para atacar Bailén, cair depois sobre Andújar, e impedir as reuniões das tropas inimigas. Efectivamente, começou a executá-lo, e a sua vanguarda, comandada pelo Brigadeiro Venegas, encontrou os inimigos já a catorze de Julho, como se deduz da carta n.º 1. O dito General, cumprindo acertadamente as minhas instruções, atacou os inimigos no dia dezasseis, com o feliz sucesso que acredita a carta n.º 2. Teria sido mais completo se o calor, fome, sede, a devastação do terreno e a falta de meios e socorros com que marcham os nossos exércitos  não o tivessem detido.
Marquês de Coupigny, com uma divisão de cinco mil homens, devia ir por Higuereta e Villanueva para sustentar o General Reding, combinado os seus movimentos com este e com o resto do meu exército. Ele cumpriu perfeitamente as minhas instruções e conseguiu as vantagens que se acreditam pelas cartas n.º 3 e n.º 4 de quinze e dezasseis deste mês, como também interceptar um correio com a correspondência do General Dupont, cujas cópias traduzidas remeto com o n.º 5, n.º 6 e n.º 7.
Tenente Coronel D. Juan de la Cruz Mourgeon, com um corpo de mais de dois mil homens, devia passar por Marmolejo, para evitar e incomodar os inimigos, se estes intentassem escapar pela Serra. Teve os confrontos que se comprovam na carta n.º 8.
Finalmente, de acordo com o plano, no dia 15 ao amanhecer ocupei sem desgraças as alturas dos Visos de Andujar, posição vantajosa, forte, que conservo convencido da sua utilidade, apesar de não ter tendas, faltar água e sentir-se uns calores excessivos, incomodidades que sofre a tropa com a paciência e constância que caracteriza a nação espanhola. É tal o rigor da estação, que teria perdido alguns homens afogados pelo calor, se não os tivesse socorrido prontamente. Procurar-se-á por todos os meios o remédio, pois enquanto Reding e Coupigny agem, é preciso manter esta posição.
Incomodo continuamente os inimigos pela minha frente, ameaçando-os por todos os lados, tendo conseguido desta forma alarmá-los, com as armas a postos, impossibilitados de incomodar Reding e Coupigny e sem que possam recolher grãos e amassar pão, em cujo extremo se acham por falta de paisanos que o executem. Também os incomodo frequentemente com os meus fogos [de artilharia], e, ainda que me respondam, não experimentei da minha parte mais desgraças que as de três mortos e cinco feridos no dia de ontem.
Como o principal objectivo das divisões de Reding e Coupigny é bater as tropas de Bailén e atacar os inimigos pelo seu flanco, dei ordens para que os ditos Generais reúnam as suas divisões, cujas forças são respeitáveis para qualquer ataque, enquanto eu pela frente não os deixarei sossegar até reduzi-los ao último extremo.
Não posso ocultar a Vossa Alteza que me encontro muito satisfeito da conduta dos Generais, Tropa e Oficialidade, em termos que prometo continuar a dar a Vossa Alteza notícias de seu agrado.
Deus guarde a Vossa Alteza muitos anos.
Quartel-General, no acampamento dos Visos de Andújar, a 17 de Julho de 1808.


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Nota: 

Esta carta foi recebida em Sevilha pouco depois das dez horas da manhã do dia 18 de Julho, sendo logo mandada imprimir-se (juntamente com os documentos citados) para ser afixada em Edital.

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