segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta do General Wellesley a Lord Castlereagh, secretário de Estado da Guerra do Governo da Grã-Bretanha (1 de Agosto de 1808)




H.M.S. Donegal, na foz do rio Mondego, 1 de Agosto de 1808 



Meu Senhor: 

Tenho a honra de vos informar que no dia 26 de Julho, quando ia até à esquadra na boca do Tejo, passei pelo H.M.S. Plantagenet, no qual estava embarcado o Capitão Cooke, do regimento dos Guardas de Coldstream, que me entregou os ofícios do General Spencer cujas cópias vão inclusas, através dos quais fui informado que este oficial tinha desembarcado no Puerto de Santa María, determinado a continuar na província da Andaluzia. Depois de consultar Sir Charles Cotton sobre as actuais circunstâncias de Portugal e da Espanha, pensei que era mais apropriado enviar ordens ao General Spencer para reembarcar todo o seu corpo e juntar-se a mim, a não ser que estivesse ocupado em alguma operação activa, cujo abandono poderia prejudicar a causa dos espanhóis. 
Como o General Spencer referiu na sua carta, e mais particularmente numa mensagem verbal ao Capitão Cooke, que a Junta de Sevilha sente uma grande carência de dinheiro, determinei que ele extraísse 100.000 libras à Inglaterra, para pagar essa soma à pessoa que os membros da Junta nomearem para recebê-la. 
Tenho a honra de juntar as cópias das cartas que escrevi ao General Spencer nessa ocasião, nas quais estão suficientemente detalhadas as razões que me levaram a dar essas ordens; e as ditas razões justificarão, como espero, as ordens que dei, sem estar na necessidade de preocupar Vossa Senhoria com as razões que eu tinha para pensar que era provável que Dupont não seria suficientemente forte em relação ao General Castaños; que o corpo do General Spencer era inútil em Cádis, enquanto as minhas operações em Portugal estavam limitadas pela falta da sua assistência; que uma reunião dos dois corpos era necessária para permitir a execução eficaz de qualquer serviço; e que no quadro geral dos acontecimentos em Espanha, bem como em Portugal, era mais importante expulsar os franceses de Portugal. 
As ordens que dei pareceram-me estar em total conformidade com as intenções e objectivos do Governo de Sua Majestade, e ser consistentes com aquelas que Vossa Senhoria deu ao General [Spencer] na vossa carta de 30 de Junho; e apesar do ofício de Vossa Senhoria datado de 15 de Julho, que eu recebi aqui no dia 30 através de Lord Burghersh, referir que era da intenção de Sua Majestade dar assistência à nação espanhola com um corpo das suas tropas na Andaluzia, não achei adequado revogar aquelas ordens que tinha enviado ao General Spencer no dia 26. As segundas ordens não o alcançariam antes do dia 3 ou 4 de Agosto, quando ele já deveria estar executando a primeira, e provavelmente adiantado na sua viagem; e no mesmo dia que cheguei aqui recebi notícias, às quais dei crédito, de que o General Castaños tinha derrotado o General Dupont no passado dia 20, e assim não haveria mais nenhuma necessidade imediata da assistência dos corpos britânicos naquela parte da Espanha. Estas notícias confirmaram-se depois por outras que chegaram hoje, segundo as quais se refere que o General Dupont e todas as tropas francesas a sul da Sierra Morena se renderam, sob a condição de serem enviados para a França por mar. 
A informação do estado da força do inimigo em Portugal que me foi comunicada pelo General Spencer (que merece atenção, ainda que ele talvez tenha exagerado a conta que recebera) e a expectativa de Vossa Senhoria em que chegará aqui um reforço num período próximo, levaram-me necessariamente a atrasar o início das operações das tropas debaixo do meu comando até à chegada do corpo vindo da Inglaterra, ou o do General Spencer. Este General terá recebido a minha carta do dia 26, como espero, no dia 28, e suponho que ele estivesse pronto a navegar no dia 31. A duração da sua viagem até ao Tejo e até este lugar, dependerá então dos ventos, que sopram de sul desde o dia 28. 
A posição do inimigo à volta do Tejo parece ser tão forte que não se considera praticável um desembarque naquela parte, sem primeiro se fazer uma manobra de diversão que afaste a sua atenção, através dum ataque mais a norte. Os planos para atacar sobre a baía de Cascais falhariam, porque estamos informados que é impossível fazer uma aproximação suficiente à costa com os grandes navios para calar o forte de Cascais e os outros erigidos para defesa da baía; e mesmo que os navios de guerra fossem capazes de passar o forte de S. Julião, o forte do Bugio e as outras construções que defendem a entrada do Tejo, não é imaginável que o seu fogo pudesse calar estes fortes, a fim de permitir o desembarque das tropas em Paço d'Arcos, como estava proposto. Entre Cascais e o cabo da Roca, e a norte deste cabo, existem pequenas baías, nas quais pequenos corpos de homens podiam desembarcar com o tempo razoável. Contudo, a arrebentação é grande na totalidade da costa de Portugal, e o desembarque das últimas divisões das tropas e dos seus necessários abastecimentos e provisões nestas baías seria precário, mesmo que se tivesse achado um momento favorável para o desembarque das primeiras. A vizinhança do inimigo, bem como a falta de recursos no território à volta do cabo da Roca para o transporte dos abastecimentos e provisões necessárias para o exército, aumentariam o embaraço dum desembarque naquela parte. 
Todas estas considerações, combinadas com a devida percepção das vantagens que derivariam duma cooperação com as tropas portuguesas, levaram-me a decidir a favor dum desembarque mais a norte. 
Não existe lugar algum a norte que seja mais favorável para um desembarque perto de Lisboa do que [a foz do] Mondego, exceptuando talvez Peniche. Contudo, o forte sobre esta península é resistente, está ocupado pelo inimigo com uma guarnição suficiente, e não poderia ser tomado sem artilharia pesada; e a artilharia e munições que Vossa Senhoria me informou no vosso ofício do dia 30 de Junho que partia do rio [Thames] nesse dia, ainda não chegaram. 
Considero que a posse do porto e da cidade de Lisboa é o objectivo imediato das nossas operações, que deve ser consumado ocupando os fortes que guardam a entrada do Tejo. É provável que seja necessário atacar com artilharia pesada dois destes fortes, o de Cascais e o de S. Julião; e é óbvio que o inimigo não nos permitirá levarmos a cabo estas operações até que seja afastado do campo. 
As posições que o inimigo tomará para defender estes postos devem ficar nas elevações viradas para o norte de Lisboa; e é indubitável que, a não ser que seja obstado pela nossa posse dessas mesmas elevações, o inimigo as terá em seu poder para renovar a disputa em diferentes posições, até que se dirija para dentro de Lisboa ou se retire. A retirada será difícil, se não mesmo impossível, salvo em barcos através do Tejo, pela adopção de uma linha de ataque nas elevações viradas para o norte, o que eu também prefiro, por ser mais apropriado levar a contenda a um desenlace numa batalha no campo. 
Comecei hoje o desembarque no rio Mondego, porque tinha receio que qualquer atraso a mais podia desencorajar o país, e porque experienciei maiores facilidades para combinar o movimento e suprimento do exército quando ele estava na costa do que quando continuava em alto mar. Até aqui tem sido necessário ter cuidado com algumas dificuldades para o desembarque, que seria quase impossível se não tivéssemos a cordial assistência do país, apesar do zelo e das habilidades dos oficiais da marinha; e é quase certo que o General Spencer e os reforços da Inglaterra chegarão antes que as tropas que actualmente aqui se encontram estejam em terra; se um dos dois chegar, tenciono começar a minha marcha. 
Tenho a honra de informar Vossa Senhoria que expedi 5.000 conjuntos de armas a fim de armar as tropas regulares portuguesas, com a intenção destas cooperarem com o exército britânico no ataque aos franceses neste país. 
Tenho a honra de ser, etc. 

Arthur Wellesley 

[Fonte: Lieut. Colonel Gurwood (org.), The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. during his various campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France, from 1799 to 1818 – Volume Fourth, London, John Murray, 1835, pp. 39-43].

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