quinta-feira, 14 de julho de 2011

Notícias publicadas na Gazeta de Lisboa (14 de Julho de 1808)



Lisboa, 14 de Julho


Não há fábula absurda que não se tenha espalhado, de 15 dias a esta parte, a respeito do General Loison, que uns muitas vezes davam por morto, e outros, ao menos, por aprisionado. O ter ele porém voltado felizmente, com um corpo considerável, desconcerta a malevolência e traz ao Exército um numeroso e útil reforço.
O Boletim do Exército contém as particularidades da sua marcha, que foi uma espécie de vitória contínua por entre milhares de dificuldades que ele teve de vencer.
Veio até Santarém; e aí achou a ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Duque de Abrantes para ir tomar o comando dos corpos destinados a varrer e punir os rebeldes da Beira.

As notícias que diariamente se recebem do General Margaron continuam a ser muito boas. As suas últimas cartas eram de Tomar, onde tudo ficava restituído à boa ordem e à submissão, depois de um instante de desatino expiado pela expressão do mais vivo arrependimento. O dito General só cessou de bater os rebeldes por se haverem dispersado diante dele, sem que os tornassem a achar reunidos, desde que foram desbaratados em Leiria.

Tudo o que se tem espalhado, nestes últimos dias, a respeito de um suposto desembarque de ingleses ou de emigrados portugueses, da banda da Nazaré e nas costas vizinhas de Alcobaça, é falso e forjado. Naquela parte da praia sim apareceram uns cem meninos perdidos, destinados a lançar ali algumas armas e munições, a fim de aumentar a desordem e alimentar a revolta: tal é o eterno modo de proceder dos ingleses, que só subsistem pelas perturbações do continente, multiplicando neste as vítimas, para se salvarem a si mesmos. Prometem incessantemente socorros a todos aqueles que querem ajudar os seus projectos e os seus furores; mas não lhes mandam, em troca de algumas espingardas e de um pouco de ouro corruptor, senão a ruína e a morte! Como é possível, depois de tantos exemplos famosos da ilusão das suas promessas e do desastre da sua aliança, que eles possam ainda achar gente insensata que se deixe por eles extraviar e conduzir ao degoladouro? Como é possível que aqueles dos portugueses que eles procuram seduzir e arrancar à doce fruição da paz e do sossego, deixem de ver que serão por eles abandonados e traídos, assim como o serão sucessivamente todas as nações que caíram no absurdo de consentir em vender-lhes o seu sangue e a sua tranquilidade?
Enquanto ao mais, seria para desejar que os desembarques de que se tem falado da banda da Nazaré e Peniche se tivessem realizado; porquanto pela sábia previdência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General em Chefe se achavam aí reunidas forças mui respeitáveis, ficando prontas a marchar para todos os pontos que se pudessem ver ameaçados, e a aniquilar todos aqueles que se tivessem apresentado. Se os ingleses quiserem abrir aos emigrados portugueses uma sepultura, assim como a abriram, há vários anos, aos emigrados franceses em Quiberon, o resultado será infalivelmente o mesmo; e as famílias deste país conhecerão enfim a quem devem atribuir as suas desgraças e as suas lágrimas.

De algum tempo a esta parte se tem feito estudo, sem que se saiba porque razão, de misturar o nome do General Gomes Freire com os dos rebeldes que se esforçam por trazer sobre o seu país os flagelos da guerra civil e de uma luta sobejamente desigual contra um ilustre General formado na escola do maior dos guerreiros antigos e modernos, e contra um exército acostumado a todos os sucessos e cheio do mais ardente desejo de renová-los. Nada por certo é mais ridículo; pois que, durante esse tempo, o Senhor Gomes Freire se achava doente e até prisioneiro dos espanhóis em Valladolid; e mui modernamente é que ele se viu libertado pelo mesmo corpo de tropas francesas que de todo bateu os espanhóis naquele sítio, e que entrou triunfante na cidade de Valladolid, para puni-la pela resistência que ela opusera momentaneamente. Desde então, o General Gomes Freire (atravessando a Biscaia, onde se tem mantido a paz) tem continuado o seu caminho para a França, onde foi unir-se às tropas portuguesas de que comanda uma parte. Estas particularidades se confirmam por alguns criados seus, que não havendo podido segui-lo, voltaram os dias passados a Lisboa.

Enquanto ao mais, o norte de Espanha se vai apaziguando, à medida que chegam aí as tropas francesas, as quais entram em grande número por todos os pontos dos Pirenéus; e são já senhoras assim de Segovia como de Zaragoza. Um corpo considerável, que se destina a receber ainda novos reforços do exército de Itália, se formou na Catalunha, a maior parte da qual nunca se agitou e reconhece o novo Governo.
Em Lisboa há cartas de Madrid até à data de 28 de Junho, as quais atestam que se haviam aí renovado, segundo o costume, as especulações comerciais; e que tudo ficava em sossego naquela vila, sem que houvesse ali movimento algum. Sua Alteza Imperial o Grão-Duque de Berg, exercendo as funções de Lugar-Tenente do Reino, em novo do novo Rei José Napoleão, que se achava ainda em Bayonne, residia numa casa de campo nos arredores de Madrid, onde tinha o seu Quartel-General. O General Savari, um dos Ajudantes de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei, exercia o lugar de Governador de Madrid.
Conforme todas as informações que recebemos, era já de notar, como tão facilmente se podia prever, que a discórdia se ia introduzindo nas Juntas revolucionárias; que elas começavam a obedecer com repugnância umas às outras; pois que efectivamente nenhuma tem autoridade legítima, e todas podem formar pretensões igualmente fundamentadas; que vários dos seus membros, convencidos pela sua própria experiência de que o império da multidão, além de ser calamitoso, só pode ter uma mui curta duração, pensavam em subtrair-se ao despotismo popular que os oprime a eles mesmos; e em ceder a sua influência ao novo Governo, capitulando com ele secretamente, e entregando-lhe até mesmo aqueles dos seus cúmplices que achavam ser menos perspicazes do que eles. Os camponeses, por outra parte, se queixavam de que os habitantes das cidades os iam arrancando às suas famílias e aos seus úteis e pacíficos trabalhos, ao tempo da colheita, para sujeitá-los aos seus caprichos, e fazê-los suportar fadigas, a que estes sabem muito bem esquivar-se com diversos pretextos. Portanto, os homens acostumados a calcular a marcha dos acontecimentos políticos têm por certo que as partes revoltadas da Espanha não tardarão em restabelecer-se por si mesmas daquele delírio de insurreição, abraçando, como a única tábua de salvamento em meio da anarquia que as devora, a centralidade do poder e a unidade do Governo Monárquico, que só pode assegurar-lhes o génio e o braço mui poderoso de Sua Majestade o Imperador e Rei NAPOLEÃO. Muitos de entre eles, até mesmo em Espanha, pensam que esta feliz mudança se efectuará talvez pela influência tão somente da razão pública e do interesse nacional bem entendido, sem esperar que o prescrevam a presença e a força dos exércitos franceses que se adiantam, e aos quais é nimiamente absurdo imaginar que poderia resistir a Espanha, sem Chefe, sem objecto, sem finanças, já dividida, já desmembrada; pois que aquelas mesmas tropas com que será invadida quando preciso for, tem tantas vezes vencido todas as Potências da Europa tão inutilmente coligadas contra o GRANDE NAPOLEÃO e contra a sua Grande Nação!

[Fonte: 2.º Supplemento à Gazeta de Lisboa, n.º 27, 14 de Julho de 1808].

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