terça-feira, 14 de junho de 2011

Ofício dirigido à Junta Suprema de Sevilha pelos oficiais do Regimento de Múrcia, após a sua chegada a Paymogo (14 de Junho de 1808)



Sereníssimo Senhor:


O corpo de oficiais e cadetes do Regimento de Múrcia (Infantaria de Linha), cujos nomes se acompanham por nota: temos a honra de participar a Vossa Alteza Sereníssima a nossa chegada a esta primeira povoação da Espanha, com dois batalhões e uma bandeira. Apressamo-nos a informar Vossa Alteza acerca do que se passou com o dito corpo desde o dia 9 do presente mês. Neste dia, de acordo com ordens do General francês que mandava na divisão, foram reunidos os dois batalhões [do Regimento de Múrcia] em Setúbal, com o objectivo de que o segundo fosse no dia 10 para Lagos; mas no dia da marcha deram contra-ordens, mandando-nos, através do nosso Coronel D. Jorge Galván, que se preparasse todo o Regimento para ir para Lisboa, onde devíamos estar no dia seguinte. Formado já o Regimento nas ruas, e dados os habituais toques militares para marchar, começam a ressoar entre os soldados as vozes Viva Espanha e à Espanha. A marcha começou às doze horas, com o Coronel à cabeça. Chegámos a Palmela, onde se separa um caminho para a Espanha, entrando por ele a dianteira da coluna, aos gritos dos soldados: Vamos para a Espanha, à Espanha todos. Então foi completa a desordem. O Coronel fugiu a toda a brida e refugiou-se num convento de Palmela. Os que queriam ir para a Espanha abriram fogo aos que ainda não se tinham determinado à fuga, até que finalmente se separaram uns quatrocentos com uma bandeira. A oficialidade, o resto do Regimento e a outra bandeira chegaram pela noite a Palmela. 
Às 9 horas da noite chegou a esta povoação D. Vicente de Vargas, Sub-Tenente de Granadeiros do mesmo corpo, que estava em comissão em Lisboa; foi ver o Coronel e disse-lhe que em nome da pátria estava encarregado de procurar o melhor meio para conduzir o Regimento para a Espanha, e mostrou-lhe o documento que o autorizava, e que o dito sr. Vargas apresentará a esta Suprema Junta. O Coronel respondeu-lhe que obedeceria no dia seguinte. 
Mal amanheceu o dia 11, reuniu-se toda a oficialidade com o referido sr. Vargas, e fomos ao convento. Mas qual foi a nossa surpresa ao saber que às 3 da madrugada [o Coronel] tinha-se escapado por precipícios e rochas, caminhando a pé, e fora do caminho, a légua que separa Palmela de Setúbal, e feito retroceder alguns soldados dispersos e assistentes que vinham a reunir-se com o Regimento!
A oficialidade, vendo assim a fuga suspeita do seu Coronel, que a deixava sem chefe algum, as promessas deste tão abertamente violadas, e sobretudo, ouvindo a voz da Pátria que os chamava em sua defesa, reunida em casa do Ajudante D. Pedro Carrión, e tendo reconhecido o documento de comissão do sr. Vargas, resolveu imediatamente e sem vacilar que se marchasse para a Espanha a todo o custo. Mandou-se tocar a ordem [de marcha], tomou-se a bandeira, formou-se o batalhão, e comunicada aos soldados a resolução dos oficiais, às vozes a Pátria chama-nos, vamos voando a socorrê-la, empreendeu-se às 8 horas da manhã a marcha militar.
A oficialidade carecia de equipagens, que tinham ficado em Setúbal, e a tropa de víveres para se alimentar, de fundos para comprá-los, e de munições para defender-se contra as forças superiores, tanto de cavalaria como de artilharia, que tão próximas tínhamos. Obrigados pois a não entrar em povoação para melhor ocultar a nossa marcha, a passar o Guadiana a nado, a caminhar por desvios 40 léguas em quatro dias, e a sofrer neles todo o tipo de incómodos, juntos aos horrores da fome, parece impossível termos efectuado a nossa marcha num caminho onde cada passo era um risco. Mas o patriotismo deste corpo, que tinha jurado concorrer à defesa da pátria ou morrer, fez-lhe arrostrar com esforço e alegria tão terríveis perigos. 
No dia 14 entrámos nesta povoação, e mal se revigore a tropa e esteja capaz de continuar a sua viagem, continuaremos a nossa marcha a essa capital.
Deus guarde a Vossa Alteza Sereníssima muitos anos.
Paymogo, 15 de Junho de 1808.

Josef [sicBonicelli


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Nota: 
Ver ainda a este respeito a Relação da marcha do Regimento de Múrcia em 1808, de Portugal à Espanha, texto manuscrito de Francisco Paula Figueras.

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