sexta-feira, 27 de maio de 2011

Carta de Geoffroy Saint-Hilaire aos professores-administradores do Museu de História Natural de Paris (27 de Maio de 1808)



Lisboa, 27 de Maio [de 1808].


Meus caros e respeitáveis colegas:

Vou continuar a manter-vos ao corrente das minhas operações. Fiz os catálogos e numerei todos os mamíferos e aves que foram postos de parte para [serem expedidos para] o vosso museu. As vossas colecções crescerão um décimo, visto que tenho 60 mamíferos para [os vossos] 600 e 300 aves para [as vossas] 3.000 1.
Conto com um resultado igual relativamente aos outros ramos da história natural.
Ontem não fizemos nada na Ajuda por causa da festa da Ascensão 2mas ocupei o dia em visitas às colecções do Sr. conde de Hoffmansegg, da Academia [de Ciências de Lisboa], do convento de [Nossa] Senhora de Jesus e do duque de Cadaval.
Apenas permanece em Lisboa a menor parte do que foi recolhido pelo Sr. conde de Hoffmansegg. Porém, vi aí uma caixa cheia de magníficos insectos, dos quais existem 10, 30 ou 50 duplicados. Vi também aí uma dúzia de aves que não vos serão concedidas pelas colecções da Ajuda, e uma quinta espécie de cuáta.
Por momentos receei que as reclamações do Sr. Sieber, agente do Sr. Hoffmansegg, incluíam a maior parte das caixas quase completas dos depósitos da Ajuda. Mas fui informado que, pelo contrário, ele reclama apenas duas caixas que ainda não vi. Em breve, ele irá à Ajuda, e poderei ocupar-me em lhe fazer prestar justiça 3.
As colecções da Academia [de Ciências de Lisboa] estavam descuidadas e não me despertaram interesse algum; as [do convento] de Nossa Senhora de Jesus vão proporcionar-vos algumas petrificações [=fósseis], alguns minerais e sobretudo um móvel onde se dispõem com elegância umas amostras de diversas espécies de madeiras do Brasil. Cada amostra leva indicada a [respectiva] área de proveniência 4.
Assisti a uma sessão da Academia [de Ciências de Lisboa]. O padre Fóios leu um fragmento da tradução de Xenofonte em português, e o Doutor Tavares uma memória sobre a natureza e as propriedades de algumas águas minerais 5.
Apresentei a Sua Excelência o Duque de Abrantes a memória do bom Sr. Brotero, e tenho razões para esperar que o seu pedido será acolhido favoravelmente 6.
O meu amigo General Loison insistiu para que o acompanhasse até Coimbra, mas por mais vantajosa que esta proposição pudesse ser, julguei que nas circunstâncias presentes não podia ausentar-me da Ajuda por um só momento. Portugal terá um Rei daqui a três semanas ou um mês: o general Loison vai recebê-lo na fronteira. Se bem que tive a felicidade de conhecer esse Príncipe no Egipto 7, quando ele aí servia sob as ordens do seu ilustre cunhado, pareceu-me que o interesse das minhas operações impedia que delas me afastasse por um momento.
Alguns livros e manuscritos do duque de Cadaval são as únicas coisas que ficaram na sua biblioteca: fui espreitá-los, embora me tivessem assegurado que não havia senão papéis para queimar. A biblioteca encontra-se no sótão, precisamente acima do aposento dos lacaios, o que leva a supor que o duque nunca ia à sua biblioteca. O primeiro manuscrito que me veio parar às mãos trata da história natural duma província do Brasil, e está acompanhado de desenhos bastante correctos. Existem muitos outros, e no próximo Domingo passarei ali todo o dia 8.
Não esqueci a recomendação do Sr. Faujas. Pedi ao General Kellerman para me destacar o jovem Bonnard 9, ao serviço na província dos Algarves; mandei preparar-lhe um alojamento adequado aqui.
Vou ter necessidade de fundos para as despesas das caixas, encaixotamento e transporte. Lisonjeio-me que o ministro tenha querido acolher favoravelmente o pedido de 2.508 francos que tive a honra de lhe fazer, enquanto reembolso das minhas despesas de viagem de Paris a Madrid, e que ele queira, ao mesmo tempo, concordar com o pedido de 1.188 francos que lhe faço na presente correspondência, relativo às minhas despesas de viagem de Madrid a Lisboa. Viajei em circunstâncias tão infelizes que esta soma total de 3.696 francos é insuficiente para cobrir todas as despesas que fiz. Todavia, não faço pedidos a não ser baseando-me da remuneração que Sua Excelência me atribuiu.
É preciso, caros colegas, que saibam que tomei a única estrada praticável, utilizada e ordenada pelos regulamentos militares, e que fiz o pedido de acordo com esses mesmos regulamentos [...]. 
Peço-vos, meus caros colegas, que queirais aceitar a homenagem da minha respeitosa estima.
Lalande encontra-se de boa saúde.

Geoffroy Saint-Hilaire

[Fonte: E.-T. Hamy, "La mission de Geoffroy Saint-Hilaire en Espagne et en Portugal (1808). Histoire et documents", in Nouvelles Archives du Muséum d'Histoire Naturelle, Quatrième série - Tome dixième, Paris, Masson et C. Éditeurs, 1908, pp. 1-66, pp. 46-48].

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Notas:


1. Estes números eram provisórios. Em 1809, Geoffroy Saint-Hilaire viria a publicar um relatório actualizado onde indicava que o Museu de História Natural de Paris dispunha de 1.026 mamíferos e 3.411 aves, incluindo os 66 mamíferos e as 275 aves que no ano anterior recolhera na sua missão a Portugal. Cf. Geoffroy Saint-Hillaire, "Sur l'accroissement des collections des Mammifères et des Oiseaux du Muséum d'histoire naturelle", in Annales du Muséum d'Histoire Naturelle - Tome treizième, Paris, Chez G. Dufour et Compagnie, 1809, pp. pp. 87-88. 


2. Recordemos que, uma semana antes, Geoffroy Saint-Hilaire deixara o seu assistente Delalande (ou Lalande) na Ajuda.


3. Sobre este caso ver o que já anotámos na carta do General Margaron a Geoffroy Saint-Hilaire de 10 de Dezembro de 1807.


4. Tratava-se duma das quatro xilotecas que o Príncipe Regente tinha encomendado ao marceneiro José Aniceto Raposo, conforme se explica na seguinte nota:


A xiloteca a que alude Geoffroy Saint-Hilaire não chegou a ser transportada para a França, tendo permanecido até aos nossos dias no convento de Nossa Senhora de Jesus, alocado desde 1834 à Academia das Ciências de Lisboa. Pertencem à mesma as seguintes fotografias:

[Fonte: Alberto da Costa e Silva, "O Império de D. João", in Revista Brasileira, Fase VII, Ano XIV, n.º 54, Janeiro-Fevereiro-Março 2008]. 



5. Alguns anos antes, o citado Dr. Francisco Tavares tinha publicado umas Advertencias sobre os abusos e legitimo uso das Agoas Mineraes das Caldas da Rainha (Lisboa, Officina da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1791). Dois anos depois da invasão de Junot, viria ainda a publicar, sobre este mesmo assunto, umas Instrucções e cautelas practicas sobre a natureza, differentes especies, virtudes em geral, e uso legitimo das aguas mineraes, principalmente de Caldas: com a noticia daquellas, que são conhecidas em cada huma das provincias do Reino dePortugal, e o methodo de preparar as aguas artificiaes (Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1810). Curiosamente, em 1795, a Academia de Ciências de Lisboa tinha também publicado uma edição bilingue de uma obra de um correspondente inglês sobre o mesmo assunto: William Withering, Analyse Chimica da Agoa das Caldas da Rainha [A Chemical Analysis of the Water at Caldas da Rainha], Lisboa, Officina da Academia, 1795.




7. Geoffroy Saint-Hilaire alude a Joachim Murat, Grão-Duque de Berg, o qual conhecera na campanha do EgiptoComo acima se percebe, havia então o rumor em Lisboa que Murat (ao qual Napoleão nomeara dois meses antes Comandante em Chefe dos seus exércitos na Espanha) seria entronizado como Rei de Portugal. Note-se que a chegada de Geoffroy Saint-Hilaire a Lisboa quase que coincidiu com a publicação da carta da deputação portuguesa, cuja recepção produziu as consequências que já atrás indicámos. 



8. O palácio do duque de Cadaval estava então ocupado pelo General Travot (cf. Charles-Vicent d'Hautefort, Coup-d'oeil sur Lisbonne et Madrid, en 1814, Paris, Chez Delaunay, 1820, p. 17).


9. Bonnard era, como Lalande, um jovem "preparador" (cujas funções anotámos aqui), aparentemente conhecido dos administradores do Museu de História Natural de Paris.

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